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Tanta gente deprimida que segue com a sua vida para a frente! E eu não consigo…

Maria já não sabe o que fazer. Tudo na sua vida parece cinzento. Tem uma família perfeita, um marido que faz tudo por ela, dois filhos que adoram a mãe, uma vida abastada, como ela nunca imaginou ter. Uma casa a seu gosto, que teve sempre a liberdade e a possibilidade de a decorar como quis, dois carros, uma casa na praia, uma casa no campo, um trabalho que antes adorava. Tudo na sua vida não justificava o seu sentir. O que se passava com ela? Desde há algum tempo que tudo parecia insípido, insuficiente, que nada lhe dava prazer, e tudo era feito com esforço. Um peso nos seus ombros, um aperto no peito que nunca lhe dava descanso. O tempo não ajudava. Quanto mais o tempo passava, mais a vida lhe parecia difícil. E ainda por cima, para ela, nada disto fazia sentido. Como tinha ela chegado a este ponto. Deixara de ser esposa, não conseguia ser mãe, nem se sentia pessoa. Arrastava-se da cama para o sofá, e do sofá para a cama. Abria o frigorífico e parecia que nada lhe apetecia, e com isso já perdera peso, e quando se olhava ao espelho, um dos seus maiores inimigos, parecia uma amostra do já tinha sido. E pensava todos os dias na ingratidão que era o seu ser: não tinha razão para assim se sentir. E isso ainda a deitava mais abaixo. Outrora já tinha sido feliz. Lembra-se distantemente desses momentos, onde a vida lhe sorria, onde ela era capaz. Sentimento agora desaparecido, a capacidade. E olhava à sua volta e ainda mais triste se sentia. Ouvia tantos que lhe diziam que também estavam deprimidos e seguiam com a sua vida. Que trabalhavam, enquanto ela estava de baixa há tanto tempo, que já medo sentia de voltar aquele lugar, que eram pais e mães, que eram pessoas, enquanto ela se sentia uma manta de retalhos, e que nunca mais sairia deste fosso de lodo que a prendia, e quanto mais ela batalhara no passado, mais enterrada ficava. Era tão difícil para ela admitir que precisava de ajuda. Isso seria a confirmação do fracasso que se sentia. O marido já insistira, mas ela sentia que sozinha não conseguiria voltar à sua vida. E mais uma ouvia “Eu também estou deprimida, mas sabes não me posso dar ao luxo de ficar em casa”, como se fosse um luxo ao capricho o seu sofrimento. E mais uma vez lhe diziam, amigos e estranhos “tens de te erguer de novo, faz um esforço.”, e mais uma vez ninguém percebia que ela tentava todos os dias, e que o que fazia, era o que conseguia. E quanto mais ouvia estas coisas pior se sentia. Olhava para os olhos tristes dos filhos, que sentiam que a mãe já quase não existia, e para ela era mais uma facada no peito que sentia. Seria então uma opção?

 

Considerando que existem sete mil milhões de pessoas no mundo, e que a Organização Mundial de Saúde refere que existe uma média de cento e vinte e um milhões de pessoas com um quadro que permite um diagnóstico de um quadro clínico de depressão, nas suas diversas manifestações, vemos então que existe uma prevalência de 1,7% da população que é portadora desta doença. Então porque ouvimos tantas pessoas que se auto-referem como deprimidas? Isto inicialmente deve-se ao desenvolvimento massivo a nível de países, e que é verificado que quanto mais o país é desenvolvido, com visões mais capitalistas, tem mais psiquiatras por metro quadrado, podemos então afirmar que existem factores extra biológicos que justificam esse mesmo quadro clínico. Ou seja, quanto mais temos acesso a diferentes objectos de desejo, variedade de produtos, e afins, maior se torna a nossa lista de necessidades, e a não concretização das mesmas aumentam exponencialmente o sentimento de insuficiência na nossa vida. Pegando no exemplo, inclusivamente nacional, e olhando para as pequenas comunidades do interior de Portugal, em que o acesso a recursos diversificados é limitado pelo isolamento dessas regiões, a lista de necessidade sendo ela mais reduzida, mais facilmente as pessoas sentem as seus desejos satisfeitos, e logo diminuem algumas variáveis que contribuem para quadros depressivos. Por outro lado, existem vários tipos de depressão, em que alguns tipos tornam-se essências à aceitação de perdas naturais da nossa vida, como por exemplo a morte de um pai ou mãe numa idade avançada, de forma a não se desenvolver um quadro de luto patológico, outras tem uma valência mais biológica, em que elas perduram mesmo mudando algumas condições externas à pessoa, tendo nestes casos que se recorrer à introdução de psico-farmacos. Em ambos os casos o acesso a psicoterapia é essencial no seu tratamento.

Então porque é que tanta gente se auto rotula como depressivas, e alem disso parecem que conseguem viver sem qualquer limitação evidente? Isto deve-se ao facto da banalização da palavra depressão. Os quadros clínicos de depressão, devem ser avaliados e diagnosticados por técnicos de saúde mental, pois muitas vezes se confundem sentimentos de tristeza, de burn-out profissional, alguns sintomas físicos, que podem ser semelhantes aos verificados nos casos de depressão clínica, que contribuem para este denominação incorrecta e uso excessivo deste termo. Quando olhamos para os critérios necessários para este diagnóstico, o primeiro e primordial, e a interferência de forma evidente destes mesmos sintomas na vida quotidiana da vida do paciente. Outros são os critérios que vos convido a pesquisarem, em que podemos afirmar que os mais conhecidos são sentimentos de tristeza profunda e melancolia mantidos durante um período alargado de tempo, uma incapacidade de olhar para si e para o futuro de forma justa e realista, pois parece que este quadro nos coloca um filtro cinzento à frente dos nossos olhos, e que faz com que tenhamos uma visão em túnel e que impossibilite uma plasticidade de conseguirmos dar significado diferente às diferentes áreas da vida da pessoa. Com a banalização desta palavra, contribui para o agravamento desta percepção  que esta doença têm em si. Comentários como “eu também estou deprimida e sigo com a minha vida” ou “tens de fazer um esforço” ou “tu podes dar-te ao luxo de estares deprimida” vêem corrobore a ideia negativa que os doentes sofrem de depressão tem de si. Como antes foi referido esta doença é verificada em quase duas pessoas em cem, e pelo que ouvimos parece ser uma doença mais prevalente do que é na realidade. Procure ajuda especializada se começar a ter os sintomas mais conhecidos da depressão, para correctamente ser avaliada, e ser tratada atempadamente, pois quanto mais tempo se vive com a doença, mais difícil se torna o sobreviver a ela!

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Programa da SIC, uma simples opinião.

Permitam-me eu fazer só um pequeno comentário, de algo que colei ao passar canal após canal, no terceiro que também se vê no TDT, logo todos nós podemos em quase todo país, o absurdo de uma ama, uma excepcional ama, ou educadora ou como ela parecer ser, e que ainda por cima é super. Vejam lá, é super vejam lá. Mas estranho que se aproveitem claramente de desespero, que quem já não sabe o que fazer, e nestes desgastes, vem alguém que podia fazer isto sem obrigar, a este pedido de ajuda. Achei tudo isto estranho, o formato deste programa, fiquei também sem pio, pois deixou me confuso, não conseguia perceber o que se estava a passar. Alguém me pode dizer se ela é psicóloga, mas mesmo não sendo, tenta aparentar que também domina essa arte.? Fico sinceramente triste por ver este tipo de agressão, ao grito de sofrimento que estes pais carregam. Tudo me parece tão bizarro que não compreendo o que se passa. Porque fazer o coração de quem observa, como voyerrista em que o coração bate mais forte, mas por aflição. Expliquem-me o sofrimento mostrados como numa peça de teatro, em que a única coisa verdadeira, é como se relativiza o papel de um terapeuta familiar e sistémico, um gestaltista, um terapeuta de casal, terapeutas individuais, tão importante para as coisas sobreviveram há ausência das câmaras, que assim ficará, pois a mudança que todos nós procuramos, não se ganha assim, por amor de Deus, isto não se pode levar a sério. Mudança é algo tão desejado, tão procurado, para que a presença do outro, na proximidade que parece tão distantes, uma família sim, que precisa de ajuda. É VERDADE ESTES PAIS PRECISAM DE AJUDA. Mas sabem, precisam de alguém que esteja presente, que no meio das suas próprias formas de estar com o outro, se encontrem um meio termo que a todos agrade. Mas neste programa da SIC fiquei simplesmente sem palavras, pela como decorrer esta história de alguém que ainda tem um caminho a fazer. Percebo que possa lá no fundo, lá bem no fundo haja o objectivo de ajuda alguém, sem nada ganhar, mas não posso deixar de dizer. Cuidado. A mudança, está sempre a mudar!

Viver no agora. Decidir no agora!!!

Hoje em dia, torna-se cada vez mais difícil viver no agora. Pelo menos numa das formas que isso pode significar.

Essa é um das questões mais particulares, mais individuais, que colocamos a cada pessoa que por nós passa. O que é para si o seu agora? Gosto muito da subjectividade das coisas, das personificações de conceitos mais universalizados. O agora é sempre diferente, escapa-nos entre os dedos. O agora é tão difícil de apanhar, pois teima sempre em passar depressa ou devagar. Parece que o tempo não consegue manter um vivência global a todos nós.

Todos sabemos que a percepção do tempo muda a cada momento, e se há instantes que parecem horas, também existem toneladas de tempo, que passam como gramas, pela leveza, pela rapidez.

Passado a questão da subjectividade da percepção do tempo, coloca-se outra questão. Como podemos viver o agora, com tanta coisa dependente no nosso amanhã. Vivemos em muitos casos hoje, para amanhã retirar-mos os nossos dividendos. Achamos que somos animais racionais, mas fazemos tanto de irracional, de idiota a perverso, de impulsivo a premeditado. As tomadas de decisão são algo que temos de executar a cada momento. Até nos nossos comportamentos automáticos tudo fica sobe controlo. Exemplo a nossa respiração. O nosso computador cerebral isso controla, e assim, com essa parte definida, mais podemos então viver.

O outro no metro, por um lapso na minha consciência, permiti-me realmente viver no momento, realmente decidir o que fazer, e depois perceber se algo mudaria, tentar ver o impacto da minha vida em perspectiva. Não foi nada de especial, mas teve impacto em mim. Vou, e como adoro, trabalhar de metro. E como a respiração, o meu corpo já está formatado a certos rituais. Passar o cartão, as cancelas abrem, e o meu esqueleto mete-se a caminho para a passar, com alguma pressa até, pois a memoria assim que avisa. Já alguém foi abalroado pelas portas do metro de Lisboa? Violentas, quase caso de comissão de protecção, não das crianças e jovens em risco, mas do conforto do cidadão.

Mas então como de costume, direccionei-me para a parte esquerda do edifício, movendo-se a parte direita do meu cérebro, pois é assim que funciona, o esquerdo controla o direito, e o direito o esquerdo. Lá ia eu perdido nos meu pensamentos, entre desejos e preocupações, mas algo captou a minha atenção. Estava a fazer o que sempre fazia. O que aconteceria se fizesse diferente? Se em vez de seguir pela esquerda, fosse pela direita? Seriam guerras mundiais evitadas, ou tudo seria igual?

Que estranho, uma coisa tão simples gerou em mim uma hesitação desmedida, sem grandes justificação. Mas depois veio alguma exaltação, na possibilidade que esta decisão racional, escolhida, me poderia trazer algo de novo! Seria bom. Desci então as escadas, atento ao agora, à novidade. Expectante estava, sempre à espera de alguma coisa, que parecia não querer chegar. Pensei inclusivamente se teria tomado uma boa decisão. Fiquei um pouco desiludido.

Mas depois de essa percepção da realidade passar percebi.

Por simples momentos, as minhas preocupações, as minhas angustias de existir, o medo do amanhã, tudo isso que nos perturba, não teve espaço para existir. Por um simples momento, simplesmente existi, e isso foi bom só pela ausência de ansiedade que me trouxe.

O fim do agora

Porquê sofrer, porquê que tantos de nós com nada de aparente que o justifique sofremos, não aproveitamos de forma verdadeira e fidedigna o que o mundo nós dá, nos mostra.

Fala-vos hoje de José. Vida perfeita, via idealizada tornada real, que num dia, enquanto esperava pelo metro que o levaria ao seu querido lar, montado com amor, criado a dois, um ninho ideal, tudo terminou.

Mas já vos conto como acabou, como conseguiu tudo perder em segundos, como abandonou seu amor a sua Sibila, a sua musa, a sua razão de viver.

Primeiro mostro-vos o que ele construiu. Teve uma vida perfeitamente normal, como outro qualquer, sem mais nem menos, com um amor comedido dado por seus pais, que também eles não tinham aprendido esse conceito. Tenho a sensação que a geração que nasceu entre os anos de 1970 e 1990 tivemos uma lacuna imensa. Não tivemos em muito casos um conceito de amor maternal, de apego, de valorização. Somos filhos de um regime totalitário que já não foi nosso, mas tivemos ainda as suas consequências. Fomos crescendo e percebendo que o amor inicial é essencial, que a valorização é uma virtude que nos fortalece, que nos dá uma noção intrínseca de valor como pessoa.

José nasceu num meio em que o amor era coisa escassa, também ele era uma criança aparentemente problemática, que hoje se poderia ser mais capaz, mas que na altura “só dava trabalho”, correndo sempre que podia, acidente eram coisas de costume. Mas ele não sabia ser diferente, quem lhe dera a ele ser como sua mãe o desejava, pois com tudo isto com tanto repreensão e rejeição não se sentia realmente amado. Mas mais uma vez afirmo infância dita normal para o que na altura se praticava.

Mas ele cresceu, e curiosamente contra tudo e todos até conseguiu vingar na vida, naquela que todos temos de ter quando adultos. Um curso superior, um emprego na área, até mesmo era realmente bom naquilo que fazia. Mas aquela sensação de vazio, aquela falta de senso de existência continuava lá, nunca preenchida, nunca encontrada uma razão para persistir naquele sofrimento de vida. Para ele a morte não era um destino, era um desejo, um final de tudo que o aliviava, que o consolava, saber que um dia ele podia acabar com a sua insuficiente existência.

Mas a vida tem as suas merdas, as suas formas de nos tirar a liberdade, de nós dar uma razão de cá ficar mesmo que não nos apeteça.

Foi num mero jantar que tudo mudou. Primeiro eram para serem dois, depois passou a três e finalmente foram cinco pessoas jantar. Ao subir a rua para aquela tasca José vislumbrou algo de diferente, algo de precioso só pela forma como se movia. Jantamos, nunca mais ele se esqueceu que aquela menina mulher pediu bifes de frango grelhados, mas a distancia na mesa não permitiu para grandes conversas.

Sorte a dele que ainda foram beber um copo a um sitio perto dali, e ai a conversa fluiu, houve química linguística, mesmo que nem falassem de base a mesma língua, parecia haver um entendimento mental, poucas palavras, mas muita compreensão. Musa seria ela, ele ainda não sabia o quanto, ele nem sabia o que isso era, ser amado, ser cuidado, ser desejado, ser agradado. Dali seguiram para um sitio dar um passo de dança, mas essa semi-deusa pouco tempo ficou e disse:

– Vou embora.

– Eu vou lá fora contigo.

– Eu sei apanhar um táxi sozinha.

Ao qual ele respondeu algo que a deixou inquieta.

– Imagino que sim, mas é só para te fazer companhia.

Pelos visto isto acalmou-a, pois, deixou-o acompanha-la até à rua. Chegando lá fora ele pede-lhe o telefone. Ela hesitou, mas deu-lho.

Ele escreve o seu número e diz-lhe:

– Se precisares alguma vez apita. – Nunca teria ele a ousadia de lhe pedir o dela, não depois de saber a história que ela estava a viver naquele momento, que em nada interessa para a história que agora conto.

Pelos vistos ele juntos ficaram, fizeram planos, e por mais estranho que pareça por momentos, e em vários até, ele teve razão de existir. Como é estranho ser amado só por ser quem se é, ser desejado assim e de mais nenhuma forma. Se calhar é sempre melhor ser não fumador, mas isso pode ser só um pequeno detalhe.

Um dia na varanda onde viviam ela por obra do acaso desequilibra-se e cai daquele fatídico sexto andar, no chão encontra o final da sua vida, ou o início da sua morte como preferirem.

Ela estava grávida de seis meses do seu futuro rebento, tinha finalmente lar, ninho, família e num simples escorregar, num desequilíbrio tudo perdeu, deixou de ter razão de existir.

Depois de todas as cerimonias feitas, passado o período de nojo, quando esperava pelo metro ao ir para o trabalho, antecipou a chegada do mesmo para por ele ser esmagado na esperança de reencontrar a sua amada, a sua mais que tudo, e que na morte que para ele sempre foi vista como o fim do sofrimento, fosse o reencontro  com eles, com quem um dia lhe dera uma razão de viver. Como o apego, o amor, o desejo de coexistir com alguém traz algo de bom à nossa vida. E para ele, quando os carris daquele metro lhe cortaram a carne, também como uma boa morfina, lhe cortou o sofrimento.

A confusão do conceito “eu sou como sou!”

– Eu sou assim!

– Assim como?

– Como sou.

– Quem é que te disse tal coisa?

No decorrer da nossa vida, já várias vezes teremos passado por um dialogo como este, com algumas perguntas, até mesmo diferentes, mas parece que são sempre as mesmas respostas. Estranho parece que sejamos algo tão definido, tão estático, sem abertura a novas experiências. Ser como se é, um obstáculo a novas invenções, a outras formas de estar. Como se sentíssemos necessidade de justificar ou defender a nossa identidade, como se estivesse em perigo, e com estas três simples palavras tudo fosse descrito, tudo fosse validado naquilo que sentimos, pensamos ou fazemos, que acaba por tentar definir aquilo que somos.

“Sou como sou!” Possível prisão, numa repetição de padrões, de inevitabilidades, que por vezes nos distorcem, contorcem, limitam naquilo que podíamos ser. Claro que temos de saber o que somos, isso vê-se nos nossos comportamentos, aqueles esperados perante situações idênticas. É reconfortante podermos ligar o piloto automático da vida, para desfrutarmos também da paisagem.

“És como és!” É essencial esse espaço, dá-nos um concepção de intimidade, de proximidade, une-nos ao outro pela semelhança. Torna o desconhecido conhecido, o distante próximo, numa ligação que em nós é tão natural, essencial, basilar, as relações entre nós seres humanos, com diferentes etapas, substratos, níveis que pode ir desde um simples conhecido, a família. Como ter família, de sangue ou escolhida, é tão bom.

“Ele é como é!” A nossa identidade manifesta-se pelas escolhas que fazemos. A consciência do conhecimento sobre o outro advém de conseguirmos prever como ele irá reagir ou sentir perante algo já antes vivido. Isso vê-se numa simples escolha como uma prenda de aniversário. A capacidade de conhecer o outro permite-nos optar por algo com percentagem acrescentada de sucesso de satisfação para quem a recebe. Como é bom satisfazer de quem gostamos realmente.

“Nós somos como somos!” e mais de nenhuma forma, não somos mutáveis ou quebráveis, somos uma identidade una, que se preserva, que se alimenta, para que sempre saiba como somos, pois essa possível duvida, esse momento de vazio tudo pode abalar, deixando um rasto de duvidas pelo seu caminho. Não nos questiones, aceita-nos, sabe quem somos através de tudo o que sentes em nós. Deixa-nos perceber na forma como nos reages.

“Vós sois o que sois!” O problema começa quando nessa luta por uma identidade única, perdemos a percepção que podemos mudar, que podemos decidir fazer diferente, ficando perdidos numa catadupa de erros sucessivos, sem margem para optarmos por sermos até felizes. Parece que nesses instantes, perdemos a noção que podemos ser tudo aquilo que desejarmos, parece que envelhecer significa perder a flexibilidade de ser criança, humano talvez até, de agirmos sobre o que possa ser melhor para nós. Será que temos sempre de ser como somos?

“Eles são como são…” Triste sina quando ficamos presos nas escolhas feitas não por opção, mas por parecer que não sabemos fazer diferente, tudo igual se torna, nada ganhamos, como medo de algo perdermos.

“Carlos sabia o que era, pelo menos assim ele pensava. Se lhe pedissem para se descrever ele assim o faria, sem pensar sequer no que dizia – sou um pobre rapaz, sem nada de interessante para dar, sem habilidades de maior, com uma existência simples, que a ninguém de certeza interessaria. De pouco sou capaz, no nada me encontro. Tudo parece demasiado difícil, então remeto-me à insignificância, a uma vida de repetições simples, sem nada de novo. Todos os dias aos anteriores são iguais, e assim sendo, simplesmente sobrevivo, aguardo que a morte me leve, me tire desta monotonia que eu chamo vida. – Nem ele imaginava que podia mudar, que ainda talvez até pudesse sonhar, mas nesta busca da sua própria certeza, esquecera-se que podia escolher tentar ser diferente.

“Eu sou assim!” Ok, não ponho em causa a necessidade de termos uma ideia de nós, um fio condutor que nos alumie o trajecto da vida, uma forma de prevermos futuro, para mais seguros ficarmos, e numa falsa neblina de certezas, tomar as melhores decisões possíveis nesta vida que tanto tem tanto de incerto.

Não importa saber como fazer diferente, basta para começar o desejo de tentar. Num cadeira a quarenta e cinco graus de outro alguém essa viagem pode começar. Todos nós temos o potencial de algo mais alcançar, e na maioria das vezes precisamos da companhia de alguém para um novo caminho traçar. A psicoterapia pode ser o inicio, não o fim, um trajecto primeiro feito a dois, para depois a individualidade poder ser plena.”

Sou o que sou? Sim, mas também posso ser mais, só preciso de perceber como…

 

 

 

 

Empatia, ver o mundo pelos olhos do outro.

Estava sentado no metro, distraído pelo que a tecnologia já permite, embrenhado na visão voyerista que a quase obrigatoriedade cultural das redes sociais assim o exige, com banda sonora como de costume que ainda mais me isolava no meio dos outros. Lá estava eu comigo, quando algo o meu lado direito me chamou a atenção, e como reação instintiva olhei de relance, sem grande atenção, sem foco ou propósito, sem intenção de interação, e de novo voltei ao que fazia.

Mas algo mudou com esse simples movimento de pescoço que tantas vezes fazemos, num instinto ou procura de um caminho, mas naquele momento o meu cérebro apreendeu algo e ficou curioso, quis saber mais, e como tal assim me ordenou para que lhe desse importância, ao que ainda não conhecia, mas que pelos vistos assim ele o desejava. Assim surge aquela pequena ansiedade que nos mobiliza, que nos acorda, abana, como se fossemos de novo crianças, naquele dia tão desejado, a véspera de Natal, em que sabemos como bem nos iremos sentir no dia seguinte, com família, doces, prendas, novidades. Ai como é bom desejar que um outro momento chegue, nos presenteie com o que ansiamos. A ansiedade não é nossa inimiga sempre, esta, este tipo de sentir, faz-nos bem, refresca-nos, faz-nos sonhar, planar até.

Quando o meu olhar parou, finalmente reparei no que comigo parecia falar. Uma simples figura de um alguém, que não me era familiar, não o reconhecia, mas já próximo dele me sentia. Assim o olhar foca, o cérebro apreende o que os olhos me mostram, e observo a simplicidade daquele homem que me encantou. Não teria mais de um metro e sessenta, e em primeiro reparo nos seus pés desnudos, sujos, maltratados, nuns chinelos enfiados. Isso despertou em mim uma ponta de tristeza, ainda não sabia bem porquê, mas o prognóstico não parecia favorável. Vou subindo e as aquelas calças de ganga gastas pareciam confirmar o pior, mas ainda não detinha todas as informações. Continuando para desvendar o que me tinha despertado a atenção, reparo num t-shirt vermelha, que destoava das cores pasteis das paredes, e de relance li uma das cinco palavras se lá estavam – “vi”. Nada de especial em isolado, mas no global iria fazer-me sorrir, este sentido humano escrito. Como normalmente o faço, procurei o contacto visual com ele, pois nesse momento, em que dois olhar se cruzam, e se fixam, alguma intimidade se passa, mas paradoxalmente nada senti, e estranhei. Novamente as objetivas dos meus olhos focaram e para meu espanto percebi que aquele rapaz que à minha frente estava, com os pés enegrecidos, calças marcadas do uso, t-shirt que dizia vi, era invisual.

Aí ainda mais curioso fiquei preso na palavra lida, que com o resto não encaixava, e tentei perceber o que mais a sua camisola dizia.

EU VI VACAS EM LISBOA

Como?

Levei alguns segundos a perceber, fiquei confuso sem entender o que seria o correto, o que tinha visto, o que eu tinha lido, que ele tinha feito?

Esbocei um sorriso, não de gozo, mas de uma estranha coincidência, pois fiquei intrigado.

Saberia ele que tinha vestido uma t-shirt em que dizia que EU VI VACAS EM LISBOA naquelas grandes letras brancas, centradas no seu peito?

Teria sido uma casualidade?

Bom no primeiro caso era representativo de um humor muito apurado, de uma capacidade de brincar com a sua própria diferença que merecia todo o respeito.

No segundo caso podia ser o cumulo da ironia, entre tantas hipóteses e variáveis de possibilidades de momentos possíveis, o destino ter posto aquele homem diante os olhos de alguém, que naquele momento reparou, na ironia que a vida pode conter.

Isto fez-me pensar num outro conceito que remete para a palavra – Ver.

Em linguagem comum também podemos definir a empatia como vermos o mundo através dos olhos do outro. E com base neste conceito que também tenho, por momentos imaginei-me a tentar ver o mundo pelos olhos daquele rapaz, mas de repente as luzes apagaram todas ao mesmo tempo, tudo escuro ficou. Senti uma solidão amedrontada, que me incomodou, e para mim tive de voltar. Foi estranho. Tentei perceber o que isso significava, mas ainda mais confuso fiquei. Até me senti constrangido pois por momentos pareceu que poderia estar a ser preconceituoso, ou até insultuoso, e ansioso fiquei. Estava a dar demasiada importância ao conceito semântico, pois fora por aí que assim tinha ficado, pois sei perfeitamente que a empatia tem três dimensões, a afetiva, a cognitiva e de regulação de emoções, mas as palavras valem muito no nosso pensamento, são a sua base.

Depois lá percebi, não estava preparado para perceber o mundo de uma pessoa invisual, pois até já tinha experimentado, para tentar perceber o quão difícil seria, mas se para mim, uns breves instantes distante do olhar pareceram horas, nem imagino o que pode ser uma vida assim. Torna-se difícil realmente entender o que isso pode significar, sem termos todas esta referencias que a visão nos dá, mas como já podemos constatar, também pode tirar, e na escuridão nos deixar.

Sendo que todos nós somos feitos de camadas diversas, diferentes substratos criados e alimentados pela nossas vivenciais, a perceção sensorial é uma das portas para a nossa ligação ao mundo. Neste caso percebi que fiquei preso numa dessas camadas, o impacto visual que o mundo nos trás, que nos informa do que ao nosso redor se passa, e baseado nas nossas premissas, significado atribuímos. Nesse sentido fiquei preso a falta de informação em que ficaria no caso da luz que me traz as imagens desaparece-se, para a escuridão me invadisse. Como seria difícil aceitar a negritude que a vida teria!

Fiquei preso na dimensão corporal. Nos cinco sentidos que dou por garantidos, que nasceram comigo e espero que só desliguem quando eu também o fizer desta vida mundana, e percebi, pena que tenha sido fora de tempo, que para realmente entender, para realmente perceber, para deixar o outro ser mais uma parte de mim, nem que fosse por um instante, teria de o conhecer. De conhecer o que para ele significava o desenho, a imagem de uma vaca em Lisboa. Como seria para ele uma vaca? Duvidas às quais só terei resposta, se nas inúmeras viagens de metro, me embarrasse com ele novamente. Espero que sim, assim tentarei.

Como será ver o mundo por quatro sentidos?

O arrependimento é duro, e quando me sentei dentro do metro uma angustia invadiu-me, pois perdido nos meandros do meu pensamento, perdi a oportunidade de me sentar com aquele individuo, que necessidade em mim gerou de conhecer um mundo diferente, e com os automatismos corporais que temos, como na condução em que muitas vezes fazemos o necessário para continuarmos caminho, mas não lhe damos a devida atenção e assim pode acontecer o espaço a mudar, mas a perceção não acompanhar, também eu já estava distante dele. Quantos de nós sonha acordado, e preso nesse sonho, nem nos apercebemos que continuamos viagem, e quando abrimos os olhos até já podemos ter chegado ao destino pretendido. Também eu me ganhei consciência tarde demais do que podia ter feito, depois disso até passou a ser preciso, mas o momento passara, e o tempo não volta atrás. Eu já estava dentro daquele sufocante metro, desejoso de voltar para trás, tentar recuperar o que nunca tive, mas agora precisava, mas nada podia fazer a não ser esforçar-me para que este acontecimento não se transformasse numa reminiscência. Teria de lá voltar em breve, falar com ele, preocupar-me com a sua pessoa, e com ele partilhar um momento, e ganhar mais uma percepção individual, enriquecer sobre o que pode também ser a vida de outro eu.

Fiquei a pensar incessantemente sobre o que me tinha acontecido, rindo-me da vida que ali me plantou, para reparar, e a ele para me alegrar, mesmo sem me ver, mesmo sem proximidade, ele tocou-me, e dentro de mim existirá para sempre.

Será que ele sabia o que graficamente representa o som, o cheiro, o toque até o sabor o que já lhe tinha sido possivelmente mostrado o que seria uma vaca? Alguma vez tinha enxergado, ou sempre tivera vivido num mundo de escuridão? Como seria o dia a dia dele? Como se teria adaptado a uma vida diferente da minha?

Tantas perguntas às quais já podia ter uma resposta, se não tivesse deixado passar o instante.

Há coisas difíceis de compreender sem pelos menos conhecer de mais perto!

A empatia é um conceito muito mais complexo, não remete só para a corporalidade, remete para um entendimento subjetivo, em que passamos a reconhecer o outro como uma outra parte de nós, desconhecida, mas possivelmente familiar se assim entendêssemos se permitíssemos tentar compreender aquela perceção de mundo , como o nosso possível alter-ego, como outro eu, uma extensão de nós, mantendo a nossa individualidade, pois a manutenção da nossa integridade psicológica é essencial.

Mais de empatia falarei, até porque pouco disse ou quase nada, mas foi com base neste evento de uma tarde de sábado que o meu interesse despertou.

Amo-te na morte, Odeio-te em vida…

Tudo o que se ganha pode-se perder, melhor, e quanto mais se deseja, quanto mais essencial se torna, mais difícil é depois viver nesse esbatimento do que já se conseguiu ser.

O amor, tanto amor que se precisa, tanto amor se anseia! Quando estamos sozinhos, sem ninguém ao nosso lado, por vezes dando-nos significância, razão de existir, vazios nos sentimos, olhando da esquerda para a direita, para com alguém se cruzar, alguém que repare nos olhos triste solitários, que procura outro olhar, um olhar que o veja, que lhe diga que o que quer ainda pode chegar, até está quase, mas que pode fugir se o momento passar.

A vida é feita de instantes, ocasiões a serem aproveitadas, investigadas, de forma a que percebamos, entendamos o que ali se passou.

O amor, ai o amor, como se ama odiar o que ele nos pode trazer…

Reencontrar alguém que já foi nosso, não sabendo quando, nem onde, mas que já pertenceu. Estranho é quando nos deparamos com alguém que nunca avistamos, que nunca sentimos, mas que no primeiro instante, no primeiro toque dos olhares, no cheiro do paladar, tudo nos parece demasiado familiar. Parece que chegamos a casa, sem nunca de lá termos saído, mas agora sabe a lar.

É verdade, quase absoluta, que o amor é o que nos faz mais sofrer, pois cria-nos dependência, passa a ser essência, o centro de tudo, mas que mesmo assim, havendo uma possibilidade razoável de perdermos o que mais queremos, que fiquemos sem chão para andar, sem força para o caminho, que mesmo sabendo tudo isto, vale mais do que tudo.

A vida torna-se mais difícil quando vivemos em função de prevenir sofrimento, com medo de tudo, sem perceção do que se perdeu, ao hesitar, ao desviar o nosso caminho, simplesmente por poder ter encontrado alguém que mete receio conhecer, pois sabemos que depois daquele primeiro momento, depois de provar o fruto desejado, pois de proibido não tem nada, será tão mais difícil viver sem ele.

Há quem não prove o prato do outro com medo do arrependimento, também existem pessoas que de tudo fazem para fugir da dor. Depois da dor vem o alivio, e assim a vida continua, entre dor, prazer, razão, tudo se mistura na cor a que chamamos vida. Vida. Vida. Se viver é sentir, então morrer é a ausência do mesmo. Quantos de nós mortos parecem estar, sem vida, numa penumbra que nada revela, o futuro é incerto, e nesse sentido, nessa premissa de vida, é melhor quieto ficar.

Depois do amor o que fica? Primeiro um vazio abismal, sem fundo aparente, numa queda continua ficamos, onde tudo inflama e tudo magoa.

A ausência traz ressaca, pior do que a da heroína, pois essa sabemos que em sete dias se vai, e esta particular abstinência, esta falta de tudo, por vezes parece arrastar a sua estadia, até nos esgotar a vontade de viver, e no fundo da esperança, mesmo com a alma destruída, ainda para o amor queremos voltar. O ser humano parece masoquista, mas depois da dor, pode vir a bonança, e para ai sempre caminhamos, mesmo que não saibamos o lugar, ele está lá para ser encontrado.

Ai o amor, esse companheiro injusto, que nos diz que agora está tudo bem, em que naquele agora nos faz sentir completos, preenchidos de tudo. Vicio lixado, vicio essencial. Depois de estar preenchido, o coração já não consegue viver vazio!

Manuel ama-a profundamente. Mais que tudo na sua vida, mesmo que a sua existência, que só depois de a conhecer fez sentido, só resiste às intemperes da vida, com ela ao seu lado, ela o seu porto seguro, o seu ninho criado. Desde sempre sabia dela, mas nunca a tinha encontrado, até o momento em que ambos se cruzaram, num breve e eterno momento, ele finalmente poderia descansar, a sua demanda tinha terminado. E nos olhos dela ele vê futuro, vida, caminho, mas agora já não só, ela ali estaria para tudo, para o trajecto já antes palmilhado, mas nunca sentido, agora seria diferente, agora seria real.

Manuel ama-a loucamente. Coisa desmesurada aos olhos de muitos, mas essencial para ele, tal com o sangue circular, ou o oxigénio entrar.

Ele ama-a, coisa bonita essa quando se pode viver na sua plenitude. Mas ele não estava preparado para a perder, para ir para não mais voltar, deixando memorias acutilantes, pretas, que ocupam todo o espaço, que sufocam, que lembram a todo o momento a ausência, a falta de tudo, a ausência do nada. Naquela tarde ela saiu, sorrindo-lhe um até já, mostrando que ainda nem foi, e já falta dele sente, pois se para ele ela é tudo, para ela, ele é o seu futuro garantido, sem riscos, só amor.

Merda para o amor quando pode ser vivido, momento a momento. Viver o agora é tão difícil, ele está sempre a passar, para o futuro se revelar. Medo todos temos de perder o momento, aquele mesmo que significado pode dar à vida, e tudo melhora, tudo fica mais brilhante, desejado. Tudo na vida tem um principio, um meio e um fim, e para ele foi cedo demais, seria sempre…

Amo-te na morte, Odeio-te em vida.

Onde estás? Para onde foste? Porquê que me deixaste sozinho, perdido?

Procuro-te para não mais te encontrar, para ansioso ficar, por te ver nos meus sonhos, mas não te conseguir chegar.

Onde estás? Onde andas? Quero-te, mas não te acedo, vives na minha mente, mas abandonas-te a minha vida mundana, e é aí, que te preciso.

Onde estás? Parece-me que me olhas, mas nem comigo falas, diz-me alguma coisa, nem que seja que já comigo não queres estar, prefiro dor a silencio.

Troco a tua ausência, pelo esquecimento, ai o esquecimento, que bem que sabia, que bem que fazia, para dormir, para conseguir imaginar algo, sem a tua contaminação.

Estás em todo lado, mas não te vislumbro em lugar nenhum.

Amo-te na morte, Odeio-te em vida!

Partiste sem aviso, sem ponderação, sem preparação, e levaste contigo tudo de bom que tinha na vida. És tu, simplesmente tu que escolhi, que quis realmente. Valeu a pena essa escolha?

Hoje não, mas ontem, no tempo anterior, em que existia para mim, que te podia tocar, sentir aquele teu cheiro da manha, que sabe tanto a casa. Onde é o meu lar agora? No cemitério não é de certeza…

Amo-te em vida…

Sempre te amei, sempre te venerei, eras o meu todo de vida, o meu centro, onde queria sempre voltar. Para onde vou agora? Perdi-me nesta procura incessante de ti, e já nem sei onde estou, já nem sei se quero realmente estar em algum lado, pois a cada esquino que cruzo, nada encontro, a não ser a minha sombra.

A cama acorda vazia de ti, carente do teu encosto, e eu ali, naquele canto esquecido, tento não procurar-te no outro lado, não quero mais sentir logo falta pela manhã, perdoa-me, mas tenho de te odiar, tenho de te afastar, tenho de me libertar…

Como seria fácil se assim fosse, mas tu, simplesmente por teres existido, por respirares e o teu coração bater, foste tudo para mim, e assim serás, pois a partir daquele momento o meu futuro foi traçado, sem ti. Onde andas? Tento não ser incoerente, mas quase desejava que houvesse um céu e um inferno, para que talvez um dia, no leito da minha morte, ainda houvesse uma hipótese remota de te reencontrar. O problema é que não sei se iria para o mesmo lugar que tu. Tu fazias de mim uma melhor pessoa, e nesse sentido, e nessa significância, deixei de o ser, deixei de acreditar, deixei de querer ser o que quer que fosse, agora já nada faz sentido.

Amo-te na morte, mas tenho de te Odiar em vida, pois as reminiscências de uma vida contigo partilhada dói demais, corta-me o peito meu amor.

Tu foste e eu fiquei, distancia injusta para ambos! Perdeste-me também, já ninguém se recosta no meu peito, pois esse lugar para sempre reservado ficou. Esse lugar será para sempre teu. E teias de aranha terá, para demonstrar a falta de uso, a reserva de alguém que nunca vai chegar, mas nunca se sabe, talvez me chegues nos sonhos, por favor volta, nem que seja numa realidade subjetiva.

Grita-me, olha-me, existe para mim, por favor, não sei aguento a tua inexistência…

Odeio-te em vida!

Aqui fiquei, aqui estou, parado, sem saber para onde ir, nem sequer saber se quero, se consigo. Amar-te dói demais, e tenho de te odiar por isso, perdoa-me meu amor, meu carinho, minha razão de existir, já não suporto as memórias, que só me lembram que te perdi, que já não te tenho, que te quero, mas já não te alcanço.

Odeio-te em vida!

Quem me der conseguir!

Desculpa já não sei o que digo, a dor atrapalha-me a mente, engana-me os sentidos, nem articular como deve ser consigo, mas sempre me deixaste sem palavras e sempre te amei por isso, mas agora, neste momento, eu, sozinho e desesperado, só daqui quero sair, ponderar que ainda posso viver, sem ti! Que vazio amor, que insuficiência de vida.

Amo-te na morte, ODEIO A MINHA VIDA SEM TI!

Não matem os velhinhos?

Não matem os velhinhos.

Perdoa-os meu Deus que eles não sabem o que dizem…

Já muito foi dito, até mexido, para que uma simples fotografia ganhasse significado de ignorância. Nem imagino o arrependimento de alguém que se manifestou sem saber o que dizia, pois no mundo dos adultos, no mundo das pessoas supostamente ponderadas, temos de alguma cautela quando fazemos afirmações de tal ordem.

Quem nos ouvir, quem der atenção a manifestações de opinião como esta, até pode achar que vivemos num pais com tendências nazis. Sim, afirmo isto pois se decidíssemos aniquilar quem supostamente não nos faz falta, quem já nada pode contribuir para este nosso mundo, estaríamos a esquecer a validade que esse ser, que agora não consegue, não pode, teve na criação em que vivemos.

Não matem os velhinhos!

Pois não, pois quem somos nós para decidir sobre o fim de vida de alguém. Podemos sim decidir o inicio de alguém, dar vida. Mas isso não chega, temos de dar mais, principalmente amor.

Não matem os velhinhos?

Se falássemos de dignidade humana tanto se podia dizer, tanto da nossa biologia como o nosso entendimento. Entendimento, consciência humana, cognição são conceitos só nossos humanos, pelo menos enquanto não percebermos melhor o resto do mundo que connosco coabita este planeta. Nesse entendimento, nessa estrutura que nos permite pensar, existe a consciência da morte. Todos nós sabemos que vamos morrer, o que muda é a forma como isso acontece.

O corpo humano só por si tem dignidade? Não, é somente um organismo vivo, que tem como objetivo sobreviver. Podemos também afirmar que a nossa dignidade advém da perceção que temos de nós, que temos do mundo.

Será que queremos matar velhinhos?

Todos nós lá chegaremos, todos nós envelhecemos. Mas o problema da morte não é só a eles destinado. Todos os momentos morrem e nascem seres humanos.

Queremos ver os velhinhos, os portadores de doenças terminais ou neurodegenerativas, apodrecerem devagar, até chegar ao ponto que a morte é um alivio? Será isso que se pretende para o final da dignidade humana?

Matamos alguém sequer?

Já quase todos os seres humanos já presenciaram alguém a morrer, a sofrer, a defininhar até nada restar a não ser uma ossada que merece descanso?

Falo-vos de um exemplo que nada de novo tem, nada de previsível a não ser a incapacidade, de algo que não tem cura, mesmo tratamento é insuficiente, fala-vos da esclerose lateral amiotrófica (ELA). ELA entre sorrateiramente, vai-se instalando e quando lhe apetece tira o que mais lhe convém.

Claro que vos falo do subtipo pior, pois no caso de permitirmos a alguém terminar com o seu destino predestinado, que nada de novo lhe vai trazer a não ser sofrimento e uma dependência extrema do mundo cá fora, um mundo que continua, que existe, e para aquela pessoa, que passa o dia imóvel, inerte, em que a vontade de mexer uma mão já não chega, o corpo não responde, e o desespero se instala. Esta doença está relacionada com o neurónio motor, responsável por muitos das características inatas que nos mantem vivos.

ELA não dá descanso, não tira férias, está sempre presente. Perde-se a voz, esta linguagem complexa, que é essencial para mantermos o nosso lugar no mundo, pois é essa voz que nos dá o direito de opinar, de não aceitar, de lutar por aquilo em que acreditamos.

É triste pensar que matamos velhinhos!

Mas ELA ainda não fica por aqui, vai-nos tirando tudo, deixando-nos sem nada. Dignidade humana? Imaginem um conceito simples. Imaginem que têm uma comichão que não passa, que incomoda, que irrita. Todos nós conseguimos satisfazer a necessidade de coçar, de arranhar mesmo deixando marca na nossa pele. Por vezes pedimos aos outros para nos aliviarem quando não conseguimos. E se não conseguíssemos fazer nada? Se até o simples facto de respirar tivesse de ter ajuda? Se beber, se sorrir, ai o sorrir que tanto é nosso, humano, fosse de todo impossível?. Como podemos sorrir, se nada o justifica?

Não queremos matar ninguém, isso é uma decisão pessoal, ponderada, até questionada, pois a eutanásia não é um matadouro, não é uma linha de montagem de morte.

ELA mata e não é assim tão devagar, mas nunca é depressa demais. Aquela imagem de um ser que já foi alguém, que sabe o seu final e sabe que pode estar próximo, mas não o suficiente. E se esta pessoa não tiver ninguém, nem alguém que lhe pudesse um copo de agua? Temos de matar a sede, mas não podemos matar o corpo doente, que tudo nos tira, que não nos permite viver. O que quer dizer viver? Para mim liberdade. Liberdade. E novamente liberdade.

Quem tem dinheiro pode matar os velhinhos.

Aqui o dinheiro mata. A viagem para a Suíça não é barata, a estadia também não. Talvez agora todos nós devíamos Planos Poupança para a morte, talvez as seguradoras assim o assumam, para que, quando já não há nada a fazer, quando os fármacos necessários para ausência de sofrimento nos impossibilitem de sermos gente, o fim do caminho de vida, o inicio do descanso merecido do guerreiro, que já nada pode fazer senão pousar a sua espada e não sofrer mais.

Todos nós sofremos, todos nós desejamos a uma certa altura da vida a morte, mas isso não pode ser critério de fim. Claro que tem de existir regras, por demais definidas, em que se criem as condições para esse ato ser aceitável, até mesmo o melhor para aquele ser que desespera, que sabe que não há nada a fazer a não esperar pelo fim.

Consultei, pesquisem, investiguem o que significa morrer com doença terminal, falem com eles, vão a um serviço de oncologia, de neurologia. Eles, que estão quase a terminar podem-vos dizer o que queriam para esse resto de vida. Nem todos querem morrer, mas alguns querem.

Não matem os velhinhos. Mas deixem ser eles a decidir se o final tem de ser tão catastrófico.

“Carlos tem trinta e dois anos, estando assim no pico da sua vida. Já tanto trabalhou para chegar onde chegou, pois ajudas teve poucas, ou quase nenhumas, mas isso nunca foi impedimento para tentar.

Um dia o tempo parou, o medo chegou para ficar, e a incerteza, passou a ser uma certeza absoluta. Coreia já por si é um termo pesado, principalmente com os acontecimentos atuais, mas quando seguida por huntington torna tudo muito pior.

Tudo começou com um pequeno tremor, um simples balançar da sua mão, que nada parecia ser, que nada podia até, pois só dele próprio Carlos dependia. E a partir desse momento iria precisar desesperadamente de alguém. Ele não sabia o que fazer, e pela primeira vez na sua vida não o conseguiria, não por não querer, não por não tentar, mas porque o seu corpo que lhe dava validade à sua mente, já não respondia, ou respondia de forma deficitária. Foi perdendo tudo, ficando sem nada, ficando um sombra da existência já vivida. Deixa de conseguir andar, de pensar até, e como isso o destrói, a sua mente sempre fora a melhor parte dele.

Deseja morrer todos os dias, e não é pelo excelente acompanhamento, entre neurologia, psiquiatria e afins, que as coisas melhoravam. Deseja que não acorde, para poder descansar, pois até nos sonhos nada consegue fazer, sonha com o fim anunciado, fechado numa cama, sem ninguém à sua volta. Para quê? Porquê que obrigaria alguém a passar por isso também, pois também aqueles que vivem em seu redor sofrem, num sofrimento atroz, em que nada podem fazer, nem mesmo o que ele precisa, de morrer…

Um dia, ainda quando conseguia fazer os mínimos, que não chegam, que nos lembram do que já perdemos, foi dar uma volta.

Depara-se com um centro comercial, que para ele era tão conhecido, tantas vezes ali passeara, mas agora as coisas eram diferentes. Ao chegar à sua entrada vê-se confrontado com um obstáculo, que tanto poderia ser o Evereste, de tamanha tarefa tinha, a porta!

O simbolo diz puxe, como se para ele fosse assim tão simples. Ele pensa em faze-lo, ordena-se para tal, mas nada responde. Nada. Nem um simples tremor que já foi sinal de intempere. E ali está ele, olhar o mundo que deseja por uma porta de vidro, sem conseguir a ele chegar. Tudo treme, a cabeça fraqueja, as pernas balançam. E ele, sozinho, perpetuadamente abandonado pelas suas capacidades, espera por algo que não irá acontecer. E ali jaze ele, em frente a uma porta, sem nada fazer, não pode!

O mundo passa por ele e parece nem reparar, tambem ele não o quereria, só queria poder, conseguir o que todos os outros dão por garantido. Para ele nada existe a não a ser a doença e o seu fim trágico. Ele não quer passar por isso, ele não vai passar por isso, mas para isso precisa de ajuda. Já nada faz sentido, já nada mais há para viver, a não esperar pelo fim, e como espera que seja rápido, mas por vezes esta doença não ajuda, tudo tira menos o ultimo sopro de vida.

E lá está ele naquela porta, mas já chove e ele nada pode fazer, a não ser esperar. Sabem lá vocês o que ele espera!

Mata-me de uma vez, tira-me deste corpo que já não é meu!

Mata-me e farás de mim um Homem FELIZ…

Mata-me e assim me salvarás…

Simplesmente ajuda-me a morrer…