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Tanta gente deprimida que segue com a sua vida para a frente! E eu não consigo…

Maria já não sabe o que fazer. Tudo na sua vida parece cinzento. Tem uma família perfeita, um marido que faz tudo por ela, dois filhos que adoram a mãe, uma vida abastada, como ela nunca imaginou ter. Uma casa a seu gosto, que teve sempre a liberdade e a possibilidade de a decorar como quis, dois carros, uma casa na praia, uma casa no campo, um trabalho que antes adorava. Tudo na sua vida não justificava o seu sentir. O que se passava com ela? Desde há algum tempo que tudo parecia insípido, insuficiente, que nada lhe dava prazer, e tudo era feito com esforço. Um peso nos seus ombros, um aperto no peito que nunca lhe dava descanso. O tempo não ajudava. Quanto mais o tempo passava, mais a vida lhe parecia difícil. E ainda por cima, para ela, nada disto fazia sentido. Como tinha ela chegado a este ponto. Deixara de ser esposa, não conseguia ser mãe, nem se sentia pessoa. Arrastava-se da cama para o sofá, e do sofá para a cama. Abria o frigorífico e parecia que nada lhe apetecia, e com isso já perdera peso, e quando se olhava ao espelho, um dos seus maiores inimigos, parecia uma amostra do já tinha sido. E pensava todos os dias na ingratidão que era o seu ser: não tinha razão para assim se sentir. E isso ainda a deitava mais abaixo. Outrora já tinha sido feliz. Lembra-se distantemente desses momentos, onde a vida lhe sorria, onde ela era capaz. Sentimento agora desaparecido, a capacidade. E olhava à sua volta e ainda mais triste se sentia. Ouvia tantos que lhe diziam que também estavam deprimidos e seguiam com a sua vida. Que trabalhavam, enquanto ela estava de baixa há tanto tempo, que já medo sentia de voltar aquele lugar, que eram pais e mães, que eram pessoas, enquanto ela se sentia uma manta de retalhos, e que nunca mais sairia deste fosso de lodo que a prendia, e quanto mais ela batalhara no passado, mais enterrada ficava. Era tão difícil para ela admitir que precisava de ajuda. Isso seria a confirmação do fracasso que se sentia. O marido já insistira, mas ela sentia que sozinha não conseguiria voltar à sua vida. E mais uma ouvia “Eu também estou deprimida, mas sabes não me posso dar ao luxo de ficar em casa”, como se fosse um luxo ao capricho o seu sofrimento. E mais uma vez lhe diziam, amigos e estranhos “tens de te erguer de novo, faz um esforço.”, e mais uma vez ninguém percebia que ela tentava todos os dias, e que o que fazia, era o que conseguia. E quanto mais ouvia estas coisas pior se sentia. Olhava para os olhos tristes dos filhos, que sentiam que a mãe já quase não existia, e para ela era mais uma facada no peito que sentia. Seria então uma opção?

 

Considerando que existem sete mil milhões de pessoas no mundo, e que a Organização Mundial de Saúde refere que existe uma média de cento e vinte e um milhões de pessoas com um quadro que permite um diagnóstico de um quadro clínico de depressão, nas suas diversas manifestações, vemos então que existe uma prevalência de 1,7% da população que é portadora desta doença. Então porque ouvimos tantas pessoas que se auto-referem como deprimidas? Isto inicialmente deve-se ao desenvolvimento massivo a nível de países, e que é verificado que quanto mais o país é desenvolvido, com visões mais capitalistas, tem mais psiquiatras por metro quadrado, podemos então afirmar que existem factores extra biológicos que justificam esse mesmo quadro clínico. Ou seja, quanto mais temos acesso a diferentes objectos de desejo, variedade de produtos, e afins, maior se torna a nossa lista de necessidades, e a não concretização das mesmas aumentam exponencialmente o sentimento de insuficiência na nossa vida. Pegando no exemplo, inclusivamente nacional, e olhando para as pequenas comunidades do interior de Portugal, em que o acesso a recursos diversificados é limitado pelo isolamento dessas regiões, a lista de necessidade sendo ela mais reduzida, mais facilmente as pessoas sentem as seus desejos satisfeitos, e logo diminuem algumas variáveis que contribuem para quadros depressivos. Por outro lado, existem vários tipos de depressão, em que alguns tipos tornam-se essências à aceitação de perdas naturais da nossa vida, como por exemplo a morte de um pai ou mãe numa idade avançada, de forma a não se desenvolver um quadro de luto patológico, outras tem uma valência mais biológica, em que elas perduram mesmo mudando algumas condições externas à pessoa, tendo nestes casos que se recorrer à introdução de psico-farmacos. Em ambos os casos o acesso a psicoterapia é essencial no seu tratamento.

Então porque é que tanta gente se auto rotula como depressivas, e alem disso parecem que conseguem viver sem qualquer limitação evidente? Isto deve-se ao facto da banalização da palavra depressão. Os quadros clínicos de depressão, devem ser avaliados e diagnosticados por técnicos de saúde mental, pois muitas vezes se confundem sentimentos de tristeza, de burn-out profissional, alguns sintomas físicos, que podem ser semelhantes aos verificados nos casos de depressão clínica, que contribuem para este denominação incorrecta e uso excessivo deste termo. Quando olhamos para os critérios necessários para este diagnóstico, o primeiro e primordial, e a interferência de forma evidente destes mesmos sintomas na vida quotidiana da vida do paciente. Outros são os critérios que vos convido a pesquisarem, em que podemos afirmar que os mais conhecidos são sentimentos de tristeza profunda e melancolia mantidos durante um período alargado de tempo, uma incapacidade de olhar para si e para o futuro de forma justa e realista, pois parece que este quadro nos coloca um filtro cinzento à frente dos nossos olhos, e que faz com que tenhamos uma visão em túnel e que impossibilite uma plasticidade de conseguirmos dar significado diferente às diferentes áreas da vida da pessoa. Com a banalização desta palavra, contribui para o agravamento desta percepção  que esta doença têm em si. Comentários como “eu também estou deprimida e sigo com a minha vida” ou “tens de fazer um esforço” ou “tu podes dar-te ao luxo de estares deprimida” vêem corrobore a ideia negativa que os doentes sofrem de depressão tem de si. Como antes foi referido esta doença é verificada em quase duas pessoas em cem, e pelo que ouvimos parece ser uma doença mais prevalente do que é na realidade. Procure ajuda especializada se começar a ter os sintomas mais conhecidos da depressão, para correctamente ser avaliada, e ser tratada atempadamente, pois quanto mais tempo se vive com a doença, mais difícil se torna o sobreviver a ela!

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Amo-te na morte, Odeio-te em vida…

Tudo o que se ganha pode-se perder, melhor, e quanto mais se deseja, quanto mais essencial se torna, mais difícil é depois viver nesse esbatimento do que já se conseguiu ser.

O amor, tanto amor que se precisa, tanto amor se anseia! Quando estamos sozinhos, sem ninguém ao nosso lado, por vezes dando-nos significância, razão de existir, vazios nos sentimos, olhando da esquerda para a direita, para com alguém se cruzar, alguém que repare nos olhos triste solitários, que procura outro olhar, um olhar que o veja, que lhe diga que o que quer ainda pode chegar, até está quase, mas que pode fugir se o momento passar.

A vida é feita de instantes, ocasiões a serem aproveitadas, investigadas, de forma a que percebamos, entendamos o que ali se passou.

O amor, ai o amor, como se ama odiar o que ele nos pode trazer…

Reencontrar alguém que já foi nosso, não sabendo quando, nem onde, mas que já pertenceu. Estranho é quando nos deparamos com alguém que nunca avistamos, que nunca sentimos, mas que no primeiro instante, no primeiro toque dos olhares, no cheiro do paladar, tudo nos parece demasiado familiar. Parece que chegamos a casa, sem nunca de lá termos saído, mas agora sabe a lar.

É verdade, quase absoluta, que o amor é o que nos faz mais sofrer, pois cria-nos dependência, passa a ser essência, o centro de tudo, mas que mesmo assim, havendo uma possibilidade razoável de perdermos o que mais queremos, que fiquemos sem chão para andar, sem força para o caminho, que mesmo sabendo tudo isto, vale mais do que tudo.

A vida torna-se mais difícil quando vivemos em função de prevenir sofrimento, com medo de tudo, sem perceção do que se perdeu, ao hesitar, ao desviar o nosso caminho, simplesmente por poder ter encontrado alguém que mete receio conhecer, pois sabemos que depois daquele primeiro momento, depois de provar o fruto desejado, pois de proibido não tem nada, será tão mais difícil viver sem ele.

Há quem não prove o prato do outro com medo do arrependimento, também existem pessoas que de tudo fazem para fugir da dor. Depois da dor vem o alivio, e assim a vida continua, entre dor, prazer, razão, tudo se mistura na cor a que chamamos vida. Vida. Vida. Se viver é sentir, então morrer é a ausência do mesmo. Quantos de nós mortos parecem estar, sem vida, numa penumbra que nada revela, o futuro é incerto, e nesse sentido, nessa premissa de vida, é melhor quieto ficar.

Depois do amor o que fica? Primeiro um vazio abismal, sem fundo aparente, numa queda continua ficamos, onde tudo inflama e tudo magoa.

A ausência traz ressaca, pior do que a da heroína, pois essa sabemos que em sete dias se vai, e esta particular abstinência, esta falta de tudo, por vezes parece arrastar a sua estadia, até nos esgotar a vontade de viver, e no fundo da esperança, mesmo com a alma destruída, ainda para o amor queremos voltar. O ser humano parece masoquista, mas depois da dor, pode vir a bonança, e para ai sempre caminhamos, mesmo que não saibamos o lugar, ele está lá para ser encontrado.

Ai o amor, esse companheiro injusto, que nos diz que agora está tudo bem, em que naquele agora nos faz sentir completos, preenchidos de tudo. Vicio lixado, vicio essencial. Depois de estar preenchido, o coração já não consegue viver vazio!

Manuel ama-a profundamente. Mais que tudo na sua vida, mesmo que a sua existência, que só depois de a conhecer fez sentido, só resiste às intemperes da vida, com ela ao seu lado, ela o seu porto seguro, o seu ninho criado. Desde sempre sabia dela, mas nunca a tinha encontrado, até o momento em que ambos se cruzaram, num breve e eterno momento, ele finalmente poderia descansar, a sua demanda tinha terminado. E nos olhos dela ele vê futuro, vida, caminho, mas agora já não só, ela ali estaria para tudo, para o trajecto já antes palmilhado, mas nunca sentido, agora seria diferente, agora seria real.

Manuel ama-a loucamente. Coisa desmesurada aos olhos de muitos, mas essencial para ele, tal com o sangue circular, ou o oxigénio entrar.

Ele ama-a, coisa bonita essa quando se pode viver na sua plenitude. Mas ele não estava preparado para a perder, para ir para não mais voltar, deixando memorias acutilantes, pretas, que ocupam todo o espaço, que sufocam, que lembram a todo o momento a ausência, a falta de tudo, a ausência do nada. Naquela tarde ela saiu, sorrindo-lhe um até já, mostrando que ainda nem foi, e já falta dele sente, pois se para ele ela é tudo, para ela, ele é o seu futuro garantido, sem riscos, só amor.

Merda para o amor quando pode ser vivido, momento a momento. Viver o agora é tão difícil, ele está sempre a passar, para o futuro se revelar. Medo todos temos de perder o momento, aquele mesmo que significado pode dar à vida, e tudo melhora, tudo fica mais brilhante, desejado. Tudo na vida tem um principio, um meio e um fim, e para ele foi cedo demais, seria sempre…

Amo-te na morte, Odeio-te em vida.

Onde estás? Para onde foste? Porquê que me deixaste sozinho, perdido?

Procuro-te para não mais te encontrar, para ansioso ficar, por te ver nos meus sonhos, mas não te conseguir chegar.

Onde estás? Onde andas? Quero-te, mas não te acedo, vives na minha mente, mas abandonas-te a minha vida mundana, e é aí, que te preciso.

Onde estás? Parece-me que me olhas, mas nem comigo falas, diz-me alguma coisa, nem que seja que já comigo não queres estar, prefiro dor a silencio.

Troco a tua ausência, pelo esquecimento, ai o esquecimento, que bem que sabia, que bem que fazia, para dormir, para conseguir imaginar algo, sem a tua contaminação.

Estás em todo lado, mas não te vislumbro em lugar nenhum.

Amo-te na morte, Odeio-te em vida!

Partiste sem aviso, sem ponderação, sem preparação, e levaste contigo tudo de bom que tinha na vida. És tu, simplesmente tu que escolhi, que quis realmente. Valeu a pena essa escolha?

Hoje não, mas ontem, no tempo anterior, em que existia para mim, que te podia tocar, sentir aquele teu cheiro da manha, que sabe tanto a casa. Onde é o meu lar agora? No cemitério não é de certeza…

Amo-te em vida…

Sempre te amei, sempre te venerei, eras o meu todo de vida, o meu centro, onde queria sempre voltar. Para onde vou agora? Perdi-me nesta procura incessante de ti, e já nem sei onde estou, já nem sei se quero realmente estar em algum lado, pois a cada esquino que cruzo, nada encontro, a não ser a minha sombra.

A cama acorda vazia de ti, carente do teu encosto, e eu ali, naquele canto esquecido, tento não procurar-te no outro lado, não quero mais sentir logo falta pela manhã, perdoa-me, mas tenho de te odiar, tenho de te afastar, tenho de me libertar…

Como seria fácil se assim fosse, mas tu, simplesmente por teres existido, por respirares e o teu coração bater, foste tudo para mim, e assim serás, pois a partir daquele momento o meu futuro foi traçado, sem ti. Onde andas? Tento não ser incoerente, mas quase desejava que houvesse um céu e um inferno, para que talvez um dia, no leito da minha morte, ainda houvesse uma hipótese remota de te reencontrar. O problema é que não sei se iria para o mesmo lugar que tu. Tu fazias de mim uma melhor pessoa, e nesse sentido, e nessa significância, deixei de o ser, deixei de acreditar, deixei de querer ser o que quer que fosse, agora já nada faz sentido.

Amo-te na morte, mas tenho de te Odiar em vida, pois as reminiscências de uma vida contigo partilhada dói demais, corta-me o peito meu amor.

Tu foste e eu fiquei, distancia injusta para ambos! Perdeste-me também, já ninguém se recosta no meu peito, pois esse lugar para sempre reservado ficou. Esse lugar será para sempre teu. E teias de aranha terá, para demonstrar a falta de uso, a reserva de alguém que nunca vai chegar, mas nunca se sabe, talvez me chegues nos sonhos, por favor volta, nem que seja numa realidade subjetiva.

Grita-me, olha-me, existe para mim, por favor, não sei aguento a tua inexistência…

Odeio-te em vida!

Aqui fiquei, aqui estou, parado, sem saber para onde ir, nem sequer saber se quero, se consigo. Amar-te dói demais, e tenho de te odiar por isso, perdoa-me meu amor, meu carinho, minha razão de existir, já não suporto as memórias, que só me lembram que te perdi, que já não te tenho, que te quero, mas já não te alcanço.

Odeio-te em vida!

Quem me der conseguir!

Desculpa já não sei o que digo, a dor atrapalha-me a mente, engana-me os sentidos, nem articular como deve ser consigo, mas sempre me deixaste sem palavras e sempre te amei por isso, mas agora, neste momento, eu, sozinho e desesperado, só daqui quero sair, ponderar que ainda posso viver, sem ti! Que vazio amor, que insuficiência de vida.

Amo-te na morte, ODEIO A MINHA VIDA SEM TI!

Não matem os velhinhos?

Não matem os velhinhos.

Perdoa-os meu Deus que eles não sabem o que dizem…

Já muito foi dito, até mexido, para que uma simples fotografia ganhasse significado de ignorância. Nem imagino o arrependimento de alguém que se manifestou sem saber o que dizia, pois no mundo dos adultos, no mundo das pessoas supostamente ponderadas, temos de alguma cautela quando fazemos afirmações de tal ordem.

Quem nos ouvir, quem der atenção a manifestações de opinião como esta, até pode achar que vivemos num pais com tendências nazis. Sim, afirmo isto pois se decidíssemos aniquilar quem supostamente não nos faz falta, quem já nada pode contribuir para este nosso mundo, estaríamos a esquecer a validade que esse ser, que agora não consegue, não pode, teve na criação em que vivemos.

Não matem os velhinhos!

Pois não, pois quem somos nós para decidir sobre o fim de vida de alguém. Podemos sim decidir o inicio de alguém, dar vida. Mas isso não chega, temos de dar mais, principalmente amor.

Não matem os velhinhos?

Se falássemos de dignidade humana tanto se podia dizer, tanto da nossa biologia como o nosso entendimento. Entendimento, consciência humana, cognição são conceitos só nossos humanos, pelo menos enquanto não percebermos melhor o resto do mundo que connosco coabita este planeta. Nesse entendimento, nessa estrutura que nos permite pensar, existe a consciência da morte. Todos nós sabemos que vamos morrer, o que muda é a forma como isso acontece.

O corpo humano só por si tem dignidade? Não, é somente um organismo vivo, que tem como objetivo sobreviver. Podemos também afirmar que a nossa dignidade advém da perceção que temos de nós, que temos do mundo.

Será que queremos matar velhinhos?

Todos nós lá chegaremos, todos nós envelhecemos. Mas o problema da morte não é só a eles destinado. Todos os momentos morrem e nascem seres humanos.

Queremos ver os velhinhos, os portadores de doenças terminais ou neurodegenerativas, apodrecerem devagar, até chegar ao ponto que a morte é um alivio? Será isso que se pretende para o final da dignidade humana?

Matamos alguém sequer?

Já quase todos os seres humanos já presenciaram alguém a morrer, a sofrer, a defininhar até nada restar a não ser uma ossada que merece descanso?

Falo-vos de um exemplo que nada de novo tem, nada de previsível a não ser a incapacidade, de algo que não tem cura, mesmo tratamento é insuficiente, fala-vos da esclerose lateral amiotrófica (ELA). ELA entre sorrateiramente, vai-se instalando e quando lhe apetece tira o que mais lhe convém.

Claro que vos falo do subtipo pior, pois no caso de permitirmos a alguém terminar com o seu destino predestinado, que nada de novo lhe vai trazer a não ser sofrimento e uma dependência extrema do mundo cá fora, um mundo que continua, que existe, e para aquela pessoa, que passa o dia imóvel, inerte, em que a vontade de mexer uma mão já não chega, o corpo não responde, e o desespero se instala. Esta doença está relacionada com o neurónio motor, responsável por muitos das características inatas que nos mantem vivos.

ELA não dá descanso, não tira férias, está sempre presente. Perde-se a voz, esta linguagem complexa, que é essencial para mantermos o nosso lugar no mundo, pois é essa voz que nos dá o direito de opinar, de não aceitar, de lutar por aquilo em que acreditamos.

É triste pensar que matamos velhinhos!

Mas ELA ainda não fica por aqui, vai-nos tirando tudo, deixando-nos sem nada. Dignidade humana? Imaginem um conceito simples. Imaginem que têm uma comichão que não passa, que incomoda, que irrita. Todos nós conseguimos satisfazer a necessidade de coçar, de arranhar mesmo deixando marca na nossa pele. Por vezes pedimos aos outros para nos aliviarem quando não conseguimos. E se não conseguíssemos fazer nada? Se até o simples facto de respirar tivesse de ter ajuda? Se beber, se sorrir, ai o sorrir que tanto é nosso, humano, fosse de todo impossível?. Como podemos sorrir, se nada o justifica?

Não queremos matar ninguém, isso é uma decisão pessoal, ponderada, até questionada, pois a eutanásia não é um matadouro, não é uma linha de montagem de morte.

ELA mata e não é assim tão devagar, mas nunca é depressa demais. Aquela imagem de um ser que já foi alguém, que sabe o seu final e sabe que pode estar próximo, mas não o suficiente. E se esta pessoa não tiver ninguém, nem alguém que lhe pudesse um copo de agua? Temos de matar a sede, mas não podemos matar o corpo doente, que tudo nos tira, que não nos permite viver. O que quer dizer viver? Para mim liberdade. Liberdade. E novamente liberdade.

Quem tem dinheiro pode matar os velhinhos.

Aqui o dinheiro mata. A viagem para a Suíça não é barata, a estadia também não. Talvez agora todos nós devíamos Planos Poupança para a morte, talvez as seguradoras assim o assumam, para que, quando já não há nada a fazer, quando os fármacos necessários para ausência de sofrimento nos impossibilitem de sermos gente, o fim do caminho de vida, o inicio do descanso merecido do guerreiro, que já nada pode fazer senão pousar a sua espada e não sofrer mais.

Todos nós sofremos, todos nós desejamos a uma certa altura da vida a morte, mas isso não pode ser critério de fim. Claro que tem de existir regras, por demais definidas, em que se criem as condições para esse ato ser aceitável, até mesmo o melhor para aquele ser que desespera, que sabe que não há nada a fazer a não esperar pelo fim.

Consultei, pesquisem, investiguem o que significa morrer com doença terminal, falem com eles, vão a um serviço de oncologia, de neurologia. Eles, que estão quase a terminar podem-vos dizer o que queriam para esse resto de vida. Nem todos querem morrer, mas alguns querem.

Não matem os velhinhos. Mas deixem ser eles a decidir se o final tem de ser tão catastrófico.

“Carlos tem trinta e dois anos, estando assim no pico da sua vida. Já tanto trabalhou para chegar onde chegou, pois ajudas teve poucas, ou quase nenhumas, mas isso nunca foi impedimento para tentar.

Um dia o tempo parou, o medo chegou para ficar, e a incerteza, passou a ser uma certeza absoluta. Coreia já por si é um termo pesado, principalmente com os acontecimentos atuais, mas quando seguida por huntington torna tudo muito pior.

Tudo começou com um pequeno tremor, um simples balançar da sua mão, que nada parecia ser, que nada podia até, pois só dele próprio Carlos dependia. E a partir desse momento iria precisar desesperadamente de alguém. Ele não sabia o que fazer, e pela primeira vez na sua vida não o conseguiria, não por não querer, não por não tentar, mas porque o seu corpo que lhe dava validade à sua mente, já não respondia, ou respondia de forma deficitária. Foi perdendo tudo, ficando sem nada, ficando um sombra da existência já vivida. Deixa de conseguir andar, de pensar até, e como isso o destrói, a sua mente sempre fora a melhor parte dele.

Deseja morrer todos os dias, e não é pelo excelente acompanhamento, entre neurologia, psiquiatria e afins, que as coisas melhoravam. Deseja que não acorde, para poder descansar, pois até nos sonhos nada consegue fazer, sonha com o fim anunciado, fechado numa cama, sem ninguém à sua volta. Para quê? Porquê que obrigaria alguém a passar por isso também, pois também aqueles que vivem em seu redor sofrem, num sofrimento atroz, em que nada podem fazer, nem mesmo o que ele precisa, de morrer…

Um dia, ainda quando conseguia fazer os mínimos, que não chegam, que nos lembram do que já perdemos, foi dar uma volta.

Depara-se com um centro comercial, que para ele era tão conhecido, tantas vezes ali passeara, mas agora as coisas eram diferentes. Ao chegar à sua entrada vê-se confrontado com um obstáculo, que tanto poderia ser o Evereste, de tamanha tarefa tinha, a porta!

O simbolo diz puxe, como se para ele fosse assim tão simples. Ele pensa em faze-lo, ordena-se para tal, mas nada responde. Nada. Nem um simples tremor que já foi sinal de intempere. E ali está ele, olhar o mundo que deseja por uma porta de vidro, sem conseguir a ele chegar. Tudo treme, a cabeça fraqueja, as pernas balançam. E ele, sozinho, perpetuadamente abandonado pelas suas capacidades, espera por algo que não irá acontecer. E ali jaze ele, em frente a uma porta, sem nada fazer, não pode!

O mundo passa por ele e parece nem reparar, tambem ele não o quereria, só queria poder, conseguir o que todos os outros dão por garantido. Para ele nada existe a não a ser a doença e o seu fim trágico. Ele não quer passar por isso, ele não vai passar por isso, mas para isso precisa de ajuda. Já nada faz sentido, já nada mais há para viver, a não esperar pelo fim, e como espera que seja rápido, mas por vezes esta doença não ajuda, tudo tira menos o ultimo sopro de vida.

E lá está ele naquela porta, mas já chove e ele nada pode fazer, a não ser esperar. Sabem lá vocês o que ele espera!

Mata-me de uma vez, tira-me deste corpo que já não é meu!

Mata-me e farás de mim um Homem FELIZ…

Mata-me e assim me salvarás…

Simplesmente ajuda-me a morrer…

 

O homem no metro.

Todas as manhãs, pelas nove e meia lá está ele, sentado naquela velha estação de metro, escurecida pelo tempo que tem, imagine que o metro em Lisboa faz setenta anos. Mas deixem-me falar um pouco dele. Uma pessoa perfeitamente normal, que se levanta todos os dias, que tem o seu fiel companheiro, o seu gato, sempre ali, pronto para estar com ele, e como o satisfaz! Depois de lhe dar de comer e de lhe por agua, entra na sua própria rotina. Bebe um café, fuma um cigarro e segue para o chuveiro. Fica lá a seguir a agua que quase o abraça de que tão bem lhe sabe, e ele ali fica a sentir o toque na sua pele. Já faz tanto tempo que isso não acontece. Deixem-me que vos fale de dois conceitos parecidamente diferentes. Falemos da saudade e da nostalgia. Para mim, e no meu entendimento, ambos podem ter cargas completamente diferentes. Falemos da nostalgia, é uma memoria que nos faz sentir, que nos lá recorremos com frequência, quase como se necessitássemos de nos sentirmos assim novamente, de lá voltar e acima de tudo queremos lá voltar, tento na nossa mente, como na partilha com os amigos. Quantos de nós quando mais tarde encontramos aqueles que fizeram parte da nossa vida, que importaram, que foram uma escolha, e nessa escolha, foi tão bom partilhar com eles um pedaço de vida. Como pode ser bom recordar! A saudade já pode remeter para outro espaço, mais sombrio, mais doloroso. Podemos dizer que esta palavra, que poucas um nenhuma tem, porque nós como povo, como não, como língua, tivemos de inventar uma palavra destas. Muitos fados já se cantaram por causa dela. Mas a saudade podemos trazer sofrimento, de várias formas e feitios. Exemplo da morte de alguém, enquanto não conseguimos terminar o nosso processo de luto, o aceitar que uma fase da vida acabou e que é preciso reinvenção, e quando isso não acontece, quando não conseguimos encontrar um novo sentido para a vida, a saudade doi sempre.

Banho tomado, barba feita, e lá vai ele escolher a roupa do dia, sim porque ele apresentava-se bem. E depois de tudo isto lá caminhava ele, prédio entre prédio nesta fila que aprecemos formigas a ir para o ninho. Ele acha fascinante esse movimento, tudo de desloca, sem se conhecerem, sem nem sequer partilharem uma palavra, mas ali vão, às vezes como sardinhas, mas toleram a proximidade do outro, até mesmo o cheiro do outro, e isso é tão intimo. Mas está ele naquela estação olhando para os outros. Como repara ele em tanta coisa, já viu tanto que aprendeu a realmente observar. E sempre que olha para alguém poucos são qu estão a sorrir, que não parecem tristes, preocupados. Ai como deve ser difícil não conseguir para de pensar! E mais uma coisa, senão a essencial, parecem que só existem, que só conseguem sair de si próprio, é quando estão em interação com o outro. Quando vê pessoas a interagir com pessoas vem realmente o seu humano no seu esplendor, seja presencialmente ou como está tanto na moda pela facilidade que nos trouxe, o online.

Deixem só dizer mais uma coisa, existem doenças em que esta relação com o outro não é compreendida, desejada ou seguro. Vou-vos só dar alguns exemplos para não me alongar. Se falarmos do espectro do autismo, não existe um vinculo, uma compreensão plena do que é este mundo que nos rodeia, e acima de tudo para e como se interage com o outro. Por outro lado, podemos falar de duas perturbações da personalidade. Desculpem se a linguagem ser demasiado técnica, mas as coisas têm de ter nomes para ser compreendidas, avaliadas e tratadas. Na perturbação esquizotipica da personalidade não se pretende ter relações, não se precisa, também aqui não se percebe o que fazer, como estar como fazer. Na perturbação esquizoide da personalidade, a relação com o outro é muitas vezes ameaçadora, então evitada a todo custo.

Voltemos ao homem do metro. Perguntam vocês porque aqui o metro é tão importante. Sabem o que é nos sentimos realmente sós? Ele sente-se assim há tempo demais, e neste movimento, naquele espaço está com alguém. Muitas vezes ele procura desesperadamente que alguém nele repare, que lhe sorria, que bom dia lhe diga, mas no final de cada viagem sai tão frustrado e triste como entrou, e assim passa o dia, de linha em linha, de estação em estação, pois a alternativa é bem pior. Como a solidão pode ser algo tão intenso, que nele por vezes vêm em ondas que parecem tsunamis que não param de chegar, e ele tão tem alternativa senão esperar mais nada, mas neste entretanto o tempo passa e mais ele sozinho ele se sente.

 

A vida como um todo.

A mortalidade da nossa imortalidade.

Todos nós a uma certa altura da vida fomos imortais. Fomos tudo o que a vida nos permitiu ser, sem limites, sem restrições, identidades que tudo podiam fazer sem qualquer limite. Lembram-se quando o tempo custava a passar, quando um dia era uma eternidade, e esse mesmo tempo era para ser vivido, para ser aproveitado, sem qualquer limite. Nesta altura o limite não existe é uma palavra de ordem não o ter. Limites quem os viu, só com o avanço da idade que tudo se torna mortal. Como qualquer coisa nesta realidade que é a nossa em que tem um principio, um meio e um fim, também nós temos uma fase ascendente, e o declínio que espera por todos nós. Mas será que em todos os momentos temos essa noção? Será que poderíamos viver se sempre pensasse-mos que um dia tudo terminaria?

Como é quando somos inocentes? Sem qualquer ideia da maldade, e do que a vida nos faz ser e sentir. Sermos pequenos, dependentes daqueles que nos protegem e nos auxiliam a crescermos. Como seria bom não sermos em tudo responsáveis em tudo o que fazemos? Mas como tudo existe um lado solar e um lunar, frio e sem vida. Pois agora que mais velhos somos, seria difícil voltarmos atrás? E faríamos assim tão diferente? Isso é uma questão tão complicada, pois se realmente gostamos daquilo que somos hoje em dia, e se esse resultado é a combinação de tudo o que fizemos, então se mudássemos mesmo que só uma pequena coisa, não perderíamos a nossa identidade. Por varias teorias dos multiversos, podemos afirmar que por cada encruzilhada em que temos de tomar uma decisão uma parte de nós segue um caminho, e a outra segue o outro. Neste caso então o que somos senão uma consequência das nossa escolhas, e que por ai andará outras versões de nós, não necessariamente melhores, mas simplesmente diferentes.

Como é bom lembrar quando tudo podíamos fazer, quando tudo era possível, não por ser na realidade, mas por o sentirmos, e isso, era o que mais contava. Ser jovem era tão bom! Mas o que significa ser jovem? E quando termina a nossa juventude? Há quem diga que cedo demais, outros parecem nunca dela saírem. Mas todos nós, mesmo que contrariados, temos de a deixar para traz, para outras coisas viver. Mas como é cheia de saudades tais memorias. Eu lembro-me de não ter limites, essa palavra que já antes referi, e tanto repito, não por querer, mas porque a vida me obrigou a olhar para eles, e mesmo que nunca queira, sempre tenho que o fazer.

 

Como seria sermos os jovens invencíveis que já fomos, e não o podermos sentir? Sermos limitados pela finitude do tempo? Para isso já chega quando o tempo nos obriga a isso sentir, mas isso não é para a nossa adolescência. Quem nos dera ser jovens outra vez! Será que seria assim tão bom? Com tudo à flor da pele, em que o sentir se tornava extremos de um momento para outro, em que os desaires da vida, eram catástrofes impensáveis de ultrapassar? Como os idosos o dizem “se soubesse o que sei hoje!”. Mas isso seria impossível, senão não seriamos jovens, livres das limitações do tempo e da carne mortal, onde saltar de uma ponte para um rio de cor baça, sem termos noção da sua profundidade e perigos, tornava-se impensável. Daí a necessidade de sermos jovens e não criaturas envelhecidas. Da mesma forma que considerando que o auge da nossa competência percebida é entre os trinta e os quarenta e cinco anos, temos de sentir que os projectos são uma escolha, misturada com empenho, esse elemento tão necessário ao nosso sucesso. E faz sentido que seja nesta fase ascendente de vida que já tenhamos objectivos de vida, projectos realizáveis, um fio condutor de vida. E o que acontece se não encontramos esse mesmo trajecto? O que nos sobra? Uma resignação ao que a vida nos traz, sem o prazer da busca, da conquista!

O que significa envelhecer, mesmo que jovem ainda? Como reparamos nós que o tempo nos ganha na sua própria corrida? Como já antes o disse, e o reitero, o tempo leva o que é dele! E digam vocês o que isso significa? O que leva ele que não reparamos, só quando é tarde é que vislumbramos, que contra ele nunca ganhamos. Pensemos sobre as diferentes idades que já vivemos. Já muitas vezes observei as pessoas de idade mais avançada para tentar perceber e prever o que será para mim também o ser! Mas tudo se torna diferente, por mais uma vez as escolhas. Tudo se resume a isso. O que escolho e que consequência e que isso tem na minha vida. Então o que se deve escolher, para quando a mortalidade se aproximar de nós, quando repararmos que aqueles que eram importantes para nós começam a desaparecer, e cada vez mais sozinhos nos sentimos? Como deve ser triste ver partir aqueles que connosco partilharam a vida, com amargos de boca e sorrisos abertos. Eles sempre lá estiveram, e com a finitude da vida, também partem, não sei para onde, mas sei que nos deixam, e nesta inexistência carnal, a saudade toma conta. “Sinto a tua falta, a cada momento do dia. Como te queria aqui, ou eu aí contigo, onde quer que isso seja. Mas para minha pena, ainda tenho que por aqui andar a vaguear por um mundo que já não conheço, que me ultrapassa, que já me ultrapassou à muito, sem que eu próprio me desse conta. Quando perdi eu o comboio da evolução? Mas isso agora também não interessa. O meu tempo também chegará, e por ele espero já com ansiedade. Já estou preparado para deixar de existir, a vida já cansa, e eu consumido por ela, anseio um descanso eterno, seja ele o que seja, um simples fim, ou um principio.”

Desde que nascemos até morremos atravessamos tantas fases diferentes, para depois podermos ir embora, e deixar cá alguma coisa, seja ela qual seja. Mas o destino do ser humano é deixar uma marca no mundo que todos os dias muda.

Qual é a sua marca eterna?

A mesa de Natal.

Mesa abastada, lugares vazios.

Passámos mais um período de festejos, de confraternização, de reencontros, que é tão típica altura de que o ano nos proporciona. O Natal simboliza para muitos uma sala colorida, iluminada, de mesa sempre posta, com os típicos acompanhamentos, que divergem da nossa zona e cultura. Tudo à nossa volta nos recorda constantemente que um acontecimento que já tem dois mil e dezoito anos, e continua com a mesma importância que sempre teve. Tudo começa atempadamente, entre cozinha, decoração, e entre emoções partilhadas e desejadas. Como é reconfortante chegar a casa, e ter aquele cheiro tão característico, como as filhoses, as azevias, o polvo, o bacalhau, ou até mesmo o peru. Espalhados pelo chão, em redor do nosso pinheiro, verde, branco, até mesmo rosa, aqueles volumes envolvidos pelas cores, os laços, que as crianças anseiam por rasgar, para finalmente chegar ao objeto desejado. E como é tão recompensador, quando para elas, aquele momento, é de uma verdadeira euforia. Até porque com antecedência, o pai natal ou o menino Jesus, foram avisados, do que se queria. É uma altura em que os horários, os rituais da nossa vida comum são contornados, são até ignorados, pois o menino Jesus, chega sempre tardiamente, e ao chegar a meia noite corre-se, salta-se para tudo abrir, experimentar, e vale a pena todo o trabalho que se tem, para ver aquele respirar ansioso a quem nós oferecemos. Sim, porque isto é um tempo de partilha, de mostrar-se a quem nos é querido, da importância e espaço ocupam no nosso coração.

Mas também esta altura, tem um sentimento ambivalente.

É na altura de por a mesa, que podemos também sentir a falta!

Todos nós passamos por diferentes momentos, diferentes configurações da nossa mesa de repasto. Entre famílias mais extensas, ou refeições mais solitárias, tudo se faz para não quebrar com as tradições, até mesmo para manter viva e perto de nós, os usos e hábitos que quem connosco já não se encontra. O tempo não perdoa, e assim sendo, leva o que é dele. Já fomos netos, filhos, irmãos, pais, companheiros, e com esse desenrolar de papeis, uns partem e outros chegam.

“Odete anda na sua afaza-ma do costume, o mundo assim a obriga. É dia 24, e todos estão a chegar. Começou cedo nesse tão conhecido ritual. Pela manhã começa por preparar o seu tão apreciado bacalhau, que fora comprado naquela pequena loja na baixa de Lisboa, que sempre vendeu o bacalhau que mais agrada. Ela tem um prazer redobrado em ver todos sorrir, em sentir a gula nos outros, do que das suas mãos é elaborado. Já o tinha deixado a demolhar há uns dias, pois todo o cuidado é pouco, e para ela tem de estar tudo perfeito. Depois é altura das frituras. Os filhoses! Essa receita antiga que a sua mãe lhe ensinou com tanto carinho, que já antes tinha sido aprendido com a sua. A massa fica a levedar, dando-lhe tempo para ser polivalente, pois essa é a palavra de ordem. Os sonhos aqui existem em cima da mesa, e até ontem há noite com eles sonhou. Nada pode faltar, é sempre essencial que sobre.

Naquela correria que vai da cozinha à sala, seria tão importante ter Jorge ao seu lado. Como era essencial este trabalho de equipa, mesmo que ele pouco fizesse. Era o estar que mais importava, aquela disponibilidade para a qualquer pedido realizar. Mas para ela, esse vazio existe. Ele já partira há dois anos, e isso nestas coisas, é tão pouco tempo. Esse sabor amargo que a rodeia, aperta-lhe o coração. Foram quarenta anos de companheirismo, de amor, que terminar tão antes de tempo. A historia não devia ter sido interrompida. As saudades acompanham-na a cada passo que dá, e para isso não há solução. Sente-se só naquelas noites de Inverno, que o toque dos outros nos aquece. Aquele lugar vazio na sua mesa, onde antes comiam dois, agora na maioria das vezes, partilha com a televisão as conversas que lhe eram tão familiares. Não era preciso grandes coisas, bastava a companhia. E isso não pode ser substituído. Já teve casa sempre cheia, pois com quatro filhos, difícil era estar sozinha. Mas a vida leva e traz tanta coisa. Foi vendo os seus precisos filhos a crescerem, a construírem uma vida, na qual ela sempre fará parte. Mas ela sente. Sente tanta falta dele, nunca se tinha sentido tão só! Sem discussões, só com ocasionais divergências, que rapidamente eram resolvidas, a vida era tão idílica com Jorge. Todos aqueles hábitos dele, depois de uma vida de trabalho, podiam viver ao seu ritmo. O acordar de manhã e olhar para o lado, e ver, sentir que ele ali estava, que ele queria estar. Ia como de costume ao velho quiosque comprar o seu jornal, que ao sábado pela manha era folheado à mesa. E com essas palavras imprimidas, trazia também o pão acabado de cozer. Era neste momentos que para Odete estava o cerne da sua felicidade. Era alguém com quem tudo se partilhava, tudo era permitido. Tinha-o conhecido na festa da sua aldeia de origem. Era um moço vistoso, com o seu chapeu tão característico, e no meio da multidão partilharam um olhar, que para sempre os mudou. E daí, de um simples momento, construiu-se uma vida. E ela adorava a vida que tinha, melhor, ela amava tudo! Lembra-se também que seus pais não lhe davam a liberdade que desejava, mas por portas e travessas, arranjava sempre forma para estar um pouco com ele. Ela sentira que era com ele que estava predestinada ficar, quase como se tivesse sido uma cara a encontrar a sua metade. Como é que se pode viver, depois de perder tal coisa, e fora com um simples nome, que o perdeu. Um simples acontecimento, que tudo mudou, que vazio ficou o seu coração. Os seus filhos tanto apoio lhe tem dado, e como lhes está grata, mas sente tantas saudades de Jorge. Ele fora o farol para a sua barca que à deriva andava. Era o alimento para a sua alma, o raiar do seu dia, mas agora, depois de partir, o sol nunca mais sorriu como antes. A mesa até estava mais preenchida, mas o seu coração ainda gritava por ele, tentava o procurar, mas só nas recordações o encontrava, e como é duro não ter, não tocar, não ouvi-lo. “Jorge! Jorge! Tanta falta me fazes! Tenho tantas saudades que nem consigo explicar. Olho para a cadeira vazia, do outro lado da nossa mesa e anseio encontrar-te, falar-te, abraçar-te e nunca mais te largar, mas hoje abraço a tua ausência. Sabes, ainda dou por mim à deriva pela casa a tentar reaver-te, para te manter perto de mim, para aconchego encontrar no teu regaço. Onde andas meu amor? O destino é cruel. Agora, logo agora, que a vida era só para nós, que tempo tínhamos para tudo, tu partiste. E eu fiquei! O António ainda o outro dia me estava a falar de ti. Lembraste quando o ensinaste a pescar? Com uma vara, um fio, uma rolha e um anzol uma cana lhe fizeste, e o mais engraçado é que ainda a hoje a tem! Também sei que todos eles sofrem por não te terem, e como alegre fico de termos construído uma família como a nossa. Todos eles têm estado, onde tu já não te encontras. Vem tantas vezes visitar-me, e é bom. Mas ao final do dia, quando para a cama me desloco, era tu que eu queria. A cama parece tão grande e gelada sem ti! Gostava tanto de te ver com os óculos descaídos para a ponta do teu nariz enquanto lias, e como era de habito pedia-te para em voz alta leres. Gosto tanto da tua voz, e como me sinto sortuda pelos nossos filhos terem feito todos aqueles momentos gravados para não te perder totalmente, pois ali ainda existíamos. Dou por mim a ver vezes sem conta momentos que nada supostamente de especial têm, mas para mim, têm um valor acrescido. Onde estás meu amor? Onde te posso encontrar? A única coisa que me alivia é que te encontrarei, assim a minha fé me diz. E anseio com todas as forças que ainda tenho esse momento, em que te possa ter de novo. Sinto a tua falta, e para sempre a sentirei. A ponta da mesa era tua, e nesse espaço vejo agora o buraco que tenho dentro de mim. Olho para te rever, e com tristeza encontro-me só a mim no espelho que tínhamos comprado na viagem que culminou a nossa união, a nossa lua de mel. Simples foi, mas o que importa não é onde, é com quem! Por agora tenho de te deixar meu querido, eles estão quase a chegar e eu ainda tenho de fazer muitas coisas, pois quero que tudo seja perfeito, eles merecem. Mas volto, volto sempre para ao pé de ti. Como te amo, como fui feliz, tu sempre foste o que sempre desejei. Uma vida inteira contigo, e mais vidas viveria, desde de que tu lá estivesses. Um até já meu amor!”

E com um tocar da campainha tudo iria começar, o Natal chegara!

O Último Adeus!

Lá está Bruno, no seu canto, sem saber o que fazer, o que dizer, como se existisse alguma coisa para dizer. Ela tinha ido embora, ela tinha desistido, e o mais cruel é que ele tinha ficado, para aquele ultimo momento ter de o fazer. Como é duro esta forma de viver a morte, este teatro ocidental, desde o velório macabro, onde se vela um corpo frio, sem vida, onde já não está de quem se gostou, de quem se quis bem, mas agora só existem em reminiscências daqueles momentos de vida. O problema é quando essas mesmas memórias ainda magoam pois ainda não acabou, ainda não se ficou no vazio depois da terra ou as chamas comerem aquilo que já foi alguém para nós. Este velho ritual que de negro se veste e que de uma multidão passamos a uma solidão extrema quando tudo acaba, quando o corpo desaparece só ficamos com a falta de quem partiu e já não voltará. Nestes momentos a raiva instala-se depois de acreditarmos que perdemos alguém, que para nós importava. Porquê que ela partiu e no caso dela, para Bruno tudo perdeu, e desta forma não é justo, nem mesmo para ela. Como foi possível tudo assim acabar. Mas lá está ele naquela sala fria rodeado que todos aqueles que conhece, mas nunca se sentiu tão só, quase desamparado, quase desnorteado. Todos o cumprimentam e ele não o queria, por significar o que significa. Ela já partiu, não porque quis, mas porque não aguentou, e ele, que tanto tentou, nada conseguiu. Sente que só adiou o inevitável, pois no fundo ele sabia que ela partiria desta forma. Todos em fila lhe tocam e ele grita por dentro “larguem-na, ela é minha, vocês nada sabem o que ela passou, e muitos de vocês a certa altura deixaram de querer saber.”. Mas no fundo ele percebe porquê.

Mas lá está toda a gente e ele ao fundo vê-o, ao único que queria ver, que queria abraçar, que queria conforto, que queria algo de bom. – Saraiva?

Ele aproxima-se de Bruno e as lágrimas pelo rosto lhe escorrem, pois ele sabe como ele tentou, ele de tudo sabe, e assim sendo, sabe como lhe está a doer. E parece para Bruno que o tempo que demoram a encontrarem-se a meio caminho está demorado, ele anseia sentir o seu peito, para se deixar levar, para se sentir protegido, pois no fundo ele sabe que sozinho não está, mas o problema é que era ela que ele queria, mas agora nada pode fazer. Lá se encontram e ele derrama o sangue no regaço dele, pois não sabe o que fazer, como se livrar desta dor que ainda agora começou. Pois o mais difícil ainda está para vir, e ele aquele amigo que sempre lá esteve quando mais foi preciso, durante todas aquelas crises que ela sempre teve, o confortou, o apoiou, o manteve firme naquele barco que ele sabia que Bruno não conseguia sair, e assim sendo, não o poderia criticar, somente lá estar. E neste momento de perda total, neste momento em que o inevitável aconteceu, ele sabia que o fim seria assim, Bruno precisaria dele, mais do que nunca, e ele por momentos tinha de por as suas necessidades em stand by por ele. Agora era o tempo de Bruno. E isso ele sabia o que significava. A partir daquele momento, Bruno ficaria para sempre incompleto.

-Saraiva, o que faço???

– Agora nada Bruno, deixa-te ficar aqui ao pé de mim. Já comeste?

– O que há para comer agora, não sinto o corpo, percebes não percebes? Perdia-a de vez, não consegui, não consegui…

Nada havia a conseguir, era impossível mudar esta historia predestinada. Estava também nos astros que assim seria, até mesmo alguém já lho tinha dito, pois em desespero até a alguém que lia a vida de alguém em objetos obsoletos, lhe tinha dito que iria perder para a doença, que não seria pela via médica que conseguiria, mas ele não acreditou, não quis acreditar. Mas também por ali não teria sucesso, estava marcado na linha da vida na sua mão que a vida dela terminaria cedo e de forma sangrenta. Mas lá estavam todos no velório e ele só queria ficar sozinho com quem mais gostava de ali ter. E a raiva que lhe metia ver gente a conversar com gente, sobre coisas comuns, pois é nas festividades e perdas que muitos de nós nos reencontramos. Mas para ele é visceral ver tal coisa, falam do tempo, de futebol, mas eles não entendem o que se está a passar? “Merda para vocês todos, saiam daqui, vão para o café e deixem-me aqui com ela!”. Saraiva percebe do estado de nervos em que Bruno se encontra e desvia-o até um pequeno café ao lado da florista, em que todos passam antes de entrar. Flores que aconchegam a morte de alguém, mas não aconchegam a perda para quem cá fica.

– Vou-te pedir um galão. Consegues?

– Acho que sim. O que faço agora? Como posso eu continuar a viver agora? O que faço? Diz-me?

– Agora tens de passar por isto, nada mais, depois logo vemos!

E o mais duro para Bruno é que nem com ela pode passar a noite, chegada a temerosa meia noite a porta tem de se fechar e ela lá sozinha ficará, e ele não saberá como em casa estar, naquele vazio, naquela dor interminável, e ainda por cima tem de saber receber, tem de ainda apoiar quem precisar! Lá está a mãe dela, sem saber o que fazer, desaustinada, perdida dentro de si própria, pois a culpa a dilacera, pois nele não quis acreditar, quis confiar cegamente que ele teria de ser capaz de fazer o que ela nunca tentou. E isso ainda mais raiva lhe traz, pois ele sabe de tudo isso, sabe da responsabilidade que ela teve neste caminho, que nisto terminou. Ela nunca quis saber, tudo parecia mais importante que aquela inocente pessoa, que sempre a procurou, para nunca a encontrar. Tudo era mais importante, as viagens, os namoros, o dinheiro, tudo era mais importante do que o sofrimento dela. Mas agora nestes dias, com ela tem de conviver, mas olha-a fixamente, e ela na sua nuca sente o calor enraivecido e fulminante mirar. Mas falta pouco para com ela nunca mais partilhar espaço e ar.

– Calma Bruno, agora não é tempo para guerras. Depois logo se verá se ainda sentido te faz.

Mas a noite passa, e o dia chega, o ultimo momento, e depois não terá de fingir mais. Mas ela para o chão irá, e depois desaparecerá para sempre. E aquele caminhar desde onde o corpo foi velado, para onde será enterrado, parece uma procissão de negro, com um silêncio aterrador.

Chegado ao local da campa, aquele buraco inferniza-o. E o mais duro é vê-la pela ultima vez, pois ela parecia não acreditar, mas para ele não sabia o que fazer senão um enterro católico. Da terra vimos, e para lá voltamos. E aquele trajeto que tanto custa a fazer, parece que não queremos chegar, não queremos perder de vez aquela pessoa, aquela energia. E para Bruno, isso significava sozinho outra vez ficar. Tantas vezes se sentira assim, nas crises que ela enfrentara, nos gritos, nos pedidos que a morte a levasse que não acordasse, que tudo passasse. Mas nada nunca mudou, e agora sim, para ela tudo tinha acabado. Bruno não sabe onde ela estará, se mesmo estará em algum sitio. Ele sabe que ela já com ele não está. E naquele caixão de pregas douradas, o seu corpo frio e cinzento se encontra. E num movimento seco, um balde de cal se despeja no seu corpo com aquele vestido que ela tão adorava, em que ela já tinha sorrido, tinha sido ele a encontra-lo para ela. E nada mais ela queria dele, senão a sua existência, o seu ser, ali perto, mas longe ao mesmo tempo, pois também lhe lembrava que o magoava. E numas ultimas palavras, num ultimo toque de Bruno na face esfriada dela, se despede “Adeus meu amor, que agora melhor te sintas, que o sofrimento da carne já não te acompanhe!”. E depois o caixão se fecha, e tudo parece ter acabado, e desce devagar até ao fundo chegar. E depois um leve rosa branca sobre ele repousa, para um ultimo beijo dele.

Agora, já em casa, tudo acabou.

– O que faço agora Saraiva?

– Sobrevives, nada mais!

“Desculpa amor, mas já não aguento mais!” Uma carta de alguém que vai desistir.


Querido Bruno.

Estas são as palavras mais difíceis de escrever que tive na minha vida. Nem sei por onde começar meu doce. Sabes-me dizer onde me perdi? Já nem consigo perceber onde começou, nem o que se passou para eu chegar a este ponto amor. Tu estiveste sempre ao meu lado, pesei-te tanto no teu peito. Fiz-te tanto mal, quando só queria fazer-te feliz. E isso onde mais falhei, não soube o que fazer, só conseguia pensar em mim, e tu, nesse teu olhar que apazigua, que me tranquiliza, nem que seja por segundos me permitias. Era, tudo em mim era só temporário. Só aquela dor que sempre me acompanhava. Como podes ver, até nas ultimas palavras que te declaro, em que quero que saibas, que não duvides, que te amo. Como te amo, e também isso foi um peso no meu peito oco, nunca to disse, nunca tas proferi, mas sabes, tens que saber, que te amo desde o primeiro momento que sonhei que conheceria alguém como tu! Triste sina a minha, encontrar-te e quase te destruir. Perdeste o brilho meu amor, envelheci a tua alma, e agora sendo eu uma pessoa má, que contamina, que corroí, abandono-te, saio de cena, mas não volto para ser ser aplaudida, ficarei neste vazio. Como desejo que a morte seja o fim de tudo, que me deixe em paz, esta mente que me matou. Lembras-te amor, lembras-te? Tivemos momentos felizes, não tivemos? Tivemos de ter, eu também te fiz sorrir alguns momentos, parecia um sonho, naqueles que tudo é belo, tudo nos conforta. Via-te a brilhar, como o teu sorriso iluminava a sala. Nesses breves momento tudo me fazia sentido, sabia o que era, o que queria, e sabes, tu eras a única coisa que me importava, que me fazia lutar por vezes, quando parecia que ia mudar, que podia mudar. Tantas ilusões e desilusões. Porquê que pegaste em mim? Sabes não entendo porquê que mas nada resulta. Sabes tanto tentamos, lembras-te? Eu não me consegui esquecer, e esse momentos de historias falhadas, sempre me confirmou, que quando se nasce defeituoso, nada se pode fazer, nada senão deixa-la naquela negritude que até nojo mete. É nem sei como ficaste. Diz-me, mas diz-me mesmo, porque ficaste? Nunca entendi. Tantas vezes te tentei expulsar, mandar-te para longe, libertar-te de tal prisão sem barras, sem guardas, mas que nos prende, que não nos deixa ir. E ficaste porque? Tratei-te tão mal, fui uma verdadeira cabra, mas não sei quem era aquela personagem. Culpava-te naquele tempo de tudo, da minha culpa que corta como mil pequenos golpes, de folhas de papel, e depois de tanta miudinha, vinha aquele banho de álcool, sentia tudo a eriçar, a dor vinha, e não ia, estava ali para ficar, e independentemente do que fizesses, nunca e nada me faria acreditar. Tantos psiquiatras, tantas combinações, agora era este, aquele e o outro, e lá dizia ele “agora acho que vamos conseguir Maria, parece que encontramos a sua saída deste sofrimento constante. Acredite!”. Acreditar dizia ele meu amor, já tinha um dia sentido, mas o tempo leva sempre o que é dele, e se um dia com um discurso, até brilhava, até ficava como uma criança na manha de natal! Mas com o tempo, com o doutor Miguel, o doutor Carlos, e sabes aquele especialista, que fomos a Paris, o Pierre, tudo se esbateu, passou a ser uma rotina, e quando olhava para tinha um duelo de sentimentos. Por um lado ficava tão feliz, ao ver por momentos um brilho nesses olhos verdes como o mar, que agora parecem aqueles tanques que agua estagnada. Já faz tanto tempo que penso na morte, como será, se tudo desaparecerá, se finalmente poderei ter alguma paz. Penso nisso todos os dias, sabes quando de dia durmo, e de noite arrasto-me. Fantasio, até sonho com ela, como a desejo! Nem fazes ideia! Sempre pensei nela, até a tentei em garota como te disse. Mas agora mais que nunca, dela preciso, como o ar que respiro, e todos os demorados dias, quando este meu inimigo, que nunca me larga, sabes quem é. Esta voz que nunca se cala. E tantas vezes com ela tentaste falar, leva-la à razão. Mas ela sempre foi mais forte que tudo, porque tudo na vida mudou, nós crescemos, trabalhamos, somos gente. E eu? Sou um farrapo de gente, da cama para o sofá, do sofá para a cama. Nem sei como ainda estas aqui. E agora sou eu que salta para fora do barco, estou a levar-te ao fundo, e meu amor assim podes velejar para aguas melhores, mas sabes, por muito que fosse tempestuosas, nunca seriam nem de longe, nem de perto o lodo que eu sou. Agua estagnada, pois sou,nem nunca quis crescer, obrigava os outros a de mim conta tomar. E também tu, meu amora, meu amor, meu amor, tiveste tarefa tão agreste. E agora, e mesmo depois da tinta deste adeus seque, deixarei de existir, não serei mais eu. Eu não sei o que por aí vem, mas sabes, nem quero saber, nunca vai ser pior que esta merda de vida em que sempre aprisionada. E tu Bruno. Diz-me? Diz-me? Porquê que saíste pela porta? Nunca percebi, e nem sabes como isso me pesou! Essa culpa que me corroeu desde sempre, desde aquele momento em que me amaste sem nada me dizer, que abraçaste sem me tocar, que me beijaste sem sentir esses lábios, carnudos, vermelhos, vivos, que me envolvem num contorcer de prazer, que fazia desejar-te tanto! Até aí voltei a falhar, agora quem quer tocar neste nojo de pessoa, pois já nem mulher me sinto, tal como no inglês, como tens o he, o she ou o it. É, sou mesmo uma coisa, nada mais. Desculpa amor mas já não aguento mais. Tenho de ter a certeza que cá não fico. Tenho de partir, tenho de desaparecer. E sei que vai sofrer tanto, vais sentir as entranhas a desfazerem-se, mas aguarda, espera, o tempo vai-te salvar, e depois disso, depois de ti, ficarem no esquecimento, onde ninguém me pode encontrar, e eu não posso destruir. Sei que vais compreende porque o fiz, tal percebes, nunca criticas, tudo o que faço, e olha que eu fui longe, nunca fui ninguém. Tratei tão mal, gritava, culpava-te, destruía as coisas que mais estimavas, só para ver no teu olhar aquela tristeza, de algo importante se perder! Estás a ver? Como foi possível tal eu fazer. Nem sei, Depressão, Bipolaridade, olha já não sei. Sei que finalmente me vou matar, já sei como, tu vais ver onde. Desculpa pareço cruel, mas a ansiedade de sentir a vida a escorrer-me entre os dedos é tanta, e quero deixar claro que tens de seguir com a tua vida. Entende que nunca me conseguirias fazer feliz, mas não por não teres tentado, nem sei como aguentaste, sempre me levaste ao colo, acreditando sempre, eras o meu farol naqueles noites de nevoeiro húmido, mas que quanto mais remava na tua direcção, mais distante me ficavas. Mas vai, à vidas bem melhor que aquela que conheces-te comigo. Vai! Por favor vai! VAI!!! Tu vais conseguir ser feliz, para isso, só tens de me esquecer. Tão simples. Nada de bom te trago. Sabes não consigo mais, a agua já está quente, tenho o tempo contado. Não quero mais nada neste momento senão morrer!

Meu amor, meu doce desculpa, mas já não aguento mais!!!!!!

Pode ser que um dia, algures por ai, nos possamos cruzar, mas desta vez não te deixarei entrar. É a única forma, sabes bem, é a única forma de não te devastar., venha o que vier será bem vindo!

Mas sabes agora vou-te deixar, preciso de parar. Parar. Depois logo se vê.

Meu amor vou-me matar. Desculpa mas é a única saída. E desculpa a minha verdade cruel, mas acredita que só por mim irá isto acontecer. Foste tudo e mais ainda do que sempre sonhei, mas agora tenho de ir.

Beijos, beijos só como tu me deras desde sempre, beijos doces, beijos suados, beijos completos.

Beijo ”

Bruno está ansioso por chegar a casa. Sexta feira, sei trabalho trazido para tempo com ela lhe roubava, livre para com ela estar, e como o pouco tanto lhe sabe. Basta que a ela algo lhe apeteça, e logo sem sequer pensar, tudo tem de fazer para a fazer sorrir. Ele ainda acredita, com toda a célula do seu emagrecido corpo, que ela um dia vai sair daquele que lhe parece nunca ter fim.
Mas ele naquele dia, naquela noite mete a chave à porta, e sabe lá ele, nem imagina, que será a ultima vez que meterá aquela chave, aquele símbolo, naquela porta. Roda então a chave e esboça um sorriso. A porta não está trancada, Maria está em casa. Entra pela casa dentro e grita “Maria? Estás aí amor?” Fica à espera mas nada parece chegar, nem um velho pombos correio lhe trazia noticias da sua amada. Como fantasiava ele, estando tanto tempo no seu mundo, sempre pensando o que poderia fazer por ela. Todo o momento do seu cérebro, cada sinapse era para ai dirigido, a pensar em Maria, a pensar no que fazer, no que tentar, para onde ir, mas nunca desistir, nunca deixaria a sua princesa. Mas ainda não sabe ele, que quem o deixara fora ela.
Pousa as suas chaves no móvel do seu Hall que a todos os sítios o leva, mesmo no centro de tudo, e por isso repara Bruno, que pelas frinchas da porta da casa de banho, emanava aquelas cores, que quando Maria estava menos mal, pois porque bem nunca esteve, que eram os banhos a dois, em que as velas davam o ambiente e nós os corpos, o suor que nos unia, e aquela dança que era perfeita, aquele ritual de quando duas almas ficam uma. Ele tira então a gravata, e o entusiasmo aumenta, e conforme para lá se desloca, as peças da sua farda que o mundo a tantos obriga, aquele fato bem engomado, encosta a sua face à porta e por ela chama outra vez “Maria? Estás aí? Meu amor, estás bem? Sente um pequeno arrepio, mas ele não quis prestar atenção, e então sorriso voltou, e delicadamente agarra na maçaneta, perguntando-lhe: “Posso entrar amor?” Silencio. “Amor?” Silencio. Roda então a maçaneta que tanto se arrependerá de o fazer, aquela imagem nunca desaparecerá, e empurra a porta, ficando a mesma escancarada, e lá está aquele momento, mais valioso do que qualquer vida. Ele repara no perfil da sua amada, que brilha pelo reflexo daquela luz ténue. Sim vai ser um momento de união, ela está bem hoje! E subitamente algo o atormenta, ele não o que ou porquê, mas algo o incomoda. Naquela tela, algo está fora de cena. A agua não parava de jorrar, e a sua cor não era a esperada. Ele vê aquele rosa esbatido, aquela cor que o congela. “Maria? Maria? Amor? MARIA?”. E nem coragem tem de dar um passo, não quer ver, não quer ter de acreditar. Não, não, não. E fechando os olhos os seus pés movem-se. “Não pode ser ela, não podes ser tu, não podes, sabes porquê, porque eu cheguei, e não posso ter chegado tarde demais!” Mas quando as pálpebras se levantam, lá está ela. Ela está onde não deveria estar. Ele já estava ali, e ele de certeza que não podia ter chegado tarde demais! Porquê? Ele não quer saber, sabem porquê? Ele sabia que isto aconteceria, ele tentaria adiar, sempre adiar, mas agora aconteceu!