A mesa de Natal.

Mesa abastada, lugares vazios.

Passámos mais um período de festejos, de confraternização, de reencontros, que é tão típica altura de que o ano nos proporciona. O Natal simboliza para muitos uma sala colorida, iluminada, de mesa sempre posta, com os típicos acompanhamentos, que divergem da nossa zona e cultura. Tudo à nossa volta nos recorda constantemente que um acontecimento que já tem dois mil e dezoito anos, e continua com a mesma importância que sempre teve. Tudo começa atempadamente, entre cozinha, decoração, e entre emoções partilhadas e desejadas. Como é reconfortante chegar a casa, e ter aquele cheiro tão característico, como as filhoses, as azevias, o polvo, o bacalhau, ou até mesmo o peru. Espalhados pelo chão, em redor do nosso pinheiro, verde, branco, até mesmo rosa, aqueles volumes envolvidos pelas cores, os laços, que as crianças anseiam por rasgar, para finalmente chegar ao objeto desejado. E como é tão recompensador, quando para elas, aquele momento, é de uma verdadeira euforia. Até porque com antecedência, o pai natal ou o menino Jesus, foram avisados, do que se queria. É uma altura em que os horários, os rituais da nossa vida comum são contornados, são até ignorados, pois o menino Jesus, chega sempre tardiamente, e ao chegar a meia noite corre-se, salta-se para tudo abrir, experimentar, e vale a pena todo o trabalho que se tem, para ver aquele respirar ansioso a quem nós oferecemos. Sim, porque isto é um tempo de partilha, de mostrar-se a quem nos é querido, da importância e espaço ocupam no nosso coração.

Mas também esta altura, tem um sentimento ambivalente.

É na altura de por a mesa, que podemos também sentir a falta!

Todos nós passamos por diferentes momentos, diferentes configurações da nossa mesa de repasto. Entre famílias mais extensas, ou refeições mais solitárias, tudo se faz para não quebrar com as tradições, até mesmo para manter viva e perto de nós, os usos e hábitos que quem connosco já não se encontra. O tempo não perdoa, e assim sendo, leva o que é dele. Já fomos netos, filhos, irmãos, pais, companheiros, e com esse desenrolar de papeis, uns partem e outros chegam.

“Odete anda na sua afaza-ma do costume, o mundo assim a obriga. É dia 24, e todos estão a chegar. Começou cedo nesse tão conhecido ritual. Pela manhã começa por preparar o seu tão apreciado bacalhau, que fora comprado naquela pequena loja na baixa de Lisboa, que sempre vendeu o bacalhau que mais agrada. Ela tem um prazer redobrado em ver todos sorrir, em sentir a gula nos outros, do que das suas mãos é elaborado. Já o tinha deixado a demolhar há uns dias, pois todo o cuidado é pouco, e para ela tem de estar tudo perfeito. Depois é altura das frituras. Os filhoses! Essa receita antiga que a sua mãe lhe ensinou com tanto carinho, que já antes tinha sido aprendido com a sua. A massa fica a levedar, dando-lhe tempo para ser polivalente, pois essa é a palavra de ordem. Os sonhos aqui existem em cima da mesa, e até ontem há noite com eles sonhou. Nada pode faltar, é sempre essencial que sobre.

Naquela correria que vai da cozinha à sala, seria tão importante ter Jorge ao seu lado. Como era essencial este trabalho de equipa, mesmo que ele pouco fizesse. Era o estar que mais importava, aquela disponibilidade para a qualquer pedido realizar. Mas para ela, esse vazio existe. Ele já partira há dois anos, e isso nestas coisas, é tão pouco tempo. Esse sabor amargo que a rodeia, aperta-lhe o coração. Foram quarenta anos de companheirismo, de amor, que terminar tão antes de tempo. A historia não devia ter sido interrompida. As saudades acompanham-na a cada passo que dá, e para isso não há solução. Sente-se só naquelas noites de Inverno, que o toque dos outros nos aquece. Aquele lugar vazio na sua mesa, onde antes comiam dois, agora na maioria das vezes, partilha com a televisão as conversas que lhe eram tão familiares. Não era preciso grandes coisas, bastava a companhia. E isso não pode ser substituído. Já teve casa sempre cheia, pois com quatro filhos, difícil era estar sozinha. Mas a vida leva e traz tanta coisa. Foi vendo os seus precisos filhos a crescerem, a construírem uma vida, na qual ela sempre fará parte. Mas ela sente. Sente tanta falta dele, nunca se tinha sentido tão só! Sem discussões, só com ocasionais divergências, que rapidamente eram resolvidas, a vida era tão idílica com Jorge. Todos aqueles hábitos dele, depois de uma vida de trabalho, podiam viver ao seu ritmo. O acordar de manhã e olhar para o lado, e ver, sentir que ele ali estava, que ele queria estar. Ia como de costume ao velho quiosque comprar o seu jornal, que ao sábado pela manha era folheado à mesa. E com essas palavras imprimidas, trazia também o pão acabado de cozer. Era neste momentos que para Odete estava o cerne da sua felicidade. Era alguém com quem tudo se partilhava, tudo era permitido. Tinha-o conhecido na festa da sua aldeia de origem. Era um moço vistoso, com o seu chapeu tão característico, e no meio da multidão partilharam um olhar, que para sempre os mudou. E daí, de um simples momento, construiu-se uma vida. E ela adorava a vida que tinha, melhor, ela amava tudo! Lembra-se também que seus pais não lhe davam a liberdade que desejava, mas por portas e travessas, arranjava sempre forma para estar um pouco com ele. Ela sentira que era com ele que estava predestinada ficar, quase como se tivesse sido uma cara a encontrar a sua metade. Como é que se pode viver, depois de perder tal coisa, e fora com um simples nome, que o perdeu. Um simples acontecimento, que tudo mudou, que vazio ficou o seu coração. Os seus filhos tanto apoio lhe tem dado, e como lhes está grata, mas sente tantas saudades de Jorge. Ele fora o farol para a sua barca que à deriva andava. Era o alimento para a sua alma, o raiar do seu dia, mas agora, depois de partir, o sol nunca mais sorriu como antes. A mesa até estava mais preenchida, mas o seu coração ainda gritava por ele, tentava o procurar, mas só nas recordações o encontrava, e como é duro não ter, não tocar, não ouvi-lo. “Jorge! Jorge! Tanta falta me fazes! Tenho tantas saudades que nem consigo explicar. Olho para a cadeira vazia, do outro lado da nossa mesa e anseio encontrar-te, falar-te, abraçar-te e nunca mais te largar, mas hoje abraço a tua ausência. Sabes, ainda dou por mim à deriva pela casa a tentar reaver-te, para te manter perto de mim, para aconchego encontrar no teu regaço. Onde andas meu amor? O destino é cruel. Agora, logo agora, que a vida era só para nós, que tempo tínhamos para tudo, tu partiste. E eu fiquei! O António ainda o outro dia me estava a falar de ti. Lembraste quando o ensinaste a pescar? Com uma vara, um fio, uma rolha e um anzol uma cana lhe fizeste, e o mais engraçado é que ainda a hoje a tem! Também sei que todos eles sofrem por não te terem, e como alegre fico de termos construído uma família como a nossa. Todos eles têm estado, onde tu já não te encontras. Vem tantas vezes visitar-me, e é bom. Mas ao final do dia, quando para a cama me desloco, era tu que eu queria. A cama parece tão grande e gelada sem ti! Gostava tanto de te ver com os óculos descaídos para a ponta do teu nariz enquanto lias, e como era de habito pedia-te para em voz alta leres. Gosto tanto da tua voz, e como me sinto sortuda pelos nossos filhos terem feito todos aqueles momentos gravados para não te perder totalmente, pois ali ainda existíamos. Dou por mim a ver vezes sem conta momentos que nada supostamente de especial têm, mas para mim, têm um valor acrescido. Onde estás meu amor? Onde te posso encontrar? A única coisa que me alivia é que te encontrarei, assim a minha fé me diz. E anseio com todas as forças que ainda tenho esse momento, em que te possa ter de novo. Sinto a tua falta, e para sempre a sentirei. A ponta da mesa era tua, e nesse espaço vejo agora o buraco que tenho dentro de mim. Olho para te rever, e com tristeza encontro-me só a mim no espelho que tínhamos comprado na viagem que culminou a nossa união, a nossa lua de mel. Simples foi, mas o que importa não é onde, é com quem! Por agora tenho de te deixar meu querido, eles estão quase a chegar e eu ainda tenho de fazer muitas coisas, pois quero que tudo seja perfeito, eles merecem. Mas volto, volto sempre para ao pé de ti. Como te amo, como fui feliz, tu sempre foste o que sempre desejei. Uma vida inteira contigo, e mais vidas viveria, desde de que tu lá estivesses. Um até já meu amor!”

E com um tocar da campainha tudo iria começar, o Natal chegara!

Anúncios

Autor: Pedro Garrido

A Psicologia sempre foi para um sonho de carreira que agora concretizei. Sempre senti que esta profissão tem de ser a única escolha que alguém tem de ter, pois também neste âmbito tem de ser uma questão de vocação, como se tivesse-mos um chamamento que se reflecte na capacidade de estarmos próximos de quem a nós recorre. Da mesma forma que os pacientes tem de abraçar este caminho, também nós o temos de fazer, abraçando também quem está frágil, desmotivada, desacreditada. Assim me apresento a vós com a esperança que este espaço vos traga algo de novo. contacto 965172940. Avenida 5 de Outubro, 10, piso 7, sala 14, Lisboa

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s