O homem no metro.

Todas as manhãs, pelas nove e meia lá está ele, sentado naquela velha estação de metro, escurecida pelo tempo que tem, imagine que o metro em Lisboa faz setenta anos. Mas deixem-me falar um pouco dele. Uma pessoa perfeitamente normal, que se levanta todos os dias, que tem o seu fiel companheiro, o seu gato, sempre ali, pronto para estar com ele, e como o satisfaz! Depois de lhe dar de comer e de lhe por agua, entra na sua própria rotina. Bebe um café, fuma um cigarro e segue para o chuveiro. Fica lá a seguir a agua que quase o abraça de que tão bem lhe sabe, e ele ali fica a sentir o toque na sua pele. Já faz tanto tempo que isso não acontece. Deixem-me que vos fale de dois conceitos parecidamente diferentes. Falemos da saudade e da nostalgia. Para mim, e no meu entendimento, ambos podem ter cargas completamente diferentes. Falemos da nostalgia, é uma memoria que nos faz sentir, que nos lá recorremos com frequência, quase como se necessitássemos de nos sentirmos assim novamente, de lá voltar e acima de tudo queremos lá voltar, tento na nossa mente, como na partilha com os amigos. Quantos de nós quando mais tarde encontramos aqueles que fizeram parte da nossa vida, que importaram, que foram uma escolha, e nessa escolha, foi tão bom partilhar com eles um pedaço de vida. Como pode ser bom recordar! A saudade já pode remeter para outro espaço, mais sombrio, mais doloroso. Podemos dizer que esta palavra, que poucas um nenhuma tem, porque nós como povo, como não, como língua, tivemos de inventar uma palavra destas. Muitos fados já se cantaram por causa dela. Mas a saudade podemos trazer sofrimento, de várias formas e feitios. Exemplo da morte de alguém, enquanto não conseguimos terminar o nosso processo de luto, o aceitar que uma fase da vida acabou e que é preciso reinvenção, e quando isso não acontece, quando não conseguimos encontrar um novo sentido para a vida, a saudade doi sempre.

Banho tomado, barba feita, e lá vai ele escolher a roupa do dia, sim porque ele apresentava-se bem. E depois de tudo isto lá caminhava ele, prédio entre prédio nesta fila que aprecemos formigas a ir para o ninho. Ele acha fascinante esse movimento, tudo de desloca, sem se conhecerem, sem nem sequer partilharem uma palavra, mas ali vão, às vezes como sardinhas, mas toleram a proximidade do outro, até mesmo o cheiro do outro, e isso é tão intimo. Mas está ele naquela estação olhando para os outros. Como repara ele em tanta coisa, já viu tanto que aprendeu a realmente observar. E sempre que olha para alguém poucos são qu estão a sorrir, que não parecem tristes, preocupados. Ai como deve ser difícil não conseguir para de pensar! E mais uma coisa, senão a essencial, parecem que só existem, que só conseguem sair de si próprio, é quando estão em interação com o outro. Quando vê pessoas a interagir com pessoas vem realmente o seu humano no seu esplendor, seja presencialmente ou como está tanto na moda pela facilidade que nos trouxe, o online.

Deixem só dizer mais uma coisa, existem doenças em que esta relação com o outro não é compreendida, desejada ou seguro. Vou-vos só dar alguns exemplos para não me alongar. Se falarmos do espectro do autismo, não existe um vinculo, uma compreensão plena do que é este mundo que nos rodeia, e acima de tudo para e como se interage com o outro. Por outro lado, podemos falar de duas perturbações da personalidade. Desculpem se a linguagem ser demasiado técnica, mas as coisas têm de ter nomes para ser compreendidas, avaliadas e tratadas. Na perturbação esquizotipica da personalidade não se pretende ter relações, não se precisa, também aqui não se percebe o que fazer, como estar como fazer. Na perturbação esquizoide da personalidade, a relação com o outro é muitas vezes ameaçadora, então evitada a todo custo.

Voltemos ao homem do metro. Perguntam vocês porque aqui o metro é tão importante. Sabem o que é nos sentimos realmente sós? Ele sente-se assim há tempo demais, e neste movimento, naquele espaço está com alguém. Muitas vezes ele procura desesperadamente que alguém nele repare, que lhe sorria, que bom dia lhe diga, mas no final de cada viagem sai tão frustrado e triste como entrou, e assim passa o dia, de linha em linha, de estação em estação, pois a alternativa é bem pior. Como a solidão pode ser algo tão intenso, que nele por vezes vêm em ondas que parecem tsunamis que não param de chegar, e ele tão tem alternativa senão esperar mais nada, mas neste entretanto o tempo passa e mais ele sozinho ele se sente.

 

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Autor: Pedro Garrido

A Psicologia sempre foi para um sonho de carreira que agora concretizei. Sempre senti que esta profissão tem de ser a única escolha que alguém tem de ter, pois também neste âmbito tem de ser uma questão de vocação, como se tivesse-mos um chamamento que se reflecte na capacidade de estarmos próximos de quem a nós recorre. Da mesma forma que os pacientes tem de abraçar este caminho, também nós o temos de fazer, abraçando também quem está frágil, desmotivada, desacreditada. Assim me apresento a vós com a esperança que este espaço vos traga algo de novo. contacto 965172940. Avenida 5 de Outubro, 10, piso 7, sala 14, Lisboa

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