Amo-te na morte, Odeio-te em vida…

Tudo o que se ganha pode-se perder, melhor, e quanto mais se deseja, quanto mais essencial se torna, mais difícil é depois viver nesse esbatimento do que já se conseguiu ser.

O amor, tanto amor que se precisa, tanto amor se anseia! Quando estamos sozinhos, sem ninguém ao nosso lado, por vezes dando-nos significância, razão de existir, vazios nos sentimos, olhando da esquerda para a direita, para com alguém se cruzar, alguém que repare nos olhos triste solitários, que procura outro olhar, um olhar que o veja, que lhe diga que o que quer ainda pode chegar, até está quase, mas que pode fugir se o momento passar.

A vida é feita de instantes, ocasiões a serem aproveitadas, investigadas, de forma a que percebamos, entendamos o que ali se passou.

O amor, ai o amor, como se ama odiar o que ele nos pode trazer…

Reencontrar alguém que já foi nosso, não sabendo quando, nem onde, mas que já pertenceu. Estranho é quando nos deparamos com alguém que nunca avistamos, que nunca sentimos, mas que no primeiro instante, no primeiro toque dos olhares, no cheiro do paladar, tudo nos parece demasiado familiar. Parece que chegamos a casa, sem nunca de lá termos saído, mas agora sabe a lar.

É verdade, quase absoluta, que o amor é o que nos faz mais sofrer, pois cria-nos dependência, passa a ser essência, o centro de tudo, mas que mesmo assim, havendo uma possibilidade razoável de perdermos o que mais queremos, que fiquemos sem chão para andar, sem força para o caminho, que mesmo sabendo tudo isto, vale mais do que tudo.

A vida torna-se mais difícil quando vivemos em função de prevenir sofrimento, com medo de tudo, sem perceção do que se perdeu, ao hesitar, ao desviar o nosso caminho, simplesmente por poder ter encontrado alguém que mete receio conhecer, pois sabemos que depois daquele primeiro momento, depois de provar o fruto desejado, pois de proibido não tem nada, será tão mais difícil viver sem ele.

Há quem não prove o prato do outro com medo do arrependimento, também existem pessoas que de tudo fazem para fugir da dor. Depois da dor vem o alivio, e assim a vida continua, entre dor, prazer, razão, tudo se mistura na cor a que chamamos vida. Vida. Vida. Se viver é sentir, então morrer é a ausência do mesmo. Quantos de nós mortos parecem estar, sem vida, numa penumbra que nada revela, o futuro é incerto, e nesse sentido, nessa premissa de vida, é melhor quieto ficar.

Depois do amor o que fica? Primeiro um vazio abismal, sem fundo aparente, numa queda continua ficamos, onde tudo inflama e tudo magoa.

A ausência traz ressaca, pior do que a da heroína, pois essa sabemos que em sete dias se vai, e esta particular abstinência, esta falta de tudo, por vezes parece arrastar a sua estadia, até nos esgotar a vontade de viver, e no fundo da esperança, mesmo com a alma destruída, ainda para o amor queremos voltar. O ser humano parece masoquista, mas depois da dor, pode vir a bonança, e para ai sempre caminhamos, mesmo que não saibamos o lugar, ele está lá para ser encontrado.

Ai o amor, esse companheiro injusto, que nos diz que agora está tudo bem, em que naquele agora nos faz sentir completos, preenchidos de tudo. Vicio lixado, vicio essencial. Depois de estar preenchido, o coração já não consegue viver vazio!

Manuel ama-a profundamente. Mais que tudo na sua vida, mesmo que a sua existência, que só depois de a conhecer fez sentido, só resiste às intemperes da vida, com ela ao seu lado, ela o seu porto seguro, o seu ninho criado. Desde sempre sabia dela, mas nunca a tinha encontrado, até o momento em que ambos se cruzaram, num breve e eterno momento, ele finalmente poderia descansar, a sua demanda tinha terminado. E nos olhos dela ele vê futuro, vida, caminho, mas agora já não só, ela ali estaria para tudo, para o trajecto já antes palmilhado, mas nunca sentido, agora seria diferente, agora seria real.

Manuel ama-a loucamente. Coisa desmesurada aos olhos de muitos, mas essencial para ele, tal com o sangue circular, ou o oxigénio entrar.

Ele ama-a, coisa bonita essa quando se pode viver na sua plenitude. Mas ele não estava preparado para a perder, para ir para não mais voltar, deixando memorias acutilantes, pretas, que ocupam todo o espaço, que sufocam, que lembram a todo o momento a ausência, a falta de tudo, a ausência do nada. Naquela tarde ela saiu, sorrindo-lhe um até já, mostrando que ainda nem foi, e já falta dele sente, pois se para ele ela é tudo, para ela, ele é o seu futuro garantido, sem riscos, só amor.

Merda para o amor quando pode ser vivido, momento a momento. Viver o agora é tão difícil, ele está sempre a passar, para o futuro se revelar. Medo todos temos de perder o momento, aquele mesmo que significado pode dar à vida, e tudo melhora, tudo fica mais brilhante, desejado. Tudo na vida tem um principio, um meio e um fim, e para ele foi cedo demais, seria sempre…

Amo-te na morte, Odeio-te em vida.

Onde estás? Para onde foste? Porquê que me deixaste sozinho, perdido?

Procuro-te para não mais te encontrar, para ansioso ficar, por te ver nos meus sonhos, mas não te conseguir chegar.

Onde estás? Onde andas? Quero-te, mas não te acedo, vives na minha mente, mas abandonas-te a minha vida mundana, e é aí, que te preciso.

Onde estás? Parece-me que me olhas, mas nem comigo falas, diz-me alguma coisa, nem que seja que já comigo não queres estar, prefiro dor a silencio.

Troco a tua ausência, pelo esquecimento, ai o esquecimento, que bem que sabia, que bem que fazia, para dormir, para conseguir imaginar algo, sem a tua contaminação.

Estás em todo lado, mas não te vislumbro em lugar nenhum.

Amo-te na morte, Odeio-te em vida!

Partiste sem aviso, sem ponderação, sem preparação, e levaste contigo tudo de bom que tinha na vida. És tu, simplesmente tu que escolhi, que quis realmente. Valeu a pena essa escolha?

Hoje não, mas ontem, no tempo anterior, em que existia para mim, que te podia tocar, sentir aquele teu cheiro da manha, que sabe tanto a casa. Onde é o meu lar agora? No cemitério não é de certeza…

Amo-te em vida…

Sempre te amei, sempre te venerei, eras o meu todo de vida, o meu centro, onde queria sempre voltar. Para onde vou agora? Perdi-me nesta procura incessante de ti, e já nem sei onde estou, já nem sei se quero realmente estar em algum lado, pois a cada esquino que cruzo, nada encontro, a não ser a minha sombra.

A cama acorda vazia de ti, carente do teu encosto, e eu ali, naquele canto esquecido, tento não procurar-te no outro lado, não quero mais sentir logo falta pela manhã, perdoa-me, mas tenho de te odiar, tenho de te afastar, tenho de me libertar…

Como seria fácil se assim fosse, mas tu, simplesmente por teres existido, por respirares e o teu coração bater, foste tudo para mim, e assim serás, pois a partir daquele momento o meu futuro foi traçado, sem ti. Onde andas? Tento não ser incoerente, mas quase desejava que houvesse um céu e um inferno, para que talvez um dia, no leito da minha morte, ainda houvesse uma hipótese remota de te reencontrar. O problema é que não sei se iria para o mesmo lugar que tu. Tu fazias de mim uma melhor pessoa, e nesse sentido, e nessa significância, deixei de o ser, deixei de acreditar, deixei de querer ser o que quer que fosse, agora já nada faz sentido.

Amo-te na morte, mas tenho de te Odiar em vida, pois as reminiscências de uma vida contigo partilhada dói demais, corta-me o peito meu amor.

Tu foste e eu fiquei, distancia injusta para ambos! Perdeste-me também, já ninguém se recosta no meu peito, pois esse lugar para sempre reservado ficou. Esse lugar será para sempre teu. E teias de aranha terá, para demonstrar a falta de uso, a reserva de alguém que nunca vai chegar, mas nunca se sabe, talvez me chegues nos sonhos, por favor volta, nem que seja numa realidade subjetiva.

Grita-me, olha-me, existe para mim, por favor, não sei aguento a tua inexistência…

Odeio-te em vida!

Aqui fiquei, aqui estou, parado, sem saber para onde ir, nem sequer saber se quero, se consigo. Amar-te dói demais, e tenho de te odiar por isso, perdoa-me meu amor, meu carinho, minha razão de existir, já não suporto as memórias, que só me lembram que te perdi, que já não te tenho, que te quero, mas já não te alcanço.

Odeio-te em vida!

Quem me der conseguir!

Desculpa já não sei o que digo, a dor atrapalha-me a mente, engana-me os sentidos, nem articular como deve ser consigo, mas sempre me deixaste sem palavras e sempre te amei por isso, mas agora, neste momento, eu, sozinho e desesperado, só daqui quero sair, ponderar que ainda posso viver, sem ti! Que vazio amor, que insuficiência de vida.

Amo-te na morte, ODEIO A MINHA VIDA SEM TI!

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Autor: Pedro Garrido

A Psicologia sempre foi para um sonho de carreira que agora concretizei. Sempre senti que esta profissão tem de ser a única escolha que alguém tem de ter, pois também neste âmbito tem de ser uma questão de vocação, como se tivesse-mos um chamamento que se reflecte na capacidade de estarmos próximos de quem a nós recorre. Da mesma forma que os pacientes tem de abraçar este caminho, também nós o temos de fazer, abraçando também quem está frágil, desmotivada, desacreditada. Assim me apresento a vós com a esperança que este espaço vos traga algo de novo. contacto 965172940. Avenida 5 de Outubro, 10, piso 7, sala 14, Lisboa

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