Empatia, ver o mundo pelos olhos do outro.

Estava sentado no metro, distraído pelo que a tecnologia já permite, embrenhado na visão voyerista que a quase obrigatoriedade cultural das redes sociais assim o exige, com banda sonora como de costume que ainda mais me isolava no meio dos outros. Lá estava eu comigo, quando algo o meu lado direito me chamou a atenção, e como reação instintiva olhei de relance, sem grande atenção, sem foco ou propósito, sem intenção de interação, e de novo voltei ao que fazia.

Mas algo mudou com esse simples movimento de pescoço que tantas vezes fazemos, num instinto ou procura de um caminho, mas naquele momento o meu cérebro apreendeu algo e ficou curioso, quis saber mais, e como tal assim me ordenou para que lhe desse importância, ao que ainda não conhecia, mas que pelos vistos assim ele o desejava. Assim surge aquela pequena ansiedade que nos mobiliza, que nos acorda, abana, como se fossemos de novo crianças, naquele dia tão desejado, a véspera de Natal, em que sabemos como bem nos iremos sentir no dia seguinte, com família, doces, prendas, novidades. Ai como é bom desejar que um outro momento chegue, nos presenteie com o que ansiamos. A ansiedade não é nossa inimiga sempre, esta, este tipo de sentir, faz-nos bem, refresca-nos, faz-nos sonhar, planar até.

Quando o meu olhar parou, finalmente reparei no que comigo parecia falar. Uma simples figura de um alguém, que não me era familiar, não o reconhecia, mas já próximo dele me sentia. Assim o olhar foca, o cérebro apreende o que os olhos me mostram, e observo a simplicidade daquele homem que me encantou. Não teria mais de um metro e sessenta, e em primeiro reparo nos seus pés desnudos, sujos, maltratados, nuns chinelos enfiados. Isso despertou em mim uma ponta de tristeza, ainda não sabia bem porquê, mas o prognóstico não parecia favorável. Vou subindo e as aquelas calças de ganga gastas pareciam confirmar o pior, mas ainda não detinha todas as informações. Continuando para desvendar o que me tinha despertado a atenção, reparo num t-shirt vermelha, que destoava das cores pasteis das paredes, e de relance li uma das cinco palavras se lá estavam – “vi”. Nada de especial em isolado, mas no global iria fazer-me sorrir, este sentido humano escrito. Como normalmente o faço, procurei o contacto visual com ele, pois nesse momento, em que dois olhar se cruzam, e se fixam, alguma intimidade se passa, mas paradoxalmente nada senti, e estranhei. Novamente as objetivas dos meus olhos focaram e para meu espanto percebi que aquele rapaz que à minha frente estava, com os pés enegrecidos, calças marcadas do uso, t-shirt que dizia vi, era invisual.

Aí ainda mais curioso fiquei preso na palavra lida, que com o resto não encaixava, e tentei perceber o que mais a sua camisola dizia.

EU VI VACAS EM LISBOA

Como?

Levei alguns segundos a perceber, fiquei confuso sem entender o que seria o correto, o que tinha visto, o que eu tinha lido, que ele tinha feito?

Esbocei um sorriso, não de gozo, mas de uma estranha coincidência, pois fiquei intrigado.

Saberia ele que tinha vestido uma t-shirt em que dizia que EU VI VACAS EM LISBOA naquelas grandes letras brancas, centradas no seu peito?

Teria sido uma casualidade?

Bom no primeiro caso era representativo de um humor muito apurado, de uma capacidade de brincar com a sua própria diferença que merecia todo o respeito.

No segundo caso podia ser o cumulo da ironia, entre tantas hipóteses e variáveis de possibilidades de momentos possíveis, o destino ter posto aquele homem diante os olhos de alguém, que naquele momento reparou, na ironia que a vida pode conter.

Isto fez-me pensar num outro conceito que remete para a palavra – Ver.

Em linguagem comum também podemos definir a empatia como vermos o mundo através dos olhos do outro. E com base neste conceito que também tenho, por momentos imaginei-me a tentar ver o mundo pelos olhos daquele rapaz, mas de repente as luzes apagaram todas ao mesmo tempo, tudo escuro ficou. Senti uma solidão amedrontada, que me incomodou, e para mim tive de voltar. Foi estranho. Tentei perceber o que isso significava, mas ainda mais confuso fiquei. Até me senti constrangido pois por momentos pareceu que poderia estar a ser preconceituoso, ou até insultuoso, e ansioso fiquei. Estava a dar demasiada importância ao conceito semântico, pois fora por aí que assim tinha ficado, pois sei perfeitamente que a empatia tem três dimensões, a afetiva, a cognitiva e de regulação de emoções, mas as palavras valem muito no nosso pensamento, são a sua base.

Depois lá percebi, não estava preparado para perceber o mundo de uma pessoa invisual, pois até já tinha experimentado, para tentar perceber o quão difícil seria, mas se para mim, uns breves instantes distante do olhar pareceram horas, nem imagino o que pode ser uma vida assim. Torna-se difícil realmente entender o que isso pode significar, sem termos todas esta referencias que a visão nos dá, mas como já podemos constatar, também pode tirar, e na escuridão nos deixar.

Sendo que todos nós somos feitos de camadas diversas, diferentes substratos criados e alimentados pela nossas vivenciais, a perceção sensorial é uma das portas para a nossa ligação ao mundo. Neste caso percebi que fiquei preso numa dessas camadas, o impacto visual que o mundo nos trás, que nos informa do que ao nosso redor se passa, e baseado nas nossas premissas, significado atribuímos. Nesse sentido fiquei preso a falta de informação em que ficaria no caso da luz que me traz as imagens desaparece-se, para a escuridão me invadisse. Como seria difícil aceitar a negritude que a vida teria!

Fiquei preso na dimensão corporal. Nos cinco sentidos que dou por garantidos, que nasceram comigo e espero que só desliguem quando eu também o fizer desta vida mundana, e percebi, pena que tenha sido fora de tempo, que para realmente entender, para realmente perceber, para deixar o outro ser mais uma parte de mim, nem que fosse por um instante, teria de o conhecer. De conhecer o que para ele significava o desenho, a imagem de uma vaca em Lisboa. Como seria para ele uma vaca? Duvidas às quais só terei resposta, se nas inúmeras viagens de metro, me embarrasse com ele novamente. Espero que sim, assim tentarei.

Como será ver o mundo por quatro sentidos?

O arrependimento é duro, e quando me sentei dentro do metro uma angustia invadiu-me, pois perdido nos meandros do meu pensamento, perdi a oportunidade de me sentar com aquele individuo, que necessidade em mim gerou de conhecer um mundo diferente, e com os automatismos corporais que temos, como na condução em que muitas vezes fazemos o necessário para continuarmos caminho, mas não lhe damos a devida atenção e assim pode acontecer o espaço a mudar, mas a perceção não acompanhar, também eu já estava distante dele. Quantos de nós sonha acordado, e preso nesse sonho, nem nos apercebemos que continuamos viagem, e quando abrimos os olhos até já podemos ter chegado ao destino pretendido. Também eu me ganhei consciência tarde demais do que podia ter feito, depois disso até passou a ser preciso, mas o momento passara, e o tempo não volta atrás. Eu já estava dentro daquele sufocante metro, desejoso de voltar para trás, tentar recuperar o que nunca tive, mas agora precisava, mas nada podia fazer a não ser esforçar-me para que este acontecimento não se transformasse numa reminiscência. Teria de lá voltar em breve, falar com ele, preocupar-me com a sua pessoa, e com ele partilhar um momento, e ganhar mais uma percepção individual, enriquecer sobre o que pode também ser a vida de outro eu.

Fiquei a pensar incessantemente sobre o que me tinha acontecido, rindo-me da vida que ali me plantou, para reparar, e a ele para me alegrar, mesmo sem me ver, mesmo sem proximidade, ele tocou-me, e dentro de mim existirá para sempre.

Será que ele sabia o que graficamente representa o som, o cheiro, o toque até o sabor o que já lhe tinha sido possivelmente mostrado o que seria uma vaca? Alguma vez tinha enxergado, ou sempre tivera vivido num mundo de escuridão? Como seria o dia a dia dele? Como se teria adaptado a uma vida diferente da minha?

Tantas perguntas às quais já podia ter uma resposta, se não tivesse deixado passar o instante.

Há coisas difíceis de compreender sem pelos menos conhecer de mais perto!

A empatia é um conceito muito mais complexo, não remete só para a corporalidade, remete para um entendimento subjetivo, em que passamos a reconhecer o outro como uma outra parte de nós, desconhecida, mas possivelmente familiar se assim entendêssemos se permitíssemos tentar compreender aquela perceção de mundo , como o nosso possível alter-ego, como outro eu, uma extensão de nós, mantendo a nossa individualidade, pois a manutenção da nossa integridade psicológica é essencial.

Mais de empatia falarei, até porque pouco disse ou quase nada, mas foi com base neste evento de uma tarde de sábado que o meu interesse despertou.

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Autor: Pedro Garrido

A Psicologia sempre foi para um sonho de carreira que agora concretizei. Sempre senti que esta profissão tem de ser a única escolha que alguém tem de ter, pois também neste âmbito tem de ser uma questão de vocação, como se tivesse-mos um chamamento que se reflecte na capacidade de estarmos próximos de quem a nós recorre. Da mesma forma que os pacientes tem de abraçar este caminho, também nós o temos de fazer, abraçando também quem está frágil, desmotivada, desacreditada. Assim me apresento a vós com a esperança que este espaço vos traga algo de novo. contacto 965172940. Avenida 5 de Outubro, 10, piso 7, sala 14, Lisboa

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