Amo-te na morte, Odeio-te em vida…

Tudo o que se ganha pode-se perder, melhor, e quanto mais se deseja, quanto mais essencial se torna, mais difícil é depois viver nesse esbatimento do que já se conseguiu ser.

O amor, tanto amor que se precisa, tanto amor se anseia! Quando estamos sozinhos, sem ninguém ao nosso lado, por vezes dando-nos significância, razão de existir, vazios nos sentimos, olhando da esquerda para a direita, para com alguém se cruzar, alguém que repare nos olhos triste solitários, que procura outro olhar, um olhar que o veja, que lhe diga que o que quer ainda pode chegar, até está quase, mas que pode fugir se o momento passar.

A vida é feita de instantes, ocasiões a serem aproveitadas, investigadas, de forma a que percebamos, entendamos o que ali se passou.

O amor, ai o amor, como se ama odiar o que ele nos pode trazer…

Reencontrar alguém que já foi nosso, não sabendo quando, nem onde, mas que já pertenceu. Estranho é quando nos deparamos com alguém que nunca avistamos, que nunca sentimos, mas que no primeiro instante, no primeiro toque dos olhares, no cheiro do paladar, tudo nos parece demasiado familiar. Parece que chegamos a casa, sem nunca de lá termos saído, mas agora sabe a lar.

É verdade, quase absoluta, que o amor é o que nos faz mais sofrer, pois cria-nos dependência, passa a ser essência, o centro de tudo, mas que mesmo assim, havendo uma possibilidade razoável de perdermos o que mais queremos, que fiquemos sem chão para andar, sem força para o caminho, que mesmo sabendo tudo isto, vale mais do que tudo.

A vida torna-se mais difícil quando vivemos em função de prevenir sofrimento, com medo de tudo, sem perceção do que se perdeu, ao hesitar, ao desviar o nosso caminho, simplesmente por poder ter encontrado alguém que mete receio conhecer, pois sabemos que depois daquele primeiro momento, depois de provar o fruto desejado, pois de proibido não tem nada, será tão mais difícil viver sem ele.

Há quem não prove o prato do outro com medo do arrependimento, também existem pessoas que de tudo fazem para fugir da dor. Depois da dor vem o alivio, e assim a vida continua, entre dor, prazer, razão, tudo se mistura na cor a que chamamos vida. Vida. Vida. Se viver é sentir, então morrer é a ausência do mesmo. Quantos de nós mortos parecem estar, sem vida, numa penumbra que nada revela, o futuro é incerto, e nesse sentido, nessa premissa de vida, é melhor quieto ficar.

Depois do amor o que fica? Primeiro um vazio abismal, sem fundo aparente, numa queda continua ficamos, onde tudo inflama e tudo magoa.

A ausência traz ressaca, pior do que a da heroína, pois essa sabemos que em sete dias se vai, e esta particular abstinência, esta falta de tudo, por vezes parece arrastar a sua estadia, até nos esgotar a vontade de viver, e no fundo da esperança, mesmo com a alma destruída, ainda para o amor queremos voltar. O ser humano parece masoquista, mas depois da dor, pode vir a bonança, e para ai sempre caminhamos, mesmo que não saibamos o lugar, ele está lá para ser encontrado.

Ai o amor, esse companheiro injusto, que nos diz que agora está tudo bem, em que naquele agora nos faz sentir completos, preenchidos de tudo. Vicio lixado, vicio essencial. Depois de estar preenchido, o coração já não consegue viver vazio!

Manuel ama-a profundamente. Mais que tudo na sua vida, mesmo que a sua existência, que só depois de a conhecer fez sentido, só resiste às intemperes da vida, com ela ao seu lado, ela o seu porto seguro, o seu ninho criado. Desde sempre sabia dela, mas nunca a tinha encontrado, até o momento em que ambos se cruzaram, num breve e eterno momento, ele finalmente poderia descansar, a sua demanda tinha terminado. E nos olhos dela ele vê futuro, vida, caminho, mas agora já não só, ela ali estaria para tudo, para o trajecto já antes palmilhado, mas nunca sentido, agora seria diferente, agora seria real.

Manuel ama-a loucamente. Coisa desmesurada aos olhos de muitos, mas essencial para ele, tal com o sangue circular, ou o oxigénio entrar.

Ele ama-a, coisa bonita essa quando se pode viver na sua plenitude. Mas ele não estava preparado para a perder, para ir para não mais voltar, deixando memorias acutilantes, pretas, que ocupam todo o espaço, que sufocam, que lembram a todo o momento a ausência, a falta de tudo, a ausência do nada. Naquela tarde ela saiu, sorrindo-lhe um até já, mostrando que ainda nem foi, e já falta dele sente, pois se para ele ela é tudo, para ela, ele é o seu futuro garantido, sem riscos, só amor.

Merda para o amor quando pode ser vivido, momento a momento. Viver o agora é tão difícil, ele está sempre a passar, para o futuro se revelar. Medo todos temos de perder o momento, aquele mesmo que significado pode dar à vida, e tudo melhora, tudo fica mais brilhante, desejado. Tudo na vida tem um principio, um meio e um fim, e para ele foi cedo demais, seria sempre…

Amo-te na morte, Odeio-te em vida.

Onde estás? Para onde foste? Porquê que me deixaste sozinho, perdido?

Procuro-te para não mais te encontrar, para ansioso ficar, por te ver nos meus sonhos, mas não te conseguir chegar.

Onde estás? Onde andas? Quero-te, mas não te acedo, vives na minha mente, mas abandonas-te a minha vida mundana, e é aí, que te preciso.

Onde estás? Parece-me que me olhas, mas nem comigo falas, diz-me alguma coisa, nem que seja que já comigo não queres estar, prefiro dor a silencio.

Troco a tua ausência, pelo esquecimento, ai o esquecimento, que bem que sabia, que bem que fazia, para dormir, para conseguir imaginar algo, sem a tua contaminação.

Estás em todo lado, mas não te vislumbro em lugar nenhum.

Amo-te na morte, Odeio-te em vida!

Partiste sem aviso, sem ponderação, sem preparação, e levaste contigo tudo de bom que tinha na vida. És tu, simplesmente tu que escolhi, que quis realmente. Valeu a pena essa escolha?

Hoje não, mas ontem, no tempo anterior, em que existia para mim, que te podia tocar, sentir aquele teu cheiro da manha, que sabe tanto a casa. Onde é o meu lar agora? No cemitério não é de certeza…

Amo-te em vida…

Sempre te amei, sempre te venerei, eras o meu todo de vida, o meu centro, onde queria sempre voltar. Para onde vou agora? Perdi-me nesta procura incessante de ti, e já nem sei onde estou, já nem sei se quero realmente estar em algum lado, pois a cada esquino que cruzo, nada encontro, a não ser a minha sombra.

A cama acorda vazia de ti, carente do teu encosto, e eu ali, naquele canto esquecido, tento não procurar-te no outro lado, não quero mais sentir logo falta pela manhã, perdoa-me, mas tenho de te odiar, tenho de te afastar, tenho de me libertar…

Como seria fácil se assim fosse, mas tu, simplesmente por teres existido, por respirares e o teu coração bater, foste tudo para mim, e assim serás, pois a partir daquele momento o meu futuro foi traçado, sem ti. Onde andas? Tento não ser incoerente, mas quase desejava que houvesse um céu e um inferno, para que talvez um dia, no leito da minha morte, ainda houvesse uma hipótese remota de te reencontrar. O problema é que não sei se iria para o mesmo lugar que tu. Tu fazias de mim uma melhor pessoa, e nesse sentido, e nessa significância, deixei de o ser, deixei de acreditar, deixei de querer ser o que quer que fosse, agora já nada faz sentido.

Amo-te na morte, mas tenho de te Odiar em vida, pois as reminiscências de uma vida contigo partilhada dói demais, corta-me o peito meu amor.

Tu foste e eu fiquei, distancia injusta para ambos! Perdeste-me também, já ninguém se recosta no meu peito, pois esse lugar para sempre reservado ficou. Esse lugar será para sempre teu. E teias de aranha terá, para demonstrar a falta de uso, a reserva de alguém que nunca vai chegar, mas nunca se sabe, talvez me chegues nos sonhos, por favor volta, nem que seja numa realidade subjetiva.

Grita-me, olha-me, existe para mim, por favor, não sei aguento a tua inexistência…

Odeio-te em vida!

Aqui fiquei, aqui estou, parado, sem saber para onde ir, nem sequer saber se quero, se consigo. Amar-te dói demais, e tenho de te odiar por isso, perdoa-me meu amor, meu carinho, minha razão de existir, já não suporto as memórias, que só me lembram que te perdi, que já não te tenho, que te quero, mas já não te alcanço.

Odeio-te em vida!

Quem me der conseguir!

Desculpa já não sei o que digo, a dor atrapalha-me a mente, engana-me os sentidos, nem articular como deve ser consigo, mas sempre me deixaste sem palavras e sempre te amei por isso, mas agora, neste momento, eu, sozinho e desesperado, só daqui quero sair, ponderar que ainda posso viver, sem ti! Que vazio amor, que insuficiência de vida.

Amo-te na morte, ODEIO A MINHA VIDA SEM TI!

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Não matem os velhinhos?

Não matem os velhinhos.

Perdoa-os meu Deus que eles não sabem o que dizem…

Já muito foi dito, até mexido, para que uma simples fotografia ganhasse significado de ignorância. Nem imagino o arrependimento de alguém que se manifestou sem saber o que dizia, pois no mundo dos adultos, no mundo das pessoas supostamente ponderadas, temos de alguma cautela quando fazemos afirmações de tal ordem.

Quem nos ouvir, quem der atenção a manifestações de opinião como esta, até pode achar que vivemos num pais com tendências nazis. Sim, afirmo isto pois se decidíssemos aniquilar quem supostamente não nos faz falta, quem já nada pode contribuir para este nosso mundo, estaríamos a esquecer a validade que esse ser, que agora não consegue, não pode, teve na criação em que vivemos.

Não matem os velhinhos!

Pois não, pois quem somos nós para decidir sobre o fim de vida de alguém. Podemos sim decidir o inicio de alguém, dar vida. Mas isso não chega, temos de dar mais, principalmente amor.

Não matem os velhinhos?

Se falássemos de dignidade humana tanto se podia dizer, tanto da nossa biologia como o nosso entendimento. Entendimento, consciência humana, cognição são conceitos só nossos humanos, pelo menos enquanto não percebermos melhor o resto do mundo que connosco coabita este planeta. Nesse entendimento, nessa estrutura que nos permite pensar, existe a consciência da morte. Todos nós sabemos que vamos morrer, o que muda é a forma como isso acontece.

O corpo humano só por si tem dignidade? Não, é somente um organismo vivo, que tem como objetivo sobreviver. Podemos também afirmar que a nossa dignidade advém da perceção que temos de nós, que temos do mundo.

Será que queremos matar velhinhos?

Todos nós lá chegaremos, todos nós envelhecemos. Mas o problema da morte não é só a eles destinado. Todos os momentos morrem e nascem seres humanos.

Queremos ver os velhinhos, os portadores de doenças terminais ou neurodegenerativas, apodrecerem devagar, até chegar ao ponto que a morte é um alivio? Será isso que se pretende para o final da dignidade humana?

Matamos alguém sequer?

Já quase todos os seres humanos já presenciaram alguém a morrer, a sofrer, a defininhar até nada restar a não ser uma ossada que merece descanso?

Falo-vos de um exemplo que nada de novo tem, nada de previsível a não ser a incapacidade, de algo que não tem cura, mesmo tratamento é insuficiente, fala-vos da esclerose lateral amiotrófica (ELA). ELA entre sorrateiramente, vai-se instalando e quando lhe apetece tira o que mais lhe convém.

Claro que vos falo do subtipo pior, pois no caso de permitirmos a alguém terminar com o seu destino predestinado, que nada de novo lhe vai trazer a não ser sofrimento e uma dependência extrema do mundo cá fora, um mundo que continua, que existe, e para aquela pessoa, que passa o dia imóvel, inerte, em que a vontade de mexer uma mão já não chega, o corpo não responde, e o desespero se instala. Esta doença está relacionada com o neurónio motor, responsável por muitos das características inatas que nos mantem vivos.

ELA não dá descanso, não tira férias, está sempre presente. Perde-se a voz, esta linguagem complexa, que é essencial para mantermos o nosso lugar no mundo, pois é essa voz que nos dá o direito de opinar, de não aceitar, de lutar por aquilo em que acreditamos.

É triste pensar que matamos velhinhos!

Mas ELA ainda não fica por aqui, vai-nos tirando tudo, deixando-nos sem nada. Dignidade humana? Imaginem um conceito simples. Imaginem que têm uma comichão que não passa, que incomoda, que irrita. Todos nós conseguimos satisfazer a necessidade de coçar, de arranhar mesmo deixando marca na nossa pele. Por vezes pedimos aos outros para nos aliviarem quando não conseguimos. E se não conseguíssemos fazer nada? Se até o simples facto de respirar tivesse de ter ajuda? Se beber, se sorrir, ai o sorrir que tanto é nosso, humano, fosse de todo impossível?. Como podemos sorrir, se nada o justifica?

Não queremos matar ninguém, isso é uma decisão pessoal, ponderada, até questionada, pois a eutanásia não é um matadouro, não é uma linha de montagem de morte.

ELA mata e não é assim tão devagar, mas nunca é depressa demais. Aquela imagem de um ser que já foi alguém, que sabe o seu final e sabe que pode estar próximo, mas não o suficiente. E se esta pessoa não tiver ninguém, nem alguém que lhe pudesse um copo de agua? Temos de matar a sede, mas não podemos matar o corpo doente, que tudo nos tira, que não nos permite viver. O que quer dizer viver? Para mim liberdade. Liberdade. E novamente liberdade.

Quem tem dinheiro pode matar os velhinhos.

Aqui o dinheiro mata. A viagem para a Suíça não é barata, a estadia também não. Talvez agora todos nós devíamos Planos Poupança para a morte, talvez as seguradoras assim o assumam, para que, quando já não há nada a fazer, quando os fármacos necessários para ausência de sofrimento nos impossibilitem de sermos gente, o fim do caminho de vida, o inicio do descanso merecido do guerreiro, que já nada pode fazer senão pousar a sua espada e não sofrer mais.

Todos nós sofremos, todos nós desejamos a uma certa altura da vida a morte, mas isso não pode ser critério de fim. Claro que tem de existir regras, por demais definidas, em que se criem as condições para esse ato ser aceitável, até mesmo o melhor para aquele ser que desespera, que sabe que não há nada a fazer a não esperar pelo fim.

Consultei, pesquisem, investiguem o que significa morrer com doença terminal, falem com eles, vão a um serviço de oncologia, de neurologia. Eles, que estão quase a terminar podem-vos dizer o que queriam para esse resto de vida. Nem todos querem morrer, mas alguns querem.

Não matem os velhinhos. Mas deixem ser eles a decidir se o final tem de ser tão catastrófico.

“Carlos tem trinta e dois anos, estando assim no pico da sua vida. Já tanto trabalhou para chegar onde chegou, pois ajudas teve poucas, ou quase nenhumas, mas isso nunca foi impedimento para tentar.

Um dia o tempo parou, o medo chegou para ficar, e a incerteza, passou a ser uma certeza absoluta. Coreia já por si é um termo pesado, principalmente com os acontecimentos atuais, mas quando seguida por huntington torna tudo muito pior.

Tudo começou com um pequeno tremor, um simples balançar da sua mão, que nada parecia ser, que nada podia até, pois só dele próprio Carlos dependia. E a partir desse momento iria precisar desesperadamente de alguém. Ele não sabia o que fazer, e pela primeira vez na sua vida não o conseguiria, não por não querer, não por não tentar, mas porque o seu corpo que lhe dava validade à sua mente, já não respondia, ou respondia de forma deficitária. Foi perdendo tudo, ficando sem nada, ficando um sombra da existência já vivida. Deixa de conseguir andar, de pensar até, e como isso o destrói, a sua mente sempre fora a melhor parte dele.

Deseja morrer todos os dias, e não é pelo excelente acompanhamento, entre neurologia, psiquiatria e afins, que as coisas melhoravam. Deseja que não acorde, para poder descansar, pois até nos sonhos nada consegue fazer, sonha com o fim anunciado, fechado numa cama, sem ninguém à sua volta. Para quê? Porquê que obrigaria alguém a passar por isso também, pois também aqueles que vivem em seu redor sofrem, num sofrimento atroz, em que nada podem fazer, nem mesmo o que ele precisa, de morrer…

Um dia, ainda quando conseguia fazer os mínimos, que não chegam, que nos lembram do que já perdemos, foi dar uma volta.

Depara-se com um centro comercial, que para ele era tão conhecido, tantas vezes ali passeara, mas agora as coisas eram diferentes. Ao chegar à sua entrada vê-se confrontado com um obstáculo, que tanto poderia ser o Evereste, de tamanha tarefa tinha, a porta!

O simbolo diz puxe, como se para ele fosse assim tão simples. Ele pensa em faze-lo, ordena-se para tal, mas nada responde. Nada. Nem um simples tremor que já foi sinal de intempere. E ali está ele, olhar o mundo que deseja por uma porta de vidro, sem conseguir a ele chegar. Tudo treme, a cabeça fraqueja, as pernas balançam. E ele, sozinho, perpetuadamente abandonado pelas suas capacidades, espera por algo que não irá acontecer. E ali jaze ele, em frente a uma porta, sem nada fazer, não pode!

O mundo passa por ele e parece nem reparar, tambem ele não o quereria, só queria poder, conseguir o que todos os outros dão por garantido. Para ele nada existe a não a ser a doença e o seu fim trágico. Ele não quer passar por isso, ele não vai passar por isso, mas para isso precisa de ajuda. Já nada faz sentido, já nada mais há para viver, a não esperar pelo fim, e como espera que seja rápido, mas por vezes esta doença não ajuda, tudo tira menos o ultimo sopro de vida.

E lá está ele naquela porta, mas já chove e ele nada pode fazer, a não ser esperar. Sabem lá vocês o que ele espera!

Mata-me de uma vez, tira-me deste corpo que já não é meu!

Mata-me e farás de mim um Homem FELIZ…

Mata-me e assim me salvarás…

Simplesmente ajuda-me a morrer…

 

A mesa de Natal.

Mesa abastada, lugares vazios.

Passámos mais um período de festejos, de confraternização, de reencontros, que é tão típica altura de que o ano nos proporciona. O Natal simboliza para muitos uma sala colorida, iluminada, de mesa sempre posta, com os típicos acompanhamentos, que divergem da nossa zona e cultura. Tudo à nossa volta nos recorda constantemente que um acontecimento que já tem dois mil e dezoito anos, e continua com a mesma importância que sempre teve. Tudo começa atempadamente, entre cozinha, decoração, e entre emoções partilhadas e desejadas. Como é reconfortante chegar a casa, e ter aquele cheiro tão característico, como as filhoses, as azevias, o polvo, o bacalhau, ou até mesmo o peru. Espalhados pelo chão, em redor do nosso pinheiro, verde, branco, até mesmo rosa, aqueles volumes envolvidos pelas cores, os laços, que as crianças anseiam por rasgar, para finalmente chegar ao objeto desejado. E como é tão recompensador, quando para elas, aquele momento, é de uma verdadeira euforia. Até porque com antecedência, o pai natal ou o menino Jesus, foram avisados, do que se queria. É uma altura em que os horários, os rituais da nossa vida comum são contornados, são até ignorados, pois o menino Jesus, chega sempre tardiamente, e ao chegar a meia noite corre-se, salta-se para tudo abrir, experimentar, e vale a pena todo o trabalho que se tem, para ver aquele respirar ansioso a quem nós oferecemos. Sim, porque isto é um tempo de partilha, de mostrar-se a quem nos é querido, da importância e espaço ocupam no nosso coração.

Mas também esta altura, tem um sentimento ambivalente.

É na altura de por a mesa, que podemos também sentir a falta!

Todos nós passamos por diferentes momentos, diferentes configurações da nossa mesa de repasto. Entre famílias mais extensas, ou refeições mais solitárias, tudo se faz para não quebrar com as tradições, até mesmo para manter viva e perto de nós, os usos e hábitos que quem connosco já não se encontra. O tempo não perdoa, e assim sendo, leva o que é dele. Já fomos netos, filhos, irmãos, pais, companheiros, e com esse desenrolar de papeis, uns partem e outros chegam.

“Odete anda na sua afaza-ma do costume, o mundo assim a obriga. É dia 24, e todos estão a chegar. Começou cedo nesse tão conhecido ritual. Pela manhã começa por preparar o seu tão apreciado bacalhau, que fora comprado naquela pequena loja na baixa de Lisboa, que sempre vendeu o bacalhau que mais agrada. Ela tem um prazer redobrado em ver todos sorrir, em sentir a gula nos outros, do que das suas mãos é elaborado. Já o tinha deixado a demolhar há uns dias, pois todo o cuidado é pouco, e para ela tem de estar tudo perfeito. Depois é altura das frituras. Os filhoses! Essa receita antiga que a sua mãe lhe ensinou com tanto carinho, que já antes tinha sido aprendido com a sua. A massa fica a levedar, dando-lhe tempo para ser polivalente, pois essa é a palavra de ordem. Os sonhos aqui existem em cima da mesa, e até ontem há noite com eles sonhou. Nada pode faltar, é sempre essencial que sobre.

Naquela correria que vai da cozinha à sala, seria tão importante ter Jorge ao seu lado. Como era essencial este trabalho de equipa, mesmo que ele pouco fizesse. Era o estar que mais importava, aquela disponibilidade para a qualquer pedido realizar. Mas para ela, esse vazio existe. Ele já partira há dois anos, e isso nestas coisas, é tão pouco tempo. Esse sabor amargo que a rodeia, aperta-lhe o coração. Foram quarenta anos de companheirismo, de amor, que terminar tão antes de tempo. A historia não devia ter sido interrompida. As saudades acompanham-na a cada passo que dá, e para isso não há solução. Sente-se só naquelas noites de Inverno, que o toque dos outros nos aquece. Aquele lugar vazio na sua mesa, onde antes comiam dois, agora na maioria das vezes, partilha com a televisão as conversas que lhe eram tão familiares. Não era preciso grandes coisas, bastava a companhia. E isso não pode ser substituído. Já teve casa sempre cheia, pois com quatro filhos, difícil era estar sozinha. Mas a vida leva e traz tanta coisa. Foi vendo os seus precisos filhos a crescerem, a construírem uma vida, na qual ela sempre fará parte. Mas ela sente. Sente tanta falta dele, nunca se tinha sentido tão só! Sem discussões, só com ocasionais divergências, que rapidamente eram resolvidas, a vida era tão idílica com Jorge. Todos aqueles hábitos dele, depois de uma vida de trabalho, podiam viver ao seu ritmo. O acordar de manhã e olhar para o lado, e ver, sentir que ele ali estava, que ele queria estar. Ia como de costume ao velho quiosque comprar o seu jornal, que ao sábado pela manha era folheado à mesa. E com essas palavras imprimidas, trazia também o pão acabado de cozer. Era neste momentos que para Odete estava o cerne da sua felicidade. Era alguém com quem tudo se partilhava, tudo era permitido. Tinha-o conhecido na festa da sua aldeia de origem. Era um moço vistoso, com o seu chapeu tão característico, e no meio da multidão partilharam um olhar, que para sempre os mudou. E daí, de um simples momento, construiu-se uma vida. E ela adorava a vida que tinha, melhor, ela amava tudo! Lembra-se também que seus pais não lhe davam a liberdade que desejava, mas por portas e travessas, arranjava sempre forma para estar um pouco com ele. Ela sentira que era com ele que estava predestinada ficar, quase como se tivesse sido uma cara a encontrar a sua metade. Como é que se pode viver, depois de perder tal coisa, e fora com um simples nome, que o perdeu. Um simples acontecimento, que tudo mudou, que vazio ficou o seu coração. Os seus filhos tanto apoio lhe tem dado, e como lhes está grata, mas sente tantas saudades de Jorge. Ele fora o farol para a sua barca que à deriva andava. Era o alimento para a sua alma, o raiar do seu dia, mas agora, depois de partir, o sol nunca mais sorriu como antes. A mesa até estava mais preenchida, mas o seu coração ainda gritava por ele, tentava o procurar, mas só nas recordações o encontrava, e como é duro não ter, não tocar, não ouvi-lo. “Jorge! Jorge! Tanta falta me fazes! Tenho tantas saudades que nem consigo explicar. Olho para a cadeira vazia, do outro lado da nossa mesa e anseio encontrar-te, falar-te, abraçar-te e nunca mais te largar, mas hoje abraço a tua ausência. Sabes, ainda dou por mim à deriva pela casa a tentar reaver-te, para te manter perto de mim, para aconchego encontrar no teu regaço. Onde andas meu amor? O destino é cruel. Agora, logo agora, que a vida era só para nós, que tempo tínhamos para tudo, tu partiste. E eu fiquei! O António ainda o outro dia me estava a falar de ti. Lembraste quando o ensinaste a pescar? Com uma vara, um fio, uma rolha e um anzol uma cana lhe fizeste, e o mais engraçado é que ainda a hoje a tem! Também sei que todos eles sofrem por não te terem, e como alegre fico de termos construído uma família como a nossa. Todos eles têm estado, onde tu já não te encontras. Vem tantas vezes visitar-me, e é bom. Mas ao final do dia, quando para a cama me desloco, era tu que eu queria. A cama parece tão grande e gelada sem ti! Gostava tanto de te ver com os óculos descaídos para a ponta do teu nariz enquanto lias, e como era de habito pedia-te para em voz alta leres. Gosto tanto da tua voz, e como me sinto sortuda pelos nossos filhos terem feito todos aqueles momentos gravados para não te perder totalmente, pois ali ainda existíamos. Dou por mim a ver vezes sem conta momentos que nada supostamente de especial têm, mas para mim, têm um valor acrescido. Onde estás meu amor? Onde te posso encontrar? A única coisa que me alivia é que te encontrarei, assim a minha fé me diz. E anseio com todas as forças que ainda tenho esse momento, em que te possa ter de novo. Sinto a tua falta, e para sempre a sentirei. A ponta da mesa era tua, e nesse espaço vejo agora o buraco que tenho dentro de mim. Olho para te rever, e com tristeza encontro-me só a mim no espelho que tínhamos comprado na viagem que culminou a nossa união, a nossa lua de mel. Simples foi, mas o que importa não é onde, é com quem! Por agora tenho de te deixar meu querido, eles estão quase a chegar e eu ainda tenho de fazer muitas coisas, pois quero que tudo seja perfeito, eles merecem. Mas volto, volto sempre para ao pé de ti. Como te amo, como fui feliz, tu sempre foste o que sempre desejei. Uma vida inteira contigo, e mais vidas viveria, desde de que tu lá estivesses. Um até já meu amor!”

E com um tocar da campainha tudo iria começar, o Natal chegara!

O Último Adeus!

Lá está Bruno, no seu canto, sem saber o que fazer, o que dizer, como se existisse alguma coisa para dizer. Ela tinha ido embora, ela tinha desistido, e o mais cruel é que ele tinha ficado, para aquele ultimo momento ter de o fazer. Como é duro esta forma de viver a morte, este teatro ocidental, desde o velório macabro, onde se vela um corpo frio, sem vida, onde já não está de quem se gostou, de quem se quis bem, mas agora só existem em reminiscências daqueles momentos de vida. O problema é quando essas mesmas memórias ainda magoam pois ainda não acabou, ainda não se ficou no vazio depois da terra ou as chamas comerem aquilo que já foi alguém para nós. Este velho ritual que de negro se veste e que de uma multidão passamos a uma solidão extrema quando tudo acaba, quando o corpo desaparece só ficamos com a falta de quem partiu e já não voltará. Nestes momentos a raiva instala-se depois de acreditarmos que perdemos alguém, que para nós importava. Porquê que ela partiu e no caso dela, para Bruno tudo perdeu, e desta forma não é justo, nem mesmo para ela. Como foi possível tudo assim acabar. Mas lá está ele naquela sala fria rodeado que todos aqueles que conhece, mas nunca se sentiu tão só, quase desamparado, quase desnorteado. Todos o cumprimentam e ele não o queria, por significar o que significa. Ela já partiu, não porque quis, mas porque não aguentou, e ele, que tanto tentou, nada conseguiu. Sente que só adiou o inevitável, pois no fundo ele sabia que ela partiria desta forma. Todos em fila lhe tocam e ele grita por dentro “larguem-na, ela é minha, vocês nada sabem o que ela passou, e muitos de vocês a certa altura deixaram de querer saber.”. Mas no fundo ele percebe porquê.

Mas lá está toda a gente e ele ao fundo vê-o, ao único que queria ver, que queria abraçar, que queria conforto, que queria algo de bom. – Saraiva?

Ele aproxima-se de Bruno e as lágrimas pelo rosto lhe escorrem, pois ele sabe como ele tentou, ele de tudo sabe, e assim sendo, sabe como lhe está a doer. E parece para Bruno que o tempo que demoram a encontrarem-se a meio caminho está demorado, ele anseia sentir o seu peito, para se deixar levar, para se sentir protegido, pois no fundo ele sabe que sozinho não está, mas o problema é que era ela que ele queria, mas agora nada pode fazer. Lá se encontram e ele derrama o sangue no regaço dele, pois não sabe o que fazer, como se livrar desta dor que ainda agora começou. Pois o mais difícil ainda está para vir, e ele aquele amigo que sempre lá esteve quando mais foi preciso, durante todas aquelas crises que ela sempre teve, o confortou, o apoiou, o manteve firme naquele barco que ele sabia que Bruno não conseguia sair, e assim sendo, não o poderia criticar, somente lá estar. E neste momento de perda total, neste momento em que o inevitável aconteceu, ele sabia que o fim seria assim, Bruno precisaria dele, mais do que nunca, e ele por momentos tinha de por as suas necessidades em stand by por ele. Agora era o tempo de Bruno. E isso ele sabia o que significava. A partir daquele momento, Bruno ficaria para sempre incompleto.

-Saraiva, o que faço???

– Agora nada Bruno, deixa-te ficar aqui ao pé de mim. Já comeste?

– O que há para comer agora, não sinto o corpo, percebes não percebes? Perdia-a de vez, não consegui, não consegui…

Nada havia a conseguir, era impossível mudar esta historia predestinada. Estava também nos astros que assim seria, até mesmo alguém já lho tinha dito, pois em desespero até a alguém que lia a vida de alguém em objetos obsoletos, lhe tinha dito que iria perder para a doença, que não seria pela via médica que conseguiria, mas ele não acreditou, não quis acreditar. Mas também por ali não teria sucesso, estava marcado na linha da vida na sua mão que a vida dela terminaria cedo e de forma sangrenta. Mas lá estavam todos no velório e ele só queria ficar sozinho com quem mais gostava de ali ter. E a raiva que lhe metia ver gente a conversar com gente, sobre coisas comuns, pois é nas festividades e perdas que muitos de nós nos reencontramos. Mas para ele é visceral ver tal coisa, falam do tempo, de futebol, mas eles não entendem o que se está a passar? “Merda para vocês todos, saiam daqui, vão para o café e deixem-me aqui com ela!”. Saraiva percebe do estado de nervos em que Bruno se encontra e desvia-o até um pequeno café ao lado da florista, em que todos passam antes de entrar. Flores que aconchegam a morte de alguém, mas não aconchegam a perda para quem cá fica.

– Vou-te pedir um galão. Consegues?

– Acho que sim. O que faço agora? Como posso eu continuar a viver agora? O que faço? Diz-me?

– Agora tens de passar por isto, nada mais, depois logo vemos!

E o mais duro para Bruno é que nem com ela pode passar a noite, chegada a temerosa meia noite a porta tem de se fechar e ela lá sozinha ficará, e ele não saberá como em casa estar, naquele vazio, naquela dor interminável, e ainda por cima tem de saber receber, tem de ainda apoiar quem precisar! Lá está a mãe dela, sem saber o que fazer, desaustinada, perdida dentro de si própria, pois a culpa a dilacera, pois nele não quis acreditar, quis confiar cegamente que ele teria de ser capaz de fazer o que ela nunca tentou. E isso ainda mais raiva lhe traz, pois ele sabe de tudo isso, sabe da responsabilidade que ela teve neste caminho, que nisto terminou. Ela nunca quis saber, tudo parecia mais importante que aquela inocente pessoa, que sempre a procurou, para nunca a encontrar. Tudo era mais importante, as viagens, os namoros, o dinheiro, tudo era mais importante do que o sofrimento dela. Mas agora nestes dias, com ela tem de conviver, mas olha-a fixamente, e ela na sua nuca sente o calor enraivecido e fulminante mirar. Mas falta pouco para com ela nunca mais partilhar espaço e ar.

– Calma Bruno, agora não é tempo para guerras. Depois logo se verá se ainda sentido te faz.

Mas a noite passa, e o dia chega, o ultimo momento, e depois não terá de fingir mais. Mas ela para o chão irá, e depois desaparecerá para sempre. E aquele caminhar desde onde o corpo foi velado, para onde será enterrado, parece uma procissão de negro, com um silêncio aterrador.

Chegado ao local da campa, aquele buraco inferniza-o. E o mais duro é vê-la pela ultima vez, pois ela parecia não acreditar, mas para ele não sabia o que fazer senão um enterro católico. Da terra vimos, e para lá voltamos. E aquele trajeto que tanto custa a fazer, parece que não queremos chegar, não queremos perder de vez aquela pessoa, aquela energia. E para Bruno, isso significava sozinho outra vez ficar. Tantas vezes se sentira assim, nas crises que ela enfrentara, nos gritos, nos pedidos que a morte a levasse que não acordasse, que tudo passasse. Mas nada nunca mudou, e agora sim, para ela tudo tinha acabado. Bruno não sabe onde ela estará, se mesmo estará em algum sitio. Ele sabe que ela já com ele não está. E naquele caixão de pregas douradas, o seu corpo frio e cinzento se encontra. E num movimento seco, um balde de cal se despeja no seu corpo com aquele vestido que ela tão adorava, em que ela já tinha sorrido, tinha sido ele a encontra-lo para ela. E nada mais ela queria dele, senão a sua existência, o seu ser, ali perto, mas longe ao mesmo tempo, pois também lhe lembrava que o magoava. E numas ultimas palavras, num ultimo toque de Bruno na face esfriada dela, se despede “Adeus meu amor, que agora melhor te sintas, que o sofrimento da carne já não te acompanhe!”. E depois o caixão se fecha, e tudo parece ter acabado, e desce devagar até ao fundo chegar. E depois um leve rosa branca sobre ele repousa, para um ultimo beijo dele.

Agora, já em casa, tudo acabou.

– O que faço agora Saraiva?

– Sobrevives, nada mais!

“Desculpa amor, mas já não aguento mais!” Uma carta de alguém que vai desistir.


Querido Bruno.

Estas são as palavras mais difíceis de escrever que tive na minha vida. Nem sei por onde começar meu doce. Sabes-me dizer onde me perdi? Já nem consigo perceber onde começou, nem o que se passou para eu chegar a este ponto amor. Tu estiveste sempre ao meu lado, pesei-te tanto no teu peito. Fiz-te tanto mal, quando só queria fazer-te feliz. E isso onde mais falhei, não soube o que fazer, só conseguia pensar em mim, e tu, nesse teu olhar que apazigua, que me tranquiliza, nem que seja por segundos me permitias. Era, tudo em mim era só temporário. Só aquela dor que sempre me acompanhava. Como podes ver, até nas ultimas palavras que te declaro, em que quero que saibas, que não duvides, que te amo. Como te amo, e também isso foi um peso no meu peito oco, nunca to disse, nunca tas proferi, mas sabes, tens que saber, que te amo desde o primeiro momento que sonhei que conheceria alguém como tu! Triste sina a minha, encontrar-te e quase te destruir. Perdeste o brilho meu amor, envelheci a tua alma, e agora sendo eu uma pessoa má, que contamina, que corroí, abandono-te, saio de cena, mas não volto para ser ser aplaudida, ficarei neste vazio. Como desejo que a morte seja o fim de tudo, que me deixe em paz, esta mente que me matou. Lembras-te amor, lembras-te? Tivemos momentos felizes, não tivemos? Tivemos de ter, eu também te fiz sorrir alguns momentos, parecia um sonho, naqueles que tudo é belo, tudo nos conforta. Via-te a brilhar, como o teu sorriso iluminava a sala. Nesses breves momento tudo me fazia sentido, sabia o que era, o que queria, e sabes, tu eras a única coisa que me importava, que me fazia lutar por vezes, quando parecia que ia mudar, que podia mudar. Tantas ilusões e desilusões. Porquê que pegaste em mim? Sabes não entendo porquê que mas nada resulta. Sabes tanto tentamos, lembras-te? Eu não me consegui esquecer, e esse momentos de historias falhadas, sempre me confirmou, que quando se nasce defeituoso, nada se pode fazer, nada senão deixa-la naquela negritude que até nojo mete. É nem sei como ficaste. Diz-me, mas diz-me mesmo, porque ficaste? Nunca entendi. Tantas vezes te tentei expulsar, mandar-te para longe, libertar-te de tal prisão sem barras, sem guardas, mas que nos prende, que não nos deixa ir. E ficaste porque? Tratei-te tão mal, fui uma verdadeira cabra, mas não sei quem era aquela personagem. Culpava-te naquele tempo de tudo, da minha culpa que corta como mil pequenos golpes, de folhas de papel, e depois de tanta miudinha, vinha aquele banho de álcool, sentia tudo a eriçar, a dor vinha, e não ia, estava ali para ficar, e independentemente do que fizesses, nunca e nada me faria acreditar. Tantos psiquiatras, tantas combinações, agora era este, aquele e o outro, e lá dizia ele “agora acho que vamos conseguir Maria, parece que encontramos a sua saída deste sofrimento constante. Acredite!”. Acreditar dizia ele meu amor, já tinha um dia sentido, mas o tempo leva sempre o que é dele, e se um dia com um discurso, até brilhava, até ficava como uma criança na manha de natal! Mas com o tempo, com o doutor Miguel, o doutor Carlos, e sabes aquele especialista, que fomos a Paris, o Pierre, tudo se esbateu, passou a ser uma rotina, e quando olhava para tinha um duelo de sentimentos. Por um lado ficava tão feliz, ao ver por momentos um brilho nesses olhos verdes como o mar, que agora parecem aqueles tanques que agua estagnada. Já faz tanto tempo que penso na morte, como será, se tudo desaparecerá, se finalmente poderei ter alguma paz. Penso nisso todos os dias, sabes quando de dia durmo, e de noite arrasto-me. Fantasio, até sonho com ela, como a desejo! Nem fazes ideia! Sempre pensei nela, até a tentei em garota como te disse. Mas agora mais que nunca, dela preciso, como o ar que respiro, e todos os demorados dias, quando este meu inimigo, que nunca me larga, sabes quem é. Esta voz que nunca se cala. E tantas vezes com ela tentaste falar, leva-la à razão. Mas ela sempre foi mais forte que tudo, porque tudo na vida mudou, nós crescemos, trabalhamos, somos gente. E eu? Sou um farrapo de gente, da cama para o sofá, do sofá para a cama. Nem sei como ainda estas aqui. E agora sou eu que salta para fora do barco, estou a levar-te ao fundo, e meu amor assim podes velejar para aguas melhores, mas sabes, por muito que fosse tempestuosas, nunca seriam nem de longe, nem de perto o lodo que eu sou. Agua estagnada, pois sou,nem nunca quis crescer, obrigava os outros a de mim conta tomar. E também tu, meu amora, meu amor, meu amor, tiveste tarefa tão agreste. E agora, e mesmo depois da tinta deste adeus seque, deixarei de existir, não serei mais eu. Eu não sei o que por aí vem, mas sabes, nem quero saber, nunca vai ser pior que esta merda de vida em que sempre aprisionada. E tu Bruno. Diz-me? Diz-me? Porquê que saíste pela porta? Nunca percebi, e nem sabes como isso me pesou! Essa culpa que me corroeu desde sempre, desde aquele momento em que me amaste sem nada me dizer, que abraçaste sem me tocar, que me beijaste sem sentir esses lábios, carnudos, vermelhos, vivos, que me envolvem num contorcer de prazer, que fazia desejar-te tanto! Até aí voltei a falhar, agora quem quer tocar neste nojo de pessoa, pois já nem mulher me sinto, tal como no inglês, como tens o he, o she ou o it. É, sou mesmo uma coisa, nada mais. Desculpa amor mas já não aguento mais. Tenho de ter a certeza que cá não fico. Tenho de partir, tenho de desaparecer. E sei que vai sofrer tanto, vais sentir as entranhas a desfazerem-se, mas aguarda, espera, o tempo vai-te salvar, e depois disso, depois de ti, ficarem no esquecimento, onde ninguém me pode encontrar, e eu não posso destruir. Sei que vais compreende porque o fiz, tal percebes, nunca criticas, tudo o que faço, e olha que eu fui longe, nunca fui ninguém. Tratei tão mal, gritava, culpava-te, destruía as coisas que mais estimavas, só para ver no teu olhar aquela tristeza, de algo importante se perder! Estás a ver? Como foi possível tal eu fazer. Nem sei, Depressão, Bipolaridade, olha já não sei. Sei que finalmente me vou matar, já sei como, tu vais ver onde. Desculpa pareço cruel, mas a ansiedade de sentir a vida a escorrer-me entre os dedos é tanta, e quero deixar claro que tens de seguir com a tua vida. Entende que nunca me conseguirias fazer feliz, mas não por não teres tentado, nem sei como aguentaste, sempre me levaste ao colo, acreditando sempre, eras o meu farol naqueles noites de nevoeiro húmido, mas que quanto mais remava na tua direcção, mais distante me ficavas. Mas vai, à vidas bem melhor que aquela que conheces-te comigo. Vai! Por favor vai! VAI!!! Tu vais conseguir ser feliz, para isso, só tens de me esquecer. Tão simples. Nada de bom te trago. Sabes não consigo mais, a agua já está quente, tenho o tempo contado. Não quero mais nada neste momento senão morrer!

Meu amor, meu doce desculpa, mas já não aguento mais!!!!!!

Pode ser que um dia, algures por ai, nos possamos cruzar, mas desta vez não te deixarei entrar. É a única forma, sabes bem, é a única forma de não te devastar., venha o que vier será bem vindo!

Mas sabes agora vou-te deixar, preciso de parar. Parar. Depois logo se vê.

Meu amor vou-me matar. Desculpa mas é a única saída. E desculpa a minha verdade cruel, mas acredita que só por mim irá isto acontecer. Foste tudo e mais ainda do que sempre sonhei, mas agora tenho de ir.

Beijos, beijos só como tu me deras desde sempre, beijos doces, beijos suados, beijos completos.

Beijo ”

Bruno está ansioso por chegar a casa. Sexta feira, sei trabalho trazido para tempo com ela lhe roubava, livre para com ela estar, e como o pouco tanto lhe sabe. Basta que a ela algo lhe apeteça, e logo sem sequer pensar, tudo tem de fazer para a fazer sorrir. Ele ainda acredita, com toda a célula do seu emagrecido corpo, que ela um dia vai sair daquele que lhe parece nunca ter fim.
Mas ele naquele dia, naquela noite mete a chave à porta, e sabe lá ele, nem imagina, que será a ultima vez que meterá aquela chave, aquele símbolo, naquela porta. Roda então a chave e esboça um sorriso. A porta não está trancada, Maria está em casa. Entra pela casa dentro e grita “Maria? Estás aí amor?” Fica à espera mas nada parece chegar, nem um velho pombos correio lhe trazia noticias da sua amada. Como fantasiava ele, estando tanto tempo no seu mundo, sempre pensando o que poderia fazer por ela. Todo o momento do seu cérebro, cada sinapse era para ai dirigido, a pensar em Maria, a pensar no que fazer, no que tentar, para onde ir, mas nunca desistir, nunca deixaria a sua princesa. Mas ainda não sabe ele, que quem o deixara fora ela.
Pousa as suas chaves no móvel do seu Hall que a todos os sítios o leva, mesmo no centro de tudo, e por isso repara Bruno, que pelas frinchas da porta da casa de banho, emanava aquelas cores, que quando Maria estava menos mal, pois porque bem nunca esteve, que eram os banhos a dois, em que as velas davam o ambiente e nós os corpos, o suor que nos unia, e aquela dança que era perfeita, aquele ritual de quando duas almas ficam uma. Ele tira então a gravata, e o entusiasmo aumenta, e conforme para lá se desloca, as peças da sua farda que o mundo a tantos obriga, aquele fato bem engomado, encosta a sua face à porta e por ela chama outra vez “Maria? Estás aí? Meu amor, estás bem? Sente um pequeno arrepio, mas ele não quis prestar atenção, e então sorriso voltou, e delicadamente agarra na maçaneta, perguntando-lhe: “Posso entrar amor?” Silencio. “Amor?” Silencio. Roda então a maçaneta que tanto se arrependerá de o fazer, aquela imagem nunca desaparecerá, e empurra a porta, ficando a mesma escancarada, e lá está aquele momento, mais valioso do que qualquer vida. Ele repara no perfil da sua amada, que brilha pelo reflexo daquela luz ténue. Sim vai ser um momento de união, ela está bem hoje! E subitamente algo o atormenta, ele não o que ou porquê, mas algo o incomoda. Naquela tela, algo está fora de cena. A agua não parava de jorrar, e a sua cor não era a esperada. Ele vê aquele rosa esbatido, aquela cor que o congela. “Maria? Maria? Amor? MARIA?”. E nem coragem tem de dar um passo, não quer ver, não quer ter de acreditar. Não, não, não. E fechando os olhos os seus pés movem-se. “Não pode ser ela, não podes ser tu, não podes, sabes porquê, porque eu cheguei, e não posso ter chegado tarde demais!” Mas quando as pálpebras se levantam, lá está ela. Ela está onde não deveria estar. Ele já estava ali, e ele de certeza que não podia ter chegado tarde demais! Porquê? Ele não quer saber, sabem porquê? Ele sabia que isto aconteceria, ele tentaria adiar, sempre adiar, mas agora aconteceu!

Uma morte esplendorosa!

António tem tido pensamentos pouco usuais. Estranha ele estas ondas do seu pensamento solto, que o fazem questionar tanta coisa. Como será morrer? Tudo começou não há muito tempo, em que teve um sonho que o deixou curiosamente duvidoso. Como seria partilhar espaço com a nossa própria morte? Querem que vos diga? Se o António deixar. Mas ele não se deve importar, até porque posso ser a sua consciência que pensa, que questiona, que tenta dar significado a tanta coisa. Esta máquina que tão poucos sabem o que ela é capaz de fazer, toda cinzenta por fora, mas luminosa por dentro em que cada pequeno momento é sempre processado nada ficando ao acaso. Este cérebro que nos conduz sempre como uma candeia iluminava o caminho do velho contrabandista. E também o sonho dele não ficou ao acaso. Tudo parecia um mundo informatizado. Tudo parecia energia, que advinha dos 0 e 1 tão típicos desta linguagem.
Deixem que vos explique o que com isto quero dizer, deixem-me que vos diga mais um pouco sobre este momento instantâneo, que o fez questionar algumas coisas, e neste sonho, o mundo futurista expunha-se a ele, tão parecido a tantas fotografias dos filmes desse género, que tanto gosta e vê. Aqui podia ser um indicio que este mundo pode ser algo mais explicativo, ou talvez não. Se a mente humana consegue imaginar tais cidades, naves e fatos, talvez eles já mesmo existam. Mas sabem, eles realmente existem, nem que seja na retina, nos olhos, no lobo occipital, de todos nós que tantos os apreciamos. Quem não se lembra dos clássicos, Cenários em que inclusivamente as leis da gravidade que nos mantém os pés no chão, não existem, numa possibilidade de futuro para a humanidade, isto até porque do futuro pouco sabemos, melhor até sobre o presente muita coisa são para nós conceitos abstractos, fora já da época de alguns. Como é estranho já podermos dizer “no nosso tempo nada disto existia”. Mas neste mundo de António não era só assim, era muito mais. Este mundo que lhe surgia, quando os olhos fechava, para procurar um descanso para no dia seguinte, continuar com a sua vida, mas nesta noite em especifica, naquele momento o tempo noturno, mostrava-lhe algo mais. Ele planava por essas torres, vendo por baixo de si, todos os componentes de uma grande cidade. As suas formigas, todos nós que tão educamente vamos tendo mais e mais obrigações, até que estamos presos nas suas teias. Mas a velhice e outro momento para parar. Quando se quiser, esperem e conseguiram ver. António flutuava, corria com vento na sua retaguarda. Sentia-se plenamente bem, sem nada que o incomodasse, como se aquele passeio por cima de tudo, até a alma lhe lavasse. Pela sua frente apresentava-se aquele nosso amigo que nos sustenta, que nos permite respirar, viver, o Sol, e as cores que nos mostrava! Será tão difícil explicar-vos, e percebi porque tantos povos ali viram a imagem de algo superior, uma identidade, Deus tal como imaginado. E António sente aquela calma que lhe enche os pulmões. Pela sua esquerda repara no grande gigante, e lá lhe acenou, e um aceno recebeu de volta. Como é bom algo conhecido. E lá vai António, voando por um ar nebuloso, mas que ainda mais fresco o deixava. Mas o que seria António? Pensar sabe que pensa. Sentir também. Tinha o seu corpo, mas não sentia a sua carne. Perdera parte da sua humanidade? Energia seria. E lá ele planava, naquela imensidão de luz, que era um caminho nunca percorrido por ele. Parecia um mundo de vídeo jogos, uma expansão da mente que conseguia ver um futuro, onde nos encaixariamos e continuava a viver. E nesse mesmo jogo, podemos ver, sentir, aqueles caminhos luminosos, em que não conseguíamos vislumbrar o seu fim, viram para a direita em anglos retos, cruzando-se com outros caminhos dey cores diferentes, e que parecem aquecer António e como isso o faz sentir feliz. Tão poucas são as vezes que nos sentimos realmente felizes. Lembram-se de uma vez, em que pela ingenuidade da vida, não tendo sido corrompido para noção da ambivalência da humanidade, vê num simples balão um fácil motivo para podermos ser felizes. E nesse momento quando por exemplo cinco anos poderíamos ter, a existência vale muito a pena. Mas depois esvanece, e e adaptamo-nos. Mas com o passar do tempo, levando ele o que por direito lhe pertence, a velhice transforma essa mesmo adaptação a uma acomodação consciente.
E de repente olha para a sua frente com olhos de ver, e finalmente percebe para onde vai, porque voa, porque assim sente, simplesmente bem, nem mais nem menos. Numa grande edificação que eram tão familiar, como estranha para ele, há frente se lhe apresenta, e com isso, algo iria mudar, todos o ansiavam, mas só poucos lá chegava, mas ele parece ir, e mais próximo a cada momento fica de chegar. Mas por momentos sente um calafrio na sua espinha. E se isto não fosse real? Mas parece real ao olhar, ao sabor, ao ouvido, até ao simples toque, porque não seria?
Já vê a entrada, suspira de alivio, parece ter chegado. E começa a ouvir um grande rugido, como se um leão se tratasse. E um raio de luz escapa-se pelas primeiras frinchas que se podem ver na abertura de dois grandes portões, de cor cobre. Aquela luz que o chama. Já chegou! E lá se depara com o que esperava. Um banho de cores, um circuito de ligações, que sempre estavam a comunicar, ele com o outro, esse mesmo com outro ainda, e assim seguida. Ouvia-se as suas vozes numa língua que parecia ninguém compreender. Mas esses seres que por baixo de si se apresentavam, continuavam nos seus afazeres. Era uma comunidade de individualidades, tal como nós, só se diferenciavam por um simples detalhe: uma extrema compaixão pela individualidade do seu próximo, pois um não poderia existir sem um outro, uma ligação muito acima da nossa compreensão também por vezes o livre arbítrio pode também por em causa a nossa humanidade. Aqueles seres que para nós seriam rotulados de extraterrestres, visto que para nós parece tão difícil aceitar que podem existir outros mundos, que também eles tenham conseguido criar vida, mesmo que para nós nunca pareça. Mas estes serem mostraram-lhe com um simples aceno de cabeça o porquê! Um estava ligado a todos, e esses mesmo todos também a ele se ligavam, tudo numa harmonia cósmica. Eles partilhavam o mundo emocional, e com isso eram todos parte da beleza de sentir, de viver, que sentirmos aquele arrepio que nos fazem vibrar, acreditar que podemos, que podemos tentar, e com esforço e empenho, conseguir. O quê, isso é a definição das particularidades que nos fazem ser o António, o Jaime, a Maria, a Isabel, todos, mas únicos. Esses tranquilos seres pareciam pirilampos da luz que imanavam, e como isso encantava António. E de repente, o caminho mudou de texturas! Tudo era sentido por António. Uma invasão napoleónica que tanto o encantou, como o deixou expectante. Mas essa expectativa podia algo que não compreendo, o deixava apreensivo. Aqueles traços de energia pareciam mais ásperos ao toque, e ele parecia que isso tinha que fazer. Então a sua mão vazia de carne nesse caminho, e parece que assim tinha escolhido para onde a sua mente o levaria.
De repente repara que se lhe apresenta uma pequena elevação, e ele achou que por ela poderia passar, e depois de uma subida pouco acentuada tudo parou. Ele mergulhou num liquido conhecido! Como seria lembramo-nos que no ventre estarmos. Sentirmos a proteção daquele espeço líquido que nos aconchega, que nos alimenta, que nos faz crescer para viver.
E nesse sonho parece que António ao nesse liquido submergir ter sido apagado, chegando ao fim da sua linha. E o que seria isso? Ser apagado? Seria o mesmo que morrer, um fim de uma caminhada em que no final tudo se tornara mais difícil. Como deve ser difícil a velhice! Vermo-nos a decair, perdendo o nosso brilho como pessoas, ficando uma cor baça, que com aquelas manchas nos mostram os anos passados. Vive-se de memorias dos tempos em que se sentiam pessoas. Como será percebermos que estamos a deixa de ser quem somos. Como é ter consciência que o fim pode chegar, melhor, já chegou para dos amigos e companheiros que partiram antes dele. E Ele, ali sentado espera a sua vez. Então o que será então morrer, e acima de tudo porque não poderia ser da forma como ele a vivera, pois, tendo sido sonho ou não, ele viveu, ele questionou, ele ficou preso nessa possibilidade idílica. Já vão perceber o porquê que ele tanto se agarra a este momento, esperem só mais um pouco. Está quase!
E nesse mergulho é preenchido por um liquido que o abraça, e tudo escuro ficou. E ele, na sua consciência, eu estando com ele, e ele comigo, parecia esperar. Não sabia o quê! Era a primeira vez que assim estava, não sabia o que esperar, não sabia, e como podia saber. Ninguém morre e pôde dizer como foi, talvez nos encontremos depois. Pensamento tão belo, trocar um adeus, por um até já. Todos aqueles que de nós já se despediram, um dia mais dar com eles estar! Mas António lá estava no seu liquido, em que continuava a pensar, sem saber o que esperar, numa tranquilidade inquieta. Por um lado, parecia ter uma serenidade por simplesmente existir, numa nuvem de energia que parecia pairar por onde querer, passeando-se por onde mais gostava. Mas aquele aperto, aquela duvida que tanto o inquietava. Continuava tranquilo, mas expectante. Há espera que algo pudesse acontecer, não o sabia com certezas, mas a duvida parecia bastar para o deixar a pensar. Apreensivo se encontrava, à espera, somente à espera. Mas nada parecia acontecer, mas ele, continuava à espera. Nunca se sabia! Mas o tempo ia passando, mas nada parecia fazer, a mesma inquietude, a mesma expectativa, de algo puder chegar. E se nada chegasse. E lá estava ele submerso naquele liquido que tudo tinha apagado, nada resistira a não ser seu pensamento, esse não parecia parar. Mas estava sozinho. E isso era mau? Mais uma vez o momento é mais importante do que a sua perpetuidade. Parecia também ali não precisar de ninguém, pois estava solitariamente acompanhado. O seu pensamento chegava. Mas sempre aquela sensação que tudo podia mudar, a qualquer momento, sem aviso prévio, ou talvez com quadros de hora, com fixação para todos verem, do que irá acontecer dentro da finitude de António.
Como tudo, também este sonho tinha de ter um fim. E lá ele acordou. E parece tão desiludido com a sua realidade, este mundo tão exigente, sempre a correr, nem nos dá espaço para simplesmente existirmos. Por momentos até António tenta adormecer novamente para voltar aquele espaço que faz parte da panóplia de saudades que acumulou durante a sua vida. Os arrependimentos mantêm-no preso a partes de si passadas, fragmentos de si, que ainda hoje ou doem ou envergonham. Também não sabe compreender-se, explicar-se porquê que com 20 anos terá feito ou não feito algo. Agora isso pode já não ser tão importante, mas digam-lhe vocês isso.
Se deixar de existir fosse como sonhou, esse acontecimento certo para todos nós, deixara de assustar António. desassossegando-o, mas não o aterrorizando.
Mas este acontecimento das altas horas da madrugada, deixou-o a pensar. Também ele teve raízes religiosas. Poucos somos os que ainda somos filhos de um perido em que se acontecimentos e consequentemente as suas interpretação, não se encaixando-se nos óbvios de todos nós era uma natureza humana, procurarmos respostas para eles. António lembra-se de ser católico, praticando com a sua querida avó. E como tal, as noções de Ceu e Inferno sempre lhe foram mostradas, limitando cada vez mais a vontade de António. Sua alma ficava apertada, sem se expandir na sua plenitude. Conceitos como pecado, sacramentos, pecado original já outrora foram os fundamentos da sua vida, passados por sua avó. Mas conseguira libertar-se, apegando-se à razão. Mas quando na construção uma casa, um tijolo que seja no meio do muro, lá ficará, como tal, também ele tinha um fascínio apreensivo, sobre conhecer e perceber como tal ciência sem provas dadas lhe poderia mostrar outro caminho. E assim quis também ele perceber como é que este fenómeno, a finitude, era explicado por outros homens. Mas isso é um assunto para outra altura. Por agora chega!