Viver no agora. Decidir no agora!!!

Hoje em dia, torna-se cada vez mais difícil viver no agora. Pelo menos numa das formas que isso pode significar.

Essa é um das questões mais particulares, mais individuais, que colocamos a cada pessoa que por nós passa. O que é para si o seu agora? Gosto muito da subjectividade das coisas, das personificações de conceitos mais universalizados. O agora é sempre diferente, escapa-nos entre os dedos. O agora é tão difícil de apanhar, pois teima sempre em passar depressa ou devagar. Parece que o tempo não consegue manter um vivência global a todos nós.

Todos sabemos que a percepção do tempo muda a cada momento, e se há instantes que parecem horas, também existem toneladas de tempo, que passam como gramas, pela leveza, pela rapidez.

Passado a questão da subjectividade da percepção do tempo, coloca-se outra questão. Como podemos viver o agora, com tanta coisa dependente no nosso amanhã. Vivemos em muitos casos hoje, para amanhã retirar-mos os nossos dividendos. Achamos que somos animais racionais, mas fazemos tanto de irracional, de idiota a perverso, de impulsivo a premeditado. As tomadas de decisão são algo que temos de executar a cada momento. Até nos nossos comportamentos automáticos tudo fica sobe controlo. Exemplo a nossa respiração. O nosso computador cerebral isso controla, e assim, com essa parte definida, mais podemos então viver.

O outro no metro, por um lapso na minha consciência, permiti-me realmente viver no momento, realmente decidir o que fazer, e depois perceber se algo mudaria, tentar ver o impacto da minha vida em perspectiva. Não foi nada de especial, mas teve impacto em mim. Vou, e como adoro, trabalhar de metro. E como a respiração, o meu corpo já está formatado a certos rituais. Passar o cartão, as cancelas abrem, e o meu esqueleto mete-se a caminho para a passar, com alguma pressa até, pois a memoria assim que avisa. Já alguém foi abalroado pelas portas do metro de Lisboa? Violentas, quase caso de comissão de protecção, não das crianças e jovens em risco, mas do conforto do cidadão.

Mas então como de costume, direccionei-me para a parte esquerda do edifício, movendo-se a parte direita do meu cérebro, pois é assim que funciona, o esquerdo controla o direito, e o direito o esquerdo. Lá ia eu perdido nos meu pensamentos, entre desejos e preocupações, mas algo captou a minha atenção. Estava a fazer o que sempre fazia. O que aconteceria se fizesse diferente? Se em vez de seguir pela esquerda, fosse pela direita? Seriam guerras mundiais evitadas, ou tudo seria igual?

Que estranho, uma coisa tão simples gerou em mim uma hesitação desmedida, sem grandes justificação. Mas depois veio alguma exaltação, na possibilidade que esta decisão racional, escolhida, me poderia trazer algo de novo! Seria bom. Desci então as escadas, atento ao agora, à novidade. Expectante estava, sempre à espera de alguma coisa, que parecia não querer chegar. Pensei inclusivamente se teria tomado uma boa decisão. Fiquei um pouco desiludido.

Mas depois de essa percepção da realidade passar percebi.

Por simples momentos, as minhas preocupações, as minhas angustias de existir, o medo do amanhã, tudo isso que nos perturba, não teve espaço para existir. Por um simples momento, simplesmente existi, e isso foi bom só pela ausência de ansiedade que me trouxe.

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O fim do agora

Porquê sofrer, porquê que tantos de nós com nada de aparente que o justifique sofremos, não aproveitamos de forma verdadeira e fidedigna o que o mundo nós dá, nos mostra.

Fala-vos hoje de José. Vida perfeita, via idealizada tornada real, que num dia, enquanto esperava pelo metro que o levaria ao seu querido lar, montado com amor, criado a dois, um ninho ideal, tudo terminou.

Mas já vos conto como acabou, como conseguiu tudo perder em segundos, como abandonou seu amor a sua Sibila, a sua musa, a sua razão de viver.

Primeiro mostro-vos o que ele construiu. Teve uma vida perfeitamente normal, como outro qualquer, sem mais nem menos, com um amor comedido dado por seus pais, que também eles não tinham aprendido esse conceito. Tenho a sensação que a geração que nasceu entre os anos de 1970 e 1990 tivemos uma lacuna imensa. Não tivemos em muito casos um conceito de amor maternal, de apego, de valorização. Somos filhos de um regime totalitário que já não foi nosso, mas tivemos ainda as suas consequências. Fomos crescendo e percebendo que o amor inicial é essencial, que a valorização é uma virtude que nos fortalece, que nos dá uma noção intrínseca de valor como pessoa.

José nasceu num meio em que o amor era coisa escassa, também ele era uma criança aparentemente problemática, que hoje se poderia ser mais capaz, mas que na altura “só dava trabalho”, correndo sempre que podia, acidente eram coisas de costume. Mas ele não sabia ser diferente, quem lhe dera a ele ser como sua mãe o desejava, pois com tudo isto com tanto repreensão e rejeição não se sentia realmente amado. Mas mais uma vez afirmo infância dita normal para o que na altura se praticava.

Mas ele cresceu, e curiosamente contra tudo e todos até conseguiu vingar na vida, naquela que todos temos de ter quando adultos. Um curso superior, um emprego na área, até mesmo era realmente bom naquilo que fazia. Mas aquela sensação de vazio, aquela falta de senso de existência continuava lá, nunca preenchida, nunca encontrada uma razão para persistir naquele sofrimento de vida. Para ele a morte não era um destino, era um desejo, um final de tudo que o aliviava, que o consolava, saber que um dia ele podia acabar com a sua insuficiente existência.

Mas a vida tem as suas merdas, as suas formas de nos tirar a liberdade, de nós dar uma razão de cá ficar mesmo que não nos apeteça.

Foi num mero jantar que tudo mudou. Primeiro eram para serem dois, depois passou a três e finalmente foram cinco pessoas jantar. Ao subir a rua para aquela tasca José vislumbrou algo de diferente, algo de precioso só pela forma como se movia. Jantamos, nunca mais ele se esqueceu que aquela menina mulher pediu bifes de frango grelhados, mas a distancia na mesa não permitiu para grandes conversas.

Sorte a dele que ainda foram beber um copo a um sitio perto dali, e ai a conversa fluiu, houve química linguística, mesmo que nem falassem de base a mesma língua, parecia haver um entendimento mental, poucas palavras, mas muita compreensão. Musa seria ela, ele ainda não sabia o quanto, ele nem sabia o que isso era, ser amado, ser cuidado, ser desejado, ser agradado. Dali seguiram para um sitio dar um passo de dança, mas essa semi-deusa pouco tempo ficou e disse:

– Vou embora.

– Eu vou lá fora contigo.

– Eu sei apanhar um táxi sozinha.

Ao qual ele respondeu algo que a deixou inquieta.

– Imagino que sim, mas é só para te fazer companhia.

Pelos visto isto acalmou-a, pois, deixou-o acompanha-la até à rua. Chegando lá fora ele pede-lhe o telefone. Ela hesitou, mas deu-lho.

Ele escreve o seu número e diz-lhe:

– Se precisares alguma vez apita. – Nunca teria ele a ousadia de lhe pedir o dela, não depois de saber a história que ela estava a viver naquele momento, que em nada interessa para a história que agora conto.

Pelos vistos ele juntos ficaram, fizeram planos, e por mais estranho que pareça por momentos, e em vários até, ele teve razão de existir. Como é estranho ser amado só por ser quem se é, ser desejado assim e de mais nenhuma forma. Se calhar é sempre melhor ser não fumador, mas isso pode ser só um pequeno detalhe.

Um dia na varanda onde viviam ela por obra do acaso desequilibra-se e cai daquele fatídico sexto andar, no chão encontra o final da sua vida, ou o início da sua morte como preferirem.

Ela estava grávida de seis meses do seu futuro rebento, tinha finalmente lar, ninho, família e num simples escorregar, num desequilíbrio tudo perdeu, deixou de ter razão de existir.

Depois de todas as cerimonias feitas, passado o período de nojo, quando esperava pelo metro ao ir para o trabalho, antecipou a chegada do mesmo para por ele ser esmagado na esperança de reencontrar a sua amada, a sua mais que tudo, e que na morte que para ele sempre foi vista como o fim do sofrimento, fosse o reencontro  com eles, com quem um dia lhe dera uma razão de viver. Como o apego, o amor, o desejo de coexistir com alguém traz algo de bom à nossa vida. E para ele, quando os carris daquele metro lhe cortaram a carne, também como uma boa morfina, lhe cortou o sofrimento.

A confusão do conceito “eu sou como sou!”

– Eu sou assim!

– Assim como?

– Como sou.

– Quem é que te disse tal coisa?

No decorrer da nossa vida, já várias vezes teremos passado por um dialogo como este, com algumas perguntas, até mesmo diferentes, mas parece que são sempre as mesmas respostas. Estranho parece que sejamos algo tão definido, tão estático, sem abertura a novas experiências. Ser como se é, um obstáculo a novas invenções, a outras formas de estar. Como se sentíssemos necessidade de justificar ou defender a nossa identidade, como se estivesse em perigo, e com estas três simples palavras tudo fosse descrito, tudo fosse validado naquilo que sentimos, pensamos ou fazemos, que acaba por tentar definir aquilo que somos.

“Sou como sou!” Possível prisão, numa repetição de padrões, de inevitabilidades, que por vezes nos distorcem, contorcem, limitam naquilo que podíamos ser. Claro que temos de saber o que somos, isso vê-se nos nossos comportamentos, aqueles esperados perante situações idênticas. É reconfortante podermos ligar o piloto automático da vida, para desfrutarmos também da paisagem.

“És como és!” É essencial esse espaço, dá-nos um concepção de intimidade, de proximidade, une-nos ao outro pela semelhança. Torna o desconhecido conhecido, o distante próximo, numa ligação que em nós é tão natural, essencial, basilar, as relações entre nós seres humanos, com diferentes etapas, substratos, níveis que pode ir desde um simples conhecido, a família. Como ter família, de sangue ou escolhida, é tão bom.

“Ele é como é!” A nossa identidade manifesta-se pelas escolhas que fazemos. A consciência do conhecimento sobre o outro advém de conseguirmos prever como ele irá reagir ou sentir perante algo já antes vivido. Isso vê-se numa simples escolha como uma prenda de aniversário. A capacidade de conhecer o outro permite-nos optar por algo com percentagem acrescentada de sucesso de satisfação para quem a recebe. Como é bom satisfazer de quem gostamos realmente.

“Nós somos como somos!” e mais de nenhuma forma, não somos mutáveis ou quebráveis, somos uma identidade una, que se preserva, que se alimenta, para que sempre saiba como somos, pois essa possível duvida, esse momento de vazio tudo pode abalar, deixando um rasto de duvidas pelo seu caminho. Não nos questiones, aceita-nos, sabe quem somos através de tudo o que sentes em nós. Deixa-nos perceber na forma como nos reages.

“Vós sois o que sois!” O problema começa quando nessa luta por uma identidade única, perdemos a percepção que podemos mudar, que podemos decidir fazer diferente, ficando perdidos numa catadupa de erros sucessivos, sem margem para optarmos por sermos até felizes. Parece que nesses instantes, perdemos a noção que podemos ser tudo aquilo que desejarmos, parece que envelhecer significa perder a flexibilidade de ser criança, humano talvez até, de agirmos sobre o que possa ser melhor para nós. Será que temos sempre de ser como somos?

“Eles são como são…” Triste sina quando ficamos presos nas escolhas feitas não por opção, mas por parecer que não sabemos fazer diferente, tudo igual se torna, nada ganhamos, como medo de algo perdermos.

“Carlos sabia o que era, pelo menos assim ele pensava. Se lhe pedissem para se descrever ele assim o faria, sem pensar sequer no que dizia – sou um pobre rapaz, sem nada de interessante para dar, sem habilidades de maior, com uma existência simples, que a ninguém de certeza interessaria. De pouco sou capaz, no nada me encontro. Tudo parece demasiado difícil, então remeto-me à insignificância, a uma vida de repetições simples, sem nada de novo. Todos os dias aos anteriores são iguais, e assim sendo, simplesmente sobrevivo, aguardo que a morte me leve, me tire desta monotonia que eu chamo vida. – Nem ele imaginava que podia mudar, que ainda talvez até pudesse sonhar, mas nesta busca da sua própria certeza, esquecera-se que podia escolher tentar ser diferente.

“Eu sou assim!” Ok, não ponho em causa a necessidade de termos uma ideia de nós, um fio condutor que nos alumie o trajecto da vida, uma forma de prevermos futuro, para mais seguros ficarmos, e numa falsa neblina de certezas, tomar as melhores decisões possíveis nesta vida que tanto tem tanto de incerto.

Não importa saber como fazer diferente, basta para começar o desejo de tentar. Num cadeira a quarenta e cinco graus de outro alguém essa viagem pode começar. Todos nós temos o potencial de algo mais alcançar, e na maioria das vezes precisamos da companhia de alguém para um novo caminho traçar. A psicoterapia pode ser o inicio, não o fim, um trajecto primeiro feito a dois, para depois a individualidade poder ser plena.”

Sou o que sou? Sim, mas também posso ser mais, só preciso de perceber como…

 

 

 

 

Amo-te na morte, Odeio-te em vida…

Tudo o que se ganha pode-se perder, melhor, e quanto mais se deseja, quanto mais essencial se torna, mais difícil é depois viver nesse esbatimento do que já se conseguiu ser.

O amor, tanto amor que se precisa, tanto amor se anseia! Quando estamos sozinhos, sem ninguém ao nosso lado, por vezes dando-nos significância, razão de existir, vazios nos sentimos, olhando da esquerda para a direita, para com alguém se cruzar, alguém que repare nos olhos triste solitários, que procura outro olhar, um olhar que o veja, que lhe diga que o que quer ainda pode chegar, até está quase, mas que pode fugir se o momento passar.

A vida é feita de instantes, ocasiões a serem aproveitadas, investigadas, de forma a que percebamos, entendamos o que ali se passou.

O amor, ai o amor, como se ama odiar o que ele nos pode trazer…

Reencontrar alguém que já foi nosso, não sabendo quando, nem onde, mas que já pertenceu. Estranho é quando nos deparamos com alguém que nunca avistamos, que nunca sentimos, mas que no primeiro instante, no primeiro toque dos olhares, no cheiro do paladar, tudo nos parece demasiado familiar. Parece que chegamos a casa, sem nunca de lá termos saído, mas agora sabe a lar.

É verdade, quase absoluta, que o amor é o que nos faz mais sofrer, pois cria-nos dependência, passa a ser essência, o centro de tudo, mas que mesmo assim, havendo uma possibilidade razoável de perdermos o que mais queremos, que fiquemos sem chão para andar, sem força para o caminho, que mesmo sabendo tudo isto, vale mais do que tudo.

A vida torna-se mais difícil quando vivemos em função de prevenir sofrimento, com medo de tudo, sem perceção do que se perdeu, ao hesitar, ao desviar o nosso caminho, simplesmente por poder ter encontrado alguém que mete receio conhecer, pois sabemos que depois daquele primeiro momento, depois de provar o fruto desejado, pois de proibido não tem nada, será tão mais difícil viver sem ele.

Há quem não prove o prato do outro com medo do arrependimento, também existem pessoas que de tudo fazem para fugir da dor. Depois da dor vem o alivio, e assim a vida continua, entre dor, prazer, razão, tudo se mistura na cor a que chamamos vida. Vida. Vida. Se viver é sentir, então morrer é a ausência do mesmo. Quantos de nós mortos parecem estar, sem vida, numa penumbra que nada revela, o futuro é incerto, e nesse sentido, nessa premissa de vida, é melhor quieto ficar.

Depois do amor o que fica? Primeiro um vazio abismal, sem fundo aparente, numa queda continua ficamos, onde tudo inflama e tudo magoa.

A ausência traz ressaca, pior do que a da heroína, pois essa sabemos que em sete dias se vai, e esta particular abstinência, esta falta de tudo, por vezes parece arrastar a sua estadia, até nos esgotar a vontade de viver, e no fundo da esperança, mesmo com a alma destruída, ainda para o amor queremos voltar. O ser humano parece masoquista, mas depois da dor, pode vir a bonança, e para ai sempre caminhamos, mesmo que não saibamos o lugar, ele está lá para ser encontrado.

Ai o amor, esse companheiro injusto, que nos diz que agora está tudo bem, em que naquele agora nos faz sentir completos, preenchidos de tudo. Vicio lixado, vicio essencial. Depois de estar preenchido, o coração já não consegue viver vazio!

Manuel ama-a profundamente. Mais que tudo na sua vida, mesmo que a sua existência, que só depois de a conhecer fez sentido, só resiste às intemperes da vida, com ela ao seu lado, ela o seu porto seguro, o seu ninho criado. Desde sempre sabia dela, mas nunca a tinha encontrado, até o momento em que ambos se cruzaram, num breve e eterno momento, ele finalmente poderia descansar, a sua demanda tinha terminado. E nos olhos dela ele vê futuro, vida, caminho, mas agora já não só, ela ali estaria para tudo, para o trajecto já antes palmilhado, mas nunca sentido, agora seria diferente, agora seria real.

Manuel ama-a loucamente. Coisa desmesurada aos olhos de muitos, mas essencial para ele, tal com o sangue circular, ou o oxigénio entrar.

Ele ama-a, coisa bonita essa quando se pode viver na sua plenitude. Mas ele não estava preparado para a perder, para ir para não mais voltar, deixando memorias acutilantes, pretas, que ocupam todo o espaço, que sufocam, que lembram a todo o momento a ausência, a falta de tudo, a ausência do nada. Naquela tarde ela saiu, sorrindo-lhe um até já, mostrando que ainda nem foi, e já falta dele sente, pois se para ele ela é tudo, para ela, ele é o seu futuro garantido, sem riscos, só amor.

Merda para o amor quando pode ser vivido, momento a momento. Viver o agora é tão difícil, ele está sempre a passar, para o futuro se revelar. Medo todos temos de perder o momento, aquele mesmo que significado pode dar à vida, e tudo melhora, tudo fica mais brilhante, desejado. Tudo na vida tem um principio, um meio e um fim, e para ele foi cedo demais, seria sempre…

Amo-te na morte, Odeio-te em vida.

Onde estás? Para onde foste? Porquê que me deixaste sozinho, perdido?

Procuro-te para não mais te encontrar, para ansioso ficar, por te ver nos meus sonhos, mas não te conseguir chegar.

Onde estás? Onde andas? Quero-te, mas não te acedo, vives na minha mente, mas abandonas-te a minha vida mundana, e é aí, que te preciso.

Onde estás? Parece-me que me olhas, mas nem comigo falas, diz-me alguma coisa, nem que seja que já comigo não queres estar, prefiro dor a silencio.

Troco a tua ausência, pelo esquecimento, ai o esquecimento, que bem que sabia, que bem que fazia, para dormir, para conseguir imaginar algo, sem a tua contaminação.

Estás em todo lado, mas não te vislumbro em lugar nenhum.

Amo-te na morte, Odeio-te em vida!

Partiste sem aviso, sem ponderação, sem preparação, e levaste contigo tudo de bom que tinha na vida. És tu, simplesmente tu que escolhi, que quis realmente. Valeu a pena essa escolha?

Hoje não, mas ontem, no tempo anterior, em que existia para mim, que te podia tocar, sentir aquele teu cheiro da manha, que sabe tanto a casa. Onde é o meu lar agora? No cemitério não é de certeza…

Amo-te em vida…

Sempre te amei, sempre te venerei, eras o meu todo de vida, o meu centro, onde queria sempre voltar. Para onde vou agora? Perdi-me nesta procura incessante de ti, e já nem sei onde estou, já nem sei se quero realmente estar em algum lado, pois a cada esquino que cruzo, nada encontro, a não ser a minha sombra.

A cama acorda vazia de ti, carente do teu encosto, e eu ali, naquele canto esquecido, tento não procurar-te no outro lado, não quero mais sentir logo falta pela manhã, perdoa-me, mas tenho de te odiar, tenho de te afastar, tenho de me libertar…

Como seria fácil se assim fosse, mas tu, simplesmente por teres existido, por respirares e o teu coração bater, foste tudo para mim, e assim serás, pois a partir daquele momento o meu futuro foi traçado, sem ti. Onde andas? Tento não ser incoerente, mas quase desejava que houvesse um céu e um inferno, para que talvez um dia, no leito da minha morte, ainda houvesse uma hipótese remota de te reencontrar. O problema é que não sei se iria para o mesmo lugar que tu. Tu fazias de mim uma melhor pessoa, e nesse sentido, e nessa significância, deixei de o ser, deixei de acreditar, deixei de querer ser o que quer que fosse, agora já nada faz sentido.

Amo-te na morte, mas tenho de te Odiar em vida, pois as reminiscências de uma vida contigo partilhada dói demais, corta-me o peito meu amor.

Tu foste e eu fiquei, distancia injusta para ambos! Perdeste-me também, já ninguém se recosta no meu peito, pois esse lugar para sempre reservado ficou. Esse lugar será para sempre teu. E teias de aranha terá, para demonstrar a falta de uso, a reserva de alguém que nunca vai chegar, mas nunca se sabe, talvez me chegues nos sonhos, por favor volta, nem que seja numa realidade subjetiva.

Grita-me, olha-me, existe para mim, por favor, não sei aguento a tua inexistência…

Odeio-te em vida!

Aqui fiquei, aqui estou, parado, sem saber para onde ir, nem sequer saber se quero, se consigo. Amar-te dói demais, e tenho de te odiar por isso, perdoa-me meu amor, meu carinho, minha razão de existir, já não suporto as memórias, que só me lembram que te perdi, que já não te tenho, que te quero, mas já não te alcanço.

Odeio-te em vida!

Quem me der conseguir!

Desculpa já não sei o que digo, a dor atrapalha-me a mente, engana-me os sentidos, nem articular como deve ser consigo, mas sempre me deixaste sem palavras e sempre te amei por isso, mas agora, neste momento, eu, sozinho e desesperado, só daqui quero sair, ponderar que ainda posso viver, sem ti! Que vazio amor, que insuficiência de vida.

Amo-te na morte, ODEIO A MINHA VIDA SEM TI!

A vida como um todo.

A mortalidade da nossa imortalidade.

Todos nós a uma certa altura da vida fomos imortais. Fomos tudo o que a vida nos permitiu ser, sem limites, sem restrições, identidades que tudo podiam fazer sem qualquer limite. Lembram-se quando o tempo custava a passar, quando um dia era uma eternidade, e esse mesmo tempo era para ser vivido, para ser aproveitado, sem qualquer limite. Nesta altura o limite não existe é uma palavra de ordem não o ter. Limites quem os viu, só com o avanço da idade que tudo se torna mortal. Como qualquer coisa nesta realidade que é a nossa em que tem um principio, um meio e um fim, também nós temos uma fase ascendente, e o declínio que espera por todos nós. Mas será que em todos os momentos temos essa noção? Será que poderíamos viver se sempre pensasse-mos que um dia tudo terminaria?

Como é quando somos inocentes? Sem qualquer ideia da maldade, e do que a vida nos faz ser e sentir. Sermos pequenos, dependentes daqueles que nos protegem e nos auxiliam a crescermos. Como seria bom não sermos em tudo responsáveis em tudo o que fazemos? Mas como tudo existe um lado solar e um lunar, frio e sem vida. Pois agora que mais velhos somos, seria difícil voltarmos atrás? E faríamos assim tão diferente? Isso é uma questão tão complicada, pois se realmente gostamos daquilo que somos hoje em dia, e se esse resultado é a combinação de tudo o que fizemos, então se mudássemos mesmo que só uma pequena coisa, não perderíamos a nossa identidade. Por varias teorias dos multiversos, podemos afirmar que por cada encruzilhada em que temos de tomar uma decisão uma parte de nós segue um caminho, e a outra segue o outro. Neste caso então o que somos senão uma consequência das nossa escolhas, e que por ai andará outras versões de nós, não necessariamente melhores, mas simplesmente diferentes.

Como é bom lembrar quando tudo podíamos fazer, quando tudo era possível, não por ser na realidade, mas por o sentirmos, e isso, era o que mais contava. Ser jovem era tão bom! Mas o que significa ser jovem? E quando termina a nossa juventude? Há quem diga que cedo demais, outros parecem nunca dela saírem. Mas todos nós, mesmo que contrariados, temos de a deixar para traz, para outras coisas viver. Mas como é cheia de saudades tais memorias. Eu lembro-me de não ter limites, essa palavra que já antes referi, e tanto repito, não por querer, mas porque a vida me obrigou a olhar para eles, e mesmo que nunca queira, sempre tenho que o fazer.

 

Como seria sermos os jovens invencíveis que já fomos, e não o podermos sentir? Sermos limitados pela finitude do tempo? Para isso já chega quando o tempo nos obriga a isso sentir, mas isso não é para a nossa adolescência. Quem nos dera ser jovens outra vez! Será que seria assim tão bom? Com tudo à flor da pele, em que o sentir se tornava extremos de um momento para outro, em que os desaires da vida, eram catástrofes impensáveis de ultrapassar? Como os idosos o dizem “se soubesse o que sei hoje!”. Mas isso seria impossível, senão não seriamos jovens, livres das limitações do tempo e da carne mortal, onde saltar de uma ponte para um rio de cor baça, sem termos noção da sua profundidade e perigos, tornava-se impensável. Daí a necessidade de sermos jovens e não criaturas envelhecidas. Da mesma forma que considerando que o auge da nossa competência percebida é entre os trinta e os quarenta e cinco anos, temos de sentir que os projectos são uma escolha, misturada com empenho, esse elemento tão necessário ao nosso sucesso. E faz sentido que seja nesta fase ascendente de vida que já tenhamos objectivos de vida, projectos realizáveis, um fio condutor de vida. E o que acontece se não encontramos esse mesmo trajecto? O que nos sobra? Uma resignação ao que a vida nos traz, sem o prazer da busca, da conquista!

O que significa envelhecer, mesmo que jovem ainda? Como reparamos nós que o tempo nos ganha na sua própria corrida? Como já antes o disse, e o reitero, o tempo leva o que é dele! E digam vocês o que isso significa? O que leva ele que não reparamos, só quando é tarde é que vislumbramos, que contra ele nunca ganhamos. Pensemos sobre as diferentes idades que já vivemos. Já muitas vezes observei as pessoas de idade mais avançada para tentar perceber e prever o que será para mim também o ser! Mas tudo se torna diferente, por mais uma vez as escolhas. Tudo se resume a isso. O que escolho e que consequência e que isso tem na minha vida. Então o que se deve escolher, para quando a mortalidade se aproximar de nós, quando repararmos que aqueles que eram importantes para nós começam a desaparecer, e cada vez mais sozinhos nos sentimos? Como deve ser triste ver partir aqueles que connosco partilharam a vida, com amargos de boca e sorrisos abertos. Eles sempre lá estiveram, e com a finitude da vida, também partem, não sei para onde, mas sei que nos deixam, e nesta inexistência carnal, a saudade toma conta. “Sinto a tua falta, a cada momento do dia. Como te queria aqui, ou eu aí contigo, onde quer que isso seja. Mas para minha pena, ainda tenho que por aqui andar a vaguear por um mundo que já não conheço, que me ultrapassa, que já me ultrapassou à muito, sem que eu próprio me desse conta. Quando perdi eu o comboio da evolução? Mas isso agora também não interessa. O meu tempo também chegará, e por ele espero já com ansiedade. Já estou preparado para deixar de existir, a vida já cansa, e eu consumido por ela, anseio um descanso eterno, seja ele o que seja, um simples fim, ou um principio.”

Desde que nascemos até morremos atravessamos tantas fases diferentes, para depois podermos ir embora, e deixar cá alguma coisa, seja ela qual seja. Mas o destino do ser humano é deixar uma marca no mundo que todos os dias muda.

Qual é a sua marca eterna?

A mesa de Natal.

Mesa abastada, lugares vazios.

Passámos mais um período de festejos, de confraternização, de reencontros, que é tão típica altura de que o ano nos proporciona. O Natal simboliza para muitos uma sala colorida, iluminada, de mesa sempre posta, com os típicos acompanhamentos, que divergem da nossa zona e cultura. Tudo à nossa volta nos recorda constantemente que um acontecimento que já tem dois mil e dezoito anos, e continua com a mesma importância que sempre teve. Tudo começa atempadamente, entre cozinha, decoração, e entre emoções partilhadas e desejadas. Como é reconfortante chegar a casa, e ter aquele cheiro tão característico, como as filhoses, as azevias, o polvo, o bacalhau, ou até mesmo o peru. Espalhados pelo chão, em redor do nosso pinheiro, verde, branco, até mesmo rosa, aqueles volumes envolvidos pelas cores, os laços, que as crianças anseiam por rasgar, para finalmente chegar ao objeto desejado. E como é tão recompensador, quando para elas, aquele momento, é de uma verdadeira euforia. Até porque com antecedência, o pai natal ou o menino Jesus, foram avisados, do que se queria. É uma altura em que os horários, os rituais da nossa vida comum são contornados, são até ignorados, pois o menino Jesus, chega sempre tardiamente, e ao chegar a meia noite corre-se, salta-se para tudo abrir, experimentar, e vale a pena todo o trabalho que se tem, para ver aquele respirar ansioso a quem nós oferecemos. Sim, porque isto é um tempo de partilha, de mostrar-se a quem nos é querido, da importância e espaço ocupam no nosso coração.

Mas também esta altura, tem um sentimento ambivalente.

É na altura de por a mesa, que podemos também sentir a falta!

Todos nós passamos por diferentes momentos, diferentes configurações da nossa mesa de repasto. Entre famílias mais extensas, ou refeições mais solitárias, tudo se faz para não quebrar com as tradições, até mesmo para manter viva e perto de nós, os usos e hábitos que quem connosco já não se encontra. O tempo não perdoa, e assim sendo, leva o que é dele. Já fomos netos, filhos, irmãos, pais, companheiros, e com esse desenrolar de papeis, uns partem e outros chegam.

“Odete anda na sua afaza-ma do costume, o mundo assim a obriga. É dia 24, e todos estão a chegar. Começou cedo nesse tão conhecido ritual. Pela manhã começa por preparar o seu tão apreciado bacalhau, que fora comprado naquela pequena loja na baixa de Lisboa, que sempre vendeu o bacalhau que mais agrada. Ela tem um prazer redobrado em ver todos sorrir, em sentir a gula nos outros, do que das suas mãos é elaborado. Já o tinha deixado a demolhar há uns dias, pois todo o cuidado é pouco, e para ela tem de estar tudo perfeito. Depois é altura das frituras. Os filhoses! Essa receita antiga que a sua mãe lhe ensinou com tanto carinho, que já antes tinha sido aprendido com a sua. A massa fica a levedar, dando-lhe tempo para ser polivalente, pois essa é a palavra de ordem. Os sonhos aqui existem em cima da mesa, e até ontem há noite com eles sonhou. Nada pode faltar, é sempre essencial que sobre.

Naquela correria que vai da cozinha à sala, seria tão importante ter Jorge ao seu lado. Como era essencial este trabalho de equipa, mesmo que ele pouco fizesse. Era o estar que mais importava, aquela disponibilidade para a qualquer pedido realizar. Mas para ela, esse vazio existe. Ele já partira há dois anos, e isso nestas coisas, é tão pouco tempo. Esse sabor amargo que a rodeia, aperta-lhe o coração. Foram quarenta anos de companheirismo, de amor, que terminar tão antes de tempo. A historia não devia ter sido interrompida. As saudades acompanham-na a cada passo que dá, e para isso não há solução. Sente-se só naquelas noites de Inverno, que o toque dos outros nos aquece. Aquele lugar vazio na sua mesa, onde antes comiam dois, agora na maioria das vezes, partilha com a televisão as conversas que lhe eram tão familiares. Não era preciso grandes coisas, bastava a companhia. E isso não pode ser substituído. Já teve casa sempre cheia, pois com quatro filhos, difícil era estar sozinha. Mas a vida leva e traz tanta coisa. Foi vendo os seus precisos filhos a crescerem, a construírem uma vida, na qual ela sempre fará parte. Mas ela sente. Sente tanta falta dele, nunca se tinha sentido tão só! Sem discussões, só com ocasionais divergências, que rapidamente eram resolvidas, a vida era tão idílica com Jorge. Todos aqueles hábitos dele, depois de uma vida de trabalho, podiam viver ao seu ritmo. O acordar de manhã e olhar para o lado, e ver, sentir que ele ali estava, que ele queria estar. Ia como de costume ao velho quiosque comprar o seu jornal, que ao sábado pela manha era folheado à mesa. E com essas palavras imprimidas, trazia também o pão acabado de cozer. Era neste momentos que para Odete estava o cerne da sua felicidade. Era alguém com quem tudo se partilhava, tudo era permitido. Tinha-o conhecido na festa da sua aldeia de origem. Era um moço vistoso, com o seu chapeu tão característico, e no meio da multidão partilharam um olhar, que para sempre os mudou. E daí, de um simples momento, construiu-se uma vida. E ela adorava a vida que tinha, melhor, ela amava tudo! Lembra-se também que seus pais não lhe davam a liberdade que desejava, mas por portas e travessas, arranjava sempre forma para estar um pouco com ele. Ela sentira que era com ele que estava predestinada ficar, quase como se tivesse sido uma cara a encontrar a sua metade. Como é que se pode viver, depois de perder tal coisa, e fora com um simples nome, que o perdeu. Um simples acontecimento, que tudo mudou, que vazio ficou o seu coração. Os seus filhos tanto apoio lhe tem dado, e como lhes está grata, mas sente tantas saudades de Jorge. Ele fora o farol para a sua barca que à deriva andava. Era o alimento para a sua alma, o raiar do seu dia, mas agora, depois de partir, o sol nunca mais sorriu como antes. A mesa até estava mais preenchida, mas o seu coração ainda gritava por ele, tentava o procurar, mas só nas recordações o encontrava, e como é duro não ter, não tocar, não ouvi-lo. “Jorge! Jorge! Tanta falta me fazes! Tenho tantas saudades que nem consigo explicar. Olho para a cadeira vazia, do outro lado da nossa mesa e anseio encontrar-te, falar-te, abraçar-te e nunca mais te largar, mas hoje abraço a tua ausência. Sabes, ainda dou por mim à deriva pela casa a tentar reaver-te, para te manter perto de mim, para aconchego encontrar no teu regaço. Onde andas meu amor? O destino é cruel. Agora, logo agora, que a vida era só para nós, que tempo tínhamos para tudo, tu partiste. E eu fiquei! O António ainda o outro dia me estava a falar de ti. Lembraste quando o ensinaste a pescar? Com uma vara, um fio, uma rolha e um anzol uma cana lhe fizeste, e o mais engraçado é que ainda a hoje a tem! Também sei que todos eles sofrem por não te terem, e como alegre fico de termos construído uma família como a nossa. Todos eles têm estado, onde tu já não te encontras. Vem tantas vezes visitar-me, e é bom. Mas ao final do dia, quando para a cama me desloco, era tu que eu queria. A cama parece tão grande e gelada sem ti! Gostava tanto de te ver com os óculos descaídos para a ponta do teu nariz enquanto lias, e como era de habito pedia-te para em voz alta leres. Gosto tanto da tua voz, e como me sinto sortuda pelos nossos filhos terem feito todos aqueles momentos gravados para não te perder totalmente, pois ali ainda existíamos. Dou por mim a ver vezes sem conta momentos que nada supostamente de especial têm, mas para mim, têm um valor acrescido. Onde estás meu amor? Onde te posso encontrar? A única coisa que me alivia é que te encontrarei, assim a minha fé me diz. E anseio com todas as forças que ainda tenho esse momento, em que te possa ter de novo. Sinto a tua falta, e para sempre a sentirei. A ponta da mesa era tua, e nesse espaço vejo agora o buraco que tenho dentro de mim. Olho para te rever, e com tristeza encontro-me só a mim no espelho que tínhamos comprado na viagem que culminou a nossa união, a nossa lua de mel. Simples foi, mas o que importa não é onde, é com quem! Por agora tenho de te deixar meu querido, eles estão quase a chegar e eu ainda tenho de fazer muitas coisas, pois quero que tudo seja perfeito, eles merecem. Mas volto, volto sempre para ao pé de ti. Como te amo, como fui feliz, tu sempre foste o que sempre desejei. Uma vida inteira contigo, e mais vidas viveria, desde de que tu lá estivesses. Um até já meu amor!”

E com um tocar da campainha tudo iria começar, o Natal chegara!

O Último Adeus!

Lá está Bruno, no seu canto, sem saber o que fazer, o que dizer, como se existisse alguma coisa para dizer. Ela tinha ido embora, ela tinha desistido, e o mais cruel é que ele tinha ficado, para aquele ultimo momento ter de o fazer. Como é duro esta forma de viver a morte, este teatro ocidental, desde o velório macabro, onde se vela um corpo frio, sem vida, onde já não está de quem se gostou, de quem se quis bem, mas agora só existem em reminiscências daqueles momentos de vida. O problema é quando essas mesmas memórias ainda magoam pois ainda não acabou, ainda não se ficou no vazio depois da terra ou as chamas comerem aquilo que já foi alguém para nós. Este velho ritual que de negro se veste e que de uma multidão passamos a uma solidão extrema quando tudo acaba, quando o corpo desaparece só ficamos com a falta de quem partiu e já não voltará. Nestes momentos a raiva instala-se depois de acreditarmos que perdemos alguém, que para nós importava. Porquê que ela partiu e no caso dela, para Bruno tudo perdeu, e desta forma não é justo, nem mesmo para ela. Como foi possível tudo assim acabar. Mas lá está ele naquela sala fria rodeado que todos aqueles que conhece, mas nunca se sentiu tão só, quase desamparado, quase desnorteado. Todos o cumprimentam e ele não o queria, por significar o que significa. Ela já partiu, não porque quis, mas porque não aguentou, e ele, que tanto tentou, nada conseguiu. Sente que só adiou o inevitável, pois no fundo ele sabia que ela partiria desta forma. Todos em fila lhe tocam e ele grita por dentro “larguem-na, ela é minha, vocês nada sabem o que ela passou, e muitos de vocês a certa altura deixaram de querer saber.”. Mas no fundo ele percebe porquê.

Mas lá está toda a gente e ele ao fundo vê-o, ao único que queria ver, que queria abraçar, que queria conforto, que queria algo de bom. – Saraiva?

Ele aproxima-se de Bruno e as lágrimas pelo rosto lhe escorrem, pois ele sabe como ele tentou, ele de tudo sabe, e assim sendo, sabe como lhe está a doer. E parece para Bruno que o tempo que demoram a encontrarem-se a meio caminho está demorado, ele anseia sentir o seu peito, para se deixar levar, para se sentir protegido, pois no fundo ele sabe que sozinho não está, mas o problema é que era ela que ele queria, mas agora nada pode fazer. Lá se encontram e ele derrama o sangue no regaço dele, pois não sabe o que fazer, como se livrar desta dor que ainda agora começou. Pois o mais difícil ainda está para vir, e ele aquele amigo que sempre lá esteve quando mais foi preciso, durante todas aquelas crises que ela sempre teve, o confortou, o apoiou, o manteve firme naquele barco que ele sabia que Bruno não conseguia sair, e assim sendo, não o poderia criticar, somente lá estar. E neste momento de perda total, neste momento em que o inevitável aconteceu, ele sabia que o fim seria assim, Bruno precisaria dele, mais do que nunca, e ele por momentos tinha de por as suas necessidades em stand by por ele. Agora era o tempo de Bruno. E isso ele sabia o que significava. A partir daquele momento, Bruno ficaria para sempre incompleto.

-Saraiva, o que faço???

– Agora nada Bruno, deixa-te ficar aqui ao pé de mim. Já comeste?

– O que há para comer agora, não sinto o corpo, percebes não percebes? Perdia-a de vez, não consegui, não consegui…

Nada havia a conseguir, era impossível mudar esta historia predestinada. Estava também nos astros que assim seria, até mesmo alguém já lho tinha dito, pois em desespero até a alguém que lia a vida de alguém em objetos obsoletos, lhe tinha dito que iria perder para a doença, que não seria pela via médica que conseguiria, mas ele não acreditou, não quis acreditar. Mas também por ali não teria sucesso, estava marcado na linha da vida na sua mão que a vida dela terminaria cedo e de forma sangrenta. Mas lá estavam todos no velório e ele só queria ficar sozinho com quem mais gostava de ali ter. E a raiva que lhe metia ver gente a conversar com gente, sobre coisas comuns, pois é nas festividades e perdas que muitos de nós nos reencontramos. Mas para ele é visceral ver tal coisa, falam do tempo, de futebol, mas eles não entendem o que se está a passar? “Merda para vocês todos, saiam daqui, vão para o café e deixem-me aqui com ela!”. Saraiva percebe do estado de nervos em que Bruno se encontra e desvia-o até um pequeno café ao lado da florista, em que todos passam antes de entrar. Flores que aconchegam a morte de alguém, mas não aconchegam a perda para quem cá fica.

– Vou-te pedir um galão. Consegues?

– Acho que sim. O que faço agora? Como posso eu continuar a viver agora? O que faço? Diz-me?

– Agora tens de passar por isto, nada mais, depois logo vemos!

E o mais duro para Bruno é que nem com ela pode passar a noite, chegada a temerosa meia noite a porta tem de se fechar e ela lá sozinha ficará, e ele não saberá como em casa estar, naquele vazio, naquela dor interminável, e ainda por cima tem de saber receber, tem de ainda apoiar quem precisar! Lá está a mãe dela, sem saber o que fazer, desaustinada, perdida dentro de si própria, pois a culpa a dilacera, pois nele não quis acreditar, quis confiar cegamente que ele teria de ser capaz de fazer o que ela nunca tentou. E isso ainda mais raiva lhe traz, pois ele sabe de tudo isso, sabe da responsabilidade que ela teve neste caminho, que nisto terminou. Ela nunca quis saber, tudo parecia mais importante que aquela inocente pessoa, que sempre a procurou, para nunca a encontrar. Tudo era mais importante, as viagens, os namoros, o dinheiro, tudo era mais importante do que o sofrimento dela. Mas agora nestes dias, com ela tem de conviver, mas olha-a fixamente, e ela na sua nuca sente o calor enraivecido e fulminante mirar. Mas falta pouco para com ela nunca mais partilhar espaço e ar.

– Calma Bruno, agora não é tempo para guerras. Depois logo se verá se ainda sentido te faz.

Mas a noite passa, e o dia chega, o ultimo momento, e depois não terá de fingir mais. Mas ela para o chão irá, e depois desaparecerá para sempre. E aquele caminhar desde onde o corpo foi velado, para onde será enterrado, parece uma procissão de negro, com um silêncio aterrador.

Chegado ao local da campa, aquele buraco inferniza-o. E o mais duro é vê-la pela ultima vez, pois ela parecia não acreditar, mas para ele não sabia o que fazer senão um enterro católico. Da terra vimos, e para lá voltamos. E aquele trajeto que tanto custa a fazer, parece que não queremos chegar, não queremos perder de vez aquela pessoa, aquela energia. E para Bruno, isso significava sozinho outra vez ficar. Tantas vezes se sentira assim, nas crises que ela enfrentara, nos gritos, nos pedidos que a morte a levasse que não acordasse, que tudo passasse. Mas nada nunca mudou, e agora sim, para ela tudo tinha acabado. Bruno não sabe onde ela estará, se mesmo estará em algum sitio. Ele sabe que ela já com ele não está. E naquele caixão de pregas douradas, o seu corpo frio e cinzento se encontra. E num movimento seco, um balde de cal se despeja no seu corpo com aquele vestido que ela tão adorava, em que ela já tinha sorrido, tinha sido ele a encontra-lo para ela. E nada mais ela queria dele, senão a sua existência, o seu ser, ali perto, mas longe ao mesmo tempo, pois também lhe lembrava que o magoava. E numas ultimas palavras, num ultimo toque de Bruno na face esfriada dela, se despede “Adeus meu amor, que agora melhor te sintas, que o sofrimento da carne já não te acompanhe!”. E depois o caixão se fecha, e tudo parece ter acabado, e desce devagar até ao fundo chegar. E depois um leve rosa branca sobre ele repousa, para um ultimo beijo dele.

Agora, já em casa, tudo acabou.

– O que faço agora Saraiva?

– Sobrevives, nada mais!