A confusão do conceito “eu sou como sou!”

– Eu sou assim!

– Assim como?

– Como sou.

– Quem é que te disse tal coisa?

No decorrer da nossa vida, já várias vezes teremos passado por um dialogo como este, com algumas perguntas, até mesmo diferentes, mas parece que são sempre as mesmas respostas. Estranho parece que sejamos algo tão definido, tão estático, sem abertura a novas experiências. Ser como se é, um obstáculo a novas invenções, a outras formas de estar. Como se sentíssemos necessidade de justificar ou defender a nossa identidade, como se estivesse em perigo, e com estas três simples palavras tudo fosse descrito, tudo fosse validado naquilo que sentimos, pensamos ou fazemos, que acaba por tentar definir aquilo que somos.

“Sou como sou!” Possível prisão, numa repetição de padrões, de inevitabilidades, que por vezes nos distorcem, contorcem, limitam naquilo que podíamos ser. Claro que temos de saber o que somos, isso vê-se nos nossos comportamentos, aqueles esperados perante situações idênticas. É reconfortante podermos ligar o piloto automático da vida, para desfrutarmos também da paisagem.

“És como és!” É essencial esse espaço, dá-nos um concepção de intimidade, de proximidade, une-nos ao outro pela semelhança. Torna o desconhecido conhecido, o distante próximo, numa ligação que em nós é tão natural, essencial, basilar, as relações entre nós seres humanos, com diferentes etapas, substratos, níveis que pode ir desde um simples conhecido, a família. Como ter família, de sangue ou escolhida, é tão bom.

“Ele é como é!” A nossa identidade manifesta-se pelas escolhas que fazemos. A consciência do conhecimento sobre o outro advém de conseguirmos prever como ele irá reagir ou sentir perante algo já antes vivido. Isso vê-se numa simples escolha como uma prenda de aniversário. A capacidade de conhecer o outro permite-nos optar por algo com percentagem acrescentada de sucesso de satisfação para quem a recebe. Como é bom satisfazer de quem gostamos realmente.

“Nós somos como somos!” e mais de nenhuma forma, não somos mutáveis ou quebráveis, somos uma identidade una, que se preserva, que se alimenta, para que sempre saiba como somos, pois essa possível duvida, esse momento de vazio tudo pode abalar, deixando um rasto de duvidas pelo seu caminho. Não nos questiones, aceita-nos, sabe quem somos através de tudo o que sentes em nós. Deixa-nos perceber na forma como nos reages.

“Vós sois o que sois!” O problema começa quando nessa luta por uma identidade única, perdemos a percepção que podemos mudar, que podemos decidir fazer diferente, ficando perdidos numa catadupa de erros sucessivos, sem margem para optarmos por sermos até felizes. Parece que nesses instantes, perdemos a noção que podemos ser tudo aquilo que desejarmos, parece que envelhecer significa perder a flexibilidade de ser criança, humano talvez até, de agirmos sobre o que possa ser melhor para nós. Será que temos sempre de ser como somos?

“Eles são como são…” Triste sina quando ficamos presos nas escolhas feitas não por opção, mas por parecer que não sabemos fazer diferente, tudo igual se torna, nada ganhamos, como medo de algo perdermos.

“Carlos sabia o que era, pelo menos assim ele pensava. Se lhe pedissem para se descrever ele assim o faria, sem pensar sequer no que dizia – sou um pobre rapaz, sem nada de interessante para dar, sem habilidades de maior, com uma existência simples, que a ninguém de certeza interessaria. De pouco sou capaz, no nada me encontro. Tudo parece demasiado difícil, então remeto-me à insignificância, a uma vida de repetições simples, sem nada de novo. Todos os dias aos anteriores são iguais, e assim sendo, simplesmente sobrevivo, aguardo que a morte me leve, me tire desta monotonia que eu chamo vida. – Nem ele imaginava que podia mudar, que ainda talvez até pudesse sonhar, mas nesta busca da sua própria certeza, esquecera-se que podia escolher tentar ser diferente.

“Eu sou assim!” Ok, não ponho em causa a necessidade de termos uma ideia de nós, um fio condutor que nos alumie o trajecto da vida, uma forma de prevermos futuro, para mais seguros ficarmos, e numa falsa neblina de certezas, tomar as melhores decisões possíveis nesta vida que tanto tem tanto de incerto.

Não importa saber como fazer diferente, basta para começar o desejo de tentar. Num cadeira a quarenta e cinco graus de outro alguém essa viagem pode começar. Todos nós temos o potencial de algo mais alcançar, e na maioria das vezes precisamos da companhia de alguém para um novo caminho traçar. A psicoterapia pode ser o inicio, não o fim, um trajecto primeiro feito a dois, para depois a individualidade poder ser plena.”

Sou o que sou? Sim, mas também posso ser mais, só preciso de perceber como…

 

 

 

 

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Amo-te na morte, Odeio-te em vida…

Tudo o que se ganha pode-se perder, melhor, e quanto mais se deseja, quanto mais essencial se torna, mais difícil é depois viver nesse esbatimento do que já se conseguiu ser.

O amor, tanto amor que se precisa, tanto amor se anseia! Quando estamos sozinhos, sem ninguém ao nosso lado, por vezes dando-nos significância, razão de existir, vazios nos sentimos, olhando da esquerda para a direita, para com alguém se cruzar, alguém que repare nos olhos triste solitários, que procura outro olhar, um olhar que o veja, que lhe diga que o que quer ainda pode chegar, até está quase, mas que pode fugir se o momento passar.

A vida é feita de instantes, ocasiões a serem aproveitadas, investigadas, de forma a que percebamos, entendamos o que ali se passou.

O amor, ai o amor, como se ama odiar o que ele nos pode trazer…

Reencontrar alguém que já foi nosso, não sabendo quando, nem onde, mas que já pertenceu. Estranho é quando nos deparamos com alguém que nunca avistamos, que nunca sentimos, mas que no primeiro instante, no primeiro toque dos olhares, no cheiro do paladar, tudo nos parece demasiado familiar. Parece que chegamos a casa, sem nunca de lá termos saído, mas agora sabe a lar.

É verdade, quase absoluta, que o amor é o que nos faz mais sofrer, pois cria-nos dependência, passa a ser essência, o centro de tudo, mas que mesmo assim, havendo uma possibilidade razoável de perdermos o que mais queremos, que fiquemos sem chão para andar, sem força para o caminho, que mesmo sabendo tudo isto, vale mais do que tudo.

A vida torna-se mais difícil quando vivemos em função de prevenir sofrimento, com medo de tudo, sem perceção do que se perdeu, ao hesitar, ao desviar o nosso caminho, simplesmente por poder ter encontrado alguém que mete receio conhecer, pois sabemos que depois daquele primeiro momento, depois de provar o fruto desejado, pois de proibido não tem nada, será tão mais difícil viver sem ele.

Há quem não prove o prato do outro com medo do arrependimento, também existem pessoas que de tudo fazem para fugir da dor. Depois da dor vem o alivio, e assim a vida continua, entre dor, prazer, razão, tudo se mistura na cor a que chamamos vida. Vida. Vida. Se viver é sentir, então morrer é a ausência do mesmo. Quantos de nós mortos parecem estar, sem vida, numa penumbra que nada revela, o futuro é incerto, e nesse sentido, nessa premissa de vida, é melhor quieto ficar.

Depois do amor o que fica? Primeiro um vazio abismal, sem fundo aparente, numa queda continua ficamos, onde tudo inflama e tudo magoa.

A ausência traz ressaca, pior do que a da heroína, pois essa sabemos que em sete dias se vai, e esta particular abstinência, esta falta de tudo, por vezes parece arrastar a sua estadia, até nos esgotar a vontade de viver, e no fundo da esperança, mesmo com a alma destruída, ainda para o amor queremos voltar. O ser humano parece masoquista, mas depois da dor, pode vir a bonança, e para ai sempre caminhamos, mesmo que não saibamos o lugar, ele está lá para ser encontrado.

Ai o amor, esse companheiro injusto, que nos diz que agora está tudo bem, em que naquele agora nos faz sentir completos, preenchidos de tudo. Vicio lixado, vicio essencial. Depois de estar preenchido, o coração já não consegue viver vazio!

Manuel ama-a profundamente. Mais que tudo na sua vida, mesmo que a sua existência, que só depois de a conhecer fez sentido, só resiste às intemperes da vida, com ela ao seu lado, ela o seu porto seguro, o seu ninho criado. Desde sempre sabia dela, mas nunca a tinha encontrado, até o momento em que ambos se cruzaram, num breve e eterno momento, ele finalmente poderia descansar, a sua demanda tinha terminado. E nos olhos dela ele vê futuro, vida, caminho, mas agora já não só, ela ali estaria para tudo, para o trajecto já antes palmilhado, mas nunca sentido, agora seria diferente, agora seria real.

Manuel ama-a loucamente. Coisa desmesurada aos olhos de muitos, mas essencial para ele, tal com o sangue circular, ou o oxigénio entrar.

Ele ama-a, coisa bonita essa quando se pode viver na sua plenitude. Mas ele não estava preparado para a perder, para ir para não mais voltar, deixando memorias acutilantes, pretas, que ocupam todo o espaço, que sufocam, que lembram a todo o momento a ausência, a falta de tudo, a ausência do nada. Naquela tarde ela saiu, sorrindo-lhe um até já, mostrando que ainda nem foi, e já falta dele sente, pois se para ele ela é tudo, para ela, ele é o seu futuro garantido, sem riscos, só amor.

Merda para o amor quando pode ser vivido, momento a momento. Viver o agora é tão difícil, ele está sempre a passar, para o futuro se revelar. Medo todos temos de perder o momento, aquele mesmo que significado pode dar à vida, e tudo melhora, tudo fica mais brilhante, desejado. Tudo na vida tem um principio, um meio e um fim, e para ele foi cedo demais, seria sempre…

Amo-te na morte, Odeio-te em vida.

Onde estás? Para onde foste? Porquê que me deixaste sozinho, perdido?

Procuro-te para não mais te encontrar, para ansioso ficar, por te ver nos meus sonhos, mas não te conseguir chegar.

Onde estás? Onde andas? Quero-te, mas não te acedo, vives na minha mente, mas abandonas-te a minha vida mundana, e é aí, que te preciso.

Onde estás? Parece-me que me olhas, mas nem comigo falas, diz-me alguma coisa, nem que seja que já comigo não queres estar, prefiro dor a silencio.

Troco a tua ausência, pelo esquecimento, ai o esquecimento, que bem que sabia, que bem que fazia, para dormir, para conseguir imaginar algo, sem a tua contaminação.

Estás em todo lado, mas não te vislumbro em lugar nenhum.

Amo-te na morte, Odeio-te em vida!

Partiste sem aviso, sem ponderação, sem preparação, e levaste contigo tudo de bom que tinha na vida. És tu, simplesmente tu que escolhi, que quis realmente. Valeu a pena essa escolha?

Hoje não, mas ontem, no tempo anterior, em que existia para mim, que te podia tocar, sentir aquele teu cheiro da manha, que sabe tanto a casa. Onde é o meu lar agora? No cemitério não é de certeza…

Amo-te em vida…

Sempre te amei, sempre te venerei, eras o meu todo de vida, o meu centro, onde queria sempre voltar. Para onde vou agora? Perdi-me nesta procura incessante de ti, e já nem sei onde estou, já nem sei se quero realmente estar em algum lado, pois a cada esquino que cruzo, nada encontro, a não ser a minha sombra.

A cama acorda vazia de ti, carente do teu encosto, e eu ali, naquele canto esquecido, tento não procurar-te no outro lado, não quero mais sentir logo falta pela manhã, perdoa-me, mas tenho de te odiar, tenho de te afastar, tenho de me libertar…

Como seria fácil se assim fosse, mas tu, simplesmente por teres existido, por respirares e o teu coração bater, foste tudo para mim, e assim serás, pois a partir daquele momento o meu futuro foi traçado, sem ti. Onde andas? Tento não ser incoerente, mas quase desejava que houvesse um céu e um inferno, para que talvez um dia, no leito da minha morte, ainda houvesse uma hipótese remota de te reencontrar. O problema é que não sei se iria para o mesmo lugar que tu. Tu fazias de mim uma melhor pessoa, e nesse sentido, e nessa significância, deixei de o ser, deixei de acreditar, deixei de querer ser o que quer que fosse, agora já nada faz sentido.

Amo-te na morte, mas tenho de te Odiar em vida, pois as reminiscências de uma vida contigo partilhada dói demais, corta-me o peito meu amor.

Tu foste e eu fiquei, distancia injusta para ambos! Perdeste-me também, já ninguém se recosta no meu peito, pois esse lugar para sempre reservado ficou. Esse lugar será para sempre teu. E teias de aranha terá, para demonstrar a falta de uso, a reserva de alguém que nunca vai chegar, mas nunca se sabe, talvez me chegues nos sonhos, por favor volta, nem que seja numa realidade subjetiva.

Grita-me, olha-me, existe para mim, por favor, não sei aguento a tua inexistência…

Odeio-te em vida!

Aqui fiquei, aqui estou, parado, sem saber para onde ir, nem sequer saber se quero, se consigo. Amar-te dói demais, e tenho de te odiar por isso, perdoa-me meu amor, meu carinho, minha razão de existir, já não suporto as memórias, que só me lembram que te perdi, que já não te tenho, que te quero, mas já não te alcanço.

Odeio-te em vida!

Quem me der conseguir!

Desculpa já não sei o que digo, a dor atrapalha-me a mente, engana-me os sentidos, nem articular como deve ser consigo, mas sempre me deixaste sem palavras e sempre te amei por isso, mas agora, neste momento, eu, sozinho e desesperado, só daqui quero sair, ponderar que ainda posso viver, sem ti! Que vazio amor, que insuficiência de vida.

Amo-te na morte, ODEIO A MINHA VIDA SEM TI!

A vida como um todo.

A mortalidade da nossa imortalidade.

Todos nós a uma certa altura da vida fomos imortais. Fomos tudo o que a vida nos permitiu ser, sem limites, sem restrições, identidades que tudo podiam fazer sem qualquer limite. Lembram-se quando o tempo custava a passar, quando um dia era uma eternidade, e esse mesmo tempo era para ser vivido, para ser aproveitado, sem qualquer limite. Nesta altura o limite não existe é uma palavra de ordem não o ter. Limites quem os viu, só com o avanço da idade que tudo se torna mortal. Como qualquer coisa nesta realidade que é a nossa em que tem um principio, um meio e um fim, também nós temos uma fase ascendente, e o declínio que espera por todos nós. Mas será que em todos os momentos temos essa noção? Será que poderíamos viver se sempre pensasse-mos que um dia tudo terminaria?

Como é quando somos inocentes? Sem qualquer ideia da maldade, e do que a vida nos faz ser e sentir. Sermos pequenos, dependentes daqueles que nos protegem e nos auxiliam a crescermos. Como seria bom não sermos em tudo responsáveis em tudo o que fazemos? Mas como tudo existe um lado solar e um lunar, frio e sem vida. Pois agora que mais velhos somos, seria difícil voltarmos atrás? E faríamos assim tão diferente? Isso é uma questão tão complicada, pois se realmente gostamos daquilo que somos hoje em dia, e se esse resultado é a combinação de tudo o que fizemos, então se mudássemos mesmo que só uma pequena coisa, não perderíamos a nossa identidade. Por varias teorias dos multiversos, podemos afirmar que por cada encruzilhada em que temos de tomar uma decisão uma parte de nós segue um caminho, e a outra segue o outro. Neste caso então o que somos senão uma consequência das nossa escolhas, e que por ai andará outras versões de nós, não necessariamente melhores, mas simplesmente diferentes.

Como é bom lembrar quando tudo podíamos fazer, quando tudo era possível, não por ser na realidade, mas por o sentirmos, e isso, era o que mais contava. Ser jovem era tão bom! Mas o que significa ser jovem? E quando termina a nossa juventude? Há quem diga que cedo demais, outros parecem nunca dela saírem. Mas todos nós, mesmo que contrariados, temos de a deixar para traz, para outras coisas viver. Mas como é cheia de saudades tais memorias. Eu lembro-me de não ter limites, essa palavra que já antes referi, e tanto repito, não por querer, mas porque a vida me obrigou a olhar para eles, e mesmo que nunca queira, sempre tenho que o fazer.

 

Como seria sermos os jovens invencíveis que já fomos, e não o podermos sentir? Sermos limitados pela finitude do tempo? Para isso já chega quando o tempo nos obriga a isso sentir, mas isso não é para a nossa adolescência. Quem nos dera ser jovens outra vez! Será que seria assim tão bom? Com tudo à flor da pele, em que o sentir se tornava extremos de um momento para outro, em que os desaires da vida, eram catástrofes impensáveis de ultrapassar? Como os idosos o dizem “se soubesse o que sei hoje!”. Mas isso seria impossível, senão não seriamos jovens, livres das limitações do tempo e da carne mortal, onde saltar de uma ponte para um rio de cor baça, sem termos noção da sua profundidade e perigos, tornava-se impensável. Daí a necessidade de sermos jovens e não criaturas envelhecidas. Da mesma forma que considerando que o auge da nossa competência percebida é entre os trinta e os quarenta e cinco anos, temos de sentir que os projectos são uma escolha, misturada com empenho, esse elemento tão necessário ao nosso sucesso. E faz sentido que seja nesta fase ascendente de vida que já tenhamos objectivos de vida, projectos realizáveis, um fio condutor de vida. E o que acontece se não encontramos esse mesmo trajecto? O que nos sobra? Uma resignação ao que a vida nos traz, sem o prazer da busca, da conquista!

O que significa envelhecer, mesmo que jovem ainda? Como reparamos nós que o tempo nos ganha na sua própria corrida? Como já antes o disse, e o reitero, o tempo leva o que é dele! E digam vocês o que isso significa? O que leva ele que não reparamos, só quando é tarde é que vislumbramos, que contra ele nunca ganhamos. Pensemos sobre as diferentes idades que já vivemos. Já muitas vezes observei as pessoas de idade mais avançada para tentar perceber e prever o que será para mim também o ser! Mas tudo se torna diferente, por mais uma vez as escolhas. Tudo se resume a isso. O que escolho e que consequência e que isso tem na minha vida. Então o que se deve escolher, para quando a mortalidade se aproximar de nós, quando repararmos que aqueles que eram importantes para nós começam a desaparecer, e cada vez mais sozinhos nos sentimos? Como deve ser triste ver partir aqueles que connosco partilharam a vida, com amargos de boca e sorrisos abertos. Eles sempre lá estiveram, e com a finitude da vida, também partem, não sei para onde, mas sei que nos deixam, e nesta inexistência carnal, a saudade toma conta. “Sinto a tua falta, a cada momento do dia. Como te queria aqui, ou eu aí contigo, onde quer que isso seja. Mas para minha pena, ainda tenho que por aqui andar a vaguear por um mundo que já não conheço, que me ultrapassa, que já me ultrapassou à muito, sem que eu próprio me desse conta. Quando perdi eu o comboio da evolução? Mas isso agora também não interessa. O meu tempo também chegará, e por ele espero já com ansiedade. Já estou preparado para deixar de existir, a vida já cansa, e eu consumido por ela, anseio um descanso eterno, seja ele o que seja, um simples fim, ou um principio.”

Desde que nascemos até morremos atravessamos tantas fases diferentes, para depois podermos ir embora, e deixar cá alguma coisa, seja ela qual seja. Mas o destino do ser humano é deixar uma marca no mundo que todos os dias muda.

Qual é a sua marca eterna?

A mesa de Natal.

Mesa abastada, lugares vazios.

Passámos mais um período de festejos, de confraternização, de reencontros, que é tão típica altura de que o ano nos proporciona. O Natal simboliza para muitos uma sala colorida, iluminada, de mesa sempre posta, com os típicos acompanhamentos, que divergem da nossa zona e cultura. Tudo à nossa volta nos recorda constantemente que um acontecimento que já tem dois mil e dezoito anos, e continua com a mesma importância que sempre teve. Tudo começa atempadamente, entre cozinha, decoração, e entre emoções partilhadas e desejadas. Como é reconfortante chegar a casa, e ter aquele cheiro tão característico, como as filhoses, as azevias, o polvo, o bacalhau, ou até mesmo o peru. Espalhados pelo chão, em redor do nosso pinheiro, verde, branco, até mesmo rosa, aqueles volumes envolvidos pelas cores, os laços, que as crianças anseiam por rasgar, para finalmente chegar ao objeto desejado. E como é tão recompensador, quando para elas, aquele momento, é de uma verdadeira euforia. Até porque com antecedência, o pai natal ou o menino Jesus, foram avisados, do que se queria. É uma altura em que os horários, os rituais da nossa vida comum são contornados, são até ignorados, pois o menino Jesus, chega sempre tardiamente, e ao chegar a meia noite corre-se, salta-se para tudo abrir, experimentar, e vale a pena todo o trabalho que se tem, para ver aquele respirar ansioso a quem nós oferecemos. Sim, porque isto é um tempo de partilha, de mostrar-se a quem nos é querido, da importância e espaço ocupam no nosso coração.

Mas também esta altura, tem um sentimento ambivalente.

É na altura de por a mesa, que podemos também sentir a falta!

Todos nós passamos por diferentes momentos, diferentes configurações da nossa mesa de repasto. Entre famílias mais extensas, ou refeições mais solitárias, tudo se faz para não quebrar com as tradições, até mesmo para manter viva e perto de nós, os usos e hábitos que quem connosco já não se encontra. O tempo não perdoa, e assim sendo, leva o que é dele. Já fomos netos, filhos, irmãos, pais, companheiros, e com esse desenrolar de papeis, uns partem e outros chegam.

“Odete anda na sua afaza-ma do costume, o mundo assim a obriga. É dia 24, e todos estão a chegar. Começou cedo nesse tão conhecido ritual. Pela manhã começa por preparar o seu tão apreciado bacalhau, que fora comprado naquela pequena loja na baixa de Lisboa, que sempre vendeu o bacalhau que mais agrada. Ela tem um prazer redobrado em ver todos sorrir, em sentir a gula nos outros, do que das suas mãos é elaborado. Já o tinha deixado a demolhar há uns dias, pois todo o cuidado é pouco, e para ela tem de estar tudo perfeito. Depois é altura das frituras. Os filhoses! Essa receita antiga que a sua mãe lhe ensinou com tanto carinho, que já antes tinha sido aprendido com a sua. A massa fica a levedar, dando-lhe tempo para ser polivalente, pois essa é a palavra de ordem. Os sonhos aqui existem em cima da mesa, e até ontem há noite com eles sonhou. Nada pode faltar, é sempre essencial que sobre.

Naquela correria que vai da cozinha à sala, seria tão importante ter Jorge ao seu lado. Como era essencial este trabalho de equipa, mesmo que ele pouco fizesse. Era o estar que mais importava, aquela disponibilidade para a qualquer pedido realizar. Mas para ela, esse vazio existe. Ele já partira há dois anos, e isso nestas coisas, é tão pouco tempo. Esse sabor amargo que a rodeia, aperta-lhe o coração. Foram quarenta anos de companheirismo, de amor, que terminar tão antes de tempo. A historia não devia ter sido interrompida. As saudades acompanham-na a cada passo que dá, e para isso não há solução. Sente-se só naquelas noites de Inverno, que o toque dos outros nos aquece. Aquele lugar vazio na sua mesa, onde antes comiam dois, agora na maioria das vezes, partilha com a televisão as conversas que lhe eram tão familiares. Não era preciso grandes coisas, bastava a companhia. E isso não pode ser substituído. Já teve casa sempre cheia, pois com quatro filhos, difícil era estar sozinha. Mas a vida leva e traz tanta coisa. Foi vendo os seus precisos filhos a crescerem, a construírem uma vida, na qual ela sempre fará parte. Mas ela sente. Sente tanta falta dele, nunca se tinha sentido tão só! Sem discussões, só com ocasionais divergências, que rapidamente eram resolvidas, a vida era tão idílica com Jorge. Todos aqueles hábitos dele, depois de uma vida de trabalho, podiam viver ao seu ritmo. O acordar de manhã e olhar para o lado, e ver, sentir que ele ali estava, que ele queria estar. Ia como de costume ao velho quiosque comprar o seu jornal, que ao sábado pela manha era folheado à mesa. E com essas palavras imprimidas, trazia também o pão acabado de cozer. Era neste momentos que para Odete estava o cerne da sua felicidade. Era alguém com quem tudo se partilhava, tudo era permitido. Tinha-o conhecido na festa da sua aldeia de origem. Era um moço vistoso, com o seu chapeu tão característico, e no meio da multidão partilharam um olhar, que para sempre os mudou. E daí, de um simples momento, construiu-se uma vida. E ela adorava a vida que tinha, melhor, ela amava tudo! Lembra-se também que seus pais não lhe davam a liberdade que desejava, mas por portas e travessas, arranjava sempre forma para estar um pouco com ele. Ela sentira que era com ele que estava predestinada ficar, quase como se tivesse sido uma cara a encontrar a sua metade. Como é que se pode viver, depois de perder tal coisa, e fora com um simples nome, que o perdeu. Um simples acontecimento, que tudo mudou, que vazio ficou o seu coração. Os seus filhos tanto apoio lhe tem dado, e como lhes está grata, mas sente tantas saudades de Jorge. Ele fora o farol para a sua barca que à deriva andava. Era o alimento para a sua alma, o raiar do seu dia, mas agora, depois de partir, o sol nunca mais sorriu como antes. A mesa até estava mais preenchida, mas o seu coração ainda gritava por ele, tentava o procurar, mas só nas recordações o encontrava, e como é duro não ter, não tocar, não ouvi-lo. “Jorge! Jorge! Tanta falta me fazes! Tenho tantas saudades que nem consigo explicar. Olho para a cadeira vazia, do outro lado da nossa mesa e anseio encontrar-te, falar-te, abraçar-te e nunca mais te largar, mas hoje abraço a tua ausência. Sabes, ainda dou por mim à deriva pela casa a tentar reaver-te, para te manter perto de mim, para aconchego encontrar no teu regaço. Onde andas meu amor? O destino é cruel. Agora, logo agora, que a vida era só para nós, que tempo tínhamos para tudo, tu partiste. E eu fiquei! O António ainda o outro dia me estava a falar de ti. Lembraste quando o ensinaste a pescar? Com uma vara, um fio, uma rolha e um anzol uma cana lhe fizeste, e o mais engraçado é que ainda a hoje a tem! Também sei que todos eles sofrem por não te terem, e como alegre fico de termos construído uma família como a nossa. Todos eles têm estado, onde tu já não te encontras. Vem tantas vezes visitar-me, e é bom. Mas ao final do dia, quando para a cama me desloco, era tu que eu queria. A cama parece tão grande e gelada sem ti! Gostava tanto de te ver com os óculos descaídos para a ponta do teu nariz enquanto lias, e como era de habito pedia-te para em voz alta leres. Gosto tanto da tua voz, e como me sinto sortuda pelos nossos filhos terem feito todos aqueles momentos gravados para não te perder totalmente, pois ali ainda existíamos. Dou por mim a ver vezes sem conta momentos que nada supostamente de especial têm, mas para mim, têm um valor acrescido. Onde estás meu amor? Onde te posso encontrar? A única coisa que me alivia é que te encontrarei, assim a minha fé me diz. E anseio com todas as forças que ainda tenho esse momento, em que te possa ter de novo. Sinto a tua falta, e para sempre a sentirei. A ponta da mesa era tua, e nesse espaço vejo agora o buraco que tenho dentro de mim. Olho para te rever, e com tristeza encontro-me só a mim no espelho que tínhamos comprado na viagem que culminou a nossa união, a nossa lua de mel. Simples foi, mas o que importa não é onde, é com quem! Por agora tenho de te deixar meu querido, eles estão quase a chegar e eu ainda tenho de fazer muitas coisas, pois quero que tudo seja perfeito, eles merecem. Mas volto, volto sempre para ao pé de ti. Como te amo, como fui feliz, tu sempre foste o que sempre desejei. Uma vida inteira contigo, e mais vidas viveria, desde de que tu lá estivesses. Um até já meu amor!”

E com um tocar da campainha tudo iria começar, o Natal chegara!

O Último Adeus!

Lá está Bruno, no seu canto, sem saber o que fazer, o que dizer, como se existisse alguma coisa para dizer. Ela tinha ido embora, ela tinha desistido, e o mais cruel é que ele tinha ficado, para aquele ultimo momento ter de o fazer. Como é duro esta forma de viver a morte, este teatro ocidental, desde o velório macabro, onde se vela um corpo frio, sem vida, onde já não está de quem se gostou, de quem se quis bem, mas agora só existem em reminiscências daqueles momentos de vida. O problema é quando essas mesmas memórias ainda magoam pois ainda não acabou, ainda não se ficou no vazio depois da terra ou as chamas comerem aquilo que já foi alguém para nós. Este velho ritual que de negro se veste e que de uma multidão passamos a uma solidão extrema quando tudo acaba, quando o corpo desaparece só ficamos com a falta de quem partiu e já não voltará. Nestes momentos a raiva instala-se depois de acreditarmos que perdemos alguém, que para nós importava. Porquê que ela partiu e no caso dela, para Bruno tudo perdeu, e desta forma não é justo, nem mesmo para ela. Como foi possível tudo assim acabar. Mas lá está ele naquela sala fria rodeado que todos aqueles que conhece, mas nunca se sentiu tão só, quase desamparado, quase desnorteado. Todos o cumprimentam e ele não o queria, por significar o que significa. Ela já partiu, não porque quis, mas porque não aguentou, e ele, que tanto tentou, nada conseguiu. Sente que só adiou o inevitável, pois no fundo ele sabia que ela partiria desta forma. Todos em fila lhe tocam e ele grita por dentro “larguem-na, ela é minha, vocês nada sabem o que ela passou, e muitos de vocês a certa altura deixaram de querer saber.”. Mas no fundo ele percebe porquê.

Mas lá está toda a gente e ele ao fundo vê-o, ao único que queria ver, que queria abraçar, que queria conforto, que queria algo de bom. – Saraiva?

Ele aproxima-se de Bruno e as lágrimas pelo rosto lhe escorrem, pois ele sabe como ele tentou, ele de tudo sabe, e assim sendo, sabe como lhe está a doer. E parece para Bruno que o tempo que demoram a encontrarem-se a meio caminho está demorado, ele anseia sentir o seu peito, para se deixar levar, para se sentir protegido, pois no fundo ele sabe que sozinho não está, mas o problema é que era ela que ele queria, mas agora nada pode fazer. Lá se encontram e ele derrama o sangue no regaço dele, pois não sabe o que fazer, como se livrar desta dor que ainda agora começou. Pois o mais difícil ainda está para vir, e ele aquele amigo que sempre lá esteve quando mais foi preciso, durante todas aquelas crises que ela sempre teve, o confortou, o apoiou, o manteve firme naquele barco que ele sabia que Bruno não conseguia sair, e assim sendo, não o poderia criticar, somente lá estar. E neste momento de perda total, neste momento em que o inevitável aconteceu, ele sabia que o fim seria assim, Bruno precisaria dele, mais do que nunca, e ele por momentos tinha de por as suas necessidades em stand by por ele. Agora era o tempo de Bruno. E isso ele sabia o que significava. A partir daquele momento, Bruno ficaria para sempre incompleto.

-Saraiva, o que faço???

– Agora nada Bruno, deixa-te ficar aqui ao pé de mim. Já comeste?

– O que há para comer agora, não sinto o corpo, percebes não percebes? Perdia-a de vez, não consegui, não consegui…

Nada havia a conseguir, era impossível mudar esta historia predestinada. Estava também nos astros que assim seria, até mesmo alguém já lho tinha dito, pois em desespero até a alguém que lia a vida de alguém em objetos obsoletos, lhe tinha dito que iria perder para a doença, que não seria pela via médica que conseguiria, mas ele não acreditou, não quis acreditar. Mas também por ali não teria sucesso, estava marcado na linha da vida na sua mão que a vida dela terminaria cedo e de forma sangrenta. Mas lá estavam todos no velório e ele só queria ficar sozinho com quem mais gostava de ali ter. E a raiva que lhe metia ver gente a conversar com gente, sobre coisas comuns, pois é nas festividades e perdas que muitos de nós nos reencontramos. Mas para ele é visceral ver tal coisa, falam do tempo, de futebol, mas eles não entendem o que se está a passar? “Merda para vocês todos, saiam daqui, vão para o café e deixem-me aqui com ela!”. Saraiva percebe do estado de nervos em que Bruno se encontra e desvia-o até um pequeno café ao lado da florista, em que todos passam antes de entrar. Flores que aconchegam a morte de alguém, mas não aconchegam a perda para quem cá fica.

– Vou-te pedir um galão. Consegues?

– Acho que sim. O que faço agora? Como posso eu continuar a viver agora? O que faço? Diz-me?

– Agora tens de passar por isto, nada mais, depois logo vemos!

E o mais duro para Bruno é que nem com ela pode passar a noite, chegada a temerosa meia noite a porta tem de se fechar e ela lá sozinha ficará, e ele não saberá como em casa estar, naquele vazio, naquela dor interminável, e ainda por cima tem de saber receber, tem de ainda apoiar quem precisar! Lá está a mãe dela, sem saber o que fazer, desaustinada, perdida dentro de si própria, pois a culpa a dilacera, pois nele não quis acreditar, quis confiar cegamente que ele teria de ser capaz de fazer o que ela nunca tentou. E isso ainda mais raiva lhe traz, pois ele sabe de tudo isso, sabe da responsabilidade que ela teve neste caminho, que nisto terminou. Ela nunca quis saber, tudo parecia mais importante que aquela inocente pessoa, que sempre a procurou, para nunca a encontrar. Tudo era mais importante, as viagens, os namoros, o dinheiro, tudo era mais importante do que o sofrimento dela. Mas agora nestes dias, com ela tem de conviver, mas olha-a fixamente, e ela na sua nuca sente o calor enraivecido e fulminante mirar. Mas falta pouco para com ela nunca mais partilhar espaço e ar.

– Calma Bruno, agora não é tempo para guerras. Depois logo se verá se ainda sentido te faz.

Mas a noite passa, e o dia chega, o ultimo momento, e depois não terá de fingir mais. Mas ela para o chão irá, e depois desaparecerá para sempre. E aquele caminhar desde onde o corpo foi velado, para onde será enterrado, parece uma procissão de negro, com um silêncio aterrador.

Chegado ao local da campa, aquele buraco inferniza-o. E o mais duro é vê-la pela ultima vez, pois ela parecia não acreditar, mas para ele não sabia o que fazer senão um enterro católico. Da terra vimos, e para lá voltamos. E aquele trajeto que tanto custa a fazer, parece que não queremos chegar, não queremos perder de vez aquela pessoa, aquela energia. E para Bruno, isso significava sozinho outra vez ficar. Tantas vezes se sentira assim, nas crises que ela enfrentara, nos gritos, nos pedidos que a morte a levasse que não acordasse, que tudo passasse. Mas nada nunca mudou, e agora sim, para ela tudo tinha acabado. Bruno não sabe onde ela estará, se mesmo estará em algum sitio. Ele sabe que ela já com ele não está. E naquele caixão de pregas douradas, o seu corpo frio e cinzento se encontra. E num movimento seco, um balde de cal se despeja no seu corpo com aquele vestido que ela tão adorava, em que ela já tinha sorrido, tinha sido ele a encontra-lo para ela. E nada mais ela queria dele, senão a sua existência, o seu ser, ali perto, mas longe ao mesmo tempo, pois também lhe lembrava que o magoava. E numas ultimas palavras, num ultimo toque de Bruno na face esfriada dela, se despede “Adeus meu amor, que agora melhor te sintas, que o sofrimento da carne já não te acompanhe!”. E depois o caixão se fecha, e tudo parece ter acabado, e desce devagar até ao fundo chegar. E depois um leve rosa branca sobre ele repousa, para um ultimo beijo dele.

Agora, já em casa, tudo acabou.

– O que faço agora Saraiva?

– Sobrevives, nada mais!

Uma morte esplendorosa!

António tem tido pensamentos pouco usuais. Estranha ele estas ondas do seu pensamento solto, que o fazem questionar tanta coisa. Como será morrer? Tudo começou não há muito tempo, em que teve um sonho que o deixou curiosamente duvidoso. Como seria partilhar espaço com a nossa própria morte? Querem que vos diga? Se o António deixar. Mas ele não se deve importar, até porque posso ser a sua consciência que pensa, que questiona, que tenta dar significado a tanta coisa. Esta máquina que tão poucos sabem o que ela é capaz de fazer, toda cinzenta por fora, mas luminosa por dentro em que cada pequeno momento é sempre processado nada ficando ao acaso. Este cérebro que nos conduz sempre como uma candeia iluminava o caminho do velho contrabandista. E também o sonho dele não ficou ao acaso. Tudo parecia um mundo informatizado. Tudo parecia energia, que advinha dos 0 e 1 tão típicos desta linguagem.
Deixem que vos explique o que com isto quero dizer, deixem-me que vos diga mais um pouco sobre este momento instantâneo, que o fez questionar algumas coisas, e neste sonho, o mundo futurista expunha-se a ele, tão parecido a tantas fotografias dos filmes desse género, que tanto gosta e vê. Aqui podia ser um indicio que este mundo pode ser algo mais explicativo, ou talvez não. Se a mente humana consegue imaginar tais cidades, naves e fatos, talvez eles já mesmo existam. Mas sabem, eles realmente existem, nem que seja na retina, nos olhos, no lobo occipital, de todos nós que tantos os apreciamos. Quem não se lembra dos clássicos, Cenários em que inclusivamente as leis da gravidade que nos mantém os pés no chão, não existem, numa possibilidade de futuro para a humanidade, isto até porque do futuro pouco sabemos, melhor até sobre o presente muita coisa são para nós conceitos abstractos, fora já da época de alguns. Como é estranho já podermos dizer “no nosso tempo nada disto existia”. Mas neste mundo de António não era só assim, era muito mais. Este mundo que lhe surgia, quando os olhos fechava, para procurar um descanso para no dia seguinte, continuar com a sua vida, mas nesta noite em especifica, naquele momento o tempo noturno, mostrava-lhe algo mais. Ele planava por essas torres, vendo por baixo de si, todos os componentes de uma grande cidade. As suas formigas, todos nós que tão educamente vamos tendo mais e mais obrigações, até que estamos presos nas suas teias. Mas a velhice e outro momento para parar. Quando se quiser, esperem e conseguiram ver. António flutuava, corria com vento na sua retaguarda. Sentia-se plenamente bem, sem nada que o incomodasse, como se aquele passeio por cima de tudo, até a alma lhe lavasse. Pela sua frente apresentava-se aquele nosso amigo que nos sustenta, que nos permite respirar, viver, o Sol, e as cores que nos mostrava! Será tão difícil explicar-vos, e percebi porque tantos povos ali viram a imagem de algo superior, uma identidade, Deus tal como imaginado. E António sente aquela calma que lhe enche os pulmões. Pela sua esquerda repara no grande gigante, e lá lhe acenou, e um aceno recebeu de volta. Como é bom algo conhecido. E lá vai António, voando por um ar nebuloso, mas que ainda mais fresco o deixava. Mas o que seria António? Pensar sabe que pensa. Sentir também. Tinha o seu corpo, mas não sentia a sua carne. Perdera parte da sua humanidade? Energia seria. E lá ele planava, naquela imensidão de luz, que era um caminho nunca percorrido por ele. Parecia um mundo de vídeo jogos, uma expansão da mente que conseguia ver um futuro, onde nos encaixariamos e continuava a viver. E nesse mesmo jogo, podemos ver, sentir, aqueles caminhos luminosos, em que não conseguíamos vislumbrar o seu fim, viram para a direita em anglos retos, cruzando-se com outros caminhos dey cores diferentes, e que parecem aquecer António e como isso o faz sentir feliz. Tão poucas são as vezes que nos sentimos realmente felizes. Lembram-se de uma vez, em que pela ingenuidade da vida, não tendo sido corrompido para noção da ambivalência da humanidade, vê num simples balão um fácil motivo para podermos ser felizes. E nesse momento quando por exemplo cinco anos poderíamos ter, a existência vale muito a pena. Mas depois esvanece, e e adaptamo-nos. Mas com o passar do tempo, levando ele o que por direito lhe pertence, a velhice transforma essa mesmo adaptação a uma acomodação consciente.
E de repente olha para a sua frente com olhos de ver, e finalmente percebe para onde vai, porque voa, porque assim sente, simplesmente bem, nem mais nem menos. Numa grande edificação que eram tão familiar, como estranha para ele, há frente se lhe apresenta, e com isso, algo iria mudar, todos o ansiavam, mas só poucos lá chegava, mas ele parece ir, e mais próximo a cada momento fica de chegar. Mas por momentos sente um calafrio na sua espinha. E se isto não fosse real? Mas parece real ao olhar, ao sabor, ao ouvido, até ao simples toque, porque não seria?
Já vê a entrada, suspira de alivio, parece ter chegado. E começa a ouvir um grande rugido, como se um leão se tratasse. E um raio de luz escapa-se pelas primeiras frinchas que se podem ver na abertura de dois grandes portões, de cor cobre. Aquela luz que o chama. Já chegou! E lá se depara com o que esperava. Um banho de cores, um circuito de ligações, que sempre estavam a comunicar, ele com o outro, esse mesmo com outro ainda, e assim seguida. Ouvia-se as suas vozes numa língua que parecia ninguém compreender. Mas esses seres que por baixo de si se apresentavam, continuavam nos seus afazeres. Era uma comunidade de individualidades, tal como nós, só se diferenciavam por um simples detalhe: uma extrema compaixão pela individualidade do seu próximo, pois um não poderia existir sem um outro, uma ligação muito acima da nossa compreensão também por vezes o livre arbítrio pode também por em causa a nossa humanidade. Aqueles seres que para nós seriam rotulados de extraterrestres, visto que para nós parece tão difícil aceitar que podem existir outros mundos, que também eles tenham conseguido criar vida, mesmo que para nós nunca pareça. Mas estes serem mostraram-lhe com um simples aceno de cabeça o porquê! Um estava ligado a todos, e esses mesmo todos também a ele se ligavam, tudo numa harmonia cósmica. Eles partilhavam o mundo emocional, e com isso eram todos parte da beleza de sentir, de viver, que sentirmos aquele arrepio que nos fazem vibrar, acreditar que podemos, que podemos tentar, e com esforço e empenho, conseguir. O quê, isso é a definição das particularidades que nos fazem ser o António, o Jaime, a Maria, a Isabel, todos, mas únicos. Esses tranquilos seres pareciam pirilampos da luz que imanavam, e como isso encantava António. E de repente, o caminho mudou de texturas! Tudo era sentido por António. Uma invasão napoleónica que tanto o encantou, como o deixou expectante. Mas essa expectativa podia algo que não compreendo, o deixava apreensivo. Aqueles traços de energia pareciam mais ásperos ao toque, e ele parecia que isso tinha que fazer. Então a sua mão vazia de carne nesse caminho, e parece que assim tinha escolhido para onde a sua mente o levaria.
De repente repara que se lhe apresenta uma pequena elevação, e ele achou que por ela poderia passar, e depois de uma subida pouco acentuada tudo parou. Ele mergulhou num liquido conhecido! Como seria lembramo-nos que no ventre estarmos. Sentirmos a proteção daquele espeço líquido que nos aconchega, que nos alimenta, que nos faz crescer para viver.
E nesse sonho parece que António ao nesse liquido submergir ter sido apagado, chegando ao fim da sua linha. E o que seria isso? Ser apagado? Seria o mesmo que morrer, um fim de uma caminhada em que no final tudo se tornara mais difícil. Como deve ser difícil a velhice! Vermo-nos a decair, perdendo o nosso brilho como pessoas, ficando uma cor baça, que com aquelas manchas nos mostram os anos passados. Vive-se de memorias dos tempos em que se sentiam pessoas. Como será percebermos que estamos a deixa de ser quem somos. Como é ter consciência que o fim pode chegar, melhor, já chegou para dos amigos e companheiros que partiram antes dele. E Ele, ali sentado espera a sua vez. Então o que será então morrer, e acima de tudo porque não poderia ser da forma como ele a vivera, pois, tendo sido sonho ou não, ele viveu, ele questionou, ele ficou preso nessa possibilidade idílica. Já vão perceber o porquê que ele tanto se agarra a este momento, esperem só mais um pouco. Está quase!
E nesse mergulho é preenchido por um liquido que o abraça, e tudo escuro ficou. E ele, na sua consciência, eu estando com ele, e ele comigo, parecia esperar. Não sabia o quê! Era a primeira vez que assim estava, não sabia o que esperar, não sabia, e como podia saber. Ninguém morre e pôde dizer como foi, talvez nos encontremos depois. Pensamento tão belo, trocar um adeus, por um até já. Todos aqueles que de nós já se despediram, um dia mais dar com eles estar! Mas António lá estava no seu liquido, em que continuava a pensar, sem saber o que esperar, numa tranquilidade inquieta. Por um lado, parecia ter uma serenidade por simplesmente existir, numa nuvem de energia que parecia pairar por onde querer, passeando-se por onde mais gostava. Mas aquele aperto, aquela duvida que tanto o inquietava. Continuava tranquilo, mas expectante. Há espera que algo pudesse acontecer, não o sabia com certezas, mas a duvida parecia bastar para o deixar a pensar. Apreensivo se encontrava, à espera, somente à espera. Mas nada parecia acontecer, mas ele, continuava à espera. Nunca se sabia! Mas o tempo ia passando, mas nada parecia fazer, a mesma inquietude, a mesma expectativa, de algo puder chegar. E se nada chegasse. E lá estava ele submerso naquele liquido que tudo tinha apagado, nada resistira a não ser seu pensamento, esse não parecia parar. Mas estava sozinho. E isso era mau? Mais uma vez o momento é mais importante do que a sua perpetuidade. Parecia também ali não precisar de ninguém, pois estava solitariamente acompanhado. O seu pensamento chegava. Mas sempre aquela sensação que tudo podia mudar, a qualquer momento, sem aviso prévio, ou talvez com quadros de hora, com fixação para todos verem, do que irá acontecer dentro da finitude de António.
Como tudo, também este sonho tinha de ter um fim. E lá ele acordou. E parece tão desiludido com a sua realidade, este mundo tão exigente, sempre a correr, nem nos dá espaço para simplesmente existirmos. Por momentos até António tenta adormecer novamente para voltar aquele espaço que faz parte da panóplia de saudades que acumulou durante a sua vida. Os arrependimentos mantêm-no preso a partes de si passadas, fragmentos de si, que ainda hoje ou doem ou envergonham. Também não sabe compreender-se, explicar-se porquê que com 20 anos terá feito ou não feito algo. Agora isso pode já não ser tão importante, mas digam-lhe vocês isso.
Se deixar de existir fosse como sonhou, esse acontecimento certo para todos nós, deixara de assustar António. desassossegando-o, mas não o aterrorizando.
Mas este acontecimento das altas horas da madrugada, deixou-o a pensar. Também ele teve raízes religiosas. Poucos somos os que ainda somos filhos de um perido em que se acontecimentos e consequentemente as suas interpretação, não se encaixando-se nos óbvios de todos nós era uma natureza humana, procurarmos respostas para eles. António lembra-se de ser católico, praticando com a sua querida avó. E como tal, as noções de Ceu e Inferno sempre lhe foram mostradas, limitando cada vez mais a vontade de António. Sua alma ficava apertada, sem se expandir na sua plenitude. Conceitos como pecado, sacramentos, pecado original já outrora foram os fundamentos da sua vida, passados por sua avó. Mas conseguira libertar-se, apegando-se à razão. Mas quando na construção uma casa, um tijolo que seja no meio do muro, lá ficará, como tal, também ele tinha um fascínio apreensivo, sobre conhecer e perceber como tal ciência sem provas dadas lhe poderia mostrar outro caminho. E assim quis também ele perceber como é que este fenómeno, a finitude, era explicado por outros homens. Mas isso é um assunto para outra altura. Por agora chega!