Viver no agora. Decidir no agora!!!

Hoje em dia, torna-se cada vez mais difícil viver no agora. Pelo menos numa das formas que isso pode significar.

Essa é um das questões mais particulares, mais individuais, que colocamos a cada pessoa que por nós passa. O que é para si o seu agora? Gosto muito da subjectividade das coisas, das personificações de conceitos mais universalizados. O agora é sempre diferente, escapa-nos entre os dedos. O agora é tão difícil de apanhar, pois teima sempre em passar depressa ou devagar. Parece que o tempo não consegue manter um vivência global a todos nós.

Todos sabemos que a percepção do tempo muda a cada momento, e se há instantes que parecem horas, também existem toneladas de tempo, que passam como gramas, pela leveza, pela rapidez.

Passado a questão da subjectividade da percepção do tempo, coloca-se outra questão. Como podemos viver o agora, com tanta coisa dependente no nosso amanhã. Vivemos em muitos casos hoje, para amanhã retirar-mos os nossos dividendos. Achamos que somos animais racionais, mas fazemos tanto de irracional, de idiota a perverso, de impulsivo a premeditado. As tomadas de decisão são algo que temos de executar a cada momento. Até nos nossos comportamentos automáticos tudo fica sobe controlo. Exemplo a nossa respiração. O nosso computador cerebral isso controla, e assim, com essa parte definida, mais podemos então viver.

O outro no metro, por um lapso na minha consciência, permiti-me realmente viver no momento, realmente decidir o que fazer, e depois perceber se algo mudaria, tentar ver o impacto da minha vida em perspectiva. Não foi nada de especial, mas teve impacto em mim. Vou, e como adoro, trabalhar de metro. E como a respiração, o meu corpo já está formatado a certos rituais. Passar o cartão, as cancelas abrem, e o meu esqueleto mete-se a caminho para a passar, com alguma pressa até, pois a memoria assim que avisa. Já alguém foi abalroado pelas portas do metro de Lisboa? Violentas, quase caso de comissão de protecção, não das crianças e jovens em risco, mas do conforto do cidadão.

Mas então como de costume, direccionei-me para a parte esquerda do edifício, movendo-se a parte direita do meu cérebro, pois é assim que funciona, o esquerdo controla o direito, e o direito o esquerdo. Lá ia eu perdido nos meu pensamentos, entre desejos e preocupações, mas algo captou a minha atenção. Estava a fazer o que sempre fazia. O que aconteceria se fizesse diferente? Se em vez de seguir pela esquerda, fosse pela direita? Seriam guerras mundiais evitadas, ou tudo seria igual?

Que estranho, uma coisa tão simples gerou em mim uma hesitação desmedida, sem grandes justificação. Mas depois veio alguma exaltação, na possibilidade que esta decisão racional, escolhida, me poderia trazer algo de novo! Seria bom. Desci então as escadas, atento ao agora, à novidade. Expectante estava, sempre à espera de alguma coisa, que parecia não querer chegar. Pensei inclusivamente se teria tomado uma boa decisão. Fiquei um pouco desiludido.

Mas depois de essa percepção da realidade passar percebi.

Por simples momentos, as minhas preocupações, as minhas angustias de existir, o medo do amanhã, tudo isso que nos perturba, não teve espaço para existir. Por um simples momento, simplesmente existi, e isso foi bom só pela ausência de ansiedade que me trouxe.

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O fim do agora

Porquê sofrer, porquê que tantos de nós com nada de aparente que o justifique sofremos, não aproveitamos de forma verdadeira e fidedigna o que o mundo nós dá, nos mostra.

Fala-vos hoje de José. Vida perfeita, via idealizada tornada real, que num dia, enquanto esperava pelo metro que o levaria ao seu querido lar, montado com amor, criado a dois, um ninho ideal, tudo terminou.

Mas já vos conto como acabou, como conseguiu tudo perder em segundos, como abandonou seu amor a sua Sibila, a sua musa, a sua razão de viver.

Primeiro mostro-vos o que ele construiu. Teve uma vida perfeitamente normal, como outro qualquer, sem mais nem menos, com um amor comedido dado por seus pais, que também eles não tinham aprendido esse conceito. Tenho a sensação que a geração que nasceu entre os anos de 1970 e 1990 tivemos uma lacuna imensa. Não tivemos em muito casos um conceito de amor maternal, de apego, de valorização. Somos filhos de um regime totalitário que já não foi nosso, mas tivemos ainda as suas consequências. Fomos crescendo e percebendo que o amor inicial é essencial, que a valorização é uma virtude que nos fortalece, que nos dá uma noção intrínseca de valor como pessoa.

José nasceu num meio em que o amor era coisa escassa, também ele era uma criança aparentemente problemática, que hoje se poderia ser mais capaz, mas que na altura “só dava trabalho”, correndo sempre que podia, acidente eram coisas de costume. Mas ele não sabia ser diferente, quem lhe dera a ele ser como sua mãe o desejava, pois com tudo isto com tanto repreensão e rejeição não se sentia realmente amado. Mas mais uma vez afirmo infância dita normal para o que na altura se praticava.

Mas ele cresceu, e curiosamente contra tudo e todos até conseguiu vingar na vida, naquela que todos temos de ter quando adultos. Um curso superior, um emprego na área, até mesmo era realmente bom naquilo que fazia. Mas aquela sensação de vazio, aquela falta de senso de existência continuava lá, nunca preenchida, nunca encontrada uma razão para persistir naquele sofrimento de vida. Para ele a morte não era um destino, era um desejo, um final de tudo que o aliviava, que o consolava, saber que um dia ele podia acabar com a sua insuficiente existência.

Mas a vida tem as suas merdas, as suas formas de nos tirar a liberdade, de nós dar uma razão de cá ficar mesmo que não nos apeteça.

Foi num mero jantar que tudo mudou. Primeiro eram para serem dois, depois passou a três e finalmente foram cinco pessoas jantar. Ao subir a rua para aquela tasca José vislumbrou algo de diferente, algo de precioso só pela forma como se movia. Jantamos, nunca mais ele se esqueceu que aquela menina mulher pediu bifes de frango grelhados, mas a distancia na mesa não permitiu para grandes conversas.

Sorte a dele que ainda foram beber um copo a um sitio perto dali, e ai a conversa fluiu, houve química linguística, mesmo que nem falassem de base a mesma língua, parecia haver um entendimento mental, poucas palavras, mas muita compreensão. Musa seria ela, ele ainda não sabia o quanto, ele nem sabia o que isso era, ser amado, ser cuidado, ser desejado, ser agradado. Dali seguiram para um sitio dar um passo de dança, mas essa semi-deusa pouco tempo ficou e disse:

– Vou embora.

– Eu vou lá fora contigo.

– Eu sei apanhar um táxi sozinha.

Ao qual ele respondeu algo que a deixou inquieta.

– Imagino que sim, mas é só para te fazer companhia.

Pelos visto isto acalmou-a, pois, deixou-o acompanha-la até à rua. Chegando lá fora ele pede-lhe o telefone. Ela hesitou, mas deu-lho.

Ele escreve o seu número e diz-lhe:

– Se precisares alguma vez apita. – Nunca teria ele a ousadia de lhe pedir o dela, não depois de saber a história que ela estava a viver naquele momento, que em nada interessa para a história que agora conto.

Pelos vistos ele juntos ficaram, fizeram planos, e por mais estranho que pareça por momentos, e em vários até, ele teve razão de existir. Como é estranho ser amado só por ser quem se é, ser desejado assim e de mais nenhuma forma. Se calhar é sempre melhor ser não fumador, mas isso pode ser só um pequeno detalhe.

Um dia na varanda onde viviam ela por obra do acaso desequilibra-se e cai daquele fatídico sexto andar, no chão encontra o final da sua vida, ou o início da sua morte como preferirem.

Ela estava grávida de seis meses do seu futuro rebento, tinha finalmente lar, ninho, família e num simples escorregar, num desequilíbrio tudo perdeu, deixou de ter razão de existir.

Depois de todas as cerimonias feitas, passado o período de nojo, quando esperava pelo metro ao ir para o trabalho, antecipou a chegada do mesmo para por ele ser esmagado na esperança de reencontrar a sua amada, a sua mais que tudo, e que na morte que para ele sempre foi vista como o fim do sofrimento, fosse o reencontro  com eles, com quem um dia lhe dera uma razão de viver. Como o apego, o amor, o desejo de coexistir com alguém traz algo de bom à nossa vida. E para ele, quando os carris daquele metro lhe cortaram a carne, também como uma boa morfina, lhe cortou o sofrimento.

A confusão do conceito “eu sou como sou!”

– Eu sou assim!

– Assim como?

– Como sou.

– Quem é que te disse tal coisa?

No decorrer da nossa vida, já várias vezes teremos passado por um dialogo como este, com algumas perguntas, até mesmo diferentes, mas parece que são sempre as mesmas respostas. Estranho parece que sejamos algo tão definido, tão estático, sem abertura a novas experiências. Ser como se é, um obstáculo a novas invenções, a outras formas de estar. Como se sentíssemos necessidade de justificar ou defender a nossa identidade, como se estivesse em perigo, e com estas três simples palavras tudo fosse descrito, tudo fosse validado naquilo que sentimos, pensamos ou fazemos, que acaba por tentar definir aquilo que somos.

“Sou como sou!” Possível prisão, numa repetição de padrões, de inevitabilidades, que por vezes nos distorcem, contorcem, limitam naquilo que podíamos ser. Claro que temos de saber o que somos, isso vê-se nos nossos comportamentos, aqueles esperados perante situações idênticas. É reconfortante podermos ligar o piloto automático da vida, para desfrutarmos também da paisagem.

“És como és!” É essencial esse espaço, dá-nos um concepção de intimidade, de proximidade, une-nos ao outro pela semelhança. Torna o desconhecido conhecido, o distante próximo, numa ligação que em nós é tão natural, essencial, basilar, as relações entre nós seres humanos, com diferentes etapas, substratos, níveis que pode ir desde um simples conhecido, a família. Como ter família, de sangue ou escolhida, é tão bom.

“Ele é como é!” A nossa identidade manifesta-se pelas escolhas que fazemos. A consciência do conhecimento sobre o outro advém de conseguirmos prever como ele irá reagir ou sentir perante algo já antes vivido. Isso vê-se numa simples escolha como uma prenda de aniversário. A capacidade de conhecer o outro permite-nos optar por algo com percentagem acrescentada de sucesso de satisfação para quem a recebe. Como é bom satisfazer de quem gostamos realmente.

“Nós somos como somos!” e mais de nenhuma forma, não somos mutáveis ou quebráveis, somos uma identidade una, que se preserva, que se alimenta, para que sempre saiba como somos, pois essa possível duvida, esse momento de vazio tudo pode abalar, deixando um rasto de duvidas pelo seu caminho. Não nos questiones, aceita-nos, sabe quem somos através de tudo o que sentes em nós. Deixa-nos perceber na forma como nos reages.

“Vós sois o que sois!” O problema começa quando nessa luta por uma identidade única, perdemos a percepção que podemos mudar, que podemos decidir fazer diferente, ficando perdidos numa catadupa de erros sucessivos, sem margem para optarmos por sermos até felizes. Parece que nesses instantes, perdemos a noção que podemos ser tudo aquilo que desejarmos, parece que envelhecer significa perder a flexibilidade de ser criança, humano talvez até, de agirmos sobre o que possa ser melhor para nós. Será que temos sempre de ser como somos?

“Eles são como são…” Triste sina quando ficamos presos nas escolhas feitas não por opção, mas por parecer que não sabemos fazer diferente, tudo igual se torna, nada ganhamos, como medo de algo perdermos.

“Carlos sabia o que era, pelo menos assim ele pensava. Se lhe pedissem para se descrever ele assim o faria, sem pensar sequer no que dizia – sou um pobre rapaz, sem nada de interessante para dar, sem habilidades de maior, com uma existência simples, que a ninguém de certeza interessaria. De pouco sou capaz, no nada me encontro. Tudo parece demasiado difícil, então remeto-me à insignificância, a uma vida de repetições simples, sem nada de novo. Todos os dias aos anteriores são iguais, e assim sendo, simplesmente sobrevivo, aguardo que a morte me leve, me tire desta monotonia que eu chamo vida. – Nem ele imaginava que podia mudar, que ainda talvez até pudesse sonhar, mas nesta busca da sua própria certeza, esquecera-se que podia escolher tentar ser diferente.

“Eu sou assim!” Ok, não ponho em causa a necessidade de termos uma ideia de nós, um fio condutor que nos alumie o trajecto da vida, uma forma de prevermos futuro, para mais seguros ficarmos, e numa falsa neblina de certezas, tomar as melhores decisões possíveis nesta vida que tanto tem tanto de incerto.

Não importa saber como fazer diferente, basta para começar o desejo de tentar. Num cadeira a quarenta e cinco graus de outro alguém essa viagem pode começar. Todos nós temos o potencial de algo mais alcançar, e na maioria das vezes precisamos da companhia de alguém para um novo caminho traçar. A psicoterapia pode ser o inicio, não o fim, um trajecto primeiro feito a dois, para depois a individualidade poder ser plena.”

Sou o que sou? Sim, mas também posso ser mais, só preciso de perceber como…

 

 

 

 

Empatia, ver o mundo pelos olhos do outro.

Estava sentado no metro, distraído pelo que a tecnologia já permite, embrenhado na visão voyerista que a quase obrigatoriedade cultural das redes sociais assim o exige, com banda sonora como de costume que ainda mais me isolava no meio dos outros. Lá estava eu comigo, quando algo o meu lado direito me chamou a atenção, e como reação instintiva olhei de relance, sem grande atenção, sem foco ou propósito, sem intenção de interação, e de novo voltei ao que fazia.

Mas algo mudou com esse simples movimento de pescoço que tantas vezes fazemos, num instinto ou procura de um caminho, mas naquele momento o meu cérebro apreendeu algo e ficou curioso, quis saber mais, e como tal assim me ordenou para que lhe desse importância, ao que ainda não conhecia, mas que pelos vistos assim ele o desejava. Assim surge aquela pequena ansiedade que nos mobiliza, que nos acorda, abana, como se fossemos de novo crianças, naquele dia tão desejado, a véspera de Natal, em que sabemos como bem nos iremos sentir no dia seguinte, com família, doces, prendas, novidades. Ai como é bom desejar que um outro momento chegue, nos presenteie com o que ansiamos. A ansiedade não é nossa inimiga sempre, esta, este tipo de sentir, faz-nos bem, refresca-nos, faz-nos sonhar, planar até.

Quando o meu olhar parou, finalmente reparei no que comigo parecia falar. Uma simples figura de um alguém, que não me era familiar, não o reconhecia, mas já próximo dele me sentia. Assim o olhar foca, o cérebro apreende o que os olhos me mostram, e observo a simplicidade daquele homem que me encantou. Não teria mais de um metro e sessenta, e em primeiro reparo nos seus pés desnudos, sujos, maltratados, nuns chinelos enfiados. Isso despertou em mim uma ponta de tristeza, ainda não sabia bem porquê, mas o prognóstico não parecia favorável. Vou subindo e as aquelas calças de ganga gastas pareciam confirmar o pior, mas ainda não detinha todas as informações. Continuando para desvendar o que me tinha despertado a atenção, reparo num t-shirt vermelha, que destoava das cores pasteis das paredes, e de relance li uma das cinco palavras se lá estavam – “vi”. Nada de especial em isolado, mas no global iria fazer-me sorrir, este sentido humano escrito. Como normalmente o faço, procurei o contacto visual com ele, pois nesse momento, em que dois olhar se cruzam, e se fixam, alguma intimidade se passa, mas paradoxalmente nada senti, e estranhei. Novamente as objetivas dos meus olhos focaram e para meu espanto percebi que aquele rapaz que à minha frente estava, com os pés enegrecidos, calças marcadas do uso, t-shirt que dizia vi, era invisual.

Aí ainda mais curioso fiquei preso na palavra lida, que com o resto não encaixava, e tentei perceber o que mais a sua camisola dizia.

EU VI VACAS EM LISBOA

Como?

Levei alguns segundos a perceber, fiquei confuso sem entender o que seria o correto, o que tinha visto, o que eu tinha lido, que ele tinha feito?

Esbocei um sorriso, não de gozo, mas de uma estranha coincidência, pois fiquei intrigado.

Saberia ele que tinha vestido uma t-shirt em que dizia que EU VI VACAS EM LISBOA naquelas grandes letras brancas, centradas no seu peito?

Teria sido uma casualidade?

Bom no primeiro caso era representativo de um humor muito apurado, de uma capacidade de brincar com a sua própria diferença que merecia todo o respeito.

No segundo caso podia ser o cumulo da ironia, entre tantas hipóteses e variáveis de possibilidades de momentos possíveis, o destino ter posto aquele homem diante os olhos de alguém, que naquele momento reparou, na ironia que a vida pode conter.

Isto fez-me pensar num outro conceito que remete para a palavra – Ver.

Em linguagem comum também podemos definir a empatia como vermos o mundo através dos olhos do outro. E com base neste conceito que também tenho, por momentos imaginei-me a tentar ver o mundo pelos olhos daquele rapaz, mas de repente as luzes apagaram todas ao mesmo tempo, tudo escuro ficou. Senti uma solidão amedrontada, que me incomodou, e para mim tive de voltar. Foi estranho. Tentei perceber o que isso significava, mas ainda mais confuso fiquei. Até me senti constrangido pois por momentos pareceu que poderia estar a ser preconceituoso, ou até insultuoso, e ansioso fiquei. Estava a dar demasiada importância ao conceito semântico, pois fora por aí que assim tinha ficado, pois sei perfeitamente que a empatia tem três dimensões, a afetiva, a cognitiva e de regulação de emoções, mas as palavras valem muito no nosso pensamento, são a sua base.

Depois lá percebi, não estava preparado para perceber o mundo de uma pessoa invisual, pois até já tinha experimentado, para tentar perceber o quão difícil seria, mas se para mim, uns breves instantes distante do olhar pareceram horas, nem imagino o que pode ser uma vida assim. Torna-se difícil realmente entender o que isso pode significar, sem termos todas esta referencias que a visão nos dá, mas como já podemos constatar, também pode tirar, e na escuridão nos deixar.

Sendo que todos nós somos feitos de camadas diversas, diferentes substratos criados e alimentados pela nossas vivenciais, a perceção sensorial é uma das portas para a nossa ligação ao mundo. Neste caso percebi que fiquei preso numa dessas camadas, o impacto visual que o mundo nos trás, que nos informa do que ao nosso redor se passa, e baseado nas nossas premissas, significado atribuímos. Nesse sentido fiquei preso a falta de informação em que ficaria no caso da luz que me traz as imagens desaparece-se, para a escuridão me invadisse. Como seria difícil aceitar a negritude que a vida teria!

Fiquei preso na dimensão corporal. Nos cinco sentidos que dou por garantidos, que nasceram comigo e espero que só desliguem quando eu também o fizer desta vida mundana, e percebi, pena que tenha sido fora de tempo, que para realmente entender, para realmente perceber, para deixar o outro ser mais uma parte de mim, nem que fosse por um instante, teria de o conhecer. De conhecer o que para ele significava o desenho, a imagem de uma vaca em Lisboa. Como seria para ele uma vaca? Duvidas às quais só terei resposta, se nas inúmeras viagens de metro, me embarrasse com ele novamente. Espero que sim, assim tentarei.

Como será ver o mundo por quatro sentidos?

O arrependimento é duro, e quando me sentei dentro do metro uma angustia invadiu-me, pois perdido nos meandros do meu pensamento, perdi a oportunidade de me sentar com aquele individuo, que necessidade em mim gerou de conhecer um mundo diferente, e com os automatismos corporais que temos, como na condução em que muitas vezes fazemos o necessário para continuarmos caminho, mas não lhe damos a devida atenção e assim pode acontecer o espaço a mudar, mas a perceção não acompanhar, também eu já estava distante dele. Quantos de nós sonha acordado, e preso nesse sonho, nem nos apercebemos que continuamos viagem, e quando abrimos os olhos até já podemos ter chegado ao destino pretendido. Também eu me ganhei consciência tarde demais do que podia ter feito, depois disso até passou a ser preciso, mas o momento passara, e o tempo não volta atrás. Eu já estava dentro daquele sufocante metro, desejoso de voltar para trás, tentar recuperar o que nunca tive, mas agora precisava, mas nada podia fazer a não ser esforçar-me para que este acontecimento não se transformasse numa reminiscência. Teria de lá voltar em breve, falar com ele, preocupar-me com a sua pessoa, e com ele partilhar um momento, e ganhar mais uma percepção individual, enriquecer sobre o que pode também ser a vida de outro eu.

Fiquei a pensar incessantemente sobre o que me tinha acontecido, rindo-me da vida que ali me plantou, para reparar, e a ele para me alegrar, mesmo sem me ver, mesmo sem proximidade, ele tocou-me, e dentro de mim existirá para sempre.

Será que ele sabia o que graficamente representa o som, o cheiro, o toque até o sabor o que já lhe tinha sido possivelmente mostrado o que seria uma vaca? Alguma vez tinha enxergado, ou sempre tivera vivido num mundo de escuridão? Como seria o dia a dia dele? Como se teria adaptado a uma vida diferente da minha?

Tantas perguntas às quais já podia ter uma resposta, se não tivesse deixado passar o instante.

Há coisas difíceis de compreender sem pelos menos conhecer de mais perto!

A empatia é um conceito muito mais complexo, não remete só para a corporalidade, remete para um entendimento subjetivo, em que passamos a reconhecer o outro como uma outra parte de nós, desconhecida, mas possivelmente familiar se assim entendêssemos se permitíssemos tentar compreender aquela perceção de mundo , como o nosso possível alter-ego, como outro eu, uma extensão de nós, mantendo a nossa individualidade, pois a manutenção da nossa integridade psicológica é essencial.

Mais de empatia falarei, até porque pouco disse ou quase nada, mas foi com base neste evento de uma tarde de sábado que o meu interesse despertou.

O homem no metro.

Todas as manhãs, pelas nove e meia lá está ele, sentado naquela velha estação de metro, escurecida pelo tempo que tem, imagine que o metro em Lisboa faz setenta anos. Mas deixem-me falar um pouco dele. Uma pessoa perfeitamente normal, que se levanta todos os dias, que tem o seu fiel companheiro, o seu gato, sempre ali, pronto para estar com ele, e como o satisfaz! Depois de lhe dar de comer e de lhe por agua, entra na sua própria rotina. Bebe um café, fuma um cigarro e segue para o chuveiro. Fica lá a seguir a agua que quase o abraça de que tão bem lhe sabe, e ele ali fica a sentir o toque na sua pele. Já faz tanto tempo que isso não acontece. Deixem-me que vos fale de dois conceitos parecidamente diferentes. Falemos da saudade e da nostalgia. Para mim, e no meu entendimento, ambos podem ter cargas completamente diferentes. Falemos da nostalgia, é uma memoria que nos faz sentir, que nos lá recorremos com frequência, quase como se necessitássemos de nos sentirmos assim novamente, de lá voltar e acima de tudo queremos lá voltar, tento na nossa mente, como na partilha com os amigos. Quantos de nós quando mais tarde encontramos aqueles que fizeram parte da nossa vida, que importaram, que foram uma escolha, e nessa escolha, foi tão bom partilhar com eles um pedaço de vida. Como pode ser bom recordar! A saudade já pode remeter para outro espaço, mais sombrio, mais doloroso. Podemos dizer que esta palavra, que poucas um nenhuma tem, porque nós como povo, como não, como língua, tivemos de inventar uma palavra destas. Muitos fados já se cantaram por causa dela. Mas a saudade podemos trazer sofrimento, de várias formas e feitios. Exemplo da morte de alguém, enquanto não conseguimos terminar o nosso processo de luto, o aceitar que uma fase da vida acabou e que é preciso reinvenção, e quando isso não acontece, quando não conseguimos encontrar um novo sentido para a vida, a saudade doi sempre.

Banho tomado, barba feita, e lá vai ele escolher a roupa do dia, sim porque ele apresentava-se bem. E depois de tudo isto lá caminhava ele, prédio entre prédio nesta fila que aprecemos formigas a ir para o ninho. Ele acha fascinante esse movimento, tudo de desloca, sem se conhecerem, sem nem sequer partilharem uma palavra, mas ali vão, às vezes como sardinhas, mas toleram a proximidade do outro, até mesmo o cheiro do outro, e isso é tão intimo. Mas está ele naquela estação olhando para os outros. Como repara ele em tanta coisa, já viu tanto que aprendeu a realmente observar. E sempre que olha para alguém poucos são qu estão a sorrir, que não parecem tristes, preocupados. Ai como deve ser difícil não conseguir para de pensar! E mais uma coisa, senão a essencial, parecem que só existem, que só conseguem sair de si próprio, é quando estão em interação com o outro. Quando vê pessoas a interagir com pessoas vem realmente o seu humano no seu esplendor, seja presencialmente ou como está tanto na moda pela facilidade que nos trouxe, o online.

Deixem só dizer mais uma coisa, existem doenças em que esta relação com o outro não é compreendida, desejada ou seguro. Vou-vos só dar alguns exemplos para não me alongar. Se falarmos do espectro do autismo, não existe um vinculo, uma compreensão plena do que é este mundo que nos rodeia, e acima de tudo para e como se interage com o outro. Por outro lado, podemos falar de duas perturbações da personalidade. Desculpem se a linguagem ser demasiado técnica, mas as coisas têm de ter nomes para ser compreendidas, avaliadas e tratadas. Na perturbação esquizotipica da personalidade não se pretende ter relações, não se precisa, também aqui não se percebe o que fazer, como estar como fazer. Na perturbação esquizoide da personalidade, a relação com o outro é muitas vezes ameaçadora, então evitada a todo custo.

Voltemos ao homem do metro. Perguntam vocês porque aqui o metro é tão importante. Sabem o que é nos sentimos realmente sós? Ele sente-se assim há tempo demais, e neste movimento, naquele espaço está com alguém. Muitas vezes ele procura desesperadamente que alguém nele repare, que lhe sorria, que bom dia lhe diga, mas no final de cada viagem sai tão frustrado e triste como entrou, e assim passa o dia, de linha em linha, de estação em estação, pois a alternativa é bem pior. Como a solidão pode ser algo tão intenso, que nele por vezes vêm em ondas que parecem tsunamis que não param de chegar, e ele tão tem alternativa senão esperar mais nada, mas neste entretanto o tempo passa e mais ele sozinho ele se sente.

 

O que significa ser crente religioso, praticante, e como isso se manifesta na relação com o mundo.

Maria foi como muitos de nós, educada por padrões que lhe foram passados pelos seus falecidos pais. Desde muito nova, sempre foi incitada a ter padrões de vida em que a religiosidade estava muitas vezes presentes. O que isto quer dizer? Pode nada significar e tudo incapacitar. Mais uma vez, uma dicotomia que quando a pessoa tem pouca capacidade de se adaptar, de viver com estas dualidades entre conceitos pré-concebidos, que nos podem limitar ou não a nossa vida quotidiana. O que posso eu querer dizer com este conceito de prejuízo na vida e funcionamento saudável através de postes, traves e afins, sobre o livre arbítrio, sobre a possibilidade de termos opções multifacetadas sobre assuntos de foro geral ou particular à sua vida. Livre arbítrio, esse conceito tão nosso, humanos, animais, consequenciais de todas as experiências, que acabam por nos definir o que somos hoje, mas que quando falamos de conceitos, interpretações, atribuição de significados ao que por nós passa na vida. Não querendo especificar, pois somos cada vez mais uma multi-cultura em que as crenças religiosas são cada mais numerosas, diferentes, mas que no fundo a população portuguesa é feita principalmente de valência católica cristã, que também no meu caso, sinto hoje que não tive oportunidade de escolher, primeiro pois como temos esta base hoje, em que vivemos uma mundo de proximidade com a informação, não havendo a necessidade de se deslocar às antigas bibliotecas, pois pouco falta para termos inclusivamente uma visão para as mesmas como uma fase do passado, como hoje olhamos para a descoberta do fogo, que hoje por 50 centimos podemos ter um isqueiro que nos permite termos acesso a algo que foi essencial ao nosso desenvolvimento como humanos. Hoje a informação ou desinformação está à distancia de um clique. Assim também eu fui educado, modelado, orientado, numa crença que hoje pouco me diz. Isso é uma questão tão pertinente. Como podemos conviver enquanto psicólogos, que trabalham na área, que por vezes podem ter casos que nas linhas de pensamento da religiosidade podem ser incompatíveis. Isso torna-se uma trabalho tão árduo. Como podemos nós entrarmos num contexto como são as nossas salas, em que por nós são pensadas, decoradas, executadas. E sim neste contexto é mesmo muito importante ser mais generalizada, de forma a que haja espaço para ser preenchida por tudo o que o cliente nos traz, havendo três espectros bem evidentes. O que quero eu dizer com isto? Existo eu como ser individual, o outro, e a nossa relação terapêutica, sendo esta a base de todo o trabalho, que nestas salas, por vezes com as cadeiras desgastadas pelo tempo, pela presença humana, pelas historias que por ali passaram. Então neste sentido o que deve um terapeuta fazer? Haverá espaço para sermos livres na relação com o outro, com pré-conceitos, que por vezes são a base da forma de viver connosco mesmo. Então como podemos nós existir em tantas áreas, sem que esta parte de nós seja preservada, como o nosso conceito de intimidade. Porque sim, alem de psicólogos, de terapeutas, de psicoterapeutas, de terapeutas familiares, e afins, somos humanos. Ser humano traz-nos tantas responsabilidades acrescidas. Não se esqueçam que quem nos procura não se encontra bem. Não necessariamente doentes, não necessariamente saudáveis, muitas vezes não sentem é uma satisfação com a vida, que nos faça ter uma percepção de ter uma vida suficientemente boa. Mas voltemos a nós terapeutas. Conseguiremos nós chegar a porta do nosso consultório, tirando esta parte de pele que faz parte de nós, vestindo uma que nos permita trabalhar, tendo em conta a percepção dos pacientes, não julgando, validando o que eles vão sentindo. E quando temos conceitos do que supostamente é normal ou não?

Peguemos num conceito já aceite, já reformulado, já comprovado, da orientação sexual. Só em 1986 o PSR conseguiu mudar no dicionário que definia que a homossexualidade era uma doença mental, que tinha de ser tratada (estas obrigações só nos traz angustia, principalmente quando o que sentimos, não joga com aquilo que a sociedade, e os nossos valores, ou da nossa família condena.

Então como pode uma psicólogo conviver com este conceito, sem que não haja uma tentativa de orientar o processo de acordo com estes valores nada inclusivo que o cliente sente. Como podemos nós termos uma empatia profunda quando o que nos é revelado pode ser tão antagónico em nós. Isto pode ser um entrave inclusivamente na intimidade e proximidade que os pacientes precisam. Isto pode ser uma realidade tão complexa para o processo que se inicia e que tem de ter uma caminho construído a dois, pois para critica, para condenação, já chega o que o outros nos traz desde o inicio.

Assim peço-vos que pensem sobre o inicio desta temática que voltarei em breve, se esta característica que pode dificultar algo que podia ou devia ser fluido. Este convite não é direccionado a alguém em especifico, isto até porque na relação estão os dois ou mais incluídos.

Como seria um ultimo momento de psicoterapia

Carlos vai á sua última consulta com o psicólogo que o segue há 3 anos. Tanto já se falou, se trabalhou, se sentiu, sim, porque psicoterapia como sempre defendi não é uma conversa. Enquanto se desloca lembra-se de como foi quando ali entrou pela primeira vez: de baixa já há 18 meses, sem vontade de nada fazer, e mesmo quando tentava, nada lhe saia bem feito. E a esperança? Essa velha inimiga que parecia nunca mais lhe surgir? Tudo lhe parecia negro. Sentia que estava tambem a destruir de quem mais gostava, aquela mulher que sempre lá esteve para ele, em que no passado já tinham sido equipa, e como ele dela gostava, mas agora parecia que o amor que ela por ele sentia, lhe esvaia entre os dedos, e ela olhava para um homem derrotado pela sua vida, sem que ela pudesse dar algum sentido à forma como o marido se encontrava, pois problemas na vida todos nós as temos, e ele sempre tinha tido a capacidade de com eles lidar, melhor, ele sempre tinha sido alguém que não se rendia, que batalhava ate ter compreendido ou resolvido o que na sua realidade entrava, e agora era um sombra de si próprio, e ela que com ele sempre contara, agora já nem o reconhecia. Onde estaria o seu Carlos? E ele que sempre adorou aquela mulher, de ser o seu pilar, agora ela parecia tão mais forte, decidida do que ele. Melhor, todos pareciam mais e melhores do que Carlos.

Mas isso já estava tão distante. Nesse dia tudo estava igual na vida, mas a forma como ele a vivia é que tinha mudado. Os problemas com a sua empresa continuavam, os filhos continuavam com os seus problemas de jovens adultos, a sua esposa continuava ali, mas agora sorrindo quando olhava para ele. E como para ela tudo tinha mudado tambem. Tinha recuperado uma das suas estruturas que sempre lhe tinham sido essenciais para que sentisse que tinha uma boa vida. Ela nem precisa de muito. Para ela a familia é que contava mais. E nessa estrutura, ele era essencial ao seu lado. E tambem ela tinha ido a acompanhá-lo quando era preciso, até ela fez o seu caminho, num outro psicoterapeuta que lhe dera tambem formas diferentes de olhar e de lidar com a vida.

Mas falemos agora do Carlos.

Está na sala de espera, e quando vê a porta dele abrir, sentiu-se em casa. Aquele espaço, com quadros coloridos na parede, aquelas cadeiras identicas, em que ele tinha escolhido a sua, e aquele velho tapete com tantas cores, que dantes pareciam diferentes tons de cinzentos, agora reparava que era verde, amarelo, castanho. E lembra-se bem do dia em que esta percepção mudou. Carlos olha para o Pedro e sorri. Entra e senta-se na sua cadeira. E tudo começa. E agora tambem ali ele já sabia estar, pois no inicio era um conceito tão abstracto que todos nós nos sentiamos estranhos.

– Então Carlos, como estamos hoje?

– Alegre e triste!

– Quer-me explicar melhor?

– Sabe Pedro, foi através de si, que a minha vida mudou.

– Através de nós quer dizer.

– É. Como é quente e confortável poder dizer tal coisa.

– E como é para si termos hoje a ultima sessão, depois de tanto caminho?

– Às vezes parece que estou a viver um sonho, como se melhorar também significá-se perder algo!

– Percebo que temos passado muito tempo juntos, e que nesta caminhada muito foi dito e sentido. E que tenha algum receio, pois sei que para si ter medo é coisa que um homem não tem.

– Já estou um pouco diferente Pedro! Aqui aprendi que sentir tambem faz parte de viver. Mas sabe que no meu tempo, estas coisas não tinham valor. Melhor, nem existiam.

– O que acha que melhorou com este caminho?

– Em primeiro deixei de me sentir impotente com a vida, tal como se tivesse deixado de ser Homem.

– Compreendo. Estes nossos conceitos sobre o que é esperado para nós, e quando não o conseguimos concretizar põe em causa o nosso próprio preposito e valor.

– É, lembro-me de entrar aqui derrotado, sem qualquer noção que poderia ter uma vida diferente. Já nem dizia melhor, bastava diferente.

– Também me lembro de si. Um Homem que parecia uma sombra de alguém que já tinha sido diferente. Parecia transparente como se de ninguem se trata-se.

– Pois é Pedro. Era mesmo assim que me sentia, sem tirar nem por. E foi por isso, e muito mais que me senti acarinhado e amparado por alguem. Mas olhe que foi tão estranho para mim.

– Eu sei, foi dificil conseguirmos ser equipa e deixar-me entrar.

– Mas foi tão mais fácil por me ter deixado ir ao meu ritmo, sem exigência, sem me sentir que também aqui estava a falhar. Isso foi mesmo novidade para mim.

– E se olharmos agora para traz o que mudou? Será que foi você que mudou a sua identidade?

– Não, sou o Carlos, mas podemos dizer quase quitado. Sinto-me mais capaz, mais organizado, mais dono de mim próprio. A vida continua a ter problemas, esses fazem parte dela, mas as formas de olhar para os problemas e a capacidade de os resolver nem se compara. E nem imaginava porquê que vocês psicólogos queriam sempre falar no passado, quando o que me doía era o presente, mas percebi. Tudo aquilo que somos hoje é a consequência de tudo o que vivemos até hoje……

Todos temos a capacidade de mudar, de crescer, de vivermos no nosso potencial, que não igual em todos, que se manifesta de forma tão particular tendo em conta a nossa essência.

Mais uma vez vos digo, arrisquem, em ultima instância podem só perder uma hora da vossa vida, e ganhar o resto da mesma com satisfação