A confusão do conceito “eu sou como sou!”

– Eu sou assim!

– Assim como?

– Como sou.

– Quem é que te disse tal coisa?

No decorrer da nossa vida, já várias vezes teremos passado por um dialogo como este, com algumas perguntas, até mesmo diferentes, mas parece que são sempre as mesmas respostas. Estranho parece que sejamos algo tão definido, tão estático, sem abertura a novas experiências. Ser como se é, um obstáculo a novas invenções, a outras formas de estar. Como se sentíssemos necessidade de justificar ou defender a nossa identidade, como se estivesse em perigo, e com estas três simples palavras tudo fosse descrito, tudo fosse validado naquilo que sentimos, pensamos ou fazemos, que acaba por tentar definir aquilo que somos.

“Sou como sou!” Possível prisão, numa repetição de padrões, de inevitabilidades, que por vezes nos distorcem, contorcem, limitam naquilo que podíamos ser. Claro que temos de saber o que somos, isso vê-se nos nossos comportamentos, aqueles esperados perante situações idênticas. É reconfortante podermos ligar o piloto automático da vida, para desfrutarmos também da paisagem.

“És como és!” É essencial esse espaço, dá-nos um concepção de intimidade, de proximidade, une-nos ao outro pela semelhança. Torna o desconhecido conhecido, o distante próximo, numa ligação que em nós é tão natural, essencial, basilar, as relações entre nós seres humanos, com diferentes etapas, substratos, níveis que pode ir desde um simples conhecido, a família. Como ter família, de sangue ou escolhida, é tão bom.

“Ele é como é!” A nossa identidade manifesta-se pelas escolhas que fazemos. A consciência do conhecimento sobre o outro advém de conseguirmos prever como ele irá reagir ou sentir perante algo já antes vivido. Isso vê-se numa simples escolha como uma prenda de aniversário. A capacidade de conhecer o outro permite-nos optar por algo com percentagem acrescentada de sucesso de satisfação para quem a recebe. Como é bom satisfazer de quem gostamos realmente.

“Nós somos como somos!” e mais de nenhuma forma, não somos mutáveis ou quebráveis, somos uma identidade una, que se preserva, que se alimenta, para que sempre saiba como somos, pois essa possível duvida, esse momento de vazio tudo pode abalar, deixando um rasto de duvidas pelo seu caminho. Não nos questiones, aceita-nos, sabe quem somos através de tudo o que sentes em nós. Deixa-nos perceber na forma como nos reages.

“Vós sois o que sois!” O problema começa quando nessa luta por uma identidade única, perdemos a percepção que podemos mudar, que podemos decidir fazer diferente, ficando perdidos numa catadupa de erros sucessivos, sem margem para optarmos por sermos até felizes. Parece que nesses instantes, perdemos a noção que podemos ser tudo aquilo que desejarmos, parece que envelhecer significa perder a flexibilidade de ser criança, humano talvez até, de agirmos sobre o que possa ser melhor para nós. Será que temos sempre de ser como somos?

“Eles são como são…” Triste sina quando ficamos presos nas escolhas feitas não por opção, mas por parecer que não sabemos fazer diferente, tudo igual se torna, nada ganhamos, como medo de algo perdermos.

“Carlos sabia o que era, pelo menos assim ele pensava. Se lhe pedissem para se descrever ele assim o faria, sem pensar sequer no que dizia – sou um pobre rapaz, sem nada de interessante para dar, sem habilidades de maior, com uma existência simples, que a ninguém de certeza interessaria. De pouco sou capaz, no nada me encontro. Tudo parece demasiado difícil, então remeto-me à insignificância, a uma vida de repetições simples, sem nada de novo. Todos os dias aos anteriores são iguais, e assim sendo, simplesmente sobrevivo, aguardo que a morte me leve, me tire desta monotonia que eu chamo vida. – Nem ele imaginava que podia mudar, que ainda talvez até pudesse sonhar, mas nesta busca da sua própria certeza, esquecera-se que podia escolher tentar ser diferente.

“Eu sou assim!” Ok, não ponho em causa a necessidade de termos uma ideia de nós, um fio condutor que nos alumie o trajecto da vida, uma forma de prevermos futuro, para mais seguros ficarmos, e numa falsa neblina de certezas, tomar as melhores decisões possíveis nesta vida que tanto tem tanto de incerto.

Não importa saber como fazer diferente, basta para começar o desejo de tentar. Num cadeira a quarenta e cinco graus de outro alguém essa viagem pode começar. Todos nós temos o potencial de algo mais alcançar, e na maioria das vezes precisamos da companhia de alguém para um novo caminho traçar. A psicoterapia pode ser o inicio, não o fim, um trajecto primeiro feito a dois, para depois a individualidade poder ser plena.”

Sou o que sou? Sim, mas também posso ser mais, só preciso de perceber como…

 

 

 

 

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Empatia, ver o mundo pelos olhos do outro.

Estava sentado no metro, distraído pelo que a tecnologia já permite, embrenhado na visão voyerista que a quase obrigatoriedade cultural das redes sociais assim o exige, com banda sonora como de costume que ainda mais me isolava no meio dos outros. Lá estava eu comigo, quando algo o meu lado direito me chamou a atenção, e como reação instintiva olhei de relance, sem grande atenção, sem foco ou propósito, sem intenção de interação, e de novo voltei ao que fazia.

Mas algo mudou com esse simples movimento de pescoço que tantas vezes fazemos, num instinto ou procura de um caminho, mas naquele momento o meu cérebro apreendeu algo e ficou curioso, quis saber mais, e como tal assim me ordenou para que lhe desse importância, ao que ainda não conhecia, mas que pelos vistos assim ele o desejava. Assim surge aquela pequena ansiedade que nos mobiliza, que nos acorda, abana, como se fossemos de novo crianças, naquele dia tão desejado, a véspera de Natal, em que sabemos como bem nos iremos sentir no dia seguinte, com família, doces, prendas, novidades. Ai como é bom desejar que um outro momento chegue, nos presenteie com o que ansiamos. A ansiedade não é nossa inimiga sempre, esta, este tipo de sentir, faz-nos bem, refresca-nos, faz-nos sonhar, planar até.

Quando o meu olhar parou, finalmente reparei no que comigo parecia falar. Uma simples figura de um alguém, que não me era familiar, não o reconhecia, mas já próximo dele me sentia. Assim o olhar foca, o cérebro apreende o que os olhos me mostram, e observo a simplicidade daquele homem que me encantou. Não teria mais de um metro e sessenta, e em primeiro reparo nos seus pés desnudos, sujos, maltratados, nuns chinelos enfiados. Isso despertou em mim uma ponta de tristeza, ainda não sabia bem porquê, mas o prognóstico não parecia favorável. Vou subindo e as aquelas calças de ganga gastas pareciam confirmar o pior, mas ainda não detinha todas as informações. Continuando para desvendar o que me tinha despertado a atenção, reparo num t-shirt vermelha, que destoava das cores pasteis das paredes, e de relance li uma das cinco palavras se lá estavam – “vi”. Nada de especial em isolado, mas no global iria fazer-me sorrir, este sentido humano escrito. Como normalmente o faço, procurei o contacto visual com ele, pois nesse momento, em que dois olhar se cruzam, e se fixam, alguma intimidade se passa, mas paradoxalmente nada senti, e estranhei. Novamente as objetivas dos meus olhos focaram e para meu espanto percebi que aquele rapaz que à minha frente estava, com os pés enegrecidos, calças marcadas do uso, t-shirt que dizia vi, era invisual.

Aí ainda mais curioso fiquei preso na palavra lida, que com o resto não encaixava, e tentei perceber o que mais a sua camisola dizia.

EU VI VACAS EM LISBOA

Como?

Levei alguns segundos a perceber, fiquei confuso sem entender o que seria o correto, o que tinha visto, o que eu tinha lido, que ele tinha feito?

Esbocei um sorriso, não de gozo, mas de uma estranha coincidência, pois fiquei intrigado.

Saberia ele que tinha vestido uma t-shirt em que dizia que EU VI VACAS EM LISBOA naquelas grandes letras brancas, centradas no seu peito?

Teria sido uma casualidade?

Bom no primeiro caso era representativo de um humor muito apurado, de uma capacidade de brincar com a sua própria diferença que merecia todo o respeito.

No segundo caso podia ser o cumulo da ironia, entre tantas hipóteses e variáveis de possibilidades de momentos possíveis, o destino ter posto aquele homem diante os olhos de alguém, que naquele momento reparou, na ironia que a vida pode conter.

Isto fez-me pensar num outro conceito que remete para a palavra – Ver.

Em linguagem comum também podemos definir a empatia como vermos o mundo através dos olhos do outro. E com base neste conceito que também tenho, por momentos imaginei-me a tentar ver o mundo pelos olhos daquele rapaz, mas de repente as luzes apagaram todas ao mesmo tempo, tudo escuro ficou. Senti uma solidão amedrontada, que me incomodou, e para mim tive de voltar. Foi estranho. Tentei perceber o que isso significava, mas ainda mais confuso fiquei. Até me senti constrangido pois por momentos pareceu que poderia estar a ser preconceituoso, ou até insultuoso, e ansioso fiquei. Estava a dar demasiada importância ao conceito semântico, pois fora por aí que assim tinha ficado, pois sei perfeitamente que a empatia tem três dimensões, a afetiva, a cognitiva e de regulação de emoções, mas as palavras valem muito no nosso pensamento, são a sua base.

Depois lá percebi, não estava preparado para perceber o mundo de uma pessoa invisual, pois até já tinha experimentado, para tentar perceber o quão difícil seria, mas se para mim, uns breves instantes distante do olhar pareceram horas, nem imagino o que pode ser uma vida assim. Torna-se difícil realmente entender o que isso pode significar, sem termos todas esta referencias que a visão nos dá, mas como já podemos constatar, também pode tirar, e na escuridão nos deixar.

Sendo que todos nós somos feitos de camadas diversas, diferentes substratos criados e alimentados pela nossas vivenciais, a perceção sensorial é uma das portas para a nossa ligação ao mundo. Neste caso percebi que fiquei preso numa dessas camadas, o impacto visual que o mundo nos trás, que nos informa do que ao nosso redor se passa, e baseado nas nossas premissas, significado atribuímos. Nesse sentido fiquei preso a falta de informação em que ficaria no caso da luz que me traz as imagens desaparece-se, para a escuridão me invadisse. Como seria difícil aceitar a negritude que a vida teria!

Fiquei preso na dimensão corporal. Nos cinco sentidos que dou por garantidos, que nasceram comigo e espero que só desliguem quando eu também o fizer desta vida mundana, e percebi, pena que tenha sido fora de tempo, que para realmente entender, para realmente perceber, para deixar o outro ser mais uma parte de mim, nem que fosse por um instante, teria de o conhecer. De conhecer o que para ele significava o desenho, a imagem de uma vaca em Lisboa. Como seria para ele uma vaca? Duvidas às quais só terei resposta, se nas inúmeras viagens de metro, me embarrasse com ele novamente. Espero que sim, assim tentarei.

Como será ver o mundo por quatro sentidos?

O arrependimento é duro, e quando me sentei dentro do metro uma angustia invadiu-me, pois perdido nos meandros do meu pensamento, perdi a oportunidade de me sentar com aquele individuo, que necessidade em mim gerou de conhecer um mundo diferente, e com os automatismos corporais que temos, como na condução em que muitas vezes fazemos o necessário para continuarmos caminho, mas não lhe damos a devida atenção e assim pode acontecer o espaço a mudar, mas a perceção não acompanhar, também eu já estava distante dele. Quantos de nós sonha acordado, e preso nesse sonho, nem nos apercebemos que continuamos viagem, e quando abrimos os olhos até já podemos ter chegado ao destino pretendido. Também eu me ganhei consciência tarde demais do que podia ter feito, depois disso até passou a ser preciso, mas o momento passara, e o tempo não volta atrás. Eu já estava dentro daquele sufocante metro, desejoso de voltar para trás, tentar recuperar o que nunca tive, mas agora precisava, mas nada podia fazer a não ser esforçar-me para que este acontecimento não se transformasse numa reminiscência. Teria de lá voltar em breve, falar com ele, preocupar-me com a sua pessoa, e com ele partilhar um momento, e ganhar mais uma percepção individual, enriquecer sobre o que pode também ser a vida de outro eu.

Fiquei a pensar incessantemente sobre o que me tinha acontecido, rindo-me da vida que ali me plantou, para reparar, e a ele para me alegrar, mesmo sem me ver, mesmo sem proximidade, ele tocou-me, e dentro de mim existirá para sempre.

Será que ele sabia o que graficamente representa o som, o cheiro, o toque até o sabor o que já lhe tinha sido possivelmente mostrado o que seria uma vaca? Alguma vez tinha enxergado, ou sempre tivera vivido num mundo de escuridão? Como seria o dia a dia dele? Como se teria adaptado a uma vida diferente da minha?

Tantas perguntas às quais já podia ter uma resposta, se não tivesse deixado passar o instante.

Há coisas difíceis de compreender sem pelos menos conhecer de mais perto!

A empatia é um conceito muito mais complexo, não remete só para a corporalidade, remete para um entendimento subjetivo, em que passamos a reconhecer o outro como uma outra parte de nós, desconhecida, mas possivelmente familiar se assim entendêssemos se permitíssemos tentar compreender aquela perceção de mundo , como o nosso possível alter-ego, como outro eu, uma extensão de nós, mantendo a nossa individualidade, pois a manutenção da nossa integridade psicológica é essencial.

Mais de empatia falarei, até porque pouco disse ou quase nada, mas foi com base neste evento de uma tarde de sábado que o meu interesse despertou.

O homem no metro.

Todas as manhãs, pelas nove e meia lá está ele, sentado naquela velha estação de metro, escurecida pelo tempo que tem, imagine que o metro em Lisboa faz setenta anos. Mas deixem-me falar um pouco dele. Uma pessoa perfeitamente normal, que se levanta todos os dias, que tem o seu fiel companheiro, o seu gato, sempre ali, pronto para estar com ele, e como o satisfaz! Depois de lhe dar de comer e de lhe por agua, entra na sua própria rotina. Bebe um café, fuma um cigarro e segue para o chuveiro. Fica lá a seguir a agua que quase o abraça de que tão bem lhe sabe, e ele ali fica a sentir o toque na sua pele. Já faz tanto tempo que isso não acontece. Deixem-me que vos fale de dois conceitos parecidamente diferentes. Falemos da saudade e da nostalgia. Para mim, e no meu entendimento, ambos podem ter cargas completamente diferentes. Falemos da nostalgia, é uma memoria que nos faz sentir, que nos lá recorremos com frequência, quase como se necessitássemos de nos sentirmos assim novamente, de lá voltar e acima de tudo queremos lá voltar, tento na nossa mente, como na partilha com os amigos. Quantos de nós quando mais tarde encontramos aqueles que fizeram parte da nossa vida, que importaram, que foram uma escolha, e nessa escolha, foi tão bom partilhar com eles um pedaço de vida. Como pode ser bom recordar! A saudade já pode remeter para outro espaço, mais sombrio, mais doloroso. Podemos dizer que esta palavra, que poucas um nenhuma tem, porque nós como povo, como não, como língua, tivemos de inventar uma palavra destas. Muitos fados já se cantaram por causa dela. Mas a saudade podemos trazer sofrimento, de várias formas e feitios. Exemplo da morte de alguém, enquanto não conseguimos terminar o nosso processo de luto, o aceitar que uma fase da vida acabou e que é preciso reinvenção, e quando isso não acontece, quando não conseguimos encontrar um novo sentido para a vida, a saudade doi sempre.

Banho tomado, barba feita, e lá vai ele escolher a roupa do dia, sim porque ele apresentava-se bem. E depois de tudo isto lá caminhava ele, prédio entre prédio nesta fila que aprecemos formigas a ir para o ninho. Ele acha fascinante esse movimento, tudo de desloca, sem se conhecerem, sem nem sequer partilharem uma palavra, mas ali vão, às vezes como sardinhas, mas toleram a proximidade do outro, até mesmo o cheiro do outro, e isso é tão intimo. Mas está ele naquela estação olhando para os outros. Como repara ele em tanta coisa, já viu tanto que aprendeu a realmente observar. E sempre que olha para alguém poucos são qu estão a sorrir, que não parecem tristes, preocupados. Ai como deve ser difícil não conseguir para de pensar! E mais uma coisa, senão a essencial, parecem que só existem, que só conseguem sair de si próprio, é quando estão em interação com o outro. Quando vê pessoas a interagir com pessoas vem realmente o seu humano no seu esplendor, seja presencialmente ou como está tanto na moda pela facilidade que nos trouxe, o online.

Deixem só dizer mais uma coisa, existem doenças em que esta relação com o outro não é compreendida, desejada ou seguro. Vou-vos só dar alguns exemplos para não me alongar. Se falarmos do espectro do autismo, não existe um vinculo, uma compreensão plena do que é este mundo que nos rodeia, e acima de tudo para e como se interage com o outro. Por outro lado, podemos falar de duas perturbações da personalidade. Desculpem se a linguagem ser demasiado técnica, mas as coisas têm de ter nomes para ser compreendidas, avaliadas e tratadas. Na perturbação esquizotipica da personalidade não se pretende ter relações, não se precisa, também aqui não se percebe o que fazer, como estar como fazer. Na perturbação esquizoide da personalidade, a relação com o outro é muitas vezes ameaçadora, então evitada a todo custo.

Voltemos ao homem do metro. Perguntam vocês porque aqui o metro é tão importante. Sabem o que é nos sentimos realmente sós? Ele sente-se assim há tempo demais, e neste movimento, naquele espaço está com alguém. Muitas vezes ele procura desesperadamente que alguém nele repare, que lhe sorria, que bom dia lhe diga, mas no final de cada viagem sai tão frustrado e triste como entrou, e assim passa o dia, de linha em linha, de estação em estação, pois a alternativa é bem pior. Como a solidão pode ser algo tão intenso, que nele por vezes vêm em ondas que parecem tsunamis que não param de chegar, e ele tão tem alternativa senão esperar mais nada, mas neste entretanto o tempo passa e mais ele sozinho ele se sente.

 

O Último Adeus!

Lá está Bruno, no seu canto, sem saber o que fazer, o que dizer, como se existisse alguma coisa para dizer. Ela tinha ido embora, ela tinha desistido, e o mais cruel é que ele tinha ficado, para aquele ultimo momento ter de o fazer. Como é duro esta forma de viver a morte, este teatro ocidental, desde o velório macabro, onde se vela um corpo frio, sem vida, onde já não está de quem se gostou, de quem se quis bem, mas agora só existem em reminiscências daqueles momentos de vida. O problema é quando essas mesmas memórias ainda magoam pois ainda não acabou, ainda não se ficou no vazio depois da terra ou as chamas comerem aquilo que já foi alguém para nós. Este velho ritual que de negro se veste e que de uma multidão passamos a uma solidão extrema quando tudo acaba, quando o corpo desaparece só ficamos com a falta de quem partiu e já não voltará. Nestes momentos a raiva instala-se depois de acreditarmos que perdemos alguém, que para nós importava. Porquê que ela partiu e no caso dela, para Bruno tudo perdeu, e desta forma não é justo, nem mesmo para ela. Como foi possível tudo assim acabar. Mas lá está ele naquela sala fria rodeado que todos aqueles que conhece, mas nunca se sentiu tão só, quase desamparado, quase desnorteado. Todos o cumprimentam e ele não o queria, por significar o que significa. Ela já partiu, não porque quis, mas porque não aguentou, e ele, que tanto tentou, nada conseguiu. Sente que só adiou o inevitável, pois no fundo ele sabia que ela partiria desta forma. Todos em fila lhe tocam e ele grita por dentro “larguem-na, ela é minha, vocês nada sabem o que ela passou, e muitos de vocês a certa altura deixaram de querer saber.”. Mas no fundo ele percebe porquê.

Mas lá está toda a gente e ele ao fundo vê-o, ao único que queria ver, que queria abraçar, que queria conforto, que queria algo de bom. – Saraiva?

Ele aproxima-se de Bruno e as lágrimas pelo rosto lhe escorrem, pois ele sabe como ele tentou, ele de tudo sabe, e assim sendo, sabe como lhe está a doer. E parece para Bruno que o tempo que demoram a encontrarem-se a meio caminho está demorado, ele anseia sentir o seu peito, para se deixar levar, para se sentir protegido, pois no fundo ele sabe que sozinho não está, mas o problema é que era ela que ele queria, mas agora nada pode fazer. Lá se encontram e ele derrama o sangue no regaço dele, pois não sabe o que fazer, como se livrar desta dor que ainda agora começou. Pois o mais difícil ainda está para vir, e ele aquele amigo que sempre lá esteve quando mais foi preciso, durante todas aquelas crises que ela sempre teve, o confortou, o apoiou, o manteve firme naquele barco que ele sabia que Bruno não conseguia sair, e assim sendo, não o poderia criticar, somente lá estar. E neste momento de perda total, neste momento em que o inevitável aconteceu, ele sabia que o fim seria assim, Bruno precisaria dele, mais do que nunca, e ele por momentos tinha de por as suas necessidades em stand by por ele. Agora era o tempo de Bruno. E isso ele sabia o que significava. A partir daquele momento, Bruno ficaria para sempre incompleto.

-Saraiva, o que faço???

– Agora nada Bruno, deixa-te ficar aqui ao pé de mim. Já comeste?

– O que há para comer agora, não sinto o corpo, percebes não percebes? Perdia-a de vez, não consegui, não consegui…

Nada havia a conseguir, era impossível mudar esta historia predestinada. Estava também nos astros que assim seria, até mesmo alguém já lho tinha dito, pois em desespero até a alguém que lia a vida de alguém em objetos obsoletos, lhe tinha dito que iria perder para a doença, que não seria pela via médica que conseguiria, mas ele não acreditou, não quis acreditar. Mas também por ali não teria sucesso, estava marcado na linha da vida na sua mão que a vida dela terminaria cedo e de forma sangrenta. Mas lá estavam todos no velório e ele só queria ficar sozinho com quem mais gostava de ali ter. E a raiva que lhe metia ver gente a conversar com gente, sobre coisas comuns, pois é nas festividades e perdas que muitos de nós nos reencontramos. Mas para ele é visceral ver tal coisa, falam do tempo, de futebol, mas eles não entendem o que se está a passar? “Merda para vocês todos, saiam daqui, vão para o café e deixem-me aqui com ela!”. Saraiva percebe do estado de nervos em que Bruno se encontra e desvia-o até um pequeno café ao lado da florista, em que todos passam antes de entrar. Flores que aconchegam a morte de alguém, mas não aconchegam a perda para quem cá fica.

– Vou-te pedir um galão. Consegues?

– Acho que sim. O que faço agora? Como posso eu continuar a viver agora? O que faço? Diz-me?

– Agora tens de passar por isto, nada mais, depois logo vemos!

E o mais duro para Bruno é que nem com ela pode passar a noite, chegada a temerosa meia noite a porta tem de se fechar e ela lá sozinha ficará, e ele não saberá como em casa estar, naquele vazio, naquela dor interminável, e ainda por cima tem de saber receber, tem de ainda apoiar quem precisar! Lá está a mãe dela, sem saber o que fazer, desaustinada, perdida dentro de si própria, pois a culpa a dilacera, pois nele não quis acreditar, quis confiar cegamente que ele teria de ser capaz de fazer o que ela nunca tentou. E isso ainda mais raiva lhe traz, pois ele sabe de tudo isso, sabe da responsabilidade que ela teve neste caminho, que nisto terminou. Ela nunca quis saber, tudo parecia mais importante que aquela inocente pessoa, que sempre a procurou, para nunca a encontrar. Tudo era mais importante, as viagens, os namoros, o dinheiro, tudo era mais importante do que o sofrimento dela. Mas agora nestes dias, com ela tem de conviver, mas olha-a fixamente, e ela na sua nuca sente o calor enraivecido e fulminante mirar. Mas falta pouco para com ela nunca mais partilhar espaço e ar.

– Calma Bruno, agora não é tempo para guerras. Depois logo se verá se ainda sentido te faz.

Mas a noite passa, e o dia chega, o ultimo momento, e depois não terá de fingir mais. Mas ela para o chão irá, e depois desaparecerá para sempre. E aquele caminhar desde onde o corpo foi velado, para onde será enterrado, parece uma procissão de negro, com um silêncio aterrador.

Chegado ao local da campa, aquele buraco inferniza-o. E o mais duro é vê-la pela ultima vez, pois ela parecia não acreditar, mas para ele não sabia o que fazer senão um enterro católico. Da terra vimos, e para lá voltamos. E aquele trajeto que tanto custa a fazer, parece que não queremos chegar, não queremos perder de vez aquela pessoa, aquela energia. E para Bruno, isso significava sozinho outra vez ficar. Tantas vezes se sentira assim, nas crises que ela enfrentara, nos gritos, nos pedidos que a morte a levasse que não acordasse, que tudo passasse. Mas nada nunca mudou, e agora sim, para ela tudo tinha acabado. Bruno não sabe onde ela estará, se mesmo estará em algum sitio. Ele sabe que ela já com ele não está. E naquele caixão de pregas douradas, o seu corpo frio e cinzento se encontra. E num movimento seco, um balde de cal se despeja no seu corpo com aquele vestido que ela tão adorava, em que ela já tinha sorrido, tinha sido ele a encontra-lo para ela. E nada mais ela queria dele, senão a sua existência, o seu ser, ali perto, mas longe ao mesmo tempo, pois também lhe lembrava que o magoava. E numas ultimas palavras, num ultimo toque de Bruno na face esfriada dela, se despede “Adeus meu amor, que agora melhor te sintas, que o sofrimento da carne já não te acompanhe!”. E depois o caixão se fecha, e tudo parece ter acabado, e desce devagar até ao fundo chegar. E depois um leve rosa branca sobre ele repousa, para um ultimo beijo dele.

Agora, já em casa, tudo acabou.

– O que faço agora Saraiva?

– Sobrevives, nada mais!

“Desculpa amor, mas já não aguento mais!” Uma carta de alguém que vai desistir.


Querido Bruno.

Estas são as palavras mais difíceis de escrever que tive na minha vida. Nem sei por onde começar meu doce. Sabes-me dizer onde me perdi? Já nem consigo perceber onde começou, nem o que se passou para eu chegar a este ponto amor. Tu estiveste sempre ao meu lado, pesei-te tanto no teu peito. Fiz-te tanto mal, quando só queria fazer-te feliz. E isso onde mais falhei, não soube o que fazer, só conseguia pensar em mim, e tu, nesse teu olhar que apazigua, que me tranquiliza, nem que seja por segundos me permitias. Era, tudo em mim era só temporário. Só aquela dor que sempre me acompanhava. Como podes ver, até nas ultimas palavras que te declaro, em que quero que saibas, que não duvides, que te amo. Como te amo, e também isso foi um peso no meu peito oco, nunca to disse, nunca tas proferi, mas sabes, tens que saber, que te amo desde o primeiro momento que sonhei que conheceria alguém como tu! Triste sina a minha, encontrar-te e quase te destruir. Perdeste o brilho meu amor, envelheci a tua alma, e agora sendo eu uma pessoa má, que contamina, que corroí, abandono-te, saio de cena, mas não volto para ser ser aplaudida, ficarei neste vazio. Como desejo que a morte seja o fim de tudo, que me deixe em paz, esta mente que me matou. Lembras-te amor, lembras-te? Tivemos momentos felizes, não tivemos? Tivemos de ter, eu também te fiz sorrir alguns momentos, parecia um sonho, naqueles que tudo é belo, tudo nos conforta. Via-te a brilhar, como o teu sorriso iluminava a sala. Nesses breves momento tudo me fazia sentido, sabia o que era, o que queria, e sabes, tu eras a única coisa que me importava, que me fazia lutar por vezes, quando parecia que ia mudar, que podia mudar. Tantas ilusões e desilusões. Porquê que pegaste em mim? Sabes não entendo porquê que mas nada resulta. Sabes tanto tentamos, lembras-te? Eu não me consegui esquecer, e esse momentos de historias falhadas, sempre me confirmou, que quando se nasce defeituoso, nada se pode fazer, nada senão deixa-la naquela negritude que até nojo mete. É nem sei como ficaste. Diz-me, mas diz-me mesmo, porque ficaste? Nunca entendi. Tantas vezes te tentei expulsar, mandar-te para longe, libertar-te de tal prisão sem barras, sem guardas, mas que nos prende, que não nos deixa ir. E ficaste porque? Tratei-te tão mal, fui uma verdadeira cabra, mas não sei quem era aquela personagem. Culpava-te naquele tempo de tudo, da minha culpa que corta como mil pequenos golpes, de folhas de papel, e depois de tanta miudinha, vinha aquele banho de álcool, sentia tudo a eriçar, a dor vinha, e não ia, estava ali para ficar, e independentemente do que fizesses, nunca e nada me faria acreditar. Tantos psiquiatras, tantas combinações, agora era este, aquele e o outro, e lá dizia ele “agora acho que vamos conseguir Maria, parece que encontramos a sua saída deste sofrimento constante. Acredite!”. Acreditar dizia ele meu amor, já tinha um dia sentido, mas o tempo leva sempre o que é dele, e se um dia com um discurso, até brilhava, até ficava como uma criança na manha de natal! Mas com o tempo, com o doutor Miguel, o doutor Carlos, e sabes aquele especialista, que fomos a Paris, o Pierre, tudo se esbateu, passou a ser uma rotina, e quando olhava para tinha um duelo de sentimentos. Por um lado ficava tão feliz, ao ver por momentos um brilho nesses olhos verdes como o mar, que agora parecem aqueles tanques que agua estagnada. Já faz tanto tempo que penso na morte, como será, se tudo desaparecerá, se finalmente poderei ter alguma paz. Penso nisso todos os dias, sabes quando de dia durmo, e de noite arrasto-me. Fantasio, até sonho com ela, como a desejo! Nem fazes ideia! Sempre pensei nela, até a tentei em garota como te disse. Mas agora mais que nunca, dela preciso, como o ar que respiro, e todos os demorados dias, quando este meu inimigo, que nunca me larga, sabes quem é. Esta voz que nunca se cala. E tantas vezes com ela tentaste falar, leva-la à razão. Mas ela sempre foi mais forte que tudo, porque tudo na vida mudou, nós crescemos, trabalhamos, somos gente. E eu? Sou um farrapo de gente, da cama para o sofá, do sofá para a cama. Nem sei como ainda estas aqui. E agora sou eu que salta para fora do barco, estou a levar-te ao fundo, e meu amor assim podes velejar para aguas melhores, mas sabes, por muito que fosse tempestuosas, nunca seriam nem de longe, nem de perto o lodo que eu sou. Agua estagnada, pois sou,nem nunca quis crescer, obrigava os outros a de mim conta tomar. E também tu, meu amora, meu amor, meu amor, tiveste tarefa tão agreste. E agora, e mesmo depois da tinta deste adeus seque, deixarei de existir, não serei mais eu. Eu não sei o que por aí vem, mas sabes, nem quero saber, nunca vai ser pior que esta merda de vida em que sempre aprisionada. E tu Bruno. Diz-me? Diz-me? Porquê que saíste pela porta? Nunca percebi, e nem sabes como isso me pesou! Essa culpa que me corroeu desde sempre, desde aquele momento em que me amaste sem nada me dizer, que abraçaste sem me tocar, que me beijaste sem sentir esses lábios, carnudos, vermelhos, vivos, que me envolvem num contorcer de prazer, que fazia desejar-te tanto! Até aí voltei a falhar, agora quem quer tocar neste nojo de pessoa, pois já nem mulher me sinto, tal como no inglês, como tens o he, o she ou o it. É, sou mesmo uma coisa, nada mais. Desculpa amor mas já não aguento mais. Tenho de ter a certeza que cá não fico. Tenho de partir, tenho de desaparecer. E sei que vai sofrer tanto, vais sentir as entranhas a desfazerem-se, mas aguarda, espera, o tempo vai-te salvar, e depois disso, depois de ti, ficarem no esquecimento, onde ninguém me pode encontrar, e eu não posso destruir. Sei que vais compreende porque o fiz, tal percebes, nunca criticas, tudo o que faço, e olha que eu fui longe, nunca fui ninguém. Tratei tão mal, gritava, culpava-te, destruía as coisas que mais estimavas, só para ver no teu olhar aquela tristeza, de algo importante se perder! Estás a ver? Como foi possível tal eu fazer. Nem sei, Depressão, Bipolaridade, olha já não sei. Sei que finalmente me vou matar, já sei como, tu vais ver onde. Desculpa pareço cruel, mas a ansiedade de sentir a vida a escorrer-me entre os dedos é tanta, e quero deixar claro que tens de seguir com a tua vida. Entende que nunca me conseguirias fazer feliz, mas não por não teres tentado, nem sei como aguentaste, sempre me levaste ao colo, acreditando sempre, eras o meu farol naqueles noites de nevoeiro húmido, mas que quanto mais remava na tua direcção, mais distante me ficavas. Mas vai, à vidas bem melhor que aquela que conheces-te comigo. Vai! Por favor vai! VAI!!! Tu vais conseguir ser feliz, para isso, só tens de me esquecer. Tão simples. Nada de bom te trago. Sabes não consigo mais, a agua já está quente, tenho o tempo contado. Não quero mais nada neste momento senão morrer!

Meu amor, meu doce desculpa, mas já não aguento mais!!!!!!

Pode ser que um dia, algures por ai, nos possamos cruzar, mas desta vez não te deixarei entrar. É a única forma, sabes bem, é a única forma de não te devastar., venha o que vier será bem vindo!

Mas sabes agora vou-te deixar, preciso de parar. Parar. Depois logo se vê.

Meu amor vou-me matar. Desculpa mas é a única saída. E desculpa a minha verdade cruel, mas acredita que só por mim irá isto acontecer. Foste tudo e mais ainda do que sempre sonhei, mas agora tenho de ir.

Beijos, beijos só como tu me deras desde sempre, beijos doces, beijos suados, beijos completos.

Beijo ”

Bruno está ansioso por chegar a casa. Sexta feira, sei trabalho trazido para tempo com ela lhe roubava, livre para com ela estar, e como o pouco tanto lhe sabe. Basta que a ela algo lhe apeteça, e logo sem sequer pensar, tudo tem de fazer para a fazer sorrir. Ele ainda acredita, com toda a célula do seu emagrecido corpo, que ela um dia vai sair daquele que lhe parece nunca ter fim.
Mas ele naquele dia, naquela noite mete a chave à porta, e sabe lá ele, nem imagina, que será a ultima vez que meterá aquela chave, aquele símbolo, naquela porta. Roda então a chave e esboça um sorriso. A porta não está trancada, Maria está em casa. Entra pela casa dentro e grita “Maria? Estás aí amor?” Fica à espera mas nada parece chegar, nem um velho pombos correio lhe trazia noticias da sua amada. Como fantasiava ele, estando tanto tempo no seu mundo, sempre pensando o que poderia fazer por ela. Todo o momento do seu cérebro, cada sinapse era para ai dirigido, a pensar em Maria, a pensar no que fazer, no que tentar, para onde ir, mas nunca desistir, nunca deixaria a sua princesa. Mas ainda não sabe ele, que quem o deixara fora ela.
Pousa as suas chaves no móvel do seu Hall que a todos os sítios o leva, mesmo no centro de tudo, e por isso repara Bruno, que pelas frinchas da porta da casa de banho, emanava aquelas cores, que quando Maria estava menos mal, pois porque bem nunca esteve, que eram os banhos a dois, em que as velas davam o ambiente e nós os corpos, o suor que nos unia, e aquela dança que era perfeita, aquele ritual de quando duas almas ficam uma. Ele tira então a gravata, e o entusiasmo aumenta, e conforme para lá se desloca, as peças da sua farda que o mundo a tantos obriga, aquele fato bem engomado, encosta a sua face à porta e por ela chama outra vez “Maria? Estás aí? Meu amor, estás bem? Sente um pequeno arrepio, mas ele não quis prestar atenção, e então sorriso voltou, e delicadamente agarra na maçaneta, perguntando-lhe: “Posso entrar amor?” Silencio. “Amor?” Silencio. Roda então a maçaneta que tanto se arrependerá de o fazer, aquela imagem nunca desaparecerá, e empurra a porta, ficando a mesma escancarada, e lá está aquele momento, mais valioso do que qualquer vida. Ele repara no perfil da sua amada, que brilha pelo reflexo daquela luz ténue. Sim vai ser um momento de união, ela está bem hoje! E subitamente algo o atormenta, ele não o que ou porquê, mas algo o incomoda. Naquela tela, algo está fora de cena. A agua não parava de jorrar, e a sua cor não era a esperada. Ele vê aquele rosa esbatido, aquela cor que o congela. “Maria? Maria? Amor? MARIA?”. E nem coragem tem de dar um passo, não quer ver, não quer ter de acreditar. Não, não, não. E fechando os olhos os seus pés movem-se. “Não pode ser ela, não podes ser tu, não podes, sabes porquê, porque eu cheguei, e não posso ter chegado tarde demais!” Mas quando as pálpebras se levantam, lá está ela. Ela está onde não deveria estar. Ele já estava ali, e ele de certeza que não podia ter chegado tarde demais! Porquê? Ele não quer saber, sabem porquê? Ele sabia que isto aconteceria, ele tentaria adiar, sempre adiar, mas agora aconteceu!

O que significa ser crente religioso, praticante, e como isso se manifesta na relação com o mundo.

Maria foi como muitos de nós, educada por padrões que lhe foram passados pelos seus falecidos pais. Desde muito nova, sempre foi incitada a ter padrões de vida em que a religiosidade estava muitas vezes presentes. O que isto quer dizer? Pode nada significar e tudo incapacitar. Mais uma vez, uma dicotomia que quando a pessoa tem pouca capacidade de se adaptar, de viver com estas dualidades entre conceitos pré-concebidos, que nos podem limitar ou não a nossa vida quotidiana. O que posso eu querer dizer com este conceito de prejuízo na vida e funcionamento saudável através de postes, traves e afins, sobre o livre arbítrio, sobre a possibilidade de termos opções multifacetadas sobre assuntos de foro geral ou particular à sua vida. Livre arbítrio, esse conceito tão nosso, humanos, animais, consequenciais de todas as experiências, que acabam por nos definir o que somos hoje, mas que quando falamos de conceitos, interpretações, atribuição de significados ao que por nós passa na vida. Não querendo especificar, pois somos cada vez mais uma multi-cultura em que as crenças religiosas são cada mais numerosas, diferentes, mas que no fundo a população portuguesa é feita principalmente de valência católica cristã, que também no meu caso, sinto hoje que não tive oportunidade de escolher, primeiro pois como temos esta base hoje, em que vivemos uma mundo de proximidade com a informação, não havendo a necessidade de se deslocar às antigas bibliotecas, pois pouco falta para termos inclusivamente uma visão para as mesmas como uma fase do passado, como hoje olhamos para a descoberta do fogo, que hoje por 50 centimos podemos ter um isqueiro que nos permite termos acesso a algo que foi essencial ao nosso desenvolvimento como humanos. Hoje a informação ou desinformação está à distancia de um clique. Assim também eu fui educado, modelado, orientado, numa crença que hoje pouco me diz. Isso é uma questão tão pertinente. Como podemos conviver enquanto psicólogos, que trabalham na área, que por vezes podem ter casos que nas linhas de pensamento da religiosidade podem ser incompatíveis. Isso torna-se uma trabalho tão árduo. Como podemos nós entrarmos num contexto como são as nossas salas, em que por nós são pensadas, decoradas, executadas. E sim neste contexto é mesmo muito importante ser mais generalizada, de forma a que haja espaço para ser preenchida por tudo o que o cliente nos traz, havendo três espectros bem evidentes. O que quero eu dizer com isto? Existo eu como ser individual, o outro, e a nossa relação terapêutica, sendo esta a base de todo o trabalho, que nestas salas, por vezes com as cadeiras desgastadas pelo tempo, pela presença humana, pelas historias que por ali passaram. Então neste sentido o que deve um terapeuta fazer? Haverá espaço para sermos livres na relação com o outro, com pré-conceitos, que por vezes são a base da forma de viver connosco mesmo. Então como podemos nós existir em tantas áreas, sem que esta parte de nós seja preservada, como o nosso conceito de intimidade. Porque sim, alem de psicólogos, de terapeutas, de psicoterapeutas, de terapeutas familiares, e afins, somos humanos. Ser humano traz-nos tantas responsabilidades acrescidas. Não se esqueçam que quem nos procura não se encontra bem. Não necessariamente doentes, não necessariamente saudáveis, muitas vezes não sentem é uma satisfação com a vida, que nos faça ter uma percepção de ter uma vida suficientemente boa. Mas voltemos a nós terapeutas. Conseguiremos nós chegar a porta do nosso consultório, tirando esta parte de pele que faz parte de nós, vestindo uma que nos permita trabalhar, tendo em conta a percepção dos pacientes, não julgando, validando o que eles vão sentindo. E quando temos conceitos do que supostamente é normal ou não?

Peguemos num conceito já aceite, já reformulado, já comprovado, da orientação sexual. Só em 1986 o PSR conseguiu mudar no dicionário que definia que a homossexualidade era uma doença mental, que tinha de ser tratada (estas obrigações só nos traz angustia, principalmente quando o que sentimos, não joga com aquilo que a sociedade, e os nossos valores, ou da nossa família condena.

Então como pode uma psicólogo conviver com este conceito, sem que não haja uma tentativa de orientar o processo de acordo com estes valores nada inclusivo que o cliente sente. Como podemos nós termos uma empatia profunda quando o que nos é revelado pode ser tão antagónico em nós. Isto pode ser um entrave inclusivamente na intimidade e proximidade que os pacientes precisam. Isto pode ser uma realidade tão complexa para o processo que se inicia e que tem de ter uma caminho construído a dois, pois para critica, para condenação, já chega o que o outros nos traz desde o inicio.

Assim peço-vos que pensem sobre o inicio desta temática que voltarei em breve, se esta característica que pode dificultar algo que podia ou devia ser fluido. Este convite não é direccionado a alguém em especifico, isto até porque na relação estão os dois ou mais incluídos.

Como seria um ultimo momento de psicoterapia

Carlos vai á sua última consulta com o psicólogo que o segue há 3 anos. Tanto já se falou, se trabalhou, se sentiu, sim, porque psicoterapia como sempre defendi não é uma conversa. Enquanto se desloca lembra-se de como foi quando ali entrou pela primeira vez: de baixa já há 18 meses, sem vontade de nada fazer, e mesmo quando tentava, nada lhe saia bem feito. E a esperança? Essa velha inimiga que parecia nunca mais lhe surgir? Tudo lhe parecia negro. Sentia que estava tambem a destruir de quem mais gostava, aquela mulher que sempre lá esteve para ele, em que no passado já tinham sido equipa, e como ele dela gostava, mas agora parecia que o amor que ela por ele sentia, lhe esvaia entre os dedos, e ela olhava para um homem derrotado pela sua vida, sem que ela pudesse dar algum sentido à forma como o marido se encontrava, pois problemas na vida todos nós as temos, e ele sempre tinha tido a capacidade de com eles lidar, melhor, ele sempre tinha sido alguém que não se rendia, que batalhava ate ter compreendido ou resolvido o que na sua realidade entrava, e agora era um sombra de si próprio, e ela que com ele sempre contara, agora já nem o reconhecia. Onde estaria o seu Carlos? E ele que sempre adorou aquela mulher, de ser o seu pilar, agora ela parecia tão mais forte, decidida do que ele. Melhor, todos pareciam mais e melhores do que Carlos.

Mas isso já estava tão distante. Nesse dia tudo estava igual na vida, mas a forma como ele a vivia é que tinha mudado. Os problemas com a sua empresa continuavam, os filhos continuavam com os seus problemas de jovens adultos, a sua esposa continuava ali, mas agora sorrindo quando olhava para ele. E como para ela tudo tinha mudado tambem. Tinha recuperado uma das suas estruturas que sempre lhe tinham sido essenciais para que sentisse que tinha uma boa vida. Ela nem precisa de muito. Para ela a familia é que contava mais. E nessa estrutura, ele era essencial ao seu lado. E tambem ela tinha ido a acompanhá-lo quando era preciso, até ela fez o seu caminho, num outro psicoterapeuta que lhe dera tambem formas diferentes de olhar e de lidar com a vida.

Mas falemos agora do Carlos.

Está na sala de espera, e quando vê a porta dele abrir, sentiu-se em casa. Aquele espaço, com quadros coloridos na parede, aquelas cadeiras identicas, em que ele tinha escolhido a sua, e aquele velho tapete com tantas cores, que dantes pareciam diferentes tons de cinzentos, agora reparava que era verde, amarelo, castanho. E lembra-se bem do dia em que esta percepção mudou. Carlos olha para o Pedro e sorri. Entra e senta-se na sua cadeira. E tudo começa. E agora tambem ali ele já sabia estar, pois no inicio era um conceito tão abstracto que todos nós nos sentiamos estranhos.

– Então Carlos, como estamos hoje?

– Alegre e triste!

– Quer-me explicar melhor?

– Sabe Pedro, foi através de si, que a minha vida mudou.

– Através de nós quer dizer.

– É. Como é quente e confortável poder dizer tal coisa.

– E como é para si termos hoje a ultima sessão, depois de tanto caminho?

– Às vezes parece que estou a viver um sonho, como se melhorar também significá-se perder algo!

– Percebo que temos passado muito tempo juntos, e que nesta caminhada muito foi dito e sentido. E que tenha algum receio, pois sei que para si ter medo é coisa que um homem não tem.

– Já estou um pouco diferente Pedro! Aqui aprendi que sentir tambem faz parte de viver. Mas sabe que no meu tempo, estas coisas não tinham valor. Melhor, nem existiam.

– O que acha que melhorou com este caminho?

– Em primeiro deixei de me sentir impotente com a vida, tal como se tivesse deixado de ser Homem.

– Compreendo. Estes nossos conceitos sobre o que é esperado para nós, e quando não o conseguimos concretizar põe em causa o nosso próprio preposito e valor.

– É, lembro-me de entrar aqui derrotado, sem qualquer noção que poderia ter uma vida diferente. Já nem dizia melhor, bastava diferente.

– Também me lembro de si. Um Homem que parecia uma sombra de alguém que já tinha sido diferente. Parecia transparente como se de ninguem se trata-se.

– Pois é Pedro. Era mesmo assim que me sentia, sem tirar nem por. E foi por isso, e muito mais que me senti acarinhado e amparado por alguem. Mas olhe que foi tão estranho para mim.

– Eu sei, foi dificil conseguirmos ser equipa e deixar-me entrar.

– Mas foi tão mais fácil por me ter deixado ir ao meu ritmo, sem exigência, sem me sentir que também aqui estava a falhar. Isso foi mesmo novidade para mim.

– E se olharmos agora para traz o que mudou? Será que foi você que mudou a sua identidade?

– Não, sou o Carlos, mas podemos dizer quase quitado. Sinto-me mais capaz, mais organizado, mais dono de mim próprio. A vida continua a ter problemas, esses fazem parte dela, mas as formas de olhar para os problemas e a capacidade de os resolver nem se compara. E nem imaginava porquê que vocês psicólogos queriam sempre falar no passado, quando o que me doía era o presente, mas percebi. Tudo aquilo que somos hoje é a consequência de tudo o que vivemos até hoje……

Todos temos a capacidade de mudar, de crescer, de vivermos no nosso potencial, que não igual em todos, que se manifesta de forma tão particular tendo em conta a nossa essência.

Mais uma vez vos digo, arrisquem, em ultima instância podem só perder uma hora da vossa vida, e ganhar o resto da mesma com satisfação