Empatia, ver o mundo pelos olhos do outro.

Estava sentado no metro, distraído pelo que a tecnologia já permite, embrenhado na visão voyerista que a quase obrigatoriedade cultural das redes sociais assim o exige, com banda sonora como de costume que ainda mais me isolava no meio dos outros. Lá estava eu comigo, quando algo o meu lado direito me chamou a atenção, e como reação instintiva olhei de relance, sem grande atenção, sem foco ou propósito, sem intenção de interação, e de novo voltei ao que fazia.

Mas algo mudou com esse simples movimento de pescoço que tantas vezes fazemos, num instinto ou procura de um caminho, mas naquele momento o meu cérebro apreendeu algo e ficou curioso, quis saber mais, e como tal assim me ordenou para que lhe desse importância, ao que ainda não conhecia, mas que pelos vistos assim ele o desejava. Assim surge aquela pequena ansiedade que nos mobiliza, que nos acorda, abana, como se fossemos de novo crianças, naquele dia tão desejado, a véspera de Natal, em que sabemos como bem nos iremos sentir no dia seguinte, com família, doces, prendas, novidades. Ai como é bom desejar que um outro momento chegue, nos presenteie com o que ansiamos. A ansiedade não é nossa inimiga sempre, esta, este tipo de sentir, faz-nos bem, refresca-nos, faz-nos sonhar, planar até.

Quando o meu olhar parou, finalmente reparei no que comigo parecia falar. Uma simples figura de um alguém, que não me era familiar, não o reconhecia, mas já próximo dele me sentia. Assim o olhar foca, o cérebro apreende o que os olhos me mostram, e observo a simplicidade daquele homem que me encantou. Não teria mais de um metro e sessenta, e em primeiro reparo nos seus pés desnudos, sujos, maltratados, nuns chinelos enfiados. Isso despertou em mim uma ponta de tristeza, ainda não sabia bem porquê, mas o prognóstico não parecia favorável. Vou subindo e as aquelas calças de ganga gastas pareciam confirmar o pior, mas ainda não detinha todas as informações. Continuando para desvendar o que me tinha despertado a atenção, reparo num t-shirt vermelha, que destoava das cores pasteis das paredes, e de relance li uma das cinco palavras se lá estavam – “vi”. Nada de especial em isolado, mas no global iria fazer-me sorrir, este sentido humano escrito. Como normalmente o faço, procurei o contacto visual com ele, pois nesse momento, em que dois olhar se cruzam, e se fixam, alguma intimidade se passa, mas paradoxalmente nada senti, e estranhei. Novamente as objetivas dos meus olhos focaram e para meu espanto percebi que aquele rapaz que à minha frente estava, com os pés enegrecidos, calças marcadas do uso, t-shirt que dizia vi, era invisual.

Aí ainda mais curioso fiquei preso na palavra lida, que com o resto não encaixava, e tentei perceber o que mais a sua camisola dizia.

EU VI VACAS EM LISBOA

Como?

Levei alguns segundos a perceber, fiquei confuso sem entender o que seria o correto, o que tinha visto, o que eu tinha lido, que ele tinha feito?

Esbocei um sorriso, não de gozo, mas de uma estranha coincidência, pois fiquei intrigado.

Saberia ele que tinha vestido uma t-shirt em que dizia que EU VI VACAS EM LISBOA naquelas grandes letras brancas, centradas no seu peito?

Teria sido uma casualidade?

Bom no primeiro caso era representativo de um humor muito apurado, de uma capacidade de brincar com a sua própria diferença que merecia todo o respeito.

No segundo caso podia ser o cumulo da ironia, entre tantas hipóteses e variáveis de possibilidades de momentos possíveis, o destino ter posto aquele homem diante os olhos de alguém, que naquele momento reparou, na ironia que a vida pode conter.

Isto fez-me pensar num outro conceito que remete para a palavra – Ver.

Em linguagem comum também podemos definir a empatia como vermos o mundo através dos olhos do outro. E com base neste conceito que também tenho, por momentos imaginei-me a tentar ver o mundo pelos olhos daquele rapaz, mas de repente as luzes apagaram todas ao mesmo tempo, tudo escuro ficou. Senti uma solidão amedrontada, que me incomodou, e para mim tive de voltar. Foi estranho. Tentei perceber o que isso significava, mas ainda mais confuso fiquei. Até me senti constrangido pois por momentos pareceu que poderia estar a ser preconceituoso, ou até insultuoso, e ansioso fiquei. Estava a dar demasiada importância ao conceito semântico, pois fora por aí que assim tinha ficado, pois sei perfeitamente que a empatia tem três dimensões, a afetiva, a cognitiva e de regulação de emoções, mas as palavras valem muito no nosso pensamento, são a sua base.

Depois lá percebi, não estava preparado para perceber o mundo de uma pessoa invisual, pois até já tinha experimentado, para tentar perceber o quão difícil seria, mas se para mim, uns breves instantes distante do olhar pareceram horas, nem imagino o que pode ser uma vida assim. Torna-se difícil realmente entender o que isso pode significar, sem termos todas esta referencias que a visão nos dá, mas como já podemos constatar, também pode tirar, e na escuridão nos deixar.

Sendo que todos nós somos feitos de camadas diversas, diferentes substratos criados e alimentados pela nossas vivenciais, a perceção sensorial é uma das portas para a nossa ligação ao mundo. Neste caso percebi que fiquei preso numa dessas camadas, o impacto visual que o mundo nos trás, que nos informa do que ao nosso redor se passa, e baseado nas nossas premissas, significado atribuímos. Nesse sentido fiquei preso a falta de informação em que ficaria no caso da luz que me traz as imagens desaparece-se, para a escuridão me invadisse. Como seria difícil aceitar a negritude que a vida teria!

Fiquei preso na dimensão corporal. Nos cinco sentidos que dou por garantidos, que nasceram comigo e espero que só desliguem quando eu também o fizer desta vida mundana, e percebi, pena que tenha sido fora de tempo, que para realmente entender, para realmente perceber, para deixar o outro ser mais uma parte de mim, nem que fosse por um instante, teria de o conhecer. De conhecer o que para ele significava o desenho, a imagem de uma vaca em Lisboa. Como seria para ele uma vaca? Duvidas às quais só terei resposta, se nas inúmeras viagens de metro, me embarrasse com ele novamente. Espero que sim, assim tentarei.

Como será ver o mundo por quatro sentidos?

O arrependimento é duro, e quando me sentei dentro do metro uma angustia invadiu-me, pois perdido nos meandros do meu pensamento, perdi a oportunidade de me sentar com aquele individuo, que necessidade em mim gerou de conhecer um mundo diferente, e com os automatismos corporais que temos, como na condução em que muitas vezes fazemos o necessário para continuarmos caminho, mas não lhe damos a devida atenção e assim pode acontecer o espaço a mudar, mas a perceção não acompanhar, também eu já estava distante dele. Quantos de nós sonha acordado, e preso nesse sonho, nem nos apercebemos que continuamos viagem, e quando abrimos os olhos até já podemos ter chegado ao destino pretendido. Também eu me ganhei consciência tarde demais do que podia ter feito, depois disso até passou a ser preciso, mas o momento passara, e o tempo não volta atrás. Eu já estava dentro daquele sufocante metro, desejoso de voltar para trás, tentar recuperar o que nunca tive, mas agora precisava, mas nada podia fazer a não ser esforçar-me para que este acontecimento não se transformasse numa reminiscência. Teria de lá voltar em breve, falar com ele, preocupar-me com a sua pessoa, e com ele partilhar um momento, e ganhar mais uma percepção individual, enriquecer sobre o que pode também ser a vida de outro eu.

Fiquei a pensar incessantemente sobre o que me tinha acontecido, rindo-me da vida que ali me plantou, para reparar, e a ele para me alegrar, mesmo sem me ver, mesmo sem proximidade, ele tocou-me, e dentro de mim existirá para sempre.

Será que ele sabia o que graficamente representa o som, o cheiro, o toque até o sabor o que já lhe tinha sido possivelmente mostrado o que seria uma vaca? Alguma vez tinha enxergado, ou sempre tivera vivido num mundo de escuridão? Como seria o dia a dia dele? Como se teria adaptado a uma vida diferente da minha?

Tantas perguntas às quais já podia ter uma resposta, se não tivesse deixado passar o instante.

Há coisas difíceis de compreender sem pelos menos conhecer de mais perto!

A empatia é um conceito muito mais complexo, não remete só para a corporalidade, remete para um entendimento subjetivo, em que passamos a reconhecer o outro como uma outra parte de nós, desconhecida, mas possivelmente familiar se assim entendêssemos se permitíssemos tentar compreender aquela perceção de mundo , como o nosso possível alter-ego, como outro eu, uma extensão de nós, mantendo a nossa individualidade, pois a manutenção da nossa integridade psicológica é essencial.

Mais de empatia falarei, até porque pouco disse ou quase nada, mas foi com base neste evento de uma tarde de sábado que o meu interesse despertou.

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A vida como um todo.

A mortalidade da nossa imortalidade.

Todos nós a uma certa altura da vida fomos imortais. Fomos tudo o que a vida nos permitiu ser, sem limites, sem restrições, identidades que tudo podiam fazer sem qualquer limite. Lembram-se quando o tempo custava a passar, quando um dia era uma eternidade, e esse mesmo tempo era para ser vivido, para ser aproveitado, sem qualquer limite. Nesta altura o limite não existe é uma palavra de ordem não o ter. Limites quem os viu, só com o avanço da idade que tudo se torna mortal. Como qualquer coisa nesta realidade que é a nossa em que tem um principio, um meio e um fim, também nós temos uma fase ascendente, e o declínio que espera por todos nós. Mas será que em todos os momentos temos essa noção? Será que poderíamos viver se sempre pensasse-mos que um dia tudo terminaria?

Como é quando somos inocentes? Sem qualquer ideia da maldade, e do que a vida nos faz ser e sentir. Sermos pequenos, dependentes daqueles que nos protegem e nos auxiliam a crescermos. Como seria bom não sermos em tudo responsáveis em tudo o que fazemos? Mas como tudo existe um lado solar e um lunar, frio e sem vida. Pois agora que mais velhos somos, seria difícil voltarmos atrás? E faríamos assim tão diferente? Isso é uma questão tão complicada, pois se realmente gostamos daquilo que somos hoje em dia, e se esse resultado é a combinação de tudo o que fizemos, então se mudássemos mesmo que só uma pequena coisa, não perderíamos a nossa identidade. Por varias teorias dos multiversos, podemos afirmar que por cada encruzilhada em que temos de tomar uma decisão uma parte de nós segue um caminho, e a outra segue o outro. Neste caso então o que somos senão uma consequência das nossa escolhas, e que por ai andará outras versões de nós, não necessariamente melhores, mas simplesmente diferentes.

Como é bom lembrar quando tudo podíamos fazer, quando tudo era possível, não por ser na realidade, mas por o sentirmos, e isso, era o que mais contava. Ser jovem era tão bom! Mas o que significa ser jovem? E quando termina a nossa juventude? Há quem diga que cedo demais, outros parecem nunca dela saírem. Mas todos nós, mesmo que contrariados, temos de a deixar para traz, para outras coisas viver. Mas como é cheia de saudades tais memorias. Eu lembro-me de não ter limites, essa palavra que já antes referi, e tanto repito, não por querer, mas porque a vida me obrigou a olhar para eles, e mesmo que nunca queira, sempre tenho que o fazer.

 

Como seria sermos os jovens invencíveis que já fomos, e não o podermos sentir? Sermos limitados pela finitude do tempo? Para isso já chega quando o tempo nos obriga a isso sentir, mas isso não é para a nossa adolescência. Quem nos dera ser jovens outra vez! Será que seria assim tão bom? Com tudo à flor da pele, em que o sentir se tornava extremos de um momento para outro, em que os desaires da vida, eram catástrofes impensáveis de ultrapassar? Como os idosos o dizem “se soubesse o que sei hoje!”. Mas isso seria impossível, senão não seriamos jovens, livres das limitações do tempo e da carne mortal, onde saltar de uma ponte para um rio de cor baça, sem termos noção da sua profundidade e perigos, tornava-se impensável. Daí a necessidade de sermos jovens e não criaturas envelhecidas. Da mesma forma que considerando que o auge da nossa competência percebida é entre os trinta e os quarenta e cinco anos, temos de sentir que os projectos são uma escolha, misturada com empenho, esse elemento tão necessário ao nosso sucesso. E faz sentido que seja nesta fase ascendente de vida que já tenhamos objectivos de vida, projectos realizáveis, um fio condutor de vida. E o que acontece se não encontramos esse mesmo trajecto? O que nos sobra? Uma resignação ao que a vida nos traz, sem o prazer da busca, da conquista!

O que significa envelhecer, mesmo que jovem ainda? Como reparamos nós que o tempo nos ganha na sua própria corrida? Como já antes o disse, e o reitero, o tempo leva o que é dele! E digam vocês o que isso significa? O que leva ele que não reparamos, só quando é tarde é que vislumbramos, que contra ele nunca ganhamos. Pensemos sobre as diferentes idades que já vivemos. Já muitas vezes observei as pessoas de idade mais avançada para tentar perceber e prever o que será para mim também o ser! Mas tudo se torna diferente, por mais uma vez as escolhas. Tudo se resume a isso. O que escolho e que consequência e que isso tem na minha vida. Então o que se deve escolher, para quando a mortalidade se aproximar de nós, quando repararmos que aqueles que eram importantes para nós começam a desaparecer, e cada vez mais sozinhos nos sentimos? Como deve ser triste ver partir aqueles que connosco partilharam a vida, com amargos de boca e sorrisos abertos. Eles sempre lá estiveram, e com a finitude da vida, também partem, não sei para onde, mas sei que nos deixam, e nesta inexistência carnal, a saudade toma conta. “Sinto a tua falta, a cada momento do dia. Como te queria aqui, ou eu aí contigo, onde quer que isso seja. Mas para minha pena, ainda tenho que por aqui andar a vaguear por um mundo que já não conheço, que me ultrapassa, que já me ultrapassou à muito, sem que eu próprio me desse conta. Quando perdi eu o comboio da evolução? Mas isso agora também não interessa. O meu tempo também chegará, e por ele espero já com ansiedade. Já estou preparado para deixar de existir, a vida já cansa, e eu consumido por ela, anseio um descanso eterno, seja ele o que seja, um simples fim, ou um principio.”

Desde que nascemos até morremos atravessamos tantas fases diferentes, para depois podermos ir embora, e deixar cá alguma coisa, seja ela qual seja. Mas o destino do ser humano é deixar uma marca no mundo que todos os dias muda.

Qual é a sua marca eterna?

A mesa de Natal.

Mesa abastada, lugares vazios.

Passámos mais um período de festejos, de confraternização, de reencontros, que é tão típica altura de que o ano nos proporciona. O Natal simboliza para muitos uma sala colorida, iluminada, de mesa sempre posta, com os típicos acompanhamentos, que divergem da nossa zona e cultura. Tudo à nossa volta nos recorda constantemente que um acontecimento que já tem dois mil e dezoito anos, e continua com a mesma importância que sempre teve. Tudo começa atempadamente, entre cozinha, decoração, e entre emoções partilhadas e desejadas. Como é reconfortante chegar a casa, e ter aquele cheiro tão característico, como as filhoses, as azevias, o polvo, o bacalhau, ou até mesmo o peru. Espalhados pelo chão, em redor do nosso pinheiro, verde, branco, até mesmo rosa, aqueles volumes envolvidos pelas cores, os laços, que as crianças anseiam por rasgar, para finalmente chegar ao objeto desejado. E como é tão recompensador, quando para elas, aquele momento, é de uma verdadeira euforia. Até porque com antecedência, o pai natal ou o menino Jesus, foram avisados, do que se queria. É uma altura em que os horários, os rituais da nossa vida comum são contornados, são até ignorados, pois o menino Jesus, chega sempre tardiamente, e ao chegar a meia noite corre-se, salta-se para tudo abrir, experimentar, e vale a pena todo o trabalho que se tem, para ver aquele respirar ansioso a quem nós oferecemos. Sim, porque isto é um tempo de partilha, de mostrar-se a quem nos é querido, da importância e espaço ocupam no nosso coração.

Mas também esta altura, tem um sentimento ambivalente.

É na altura de por a mesa, que podemos também sentir a falta!

Todos nós passamos por diferentes momentos, diferentes configurações da nossa mesa de repasto. Entre famílias mais extensas, ou refeições mais solitárias, tudo se faz para não quebrar com as tradições, até mesmo para manter viva e perto de nós, os usos e hábitos que quem connosco já não se encontra. O tempo não perdoa, e assim sendo, leva o que é dele. Já fomos netos, filhos, irmãos, pais, companheiros, e com esse desenrolar de papeis, uns partem e outros chegam.

“Odete anda na sua afaza-ma do costume, o mundo assim a obriga. É dia 24, e todos estão a chegar. Começou cedo nesse tão conhecido ritual. Pela manhã começa por preparar o seu tão apreciado bacalhau, que fora comprado naquela pequena loja na baixa de Lisboa, que sempre vendeu o bacalhau que mais agrada. Ela tem um prazer redobrado em ver todos sorrir, em sentir a gula nos outros, do que das suas mãos é elaborado. Já o tinha deixado a demolhar há uns dias, pois todo o cuidado é pouco, e para ela tem de estar tudo perfeito. Depois é altura das frituras. Os filhoses! Essa receita antiga que a sua mãe lhe ensinou com tanto carinho, que já antes tinha sido aprendido com a sua. A massa fica a levedar, dando-lhe tempo para ser polivalente, pois essa é a palavra de ordem. Os sonhos aqui existem em cima da mesa, e até ontem há noite com eles sonhou. Nada pode faltar, é sempre essencial que sobre.

Naquela correria que vai da cozinha à sala, seria tão importante ter Jorge ao seu lado. Como era essencial este trabalho de equipa, mesmo que ele pouco fizesse. Era o estar que mais importava, aquela disponibilidade para a qualquer pedido realizar. Mas para ela, esse vazio existe. Ele já partira há dois anos, e isso nestas coisas, é tão pouco tempo. Esse sabor amargo que a rodeia, aperta-lhe o coração. Foram quarenta anos de companheirismo, de amor, que terminar tão antes de tempo. A historia não devia ter sido interrompida. As saudades acompanham-na a cada passo que dá, e para isso não há solução. Sente-se só naquelas noites de Inverno, que o toque dos outros nos aquece. Aquele lugar vazio na sua mesa, onde antes comiam dois, agora na maioria das vezes, partilha com a televisão as conversas que lhe eram tão familiares. Não era preciso grandes coisas, bastava a companhia. E isso não pode ser substituído. Já teve casa sempre cheia, pois com quatro filhos, difícil era estar sozinha. Mas a vida leva e traz tanta coisa. Foi vendo os seus precisos filhos a crescerem, a construírem uma vida, na qual ela sempre fará parte. Mas ela sente. Sente tanta falta dele, nunca se tinha sentido tão só! Sem discussões, só com ocasionais divergências, que rapidamente eram resolvidas, a vida era tão idílica com Jorge. Todos aqueles hábitos dele, depois de uma vida de trabalho, podiam viver ao seu ritmo. O acordar de manhã e olhar para o lado, e ver, sentir que ele ali estava, que ele queria estar. Ia como de costume ao velho quiosque comprar o seu jornal, que ao sábado pela manha era folheado à mesa. E com essas palavras imprimidas, trazia também o pão acabado de cozer. Era neste momentos que para Odete estava o cerne da sua felicidade. Era alguém com quem tudo se partilhava, tudo era permitido. Tinha-o conhecido na festa da sua aldeia de origem. Era um moço vistoso, com o seu chapeu tão característico, e no meio da multidão partilharam um olhar, que para sempre os mudou. E daí, de um simples momento, construiu-se uma vida. E ela adorava a vida que tinha, melhor, ela amava tudo! Lembra-se também que seus pais não lhe davam a liberdade que desejava, mas por portas e travessas, arranjava sempre forma para estar um pouco com ele. Ela sentira que era com ele que estava predestinada ficar, quase como se tivesse sido uma cara a encontrar a sua metade. Como é que se pode viver, depois de perder tal coisa, e fora com um simples nome, que o perdeu. Um simples acontecimento, que tudo mudou, que vazio ficou o seu coração. Os seus filhos tanto apoio lhe tem dado, e como lhes está grata, mas sente tantas saudades de Jorge. Ele fora o farol para a sua barca que à deriva andava. Era o alimento para a sua alma, o raiar do seu dia, mas agora, depois de partir, o sol nunca mais sorriu como antes. A mesa até estava mais preenchida, mas o seu coração ainda gritava por ele, tentava o procurar, mas só nas recordações o encontrava, e como é duro não ter, não tocar, não ouvi-lo. “Jorge! Jorge! Tanta falta me fazes! Tenho tantas saudades que nem consigo explicar. Olho para a cadeira vazia, do outro lado da nossa mesa e anseio encontrar-te, falar-te, abraçar-te e nunca mais te largar, mas hoje abraço a tua ausência. Sabes, ainda dou por mim à deriva pela casa a tentar reaver-te, para te manter perto de mim, para aconchego encontrar no teu regaço. Onde andas meu amor? O destino é cruel. Agora, logo agora, que a vida era só para nós, que tempo tínhamos para tudo, tu partiste. E eu fiquei! O António ainda o outro dia me estava a falar de ti. Lembraste quando o ensinaste a pescar? Com uma vara, um fio, uma rolha e um anzol uma cana lhe fizeste, e o mais engraçado é que ainda a hoje a tem! Também sei que todos eles sofrem por não te terem, e como alegre fico de termos construído uma família como a nossa. Todos eles têm estado, onde tu já não te encontras. Vem tantas vezes visitar-me, e é bom. Mas ao final do dia, quando para a cama me desloco, era tu que eu queria. A cama parece tão grande e gelada sem ti! Gostava tanto de te ver com os óculos descaídos para a ponta do teu nariz enquanto lias, e como era de habito pedia-te para em voz alta leres. Gosto tanto da tua voz, e como me sinto sortuda pelos nossos filhos terem feito todos aqueles momentos gravados para não te perder totalmente, pois ali ainda existíamos. Dou por mim a ver vezes sem conta momentos que nada supostamente de especial têm, mas para mim, têm um valor acrescido. Onde estás meu amor? Onde te posso encontrar? A única coisa que me alivia é que te encontrarei, assim a minha fé me diz. E anseio com todas as forças que ainda tenho esse momento, em que te possa ter de novo. Sinto a tua falta, e para sempre a sentirei. A ponta da mesa era tua, e nesse espaço vejo agora o buraco que tenho dentro de mim. Olho para te rever, e com tristeza encontro-me só a mim no espelho que tínhamos comprado na viagem que culminou a nossa união, a nossa lua de mel. Simples foi, mas o que importa não é onde, é com quem! Por agora tenho de te deixar meu querido, eles estão quase a chegar e eu ainda tenho de fazer muitas coisas, pois quero que tudo seja perfeito, eles merecem. Mas volto, volto sempre para ao pé de ti. Como te amo, como fui feliz, tu sempre foste o que sempre desejei. Uma vida inteira contigo, e mais vidas viveria, desde de que tu lá estivesses. Um até já meu amor!”

E com um tocar da campainha tudo iria começar, o Natal chegara!

“Desculpa amor, mas já não aguento mais!” Uma carta de alguém que vai desistir.


Querido Bruno.

Estas são as palavras mais difíceis de escrever que tive na minha vida. Nem sei por onde começar meu doce. Sabes-me dizer onde me perdi? Já nem consigo perceber onde começou, nem o que se passou para eu chegar a este ponto amor. Tu estiveste sempre ao meu lado, pesei-te tanto no teu peito. Fiz-te tanto mal, quando só queria fazer-te feliz. E isso onde mais falhei, não soube o que fazer, só conseguia pensar em mim, e tu, nesse teu olhar que apazigua, que me tranquiliza, nem que seja por segundos me permitias. Era, tudo em mim era só temporário. Só aquela dor que sempre me acompanhava. Como podes ver, até nas ultimas palavras que te declaro, em que quero que saibas, que não duvides, que te amo. Como te amo, e também isso foi um peso no meu peito oco, nunca to disse, nunca tas proferi, mas sabes, tens que saber, que te amo desde o primeiro momento que sonhei que conheceria alguém como tu! Triste sina a minha, encontrar-te e quase te destruir. Perdeste o brilho meu amor, envelheci a tua alma, e agora sendo eu uma pessoa má, que contamina, que corroí, abandono-te, saio de cena, mas não volto para ser ser aplaudida, ficarei neste vazio. Como desejo que a morte seja o fim de tudo, que me deixe em paz, esta mente que me matou. Lembras-te amor, lembras-te? Tivemos momentos felizes, não tivemos? Tivemos de ter, eu também te fiz sorrir alguns momentos, parecia um sonho, naqueles que tudo é belo, tudo nos conforta. Via-te a brilhar, como o teu sorriso iluminava a sala. Nesses breves momento tudo me fazia sentido, sabia o que era, o que queria, e sabes, tu eras a única coisa que me importava, que me fazia lutar por vezes, quando parecia que ia mudar, que podia mudar. Tantas ilusões e desilusões. Porquê que pegaste em mim? Sabes não entendo porquê que mas nada resulta. Sabes tanto tentamos, lembras-te? Eu não me consegui esquecer, e esse momentos de historias falhadas, sempre me confirmou, que quando se nasce defeituoso, nada se pode fazer, nada senão deixa-la naquela negritude que até nojo mete. É nem sei como ficaste. Diz-me, mas diz-me mesmo, porque ficaste? Nunca entendi. Tantas vezes te tentei expulsar, mandar-te para longe, libertar-te de tal prisão sem barras, sem guardas, mas que nos prende, que não nos deixa ir. E ficaste porque? Tratei-te tão mal, fui uma verdadeira cabra, mas não sei quem era aquela personagem. Culpava-te naquele tempo de tudo, da minha culpa que corta como mil pequenos golpes, de folhas de papel, e depois de tanta miudinha, vinha aquele banho de álcool, sentia tudo a eriçar, a dor vinha, e não ia, estava ali para ficar, e independentemente do que fizesses, nunca e nada me faria acreditar. Tantos psiquiatras, tantas combinações, agora era este, aquele e o outro, e lá dizia ele “agora acho que vamos conseguir Maria, parece que encontramos a sua saída deste sofrimento constante. Acredite!”. Acreditar dizia ele meu amor, já tinha um dia sentido, mas o tempo leva sempre o que é dele, e se um dia com um discurso, até brilhava, até ficava como uma criança na manha de natal! Mas com o tempo, com o doutor Miguel, o doutor Carlos, e sabes aquele especialista, que fomos a Paris, o Pierre, tudo se esbateu, passou a ser uma rotina, e quando olhava para tinha um duelo de sentimentos. Por um lado ficava tão feliz, ao ver por momentos um brilho nesses olhos verdes como o mar, que agora parecem aqueles tanques que agua estagnada. Já faz tanto tempo que penso na morte, como será, se tudo desaparecerá, se finalmente poderei ter alguma paz. Penso nisso todos os dias, sabes quando de dia durmo, e de noite arrasto-me. Fantasio, até sonho com ela, como a desejo! Nem fazes ideia! Sempre pensei nela, até a tentei em garota como te disse. Mas agora mais que nunca, dela preciso, como o ar que respiro, e todos os demorados dias, quando este meu inimigo, que nunca me larga, sabes quem é. Esta voz que nunca se cala. E tantas vezes com ela tentaste falar, leva-la à razão. Mas ela sempre foi mais forte que tudo, porque tudo na vida mudou, nós crescemos, trabalhamos, somos gente. E eu? Sou um farrapo de gente, da cama para o sofá, do sofá para a cama. Nem sei como ainda estas aqui. E agora sou eu que salta para fora do barco, estou a levar-te ao fundo, e meu amor assim podes velejar para aguas melhores, mas sabes, por muito que fosse tempestuosas, nunca seriam nem de longe, nem de perto o lodo que eu sou. Agua estagnada, pois sou,nem nunca quis crescer, obrigava os outros a de mim conta tomar. E também tu, meu amora, meu amor, meu amor, tiveste tarefa tão agreste. E agora, e mesmo depois da tinta deste adeus seque, deixarei de existir, não serei mais eu. Eu não sei o que por aí vem, mas sabes, nem quero saber, nunca vai ser pior que esta merda de vida em que sempre aprisionada. E tu Bruno. Diz-me? Diz-me? Porquê que saíste pela porta? Nunca percebi, e nem sabes como isso me pesou! Essa culpa que me corroeu desde sempre, desde aquele momento em que me amaste sem nada me dizer, que abraçaste sem me tocar, que me beijaste sem sentir esses lábios, carnudos, vermelhos, vivos, que me envolvem num contorcer de prazer, que fazia desejar-te tanto! Até aí voltei a falhar, agora quem quer tocar neste nojo de pessoa, pois já nem mulher me sinto, tal como no inglês, como tens o he, o she ou o it. É, sou mesmo uma coisa, nada mais. Desculpa amor mas já não aguento mais. Tenho de ter a certeza que cá não fico. Tenho de partir, tenho de desaparecer. E sei que vai sofrer tanto, vais sentir as entranhas a desfazerem-se, mas aguarda, espera, o tempo vai-te salvar, e depois disso, depois de ti, ficarem no esquecimento, onde ninguém me pode encontrar, e eu não posso destruir. Sei que vais compreende porque o fiz, tal percebes, nunca criticas, tudo o que faço, e olha que eu fui longe, nunca fui ninguém. Tratei tão mal, gritava, culpava-te, destruía as coisas que mais estimavas, só para ver no teu olhar aquela tristeza, de algo importante se perder! Estás a ver? Como foi possível tal eu fazer. Nem sei, Depressão, Bipolaridade, olha já não sei. Sei que finalmente me vou matar, já sei como, tu vais ver onde. Desculpa pareço cruel, mas a ansiedade de sentir a vida a escorrer-me entre os dedos é tanta, e quero deixar claro que tens de seguir com a tua vida. Entende que nunca me conseguirias fazer feliz, mas não por não teres tentado, nem sei como aguentaste, sempre me levaste ao colo, acreditando sempre, eras o meu farol naqueles noites de nevoeiro húmido, mas que quanto mais remava na tua direcção, mais distante me ficavas. Mas vai, à vidas bem melhor que aquela que conheces-te comigo. Vai! Por favor vai! VAI!!! Tu vais conseguir ser feliz, para isso, só tens de me esquecer. Tão simples. Nada de bom te trago. Sabes não consigo mais, a agua já está quente, tenho o tempo contado. Não quero mais nada neste momento senão morrer!

Meu amor, meu doce desculpa, mas já não aguento mais!!!!!!

Pode ser que um dia, algures por ai, nos possamos cruzar, mas desta vez não te deixarei entrar. É a única forma, sabes bem, é a única forma de não te devastar., venha o que vier será bem vindo!

Mas sabes agora vou-te deixar, preciso de parar. Parar. Depois logo se vê.

Meu amor vou-me matar. Desculpa mas é a única saída. E desculpa a minha verdade cruel, mas acredita que só por mim irá isto acontecer. Foste tudo e mais ainda do que sempre sonhei, mas agora tenho de ir.

Beijos, beijos só como tu me deras desde sempre, beijos doces, beijos suados, beijos completos.

Beijo ”

Bruno está ansioso por chegar a casa. Sexta feira, sei trabalho trazido para tempo com ela lhe roubava, livre para com ela estar, e como o pouco tanto lhe sabe. Basta que a ela algo lhe apeteça, e logo sem sequer pensar, tudo tem de fazer para a fazer sorrir. Ele ainda acredita, com toda a célula do seu emagrecido corpo, que ela um dia vai sair daquele que lhe parece nunca ter fim.
Mas ele naquele dia, naquela noite mete a chave à porta, e sabe lá ele, nem imagina, que será a ultima vez que meterá aquela chave, aquele símbolo, naquela porta. Roda então a chave e esboça um sorriso. A porta não está trancada, Maria está em casa. Entra pela casa dentro e grita “Maria? Estás aí amor?” Fica à espera mas nada parece chegar, nem um velho pombos correio lhe trazia noticias da sua amada. Como fantasiava ele, estando tanto tempo no seu mundo, sempre pensando o que poderia fazer por ela. Todo o momento do seu cérebro, cada sinapse era para ai dirigido, a pensar em Maria, a pensar no que fazer, no que tentar, para onde ir, mas nunca desistir, nunca deixaria a sua princesa. Mas ainda não sabe ele, que quem o deixara fora ela.
Pousa as suas chaves no móvel do seu Hall que a todos os sítios o leva, mesmo no centro de tudo, e por isso repara Bruno, que pelas frinchas da porta da casa de banho, emanava aquelas cores, que quando Maria estava menos mal, pois porque bem nunca esteve, que eram os banhos a dois, em que as velas davam o ambiente e nós os corpos, o suor que nos unia, e aquela dança que era perfeita, aquele ritual de quando duas almas ficam uma. Ele tira então a gravata, e o entusiasmo aumenta, e conforme para lá se desloca, as peças da sua farda que o mundo a tantos obriga, aquele fato bem engomado, encosta a sua face à porta e por ela chama outra vez “Maria? Estás aí? Meu amor, estás bem? Sente um pequeno arrepio, mas ele não quis prestar atenção, e então sorriso voltou, e delicadamente agarra na maçaneta, perguntando-lhe: “Posso entrar amor?” Silencio. “Amor?” Silencio. Roda então a maçaneta que tanto se arrependerá de o fazer, aquela imagem nunca desaparecerá, e empurra a porta, ficando a mesma escancarada, e lá está aquele momento, mais valioso do que qualquer vida. Ele repara no perfil da sua amada, que brilha pelo reflexo daquela luz ténue. Sim vai ser um momento de união, ela está bem hoje! E subitamente algo o atormenta, ele não o que ou porquê, mas algo o incomoda. Naquela tela, algo está fora de cena. A agua não parava de jorrar, e a sua cor não era a esperada. Ele vê aquele rosa esbatido, aquela cor que o congela. “Maria? Maria? Amor? MARIA?”. E nem coragem tem de dar um passo, não quer ver, não quer ter de acreditar. Não, não, não. E fechando os olhos os seus pés movem-se. “Não pode ser ela, não podes ser tu, não podes, sabes porquê, porque eu cheguei, e não posso ter chegado tarde demais!” Mas quando as pálpebras se levantam, lá está ela. Ela está onde não deveria estar. Ele já estava ali, e ele de certeza que não podia ter chegado tarde demais! Porquê? Ele não quer saber, sabem porquê? Ele sabia que isto aconteceria, ele tentaria adiar, sempre adiar, mas agora aconteceu!

Uma morte esplendorosa!

António tem tido pensamentos pouco usuais. Estranha ele estas ondas do seu pensamento solto, que o fazem questionar tanta coisa. Como será morrer? Tudo começou não há muito tempo, em que teve um sonho que o deixou curiosamente duvidoso. Como seria partilhar espaço com a nossa própria morte? Querem que vos diga? Se o António deixar. Mas ele não se deve importar, até porque posso ser a sua consciência que pensa, que questiona, que tenta dar significado a tanta coisa. Esta máquina que tão poucos sabem o que ela é capaz de fazer, toda cinzenta por fora, mas luminosa por dentro em que cada pequeno momento é sempre processado nada ficando ao acaso. Este cérebro que nos conduz sempre como uma candeia iluminava o caminho do velho contrabandista. E também o sonho dele não ficou ao acaso. Tudo parecia um mundo informatizado. Tudo parecia energia, que advinha dos 0 e 1 tão típicos desta linguagem.
Deixem que vos explique o que com isto quero dizer, deixem-me que vos diga mais um pouco sobre este momento instantâneo, que o fez questionar algumas coisas, e neste sonho, o mundo futurista expunha-se a ele, tão parecido a tantas fotografias dos filmes desse género, que tanto gosta e vê. Aqui podia ser um indicio que este mundo pode ser algo mais explicativo, ou talvez não. Se a mente humana consegue imaginar tais cidades, naves e fatos, talvez eles já mesmo existam. Mas sabem, eles realmente existem, nem que seja na retina, nos olhos, no lobo occipital, de todos nós que tantos os apreciamos. Quem não se lembra dos clássicos, Cenários em que inclusivamente as leis da gravidade que nos mantém os pés no chão, não existem, numa possibilidade de futuro para a humanidade, isto até porque do futuro pouco sabemos, melhor até sobre o presente muita coisa são para nós conceitos abstractos, fora já da época de alguns. Como é estranho já podermos dizer “no nosso tempo nada disto existia”. Mas neste mundo de António não era só assim, era muito mais. Este mundo que lhe surgia, quando os olhos fechava, para procurar um descanso para no dia seguinte, continuar com a sua vida, mas nesta noite em especifica, naquele momento o tempo noturno, mostrava-lhe algo mais. Ele planava por essas torres, vendo por baixo de si, todos os componentes de uma grande cidade. As suas formigas, todos nós que tão educamente vamos tendo mais e mais obrigações, até que estamos presos nas suas teias. Mas a velhice e outro momento para parar. Quando se quiser, esperem e conseguiram ver. António flutuava, corria com vento na sua retaguarda. Sentia-se plenamente bem, sem nada que o incomodasse, como se aquele passeio por cima de tudo, até a alma lhe lavasse. Pela sua frente apresentava-se aquele nosso amigo que nos sustenta, que nos permite respirar, viver, o Sol, e as cores que nos mostrava! Será tão difícil explicar-vos, e percebi porque tantos povos ali viram a imagem de algo superior, uma identidade, Deus tal como imaginado. E António sente aquela calma que lhe enche os pulmões. Pela sua esquerda repara no grande gigante, e lá lhe acenou, e um aceno recebeu de volta. Como é bom algo conhecido. E lá vai António, voando por um ar nebuloso, mas que ainda mais fresco o deixava. Mas o que seria António? Pensar sabe que pensa. Sentir também. Tinha o seu corpo, mas não sentia a sua carne. Perdera parte da sua humanidade? Energia seria. E lá ele planava, naquela imensidão de luz, que era um caminho nunca percorrido por ele. Parecia um mundo de vídeo jogos, uma expansão da mente que conseguia ver um futuro, onde nos encaixariamos e continuava a viver. E nesse mesmo jogo, podemos ver, sentir, aqueles caminhos luminosos, em que não conseguíamos vislumbrar o seu fim, viram para a direita em anglos retos, cruzando-se com outros caminhos dey cores diferentes, e que parecem aquecer António e como isso o faz sentir feliz. Tão poucas são as vezes que nos sentimos realmente felizes. Lembram-se de uma vez, em que pela ingenuidade da vida, não tendo sido corrompido para noção da ambivalência da humanidade, vê num simples balão um fácil motivo para podermos ser felizes. E nesse momento quando por exemplo cinco anos poderíamos ter, a existência vale muito a pena. Mas depois esvanece, e e adaptamo-nos. Mas com o passar do tempo, levando ele o que por direito lhe pertence, a velhice transforma essa mesmo adaptação a uma acomodação consciente.
E de repente olha para a sua frente com olhos de ver, e finalmente percebe para onde vai, porque voa, porque assim sente, simplesmente bem, nem mais nem menos. Numa grande edificação que eram tão familiar, como estranha para ele, há frente se lhe apresenta, e com isso, algo iria mudar, todos o ansiavam, mas só poucos lá chegava, mas ele parece ir, e mais próximo a cada momento fica de chegar. Mas por momentos sente um calafrio na sua espinha. E se isto não fosse real? Mas parece real ao olhar, ao sabor, ao ouvido, até ao simples toque, porque não seria?
Já vê a entrada, suspira de alivio, parece ter chegado. E começa a ouvir um grande rugido, como se um leão se tratasse. E um raio de luz escapa-se pelas primeiras frinchas que se podem ver na abertura de dois grandes portões, de cor cobre. Aquela luz que o chama. Já chegou! E lá se depara com o que esperava. Um banho de cores, um circuito de ligações, que sempre estavam a comunicar, ele com o outro, esse mesmo com outro ainda, e assim seguida. Ouvia-se as suas vozes numa língua que parecia ninguém compreender. Mas esses seres que por baixo de si se apresentavam, continuavam nos seus afazeres. Era uma comunidade de individualidades, tal como nós, só se diferenciavam por um simples detalhe: uma extrema compaixão pela individualidade do seu próximo, pois um não poderia existir sem um outro, uma ligação muito acima da nossa compreensão também por vezes o livre arbítrio pode também por em causa a nossa humanidade. Aqueles seres que para nós seriam rotulados de extraterrestres, visto que para nós parece tão difícil aceitar que podem existir outros mundos, que também eles tenham conseguido criar vida, mesmo que para nós nunca pareça. Mas estes serem mostraram-lhe com um simples aceno de cabeça o porquê! Um estava ligado a todos, e esses mesmo todos também a ele se ligavam, tudo numa harmonia cósmica. Eles partilhavam o mundo emocional, e com isso eram todos parte da beleza de sentir, de viver, que sentirmos aquele arrepio que nos fazem vibrar, acreditar que podemos, que podemos tentar, e com esforço e empenho, conseguir. O quê, isso é a definição das particularidades que nos fazem ser o António, o Jaime, a Maria, a Isabel, todos, mas únicos. Esses tranquilos seres pareciam pirilampos da luz que imanavam, e como isso encantava António. E de repente, o caminho mudou de texturas! Tudo era sentido por António. Uma invasão napoleónica que tanto o encantou, como o deixou expectante. Mas essa expectativa podia algo que não compreendo, o deixava apreensivo. Aqueles traços de energia pareciam mais ásperos ao toque, e ele parecia que isso tinha que fazer. Então a sua mão vazia de carne nesse caminho, e parece que assim tinha escolhido para onde a sua mente o levaria.
De repente repara que se lhe apresenta uma pequena elevação, e ele achou que por ela poderia passar, e depois de uma subida pouco acentuada tudo parou. Ele mergulhou num liquido conhecido! Como seria lembramo-nos que no ventre estarmos. Sentirmos a proteção daquele espeço líquido que nos aconchega, que nos alimenta, que nos faz crescer para viver.
E nesse sonho parece que António ao nesse liquido submergir ter sido apagado, chegando ao fim da sua linha. E o que seria isso? Ser apagado? Seria o mesmo que morrer, um fim de uma caminhada em que no final tudo se tornara mais difícil. Como deve ser difícil a velhice! Vermo-nos a decair, perdendo o nosso brilho como pessoas, ficando uma cor baça, que com aquelas manchas nos mostram os anos passados. Vive-se de memorias dos tempos em que se sentiam pessoas. Como será percebermos que estamos a deixa de ser quem somos. Como é ter consciência que o fim pode chegar, melhor, já chegou para dos amigos e companheiros que partiram antes dele. E Ele, ali sentado espera a sua vez. Então o que será então morrer, e acima de tudo porque não poderia ser da forma como ele a vivera, pois, tendo sido sonho ou não, ele viveu, ele questionou, ele ficou preso nessa possibilidade idílica. Já vão perceber o porquê que ele tanto se agarra a este momento, esperem só mais um pouco. Está quase!
E nesse mergulho é preenchido por um liquido que o abraça, e tudo escuro ficou. E ele, na sua consciência, eu estando com ele, e ele comigo, parecia esperar. Não sabia o quê! Era a primeira vez que assim estava, não sabia o que esperar, não sabia, e como podia saber. Ninguém morre e pôde dizer como foi, talvez nos encontremos depois. Pensamento tão belo, trocar um adeus, por um até já. Todos aqueles que de nós já se despediram, um dia mais dar com eles estar! Mas António lá estava no seu liquido, em que continuava a pensar, sem saber o que esperar, numa tranquilidade inquieta. Por um lado, parecia ter uma serenidade por simplesmente existir, numa nuvem de energia que parecia pairar por onde querer, passeando-se por onde mais gostava. Mas aquele aperto, aquela duvida que tanto o inquietava. Continuava tranquilo, mas expectante. Há espera que algo pudesse acontecer, não o sabia com certezas, mas a duvida parecia bastar para o deixar a pensar. Apreensivo se encontrava, à espera, somente à espera. Mas nada parecia acontecer, mas ele, continuava à espera. Nunca se sabia! Mas o tempo ia passando, mas nada parecia fazer, a mesma inquietude, a mesma expectativa, de algo puder chegar. E se nada chegasse. E lá estava ele submerso naquele liquido que tudo tinha apagado, nada resistira a não ser seu pensamento, esse não parecia parar. Mas estava sozinho. E isso era mau? Mais uma vez o momento é mais importante do que a sua perpetuidade. Parecia também ali não precisar de ninguém, pois estava solitariamente acompanhado. O seu pensamento chegava. Mas sempre aquela sensação que tudo podia mudar, a qualquer momento, sem aviso prévio, ou talvez com quadros de hora, com fixação para todos verem, do que irá acontecer dentro da finitude de António.
Como tudo, também este sonho tinha de ter um fim. E lá ele acordou. E parece tão desiludido com a sua realidade, este mundo tão exigente, sempre a correr, nem nos dá espaço para simplesmente existirmos. Por momentos até António tenta adormecer novamente para voltar aquele espaço que faz parte da panóplia de saudades que acumulou durante a sua vida. Os arrependimentos mantêm-no preso a partes de si passadas, fragmentos de si, que ainda hoje ou doem ou envergonham. Também não sabe compreender-se, explicar-se porquê que com 20 anos terá feito ou não feito algo. Agora isso pode já não ser tão importante, mas digam-lhe vocês isso.
Se deixar de existir fosse como sonhou, esse acontecimento certo para todos nós, deixara de assustar António. desassossegando-o, mas não o aterrorizando.
Mas este acontecimento das altas horas da madrugada, deixou-o a pensar. Também ele teve raízes religiosas. Poucos somos os que ainda somos filhos de um perido em que se acontecimentos e consequentemente as suas interpretação, não se encaixando-se nos óbvios de todos nós era uma natureza humana, procurarmos respostas para eles. António lembra-se de ser católico, praticando com a sua querida avó. E como tal, as noções de Ceu e Inferno sempre lhe foram mostradas, limitando cada vez mais a vontade de António. Sua alma ficava apertada, sem se expandir na sua plenitude. Conceitos como pecado, sacramentos, pecado original já outrora foram os fundamentos da sua vida, passados por sua avó. Mas conseguira libertar-se, apegando-se à razão. Mas quando na construção uma casa, um tijolo que seja no meio do muro, lá ficará, como tal, também ele tinha um fascínio apreensivo, sobre conhecer e perceber como tal ciência sem provas dadas lhe poderia mostrar outro caminho. E assim quis também ele perceber como é que este fenómeno, a finitude, era explicado por outros homens. Mas isso é um assunto para outra altura. Por agora chega!