Amo-te na morte, Odeio-te em vida…

Tudo o que se ganha pode-se perder, melhor, e quanto mais se deseja, quanto mais essencial se torna, mais difícil é depois viver nesse esbatimento do que já se conseguiu ser.

O amor, tanto amor que se precisa, tanto amor se anseia! Quando estamos sozinhos, sem ninguém ao nosso lado, por vezes dando-nos significância, razão de existir, vazios nos sentimos, olhando da esquerda para a direita, para com alguém se cruzar, alguém que repare nos olhos triste solitários, que procura outro olhar, um olhar que o veja, que lhe diga que o que quer ainda pode chegar, até está quase, mas que pode fugir se o momento passar.

A vida é feita de instantes, ocasiões a serem aproveitadas, investigadas, de forma a que percebamos, entendamos o que ali se passou.

O amor, ai o amor, como se ama odiar o que ele nos pode trazer…

Reencontrar alguém que já foi nosso, não sabendo quando, nem onde, mas que já pertenceu. Estranho é quando nos deparamos com alguém que nunca avistamos, que nunca sentimos, mas que no primeiro instante, no primeiro toque dos olhares, no cheiro do paladar, tudo nos parece demasiado familiar. Parece que chegamos a casa, sem nunca de lá termos saído, mas agora sabe a lar.

É verdade, quase absoluta, que o amor é o que nos faz mais sofrer, pois cria-nos dependência, passa a ser essência, o centro de tudo, mas que mesmo assim, havendo uma possibilidade razoável de perdermos o que mais queremos, que fiquemos sem chão para andar, sem força para o caminho, que mesmo sabendo tudo isto, vale mais do que tudo.

A vida torna-se mais difícil quando vivemos em função de prevenir sofrimento, com medo de tudo, sem perceção do que se perdeu, ao hesitar, ao desviar o nosso caminho, simplesmente por poder ter encontrado alguém que mete receio conhecer, pois sabemos que depois daquele primeiro momento, depois de provar o fruto desejado, pois de proibido não tem nada, será tão mais difícil viver sem ele.

Há quem não prove o prato do outro com medo do arrependimento, também existem pessoas que de tudo fazem para fugir da dor. Depois da dor vem o alivio, e assim a vida continua, entre dor, prazer, razão, tudo se mistura na cor a que chamamos vida. Vida. Vida. Se viver é sentir, então morrer é a ausência do mesmo. Quantos de nós mortos parecem estar, sem vida, numa penumbra que nada revela, o futuro é incerto, e nesse sentido, nessa premissa de vida, é melhor quieto ficar.

Depois do amor o que fica? Primeiro um vazio abismal, sem fundo aparente, numa queda continua ficamos, onde tudo inflama e tudo magoa.

A ausência traz ressaca, pior do que a da heroína, pois essa sabemos que em sete dias se vai, e esta particular abstinência, esta falta de tudo, por vezes parece arrastar a sua estadia, até nos esgotar a vontade de viver, e no fundo da esperança, mesmo com a alma destruída, ainda para o amor queremos voltar. O ser humano parece masoquista, mas depois da dor, pode vir a bonança, e para ai sempre caminhamos, mesmo que não saibamos o lugar, ele está lá para ser encontrado.

Ai o amor, esse companheiro injusto, que nos diz que agora está tudo bem, em que naquele agora nos faz sentir completos, preenchidos de tudo. Vicio lixado, vicio essencial. Depois de estar preenchido, o coração já não consegue viver vazio!

Manuel ama-a profundamente. Mais que tudo na sua vida, mesmo que a sua existência, que só depois de a conhecer fez sentido, só resiste às intemperes da vida, com ela ao seu lado, ela o seu porto seguro, o seu ninho criado. Desde sempre sabia dela, mas nunca a tinha encontrado, até o momento em que ambos se cruzaram, num breve e eterno momento, ele finalmente poderia descansar, a sua demanda tinha terminado. E nos olhos dela ele vê futuro, vida, caminho, mas agora já não só, ela ali estaria para tudo, para o trajecto já antes palmilhado, mas nunca sentido, agora seria diferente, agora seria real.

Manuel ama-a loucamente. Coisa desmesurada aos olhos de muitos, mas essencial para ele, tal com o sangue circular, ou o oxigénio entrar.

Ele ama-a, coisa bonita essa quando se pode viver na sua plenitude. Mas ele não estava preparado para a perder, para ir para não mais voltar, deixando memorias acutilantes, pretas, que ocupam todo o espaço, que sufocam, que lembram a todo o momento a ausência, a falta de tudo, a ausência do nada. Naquela tarde ela saiu, sorrindo-lhe um até já, mostrando que ainda nem foi, e já falta dele sente, pois se para ele ela é tudo, para ela, ele é o seu futuro garantido, sem riscos, só amor.

Merda para o amor quando pode ser vivido, momento a momento. Viver o agora é tão difícil, ele está sempre a passar, para o futuro se revelar. Medo todos temos de perder o momento, aquele mesmo que significado pode dar à vida, e tudo melhora, tudo fica mais brilhante, desejado. Tudo na vida tem um principio, um meio e um fim, e para ele foi cedo demais, seria sempre…

Amo-te na morte, Odeio-te em vida.

Onde estás? Para onde foste? Porquê que me deixaste sozinho, perdido?

Procuro-te para não mais te encontrar, para ansioso ficar, por te ver nos meus sonhos, mas não te conseguir chegar.

Onde estás? Onde andas? Quero-te, mas não te acedo, vives na minha mente, mas abandonas-te a minha vida mundana, e é aí, que te preciso.

Onde estás? Parece-me que me olhas, mas nem comigo falas, diz-me alguma coisa, nem que seja que já comigo não queres estar, prefiro dor a silencio.

Troco a tua ausência, pelo esquecimento, ai o esquecimento, que bem que sabia, que bem que fazia, para dormir, para conseguir imaginar algo, sem a tua contaminação.

Estás em todo lado, mas não te vislumbro em lugar nenhum.

Amo-te na morte, Odeio-te em vida!

Partiste sem aviso, sem ponderação, sem preparação, e levaste contigo tudo de bom que tinha na vida. És tu, simplesmente tu que escolhi, que quis realmente. Valeu a pena essa escolha?

Hoje não, mas ontem, no tempo anterior, em que existia para mim, que te podia tocar, sentir aquele teu cheiro da manha, que sabe tanto a casa. Onde é o meu lar agora? No cemitério não é de certeza…

Amo-te em vida…

Sempre te amei, sempre te venerei, eras o meu todo de vida, o meu centro, onde queria sempre voltar. Para onde vou agora? Perdi-me nesta procura incessante de ti, e já nem sei onde estou, já nem sei se quero realmente estar em algum lado, pois a cada esquino que cruzo, nada encontro, a não ser a minha sombra.

A cama acorda vazia de ti, carente do teu encosto, e eu ali, naquele canto esquecido, tento não procurar-te no outro lado, não quero mais sentir logo falta pela manhã, perdoa-me, mas tenho de te odiar, tenho de te afastar, tenho de me libertar…

Como seria fácil se assim fosse, mas tu, simplesmente por teres existido, por respirares e o teu coração bater, foste tudo para mim, e assim serás, pois a partir daquele momento o meu futuro foi traçado, sem ti. Onde andas? Tento não ser incoerente, mas quase desejava que houvesse um céu e um inferno, para que talvez um dia, no leito da minha morte, ainda houvesse uma hipótese remota de te reencontrar. O problema é que não sei se iria para o mesmo lugar que tu. Tu fazias de mim uma melhor pessoa, e nesse sentido, e nessa significância, deixei de o ser, deixei de acreditar, deixei de querer ser o que quer que fosse, agora já nada faz sentido.

Amo-te na morte, mas tenho de te Odiar em vida, pois as reminiscências de uma vida contigo partilhada dói demais, corta-me o peito meu amor.

Tu foste e eu fiquei, distancia injusta para ambos! Perdeste-me também, já ninguém se recosta no meu peito, pois esse lugar para sempre reservado ficou. Esse lugar será para sempre teu. E teias de aranha terá, para demonstrar a falta de uso, a reserva de alguém que nunca vai chegar, mas nunca se sabe, talvez me chegues nos sonhos, por favor volta, nem que seja numa realidade subjetiva.

Grita-me, olha-me, existe para mim, por favor, não sei aguento a tua inexistência…

Odeio-te em vida!

Aqui fiquei, aqui estou, parado, sem saber para onde ir, nem sequer saber se quero, se consigo. Amar-te dói demais, e tenho de te odiar por isso, perdoa-me meu amor, meu carinho, minha razão de existir, já não suporto as memórias, que só me lembram que te perdi, que já não te tenho, que te quero, mas já não te alcanço.

Odeio-te em vida!

Quem me der conseguir!

Desculpa já não sei o que digo, a dor atrapalha-me a mente, engana-me os sentidos, nem articular como deve ser consigo, mas sempre me deixaste sem palavras e sempre te amei por isso, mas agora, neste momento, eu, sozinho e desesperado, só daqui quero sair, ponderar que ainda posso viver, sem ti! Que vazio amor, que insuficiência de vida.

Amo-te na morte, ODEIO A MINHA VIDA SEM TI!

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Não matem os velhinhos?

Não matem os velhinhos.

Perdoa-os meu Deus que eles não sabem o que dizem…

Já muito foi dito, até mexido, para que uma simples fotografia ganhasse significado de ignorância. Nem imagino o arrependimento de alguém que se manifestou sem saber o que dizia, pois no mundo dos adultos, no mundo das pessoas supostamente ponderadas, temos de alguma cautela quando fazemos afirmações de tal ordem.

Quem nos ouvir, quem der atenção a manifestações de opinião como esta, até pode achar que vivemos num pais com tendências nazis. Sim, afirmo isto pois se decidíssemos aniquilar quem supostamente não nos faz falta, quem já nada pode contribuir para este nosso mundo, estaríamos a esquecer a validade que esse ser, que agora não consegue, não pode, teve na criação em que vivemos.

Não matem os velhinhos!

Pois não, pois quem somos nós para decidir sobre o fim de vida de alguém. Podemos sim decidir o inicio de alguém, dar vida. Mas isso não chega, temos de dar mais, principalmente amor.

Não matem os velhinhos?

Se falássemos de dignidade humana tanto se podia dizer, tanto da nossa biologia como o nosso entendimento. Entendimento, consciência humana, cognição são conceitos só nossos humanos, pelo menos enquanto não percebermos melhor o resto do mundo que connosco coabita este planeta. Nesse entendimento, nessa estrutura que nos permite pensar, existe a consciência da morte. Todos nós sabemos que vamos morrer, o que muda é a forma como isso acontece.

O corpo humano só por si tem dignidade? Não, é somente um organismo vivo, que tem como objetivo sobreviver. Podemos também afirmar que a nossa dignidade advém da perceção que temos de nós, que temos do mundo.

Será que queremos matar velhinhos?

Todos nós lá chegaremos, todos nós envelhecemos. Mas o problema da morte não é só a eles destinado. Todos os momentos morrem e nascem seres humanos.

Queremos ver os velhinhos, os portadores de doenças terminais ou neurodegenerativas, apodrecerem devagar, até chegar ao ponto que a morte é um alivio? Será isso que se pretende para o final da dignidade humana?

Matamos alguém sequer?

Já quase todos os seres humanos já presenciaram alguém a morrer, a sofrer, a defininhar até nada restar a não ser uma ossada que merece descanso?

Falo-vos de um exemplo que nada de novo tem, nada de previsível a não ser a incapacidade, de algo que não tem cura, mesmo tratamento é insuficiente, fala-vos da esclerose lateral amiotrófica (ELA). ELA entre sorrateiramente, vai-se instalando e quando lhe apetece tira o que mais lhe convém.

Claro que vos falo do subtipo pior, pois no caso de permitirmos a alguém terminar com o seu destino predestinado, que nada de novo lhe vai trazer a não ser sofrimento e uma dependência extrema do mundo cá fora, um mundo que continua, que existe, e para aquela pessoa, que passa o dia imóvel, inerte, em que a vontade de mexer uma mão já não chega, o corpo não responde, e o desespero se instala. Esta doença está relacionada com o neurónio motor, responsável por muitos das características inatas que nos mantem vivos.

ELA não dá descanso, não tira férias, está sempre presente. Perde-se a voz, esta linguagem complexa, que é essencial para mantermos o nosso lugar no mundo, pois é essa voz que nos dá o direito de opinar, de não aceitar, de lutar por aquilo em que acreditamos.

É triste pensar que matamos velhinhos!

Mas ELA ainda não fica por aqui, vai-nos tirando tudo, deixando-nos sem nada. Dignidade humana? Imaginem um conceito simples. Imaginem que têm uma comichão que não passa, que incomoda, que irrita. Todos nós conseguimos satisfazer a necessidade de coçar, de arranhar mesmo deixando marca na nossa pele. Por vezes pedimos aos outros para nos aliviarem quando não conseguimos. E se não conseguíssemos fazer nada? Se até o simples facto de respirar tivesse de ter ajuda? Se beber, se sorrir, ai o sorrir que tanto é nosso, humano, fosse de todo impossível?. Como podemos sorrir, se nada o justifica?

Não queremos matar ninguém, isso é uma decisão pessoal, ponderada, até questionada, pois a eutanásia não é um matadouro, não é uma linha de montagem de morte.

ELA mata e não é assim tão devagar, mas nunca é depressa demais. Aquela imagem de um ser que já foi alguém, que sabe o seu final e sabe que pode estar próximo, mas não o suficiente. E se esta pessoa não tiver ninguém, nem alguém que lhe pudesse um copo de agua? Temos de matar a sede, mas não podemos matar o corpo doente, que tudo nos tira, que não nos permite viver. O que quer dizer viver? Para mim liberdade. Liberdade. E novamente liberdade.

Quem tem dinheiro pode matar os velhinhos.

Aqui o dinheiro mata. A viagem para a Suíça não é barata, a estadia também não. Talvez agora todos nós devíamos Planos Poupança para a morte, talvez as seguradoras assim o assumam, para que, quando já não há nada a fazer, quando os fármacos necessários para ausência de sofrimento nos impossibilitem de sermos gente, o fim do caminho de vida, o inicio do descanso merecido do guerreiro, que já nada pode fazer senão pousar a sua espada e não sofrer mais.

Todos nós sofremos, todos nós desejamos a uma certa altura da vida a morte, mas isso não pode ser critério de fim. Claro que tem de existir regras, por demais definidas, em que se criem as condições para esse ato ser aceitável, até mesmo o melhor para aquele ser que desespera, que sabe que não há nada a fazer a não esperar pelo fim.

Consultei, pesquisem, investiguem o que significa morrer com doença terminal, falem com eles, vão a um serviço de oncologia, de neurologia. Eles, que estão quase a terminar podem-vos dizer o que queriam para esse resto de vida. Nem todos querem morrer, mas alguns querem.

Não matem os velhinhos. Mas deixem ser eles a decidir se o final tem de ser tão catastrófico.

“Carlos tem trinta e dois anos, estando assim no pico da sua vida. Já tanto trabalhou para chegar onde chegou, pois ajudas teve poucas, ou quase nenhumas, mas isso nunca foi impedimento para tentar.

Um dia o tempo parou, o medo chegou para ficar, e a incerteza, passou a ser uma certeza absoluta. Coreia já por si é um termo pesado, principalmente com os acontecimentos atuais, mas quando seguida por huntington torna tudo muito pior.

Tudo começou com um pequeno tremor, um simples balançar da sua mão, que nada parecia ser, que nada podia até, pois só dele próprio Carlos dependia. E a partir desse momento iria precisar desesperadamente de alguém. Ele não sabia o que fazer, e pela primeira vez na sua vida não o conseguiria, não por não querer, não por não tentar, mas porque o seu corpo que lhe dava validade à sua mente, já não respondia, ou respondia de forma deficitária. Foi perdendo tudo, ficando sem nada, ficando um sombra da existência já vivida. Deixa de conseguir andar, de pensar até, e como isso o destrói, a sua mente sempre fora a melhor parte dele.

Deseja morrer todos os dias, e não é pelo excelente acompanhamento, entre neurologia, psiquiatria e afins, que as coisas melhoravam. Deseja que não acorde, para poder descansar, pois até nos sonhos nada consegue fazer, sonha com o fim anunciado, fechado numa cama, sem ninguém à sua volta. Para quê? Porquê que obrigaria alguém a passar por isso também, pois também aqueles que vivem em seu redor sofrem, num sofrimento atroz, em que nada podem fazer, nem mesmo o que ele precisa, de morrer…

Um dia, ainda quando conseguia fazer os mínimos, que não chegam, que nos lembram do que já perdemos, foi dar uma volta.

Depara-se com um centro comercial, que para ele era tão conhecido, tantas vezes ali passeara, mas agora as coisas eram diferentes. Ao chegar à sua entrada vê-se confrontado com um obstáculo, que tanto poderia ser o Evereste, de tamanha tarefa tinha, a porta!

O simbolo diz puxe, como se para ele fosse assim tão simples. Ele pensa em faze-lo, ordena-se para tal, mas nada responde. Nada. Nem um simples tremor que já foi sinal de intempere. E ali está ele, olhar o mundo que deseja por uma porta de vidro, sem conseguir a ele chegar. Tudo treme, a cabeça fraqueja, as pernas balançam. E ele, sozinho, perpetuadamente abandonado pelas suas capacidades, espera por algo que não irá acontecer. E ali jaze ele, em frente a uma porta, sem nada fazer, não pode!

O mundo passa por ele e parece nem reparar, tambem ele não o quereria, só queria poder, conseguir o que todos os outros dão por garantido. Para ele nada existe a não a ser a doença e o seu fim trágico. Ele não quer passar por isso, ele não vai passar por isso, mas para isso precisa de ajuda. Já nada faz sentido, já nada mais há para viver, a não esperar pelo fim, e como espera que seja rápido, mas por vezes esta doença não ajuda, tudo tira menos o ultimo sopro de vida.

E lá está ele naquela porta, mas já chove e ele nada pode fazer, a não ser esperar. Sabem lá vocês o que ele espera!

Mata-me de uma vez, tira-me deste corpo que já não é meu!

Mata-me e farás de mim um Homem FELIZ…

Mata-me e assim me salvarás…

Simplesmente ajuda-me a morrer…

 

“Desculpa amor, mas já não aguento mais!” Uma carta de alguém que vai desistir.


Querido Bruno.

Estas são as palavras mais difíceis de escrever que tive na minha vida. Nem sei por onde começar meu doce. Sabes-me dizer onde me perdi? Já nem consigo perceber onde começou, nem o que se passou para eu chegar a este ponto amor. Tu estiveste sempre ao meu lado, pesei-te tanto no teu peito. Fiz-te tanto mal, quando só queria fazer-te feliz. E isso onde mais falhei, não soube o que fazer, só conseguia pensar em mim, e tu, nesse teu olhar que apazigua, que me tranquiliza, nem que seja por segundos me permitias. Era, tudo em mim era só temporário. Só aquela dor que sempre me acompanhava. Como podes ver, até nas ultimas palavras que te declaro, em que quero que saibas, que não duvides, que te amo. Como te amo, e também isso foi um peso no meu peito oco, nunca to disse, nunca tas proferi, mas sabes, tens que saber, que te amo desde o primeiro momento que sonhei que conheceria alguém como tu! Triste sina a minha, encontrar-te e quase te destruir. Perdeste o brilho meu amor, envelheci a tua alma, e agora sendo eu uma pessoa má, que contamina, que corroí, abandono-te, saio de cena, mas não volto para ser ser aplaudida, ficarei neste vazio. Como desejo que a morte seja o fim de tudo, que me deixe em paz, esta mente que me matou. Lembras-te amor, lembras-te? Tivemos momentos felizes, não tivemos? Tivemos de ter, eu também te fiz sorrir alguns momentos, parecia um sonho, naqueles que tudo é belo, tudo nos conforta. Via-te a brilhar, como o teu sorriso iluminava a sala. Nesses breves momento tudo me fazia sentido, sabia o que era, o que queria, e sabes, tu eras a única coisa que me importava, que me fazia lutar por vezes, quando parecia que ia mudar, que podia mudar. Tantas ilusões e desilusões. Porquê que pegaste em mim? Sabes não entendo porquê que mas nada resulta. Sabes tanto tentamos, lembras-te? Eu não me consegui esquecer, e esse momentos de historias falhadas, sempre me confirmou, que quando se nasce defeituoso, nada se pode fazer, nada senão deixa-la naquela negritude que até nojo mete. É nem sei como ficaste. Diz-me, mas diz-me mesmo, porque ficaste? Nunca entendi. Tantas vezes te tentei expulsar, mandar-te para longe, libertar-te de tal prisão sem barras, sem guardas, mas que nos prende, que não nos deixa ir. E ficaste porque? Tratei-te tão mal, fui uma verdadeira cabra, mas não sei quem era aquela personagem. Culpava-te naquele tempo de tudo, da minha culpa que corta como mil pequenos golpes, de folhas de papel, e depois de tanta miudinha, vinha aquele banho de álcool, sentia tudo a eriçar, a dor vinha, e não ia, estava ali para ficar, e independentemente do que fizesses, nunca e nada me faria acreditar. Tantos psiquiatras, tantas combinações, agora era este, aquele e o outro, e lá dizia ele “agora acho que vamos conseguir Maria, parece que encontramos a sua saída deste sofrimento constante. Acredite!”. Acreditar dizia ele meu amor, já tinha um dia sentido, mas o tempo leva sempre o que é dele, e se um dia com um discurso, até brilhava, até ficava como uma criança na manha de natal! Mas com o tempo, com o doutor Miguel, o doutor Carlos, e sabes aquele especialista, que fomos a Paris, o Pierre, tudo se esbateu, passou a ser uma rotina, e quando olhava para tinha um duelo de sentimentos. Por um lado ficava tão feliz, ao ver por momentos um brilho nesses olhos verdes como o mar, que agora parecem aqueles tanques que agua estagnada. Já faz tanto tempo que penso na morte, como será, se tudo desaparecerá, se finalmente poderei ter alguma paz. Penso nisso todos os dias, sabes quando de dia durmo, e de noite arrasto-me. Fantasio, até sonho com ela, como a desejo! Nem fazes ideia! Sempre pensei nela, até a tentei em garota como te disse. Mas agora mais que nunca, dela preciso, como o ar que respiro, e todos os demorados dias, quando este meu inimigo, que nunca me larga, sabes quem é. Esta voz que nunca se cala. E tantas vezes com ela tentaste falar, leva-la à razão. Mas ela sempre foi mais forte que tudo, porque tudo na vida mudou, nós crescemos, trabalhamos, somos gente. E eu? Sou um farrapo de gente, da cama para o sofá, do sofá para a cama. Nem sei como ainda estas aqui. E agora sou eu que salta para fora do barco, estou a levar-te ao fundo, e meu amor assim podes velejar para aguas melhores, mas sabes, por muito que fosse tempestuosas, nunca seriam nem de longe, nem de perto o lodo que eu sou. Agua estagnada, pois sou,nem nunca quis crescer, obrigava os outros a de mim conta tomar. E também tu, meu amora, meu amor, meu amor, tiveste tarefa tão agreste. E agora, e mesmo depois da tinta deste adeus seque, deixarei de existir, não serei mais eu. Eu não sei o que por aí vem, mas sabes, nem quero saber, nunca vai ser pior que esta merda de vida em que sempre aprisionada. E tu Bruno. Diz-me? Diz-me? Porquê que saíste pela porta? Nunca percebi, e nem sabes como isso me pesou! Essa culpa que me corroeu desde sempre, desde aquele momento em que me amaste sem nada me dizer, que abraçaste sem me tocar, que me beijaste sem sentir esses lábios, carnudos, vermelhos, vivos, que me envolvem num contorcer de prazer, que fazia desejar-te tanto! Até aí voltei a falhar, agora quem quer tocar neste nojo de pessoa, pois já nem mulher me sinto, tal como no inglês, como tens o he, o she ou o it. É, sou mesmo uma coisa, nada mais. Desculpa amor mas já não aguento mais. Tenho de ter a certeza que cá não fico. Tenho de partir, tenho de desaparecer. E sei que vai sofrer tanto, vais sentir as entranhas a desfazerem-se, mas aguarda, espera, o tempo vai-te salvar, e depois disso, depois de ti, ficarem no esquecimento, onde ninguém me pode encontrar, e eu não posso destruir. Sei que vais compreende porque o fiz, tal percebes, nunca criticas, tudo o que faço, e olha que eu fui longe, nunca fui ninguém. Tratei tão mal, gritava, culpava-te, destruía as coisas que mais estimavas, só para ver no teu olhar aquela tristeza, de algo importante se perder! Estás a ver? Como foi possível tal eu fazer. Nem sei, Depressão, Bipolaridade, olha já não sei. Sei que finalmente me vou matar, já sei como, tu vais ver onde. Desculpa pareço cruel, mas a ansiedade de sentir a vida a escorrer-me entre os dedos é tanta, e quero deixar claro que tens de seguir com a tua vida. Entende que nunca me conseguirias fazer feliz, mas não por não teres tentado, nem sei como aguentaste, sempre me levaste ao colo, acreditando sempre, eras o meu farol naqueles noites de nevoeiro húmido, mas que quanto mais remava na tua direcção, mais distante me ficavas. Mas vai, à vidas bem melhor que aquela que conheces-te comigo. Vai! Por favor vai! VAI!!! Tu vais conseguir ser feliz, para isso, só tens de me esquecer. Tão simples. Nada de bom te trago. Sabes não consigo mais, a agua já está quente, tenho o tempo contado. Não quero mais nada neste momento senão morrer!

Meu amor, meu doce desculpa, mas já não aguento mais!!!!!!

Pode ser que um dia, algures por ai, nos possamos cruzar, mas desta vez não te deixarei entrar. É a única forma, sabes bem, é a única forma de não te devastar., venha o que vier será bem vindo!

Mas sabes agora vou-te deixar, preciso de parar. Parar. Depois logo se vê.

Meu amor vou-me matar. Desculpa mas é a única saída. E desculpa a minha verdade cruel, mas acredita que só por mim irá isto acontecer. Foste tudo e mais ainda do que sempre sonhei, mas agora tenho de ir.

Beijos, beijos só como tu me deras desde sempre, beijos doces, beijos suados, beijos completos.

Beijo ”

Bruno está ansioso por chegar a casa. Sexta feira, sei trabalho trazido para tempo com ela lhe roubava, livre para com ela estar, e como o pouco tanto lhe sabe. Basta que a ela algo lhe apeteça, e logo sem sequer pensar, tudo tem de fazer para a fazer sorrir. Ele ainda acredita, com toda a célula do seu emagrecido corpo, que ela um dia vai sair daquele que lhe parece nunca ter fim.
Mas ele naquele dia, naquela noite mete a chave à porta, e sabe lá ele, nem imagina, que será a ultima vez que meterá aquela chave, aquele símbolo, naquela porta. Roda então a chave e esboça um sorriso. A porta não está trancada, Maria está em casa. Entra pela casa dentro e grita “Maria? Estás aí amor?” Fica à espera mas nada parece chegar, nem um velho pombos correio lhe trazia noticias da sua amada. Como fantasiava ele, estando tanto tempo no seu mundo, sempre pensando o que poderia fazer por ela. Todo o momento do seu cérebro, cada sinapse era para ai dirigido, a pensar em Maria, a pensar no que fazer, no que tentar, para onde ir, mas nunca desistir, nunca deixaria a sua princesa. Mas ainda não sabe ele, que quem o deixara fora ela.
Pousa as suas chaves no móvel do seu Hall que a todos os sítios o leva, mesmo no centro de tudo, e por isso repara Bruno, que pelas frinchas da porta da casa de banho, emanava aquelas cores, que quando Maria estava menos mal, pois porque bem nunca esteve, que eram os banhos a dois, em que as velas davam o ambiente e nós os corpos, o suor que nos unia, e aquela dança que era perfeita, aquele ritual de quando duas almas ficam uma. Ele tira então a gravata, e o entusiasmo aumenta, e conforme para lá se desloca, as peças da sua farda que o mundo a tantos obriga, aquele fato bem engomado, encosta a sua face à porta e por ela chama outra vez “Maria? Estás aí? Meu amor, estás bem? Sente um pequeno arrepio, mas ele não quis prestar atenção, e então sorriso voltou, e delicadamente agarra na maçaneta, perguntando-lhe: “Posso entrar amor?” Silencio. “Amor?” Silencio. Roda então a maçaneta que tanto se arrependerá de o fazer, aquela imagem nunca desaparecerá, e empurra a porta, ficando a mesma escancarada, e lá está aquele momento, mais valioso do que qualquer vida. Ele repara no perfil da sua amada, que brilha pelo reflexo daquela luz ténue. Sim vai ser um momento de união, ela está bem hoje! E subitamente algo o atormenta, ele não o que ou porquê, mas algo o incomoda. Naquela tela, algo está fora de cena. A agua não parava de jorrar, e a sua cor não era a esperada. Ele vê aquele rosa esbatido, aquela cor que o congela. “Maria? Maria? Amor? MARIA?”. E nem coragem tem de dar um passo, não quer ver, não quer ter de acreditar. Não, não, não. E fechando os olhos os seus pés movem-se. “Não pode ser ela, não podes ser tu, não podes, sabes porquê, porque eu cheguei, e não posso ter chegado tarde demais!” Mas quando as pálpebras se levantam, lá está ela. Ela está onde não deveria estar. Ele já estava ali, e ele de certeza que não podia ter chegado tarde demais! Porquê? Ele não quer saber, sabem porquê? Ele sabia que isto aconteceria, ele tentaria adiar, sempre adiar, mas agora aconteceu!