O Último Adeus!

Lá está Bruno, no seu canto, sem saber o que fazer, o que dizer, como se existisse alguma coisa para dizer. Ela tinha ido embora, ela tinha desistido, e o mais cruel é que ele tinha ficado, para aquele ultimo momento ter de o fazer. Como é duro esta forma de viver a morte, este teatro ocidental, desde o velório macabro, onde se vela um corpo frio, sem vida, onde já não está de quem se gostou, de quem se quis bem, mas agora só existem em reminiscências daqueles momentos de vida. O problema é quando essas mesmas memórias ainda magoam pois ainda não acabou, ainda não se ficou no vazio depois da terra ou as chamas comerem aquilo que já foi alguém para nós. Este velho ritual que de negro se veste e que de uma multidão passamos a uma solidão extrema quando tudo acaba, quando o corpo desaparece só ficamos com a falta de quem partiu e já não voltará. Nestes momentos a raiva instala-se depois de acreditarmos que perdemos alguém, que para nós importava. Porquê que ela partiu e no caso dela, para Bruno tudo perdeu, e desta forma não é justo, nem mesmo para ela. Como foi possível tudo assim acabar. Mas lá está ele naquela sala fria rodeado que todos aqueles que conhece, mas nunca se sentiu tão só, quase desamparado, quase desnorteado. Todos o cumprimentam e ele não o queria, por significar o que significa. Ela já partiu, não porque quis, mas porque não aguentou, e ele, que tanto tentou, nada conseguiu. Sente que só adiou o inevitável, pois no fundo ele sabia que ela partiria desta forma. Todos em fila lhe tocam e ele grita por dentro “larguem-na, ela é minha, vocês nada sabem o que ela passou, e muitos de vocês a certa altura deixaram de querer saber.”. Mas no fundo ele percebe porquê.

Mas lá está toda a gente e ele ao fundo vê-o, ao único que queria ver, que queria abraçar, que queria conforto, que queria algo de bom. – Saraiva?

Ele aproxima-se de Bruno e as lágrimas pelo rosto lhe escorrem, pois ele sabe como ele tentou, ele de tudo sabe, e assim sendo, sabe como lhe está a doer. E parece para Bruno que o tempo que demoram a encontrarem-se a meio caminho está demorado, ele anseia sentir o seu peito, para se deixar levar, para se sentir protegido, pois no fundo ele sabe que sozinho não está, mas o problema é que era ela que ele queria, mas agora nada pode fazer. Lá se encontram e ele derrama o sangue no regaço dele, pois não sabe o que fazer, como se livrar desta dor que ainda agora começou. Pois o mais difícil ainda está para vir, e ele aquele amigo que sempre lá esteve quando mais foi preciso, durante todas aquelas crises que ela sempre teve, o confortou, o apoiou, o manteve firme naquele barco que ele sabia que Bruno não conseguia sair, e assim sendo, não o poderia criticar, somente lá estar. E neste momento de perda total, neste momento em que o inevitável aconteceu, ele sabia que o fim seria assim, Bruno precisaria dele, mais do que nunca, e ele por momentos tinha de por as suas necessidades em stand by por ele. Agora era o tempo de Bruno. E isso ele sabia o que significava. A partir daquele momento, Bruno ficaria para sempre incompleto.

-Saraiva, o que faço???

– Agora nada Bruno, deixa-te ficar aqui ao pé de mim. Já comeste?

– O que há para comer agora, não sinto o corpo, percebes não percebes? Perdia-a de vez, não consegui, não consegui…

Nada havia a conseguir, era impossível mudar esta historia predestinada. Estava também nos astros que assim seria, até mesmo alguém já lho tinha dito, pois em desespero até a alguém que lia a vida de alguém em objetos obsoletos, lhe tinha dito que iria perder para a doença, que não seria pela via médica que conseguiria, mas ele não acreditou, não quis acreditar. Mas também por ali não teria sucesso, estava marcado na linha da vida na sua mão que a vida dela terminaria cedo e de forma sangrenta. Mas lá estavam todos no velório e ele só queria ficar sozinho com quem mais gostava de ali ter. E a raiva que lhe metia ver gente a conversar com gente, sobre coisas comuns, pois é nas festividades e perdas que muitos de nós nos reencontramos. Mas para ele é visceral ver tal coisa, falam do tempo, de futebol, mas eles não entendem o que se está a passar? “Merda para vocês todos, saiam daqui, vão para o café e deixem-me aqui com ela!”. Saraiva percebe do estado de nervos em que Bruno se encontra e desvia-o até um pequeno café ao lado da florista, em que todos passam antes de entrar. Flores que aconchegam a morte de alguém, mas não aconchegam a perda para quem cá fica.

– Vou-te pedir um galão. Consegues?

– Acho que sim. O que faço agora? Como posso eu continuar a viver agora? O que faço? Diz-me?

– Agora tens de passar por isto, nada mais, depois logo vemos!

E o mais duro para Bruno é que nem com ela pode passar a noite, chegada a temerosa meia noite a porta tem de se fechar e ela lá sozinha ficará, e ele não saberá como em casa estar, naquele vazio, naquela dor interminável, e ainda por cima tem de saber receber, tem de ainda apoiar quem precisar! Lá está a mãe dela, sem saber o que fazer, desaustinada, perdida dentro de si própria, pois a culpa a dilacera, pois nele não quis acreditar, quis confiar cegamente que ele teria de ser capaz de fazer o que ela nunca tentou. E isso ainda mais raiva lhe traz, pois ele sabe de tudo isso, sabe da responsabilidade que ela teve neste caminho, que nisto terminou. Ela nunca quis saber, tudo parecia mais importante que aquela inocente pessoa, que sempre a procurou, para nunca a encontrar. Tudo era mais importante, as viagens, os namoros, o dinheiro, tudo era mais importante do que o sofrimento dela. Mas agora nestes dias, com ela tem de conviver, mas olha-a fixamente, e ela na sua nuca sente o calor enraivecido e fulminante mirar. Mas falta pouco para com ela nunca mais partilhar espaço e ar.

– Calma Bruno, agora não é tempo para guerras. Depois logo se verá se ainda sentido te faz.

Mas a noite passa, e o dia chega, o ultimo momento, e depois não terá de fingir mais. Mas ela para o chão irá, e depois desaparecerá para sempre. E aquele caminhar desde onde o corpo foi velado, para onde será enterrado, parece uma procissão de negro, com um silêncio aterrador.

Chegado ao local da campa, aquele buraco inferniza-o. E o mais duro é vê-la pela ultima vez, pois ela parecia não acreditar, mas para ele não sabia o que fazer senão um enterro católico. Da terra vimos, e para lá voltamos. E aquele trajeto que tanto custa a fazer, parece que não queremos chegar, não queremos perder de vez aquela pessoa, aquela energia. E para Bruno, isso significava sozinho outra vez ficar. Tantas vezes se sentira assim, nas crises que ela enfrentara, nos gritos, nos pedidos que a morte a levasse que não acordasse, que tudo passasse. Mas nada nunca mudou, e agora sim, para ela tudo tinha acabado. Bruno não sabe onde ela estará, se mesmo estará em algum sitio. Ele sabe que ela já com ele não está. E naquele caixão de pregas douradas, o seu corpo frio e cinzento se encontra. E num movimento seco, um balde de cal se despeja no seu corpo com aquele vestido que ela tão adorava, em que ela já tinha sorrido, tinha sido ele a encontra-lo para ela. E nada mais ela queria dele, senão a sua existência, o seu ser, ali perto, mas longe ao mesmo tempo, pois também lhe lembrava que o magoava. E numas ultimas palavras, num ultimo toque de Bruno na face esfriada dela, se despede “Adeus meu amor, que agora melhor te sintas, que o sofrimento da carne já não te acompanhe!”. E depois o caixão se fecha, e tudo parece ter acabado, e desce devagar até ao fundo chegar. E depois um leve rosa branca sobre ele repousa, para um ultimo beijo dele.

Agora, já em casa, tudo acabou.

– O que faço agora Saraiva?

– Sobrevives, nada mais!

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“Desculpa amor, mas já não aguento mais!” Uma carta de alguém que vai desistir.


Querido Bruno.

Estas são as palavras mais difíceis de escrever que tive na minha vida. Nem sei por onde começar meu doce. Sabes-me dizer onde me perdi? Já nem consigo perceber onde começou, nem o que se passou para eu chegar a este ponto amor. Tu estiveste sempre ao meu lado, pesei-te tanto no teu peito. Fiz-te tanto mal, quando só queria fazer-te feliz. E isso onde mais falhei, não soube o que fazer, só conseguia pensar em mim, e tu, nesse teu olhar que apazigua, que me tranquiliza, nem que seja por segundos me permitias. Era, tudo em mim era só temporário. Só aquela dor que sempre me acompanhava. Como podes ver, até nas ultimas palavras que te declaro, em que quero que saibas, que não duvides, que te amo. Como te amo, e também isso foi um peso no meu peito oco, nunca to disse, nunca tas proferi, mas sabes, tens que saber, que te amo desde o primeiro momento que sonhei que conheceria alguém como tu! Triste sina a minha, encontrar-te e quase te destruir. Perdeste o brilho meu amor, envelheci a tua alma, e agora sendo eu uma pessoa má, que contamina, que corroí, abandono-te, saio de cena, mas não volto para ser ser aplaudida, ficarei neste vazio. Como desejo que a morte seja o fim de tudo, que me deixe em paz, esta mente que me matou. Lembras-te amor, lembras-te? Tivemos momentos felizes, não tivemos? Tivemos de ter, eu também te fiz sorrir alguns momentos, parecia um sonho, naqueles que tudo é belo, tudo nos conforta. Via-te a brilhar, como o teu sorriso iluminava a sala. Nesses breves momento tudo me fazia sentido, sabia o que era, o que queria, e sabes, tu eras a única coisa que me importava, que me fazia lutar por vezes, quando parecia que ia mudar, que podia mudar. Tantas ilusões e desilusões. Porquê que pegaste em mim? Sabes não entendo porquê que mas nada resulta. Sabes tanto tentamos, lembras-te? Eu não me consegui esquecer, e esse momentos de historias falhadas, sempre me confirmou, que quando se nasce defeituoso, nada se pode fazer, nada senão deixa-la naquela negritude que até nojo mete. É nem sei como ficaste. Diz-me, mas diz-me mesmo, porque ficaste? Nunca entendi. Tantas vezes te tentei expulsar, mandar-te para longe, libertar-te de tal prisão sem barras, sem guardas, mas que nos prende, que não nos deixa ir. E ficaste porque? Tratei-te tão mal, fui uma verdadeira cabra, mas não sei quem era aquela personagem. Culpava-te naquele tempo de tudo, da minha culpa que corta como mil pequenos golpes, de folhas de papel, e depois de tanta miudinha, vinha aquele banho de álcool, sentia tudo a eriçar, a dor vinha, e não ia, estava ali para ficar, e independentemente do que fizesses, nunca e nada me faria acreditar. Tantos psiquiatras, tantas combinações, agora era este, aquele e o outro, e lá dizia ele “agora acho que vamos conseguir Maria, parece que encontramos a sua saída deste sofrimento constante. Acredite!”. Acreditar dizia ele meu amor, já tinha um dia sentido, mas o tempo leva sempre o que é dele, e se um dia com um discurso, até brilhava, até ficava como uma criança na manha de natal! Mas com o tempo, com o doutor Miguel, o doutor Carlos, e sabes aquele especialista, que fomos a Paris, o Pierre, tudo se esbateu, passou a ser uma rotina, e quando olhava para tinha um duelo de sentimentos. Por um lado ficava tão feliz, ao ver por momentos um brilho nesses olhos verdes como o mar, que agora parecem aqueles tanques que agua estagnada. Já faz tanto tempo que penso na morte, como será, se tudo desaparecerá, se finalmente poderei ter alguma paz. Penso nisso todos os dias, sabes quando de dia durmo, e de noite arrasto-me. Fantasio, até sonho com ela, como a desejo! Nem fazes ideia! Sempre pensei nela, até a tentei em garota como te disse. Mas agora mais que nunca, dela preciso, como o ar que respiro, e todos os demorados dias, quando este meu inimigo, que nunca me larga, sabes quem é. Esta voz que nunca se cala. E tantas vezes com ela tentaste falar, leva-la à razão. Mas ela sempre foi mais forte que tudo, porque tudo na vida mudou, nós crescemos, trabalhamos, somos gente. E eu? Sou um farrapo de gente, da cama para o sofá, do sofá para a cama. Nem sei como ainda estas aqui. E agora sou eu que salta para fora do barco, estou a levar-te ao fundo, e meu amor assim podes velejar para aguas melhores, mas sabes, por muito que fosse tempestuosas, nunca seriam nem de longe, nem de perto o lodo que eu sou. Agua estagnada, pois sou,nem nunca quis crescer, obrigava os outros a de mim conta tomar. E também tu, meu amora, meu amor, meu amor, tiveste tarefa tão agreste. E agora, e mesmo depois da tinta deste adeus seque, deixarei de existir, não serei mais eu. Eu não sei o que por aí vem, mas sabes, nem quero saber, nunca vai ser pior que esta merda de vida em que sempre aprisionada. E tu Bruno. Diz-me? Diz-me? Porquê que saíste pela porta? Nunca percebi, e nem sabes como isso me pesou! Essa culpa que me corroeu desde sempre, desde aquele momento em que me amaste sem nada me dizer, que abraçaste sem me tocar, que me beijaste sem sentir esses lábios, carnudos, vermelhos, vivos, que me envolvem num contorcer de prazer, que fazia desejar-te tanto! Até aí voltei a falhar, agora quem quer tocar neste nojo de pessoa, pois já nem mulher me sinto, tal como no inglês, como tens o he, o she ou o it. É, sou mesmo uma coisa, nada mais. Desculpa amor mas já não aguento mais. Tenho de ter a certeza que cá não fico. Tenho de partir, tenho de desaparecer. E sei que vai sofrer tanto, vais sentir as entranhas a desfazerem-se, mas aguarda, espera, o tempo vai-te salvar, e depois disso, depois de ti, ficarem no esquecimento, onde ninguém me pode encontrar, e eu não posso destruir. Sei que vais compreende porque o fiz, tal percebes, nunca criticas, tudo o que faço, e olha que eu fui longe, nunca fui ninguém. Tratei tão mal, gritava, culpava-te, destruía as coisas que mais estimavas, só para ver no teu olhar aquela tristeza, de algo importante se perder! Estás a ver? Como foi possível tal eu fazer. Nem sei, Depressão, Bipolaridade, olha já não sei. Sei que finalmente me vou matar, já sei como, tu vais ver onde. Desculpa pareço cruel, mas a ansiedade de sentir a vida a escorrer-me entre os dedos é tanta, e quero deixar claro que tens de seguir com a tua vida. Entende que nunca me conseguirias fazer feliz, mas não por não teres tentado, nem sei como aguentaste, sempre me levaste ao colo, acreditando sempre, eras o meu farol naqueles noites de nevoeiro húmido, mas que quanto mais remava na tua direcção, mais distante me ficavas. Mas vai, à vidas bem melhor que aquela que conheces-te comigo. Vai! Por favor vai! VAI!!! Tu vais conseguir ser feliz, para isso, só tens de me esquecer. Tão simples. Nada de bom te trago. Sabes não consigo mais, a agua já está quente, tenho o tempo contado. Não quero mais nada neste momento senão morrer!

Meu amor, meu doce desculpa, mas já não aguento mais!!!!!!

Pode ser que um dia, algures por ai, nos possamos cruzar, mas desta vez não te deixarei entrar. É a única forma, sabes bem, é a única forma de não te devastar., venha o que vier será bem vindo!

Mas sabes agora vou-te deixar, preciso de parar. Parar. Depois logo se vê.

Meu amor vou-me matar. Desculpa mas é a única saída. E desculpa a minha verdade cruel, mas acredita que só por mim irá isto acontecer. Foste tudo e mais ainda do que sempre sonhei, mas agora tenho de ir.

Beijos, beijos só como tu me deras desde sempre, beijos doces, beijos suados, beijos completos.

Beijo ”

Bruno está ansioso por chegar a casa. Sexta feira, sei trabalho trazido para tempo com ela lhe roubava, livre para com ela estar, e como o pouco tanto lhe sabe. Basta que a ela algo lhe apeteça, e logo sem sequer pensar, tudo tem de fazer para a fazer sorrir. Ele ainda acredita, com toda a célula do seu emagrecido corpo, que ela um dia vai sair daquele que lhe parece nunca ter fim.
Mas ele naquele dia, naquela noite mete a chave à porta, e sabe lá ele, nem imagina, que será a ultima vez que meterá aquela chave, aquele símbolo, naquela porta. Roda então a chave e esboça um sorriso. A porta não está trancada, Maria está em casa. Entra pela casa dentro e grita “Maria? Estás aí amor?” Fica à espera mas nada parece chegar, nem um velho pombos correio lhe trazia noticias da sua amada. Como fantasiava ele, estando tanto tempo no seu mundo, sempre pensando o que poderia fazer por ela. Todo o momento do seu cérebro, cada sinapse era para ai dirigido, a pensar em Maria, a pensar no que fazer, no que tentar, para onde ir, mas nunca desistir, nunca deixaria a sua princesa. Mas ainda não sabe ele, que quem o deixara fora ela.
Pousa as suas chaves no móvel do seu Hall que a todos os sítios o leva, mesmo no centro de tudo, e por isso repara Bruno, que pelas frinchas da porta da casa de banho, emanava aquelas cores, que quando Maria estava menos mal, pois porque bem nunca esteve, que eram os banhos a dois, em que as velas davam o ambiente e nós os corpos, o suor que nos unia, e aquela dança que era perfeita, aquele ritual de quando duas almas ficam uma. Ele tira então a gravata, e o entusiasmo aumenta, e conforme para lá se desloca, as peças da sua farda que o mundo a tantos obriga, aquele fato bem engomado, encosta a sua face à porta e por ela chama outra vez “Maria? Estás aí? Meu amor, estás bem? Sente um pequeno arrepio, mas ele não quis prestar atenção, e então sorriso voltou, e delicadamente agarra na maçaneta, perguntando-lhe: “Posso entrar amor?” Silencio. “Amor?” Silencio. Roda então a maçaneta que tanto se arrependerá de o fazer, aquela imagem nunca desaparecerá, e empurra a porta, ficando a mesma escancarada, e lá está aquele momento, mais valioso do que qualquer vida. Ele repara no perfil da sua amada, que brilha pelo reflexo daquela luz ténue. Sim vai ser um momento de união, ela está bem hoje! E subitamente algo o atormenta, ele não o que ou porquê, mas algo o incomoda. Naquela tela, algo está fora de cena. A agua não parava de jorrar, e a sua cor não era a esperada. Ele vê aquele rosa esbatido, aquela cor que o congela. “Maria? Maria? Amor? MARIA?”. E nem coragem tem de dar um passo, não quer ver, não quer ter de acreditar. Não, não, não. E fechando os olhos os seus pés movem-se. “Não pode ser ela, não podes ser tu, não podes, sabes porquê, porque eu cheguei, e não posso ter chegado tarde demais!” Mas quando as pálpebras se levantam, lá está ela. Ela está onde não deveria estar. Ele já estava ali, e ele de certeza que não podia ter chegado tarde demais! Porquê? Ele não quer saber, sabem porquê? Ele sabia que isto aconteceria, ele tentaria adiar, sempre adiar, mas agora aconteceu!

Uma morte esplendorosa!

António tem tido pensamentos pouco usuais. Estranha ele estas ondas do seu pensamento solto, que o fazem questionar tanta coisa. Como será morrer? Tudo começou não há muito tempo, em que teve um sonho que o deixou curiosamente duvidoso. Como seria partilhar espaço com a nossa própria morte? Querem que vos diga? Se o António deixar. Mas ele não se deve importar, até porque posso ser a sua consciência que pensa, que questiona, que tenta dar significado a tanta coisa. Esta máquina que tão poucos sabem o que ela é capaz de fazer, toda cinzenta por fora, mas luminosa por dentro em que cada pequeno momento é sempre processado nada ficando ao acaso. Este cérebro que nos conduz sempre como uma candeia iluminava o caminho do velho contrabandista. E também o sonho dele não ficou ao acaso. Tudo parecia um mundo informatizado. Tudo parecia energia, que advinha dos 0 e 1 tão típicos desta linguagem.
Deixem que vos explique o que com isto quero dizer, deixem-me que vos diga mais um pouco sobre este momento instantâneo, que o fez questionar algumas coisas, e neste sonho, o mundo futurista expunha-se a ele, tão parecido a tantas fotografias dos filmes desse género, que tanto gosta e vê. Aqui podia ser um indicio que este mundo pode ser algo mais explicativo, ou talvez não. Se a mente humana consegue imaginar tais cidades, naves e fatos, talvez eles já mesmo existam. Mas sabem, eles realmente existem, nem que seja na retina, nos olhos, no lobo occipital, de todos nós que tantos os apreciamos. Quem não se lembra dos clássicos, Cenários em que inclusivamente as leis da gravidade que nos mantém os pés no chão, não existem, numa possibilidade de futuro para a humanidade, isto até porque do futuro pouco sabemos, melhor até sobre o presente muita coisa são para nós conceitos abstractos, fora já da época de alguns. Como é estranho já podermos dizer “no nosso tempo nada disto existia”. Mas neste mundo de António não era só assim, era muito mais. Este mundo que lhe surgia, quando os olhos fechava, para procurar um descanso para no dia seguinte, continuar com a sua vida, mas nesta noite em especifica, naquele momento o tempo noturno, mostrava-lhe algo mais. Ele planava por essas torres, vendo por baixo de si, todos os componentes de uma grande cidade. As suas formigas, todos nós que tão educamente vamos tendo mais e mais obrigações, até que estamos presos nas suas teias. Mas a velhice e outro momento para parar. Quando se quiser, esperem e conseguiram ver. António flutuava, corria com vento na sua retaguarda. Sentia-se plenamente bem, sem nada que o incomodasse, como se aquele passeio por cima de tudo, até a alma lhe lavasse. Pela sua frente apresentava-se aquele nosso amigo que nos sustenta, que nos permite respirar, viver, o Sol, e as cores que nos mostrava! Será tão difícil explicar-vos, e percebi porque tantos povos ali viram a imagem de algo superior, uma identidade, Deus tal como imaginado. E António sente aquela calma que lhe enche os pulmões. Pela sua esquerda repara no grande gigante, e lá lhe acenou, e um aceno recebeu de volta. Como é bom algo conhecido. E lá vai António, voando por um ar nebuloso, mas que ainda mais fresco o deixava. Mas o que seria António? Pensar sabe que pensa. Sentir também. Tinha o seu corpo, mas não sentia a sua carne. Perdera parte da sua humanidade? Energia seria. E lá ele planava, naquela imensidão de luz, que era um caminho nunca percorrido por ele. Parecia um mundo de vídeo jogos, uma expansão da mente que conseguia ver um futuro, onde nos encaixariamos e continuava a viver. E nesse mesmo jogo, podemos ver, sentir, aqueles caminhos luminosos, em que não conseguíamos vislumbrar o seu fim, viram para a direita em anglos retos, cruzando-se com outros caminhos dey cores diferentes, e que parecem aquecer António e como isso o faz sentir feliz. Tão poucas são as vezes que nos sentimos realmente felizes. Lembram-se de uma vez, em que pela ingenuidade da vida, não tendo sido corrompido para noção da ambivalência da humanidade, vê num simples balão um fácil motivo para podermos ser felizes. E nesse momento quando por exemplo cinco anos poderíamos ter, a existência vale muito a pena. Mas depois esvanece, e e adaptamo-nos. Mas com o passar do tempo, levando ele o que por direito lhe pertence, a velhice transforma essa mesmo adaptação a uma acomodação consciente.
E de repente olha para a sua frente com olhos de ver, e finalmente percebe para onde vai, porque voa, porque assim sente, simplesmente bem, nem mais nem menos. Numa grande edificação que eram tão familiar, como estranha para ele, há frente se lhe apresenta, e com isso, algo iria mudar, todos o ansiavam, mas só poucos lá chegava, mas ele parece ir, e mais próximo a cada momento fica de chegar. Mas por momentos sente um calafrio na sua espinha. E se isto não fosse real? Mas parece real ao olhar, ao sabor, ao ouvido, até ao simples toque, porque não seria?
Já vê a entrada, suspira de alivio, parece ter chegado. E começa a ouvir um grande rugido, como se um leão se tratasse. E um raio de luz escapa-se pelas primeiras frinchas que se podem ver na abertura de dois grandes portões, de cor cobre. Aquela luz que o chama. Já chegou! E lá se depara com o que esperava. Um banho de cores, um circuito de ligações, que sempre estavam a comunicar, ele com o outro, esse mesmo com outro ainda, e assim seguida. Ouvia-se as suas vozes numa língua que parecia ninguém compreender. Mas esses seres que por baixo de si se apresentavam, continuavam nos seus afazeres. Era uma comunidade de individualidades, tal como nós, só se diferenciavam por um simples detalhe: uma extrema compaixão pela individualidade do seu próximo, pois um não poderia existir sem um outro, uma ligação muito acima da nossa compreensão também por vezes o livre arbítrio pode também por em causa a nossa humanidade. Aqueles seres que para nós seriam rotulados de extraterrestres, visto que para nós parece tão difícil aceitar que podem existir outros mundos, que também eles tenham conseguido criar vida, mesmo que para nós nunca pareça. Mas estes serem mostraram-lhe com um simples aceno de cabeça o porquê! Um estava ligado a todos, e esses mesmo todos também a ele se ligavam, tudo numa harmonia cósmica. Eles partilhavam o mundo emocional, e com isso eram todos parte da beleza de sentir, de viver, que sentirmos aquele arrepio que nos fazem vibrar, acreditar que podemos, que podemos tentar, e com esforço e empenho, conseguir. O quê, isso é a definição das particularidades que nos fazem ser o António, o Jaime, a Maria, a Isabel, todos, mas únicos. Esses tranquilos seres pareciam pirilampos da luz que imanavam, e como isso encantava António. E de repente, o caminho mudou de texturas! Tudo era sentido por António. Uma invasão napoleónica que tanto o encantou, como o deixou expectante. Mas essa expectativa podia algo que não compreendo, o deixava apreensivo. Aqueles traços de energia pareciam mais ásperos ao toque, e ele parecia que isso tinha que fazer. Então a sua mão vazia de carne nesse caminho, e parece que assim tinha escolhido para onde a sua mente o levaria.
De repente repara que se lhe apresenta uma pequena elevação, e ele achou que por ela poderia passar, e depois de uma subida pouco acentuada tudo parou. Ele mergulhou num liquido conhecido! Como seria lembramo-nos que no ventre estarmos. Sentirmos a proteção daquele espeço líquido que nos aconchega, que nos alimenta, que nos faz crescer para viver.
E nesse sonho parece que António ao nesse liquido submergir ter sido apagado, chegando ao fim da sua linha. E o que seria isso? Ser apagado? Seria o mesmo que morrer, um fim de uma caminhada em que no final tudo se tornara mais difícil. Como deve ser difícil a velhice! Vermo-nos a decair, perdendo o nosso brilho como pessoas, ficando uma cor baça, que com aquelas manchas nos mostram os anos passados. Vive-se de memorias dos tempos em que se sentiam pessoas. Como será percebermos que estamos a deixa de ser quem somos. Como é ter consciência que o fim pode chegar, melhor, já chegou para dos amigos e companheiros que partiram antes dele. E Ele, ali sentado espera a sua vez. Então o que será então morrer, e acima de tudo porque não poderia ser da forma como ele a vivera, pois, tendo sido sonho ou não, ele viveu, ele questionou, ele ficou preso nessa possibilidade idílica. Já vão perceber o porquê que ele tanto se agarra a este momento, esperem só mais um pouco. Está quase!
E nesse mergulho é preenchido por um liquido que o abraça, e tudo escuro ficou. E ele, na sua consciência, eu estando com ele, e ele comigo, parecia esperar. Não sabia o quê! Era a primeira vez que assim estava, não sabia o que esperar, não sabia, e como podia saber. Ninguém morre e pôde dizer como foi, talvez nos encontremos depois. Pensamento tão belo, trocar um adeus, por um até já. Todos aqueles que de nós já se despediram, um dia mais dar com eles estar! Mas António lá estava no seu liquido, em que continuava a pensar, sem saber o que esperar, numa tranquilidade inquieta. Por um lado, parecia ter uma serenidade por simplesmente existir, numa nuvem de energia que parecia pairar por onde querer, passeando-se por onde mais gostava. Mas aquele aperto, aquela duvida que tanto o inquietava. Continuava tranquilo, mas expectante. Há espera que algo pudesse acontecer, não o sabia com certezas, mas a duvida parecia bastar para o deixar a pensar. Apreensivo se encontrava, à espera, somente à espera. Mas nada parecia acontecer, mas ele, continuava à espera. Nunca se sabia! Mas o tempo ia passando, mas nada parecia fazer, a mesma inquietude, a mesma expectativa, de algo puder chegar. E se nada chegasse. E lá estava ele submerso naquele liquido que tudo tinha apagado, nada resistira a não ser seu pensamento, esse não parecia parar. Mas estava sozinho. E isso era mau? Mais uma vez o momento é mais importante do que a sua perpetuidade. Parecia também ali não precisar de ninguém, pois estava solitariamente acompanhado. O seu pensamento chegava. Mas sempre aquela sensação que tudo podia mudar, a qualquer momento, sem aviso prévio, ou talvez com quadros de hora, com fixação para todos verem, do que irá acontecer dentro da finitude de António.
Como tudo, também este sonho tinha de ter um fim. E lá ele acordou. E parece tão desiludido com a sua realidade, este mundo tão exigente, sempre a correr, nem nos dá espaço para simplesmente existirmos. Por momentos até António tenta adormecer novamente para voltar aquele espaço que faz parte da panóplia de saudades que acumulou durante a sua vida. Os arrependimentos mantêm-no preso a partes de si passadas, fragmentos de si, que ainda hoje ou doem ou envergonham. Também não sabe compreender-se, explicar-se porquê que com 20 anos terá feito ou não feito algo. Agora isso pode já não ser tão importante, mas digam-lhe vocês isso.
Se deixar de existir fosse como sonhou, esse acontecimento certo para todos nós, deixara de assustar António. desassossegando-o, mas não o aterrorizando.
Mas este acontecimento das altas horas da madrugada, deixou-o a pensar. Também ele teve raízes religiosas. Poucos somos os que ainda somos filhos de um perido em que se acontecimentos e consequentemente as suas interpretação, não se encaixando-se nos óbvios de todos nós era uma natureza humana, procurarmos respostas para eles. António lembra-se de ser católico, praticando com a sua querida avó. E como tal, as noções de Ceu e Inferno sempre lhe foram mostradas, limitando cada vez mais a vontade de António. Sua alma ficava apertada, sem se expandir na sua plenitude. Conceitos como pecado, sacramentos, pecado original já outrora foram os fundamentos da sua vida, passados por sua avó. Mas conseguira libertar-se, apegando-se à razão. Mas quando na construção uma casa, um tijolo que seja no meio do muro, lá ficará, como tal, também ele tinha um fascínio apreensivo, sobre conhecer e perceber como tal ciência sem provas dadas lhe poderia mostrar outro caminho. E assim quis também ele perceber como é que este fenómeno, a finitude, era explicado por outros homens. Mas isso é um assunto para outra altura. Por agora chega!

E quando estamos de férias, é representativo de como estamos?

Carlos ultimamente tem estado sempre em baixo. Parece que perdeu a vontade de viver, que até no seu olhar se repara. Na sua vida tudo passou a ser mais difícil que para todos os outros, e o pior é que nem ele percebe como é que chegou a este estado. Até a própria família não compreende. Parece que já compreendeu, ate percebeu, e tentou ajudar, mas parece que embateram contra um muro, já não sabendo o que fazer. Já tudo tentaram, mas parece que Carlos desistiu de viver. O trabalho está na mesma, a família também, tendo inclusivamente já um neto, mas parece que nada que lhe acontece na vida é suficiente para o tirar deste buraco. E chega então as tão desejadas férias, e até parece que Carlos voltou a acordar para a vida. Mais uma vez a família fica ainda mais confusa. Nada mudou, a não ser o sitio onde se está. Nem parecem perceber que Carlos está na sua terra natal, que ali ele sente-se longe de tudo que parece fazer-lhe mal.Até os filhos parecem alem de não compreenderem, ainda têm na sua voz, uma entoação que é sentida por ele como critica. Ele ali parece rejuvenescido, com um novo olhar, um brilho que já há muito não se via. E quanto mais o tempo passa, quanto mais próximo fica voltar aquela vidinha que em tudo o insatisfaz. Como então explicar o que mesmo Carlos não compreende? Como é que se pode fazer entender que aquele estado sombrio dele nada tem a ver com eles. Ele vive cheio de preocupações, tudo lhe parece difícil. Até o trabalho que ele tanto gostava, agora parece que se tornou mais difícil, e o medo de não conseguir, de falhar, é algo que sempre está presente na sua vida. A vida da sua empresa já passou tempos melhores, e a crise que a todos afectou, no seu caso pôs em causa o bem estar da sua família. E ele sempre se orgulhou de tudo sustentar, tudo despendia do seu trabalho,e ele conseguia dar uma boa qualidade de vida a quem dependia de si. Então porque que Carlos nas férias parecia tão melhor, e quando estava prestes a regressar tudo voltou ao mesmo?
Os estado depressivos reactivos são um estado que por vezes não é evidente para as pessoas que não detêm conhecimentos da psique humana, e que não é suposto terem esse tipo de conhecimento, o que pode levar a um nível de incompreensão e de de critica, mesmo que não propositadamente, que ainda afunda a pessoa num sentimento de falhanço, ou de fraqueza enquanto ser humano. Muitas vezes retirando as pessoas dos contextos que potencializam estes estados, podem aparentemente eliminar parte dos sintomas que evidenciam o estado depressivo que vivem. E quando regressam a esses mesmo contextos parecem voltar ao estado em que estavam. Com isso não podemos dizer que é uma opção, mas sim falta de opções.
Também nestes casos é importante procurar ajuda de um técnico especializado em saúde mental. Quanto mais cedo tiver ajuda especializada, mais probabilidade têm-se de ter um tratamento mais curto e com um prognostico mais sorridente. Então o que fazer?
No caso de duvida procure um especialista. Mais vale a pena prevenir que remediar. Também na saúde ou doença mental é igual.
Não arrisque. Previna o desenvolvimento de qualquer doença neste espectro. A depressão também dói.

O que significa ser crente religioso, praticante, e como isso se manifesta na relação com o mundo.

Maria foi como muitos de nós, educada por padrões que lhe foram passados pelos seus falecidos pais. Desde muito nova, sempre foi incitada a ter padrões de vida em que a religiosidade estava muitas vezes presentes. O que isto quer dizer? Pode nada significar e tudo incapacitar. Mais uma vez, uma dicotomia que quando a pessoa tem pouca capacidade de se adaptar, de viver com estas dualidades entre conceitos pré-concebidos, que nos podem limitar ou não a nossa vida quotidiana. O que posso eu querer dizer com este conceito de prejuízo na vida e funcionamento saudável através de postes, traves e afins, sobre o livre arbítrio, sobre a possibilidade de termos opções multifacetadas sobre assuntos de foro geral ou particular à sua vida. Livre arbítrio, esse conceito tão nosso, humanos, animais, consequenciais de todas as experiências, que acabam por nos definir o que somos hoje, mas que quando falamos de conceitos, interpretações, atribuição de significados ao que por nós passa na vida. Não querendo especificar, pois somos cada vez mais uma multi-cultura em que as crenças religiosas são cada mais numerosas, diferentes, mas que no fundo a população portuguesa é feita principalmente de valência católica cristã, que também no meu caso, sinto hoje que não tive oportunidade de escolher, primeiro pois como temos esta base hoje, em que vivemos uma mundo de proximidade com a informação, não havendo a necessidade de se deslocar às antigas bibliotecas, pois pouco falta para termos inclusivamente uma visão para as mesmas como uma fase do passado, como hoje olhamos para a descoberta do fogo, que hoje por 50 centimos podemos ter um isqueiro que nos permite termos acesso a algo que foi essencial ao nosso desenvolvimento como humanos. Hoje a informação ou desinformação está à distancia de um clique. Assim também eu fui educado, modelado, orientado, numa crença que hoje pouco me diz. Isso é uma questão tão pertinente. Como podemos conviver enquanto psicólogos, que trabalham na área, que por vezes podem ter casos que nas linhas de pensamento da religiosidade podem ser incompatíveis. Isso torna-se uma trabalho tão árduo. Como podemos nós entrarmos num contexto como são as nossas salas, em que por nós são pensadas, decoradas, executadas. E sim neste contexto é mesmo muito importante ser mais generalizada, de forma a que haja espaço para ser preenchida por tudo o que o cliente nos traz, havendo três espectros bem evidentes. O que quero eu dizer com isto? Existo eu como ser individual, o outro, e a nossa relação terapêutica, sendo esta a base de todo o trabalho, que nestas salas, por vezes com as cadeiras desgastadas pelo tempo, pela presença humana, pelas historias que por ali passaram. Então neste sentido o que deve um terapeuta fazer? Haverá espaço para sermos livres na relação com o outro, com pré-conceitos, que por vezes são a base da forma de viver connosco mesmo. Então como podemos nós existir em tantas áreas, sem que esta parte de nós seja preservada, como o nosso conceito de intimidade. Porque sim, alem de psicólogos, de terapeutas, de psicoterapeutas, de terapeutas familiares, e afins, somos humanos. Ser humano traz-nos tantas responsabilidades acrescidas. Não se esqueçam que quem nos procura não se encontra bem. Não necessariamente doentes, não necessariamente saudáveis, muitas vezes não sentem é uma satisfação com a vida, que nos faça ter uma percepção de ter uma vida suficientemente boa. Mas voltemos a nós terapeutas. Conseguiremos nós chegar a porta do nosso consultório, tirando esta parte de pele que faz parte de nós, vestindo uma que nos permita trabalhar, tendo em conta a percepção dos pacientes, não julgando, validando o que eles vão sentindo. E quando temos conceitos do que supostamente é normal ou não?

Peguemos num conceito já aceite, já reformulado, já comprovado, da orientação sexual. Só em 1986 o PSR conseguiu mudar no dicionário que definia que a homossexualidade era uma doença mental, que tinha de ser tratada (estas obrigações só nos traz angustia, principalmente quando o que sentimos, não joga com aquilo que a sociedade, e os nossos valores, ou da nossa família condena.

Então como pode uma psicólogo conviver com este conceito, sem que não haja uma tentativa de orientar o processo de acordo com estes valores nada inclusivo que o cliente sente. Como podemos nós termos uma empatia profunda quando o que nos é revelado pode ser tão antagónico em nós. Isto pode ser um entrave inclusivamente na intimidade e proximidade que os pacientes precisam. Isto pode ser uma realidade tão complexa para o processo que se inicia e que tem de ter uma caminho construído a dois, pois para critica, para condenação, já chega o que o outros nos traz desde o inicio.

Assim peço-vos que pensem sobre o inicio desta temática que voltarei em breve, se esta característica que pode dificultar algo que podia ou devia ser fluido. Este convite não é direccionado a alguém em especifico, isto até porque na relação estão os dois ou mais incluídos.

Como seria um ultimo momento de psicoterapia

Carlos vai á sua última consulta com o psicólogo que o segue há 3 anos. Tanto já se falou, se trabalhou, se sentiu, sim, porque psicoterapia como sempre defendi não é uma conversa. Enquanto se desloca lembra-se de como foi quando ali entrou pela primeira vez: de baixa já há 18 meses, sem vontade de nada fazer, e mesmo quando tentava, nada lhe saia bem feito. E a esperança? Essa velha inimiga que parecia nunca mais lhe surgir? Tudo lhe parecia negro. Sentia que estava tambem a destruir de quem mais gostava, aquela mulher que sempre lá esteve para ele, em que no passado já tinham sido equipa, e como ele dela gostava, mas agora parecia que o amor que ela por ele sentia, lhe esvaia entre os dedos, e ela olhava para um homem derrotado pela sua vida, sem que ela pudesse dar algum sentido à forma como o marido se encontrava, pois problemas na vida todos nós as temos, e ele sempre tinha tido a capacidade de com eles lidar, melhor, ele sempre tinha sido alguém que não se rendia, que batalhava ate ter compreendido ou resolvido o que na sua realidade entrava, e agora era um sombra de si próprio, e ela que com ele sempre contara, agora já nem o reconhecia. Onde estaria o seu Carlos? E ele que sempre adorou aquela mulher, de ser o seu pilar, agora ela parecia tão mais forte, decidida do que ele. Melhor, todos pareciam mais e melhores do que Carlos.

Mas isso já estava tão distante. Nesse dia tudo estava igual na vida, mas a forma como ele a vivia é que tinha mudado. Os problemas com a sua empresa continuavam, os filhos continuavam com os seus problemas de jovens adultos, a sua esposa continuava ali, mas agora sorrindo quando olhava para ele. E como para ela tudo tinha mudado tambem. Tinha recuperado uma das suas estruturas que sempre lhe tinham sido essenciais para que sentisse que tinha uma boa vida. Ela nem precisa de muito. Para ela a familia é que contava mais. E nessa estrutura, ele era essencial ao seu lado. E tambem ela tinha ido a acompanhá-lo quando era preciso, até ela fez o seu caminho, num outro psicoterapeuta que lhe dera tambem formas diferentes de olhar e de lidar com a vida.

Mas falemos agora do Carlos.

Está na sala de espera, e quando vê a porta dele abrir, sentiu-se em casa. Aquele espaço, com quadros coloridos na parede, aquelas cadeiras identicas, em que ele tinha escolhido a sua, e aquele velho tapete com tantas cores, que dantes pareciam diferentes tons de cinzentos, agora reparava que era verde, amarelo, castanho. E lembra-se bem do dia em que esta percepção mudou. Carlos olha para o Pedro e sorri. Entra e senta-se na sua cadeira. E tudo começa. E agora tambem ali ele já sabia estar, pois no inicio era um conceito tão abstracto que todos nós nos sentiamos estranhos.

– Então Carlos, como estamos hoje?

– Alegre e triste!

– Quer-me explicar melhor?

– Sabe Pedro, foi através de si, que a minha vida mudou.

– Através de nós quer dizer.

– É. Como é quente e confortável poder dizer tal coisa.

– E como é para si termos hoje a ultima sessão, depois de tanto caminho?

– Às vezes parece que estou a viver um sonho, como se melhorar também significá-se perder algo!

– Percebo que temos passado muito tempo juntos, e que nesta caminhada muito foi dito e sentido. E que tenha algum receio, pois sei que para si ter medo é coisa que um homem não tem.

– Já estou um pouco diferente Pedro! Aqui aprendi que sentir tambem faz parte de viver. Mas sabe que no meu tempo, estas coisas não tinham valor. Melhor, nem existiam.

– O que acha que melhorou com este caminho?

– Em primeiro deixei de me sentir impotente com a vida, tal como se tivesse deixado de ser Homem.

– Compreendo. Estes nossos conceitos sobre o que é esperado para nós, e quando não o conseguimos concretizar põe em causa o nosso próprio preposito e valor.

– É, lembro-me de entrar aqui derrotado, sem qualquer noção que poderia ter uma vida diferente. Já nem dizia melhor, bastava diferente.

– Também me lembro de si. Um Homem que parecia uma sombra de alguém que já tinha sido diferente. Parecia transparente como se de ninguem se trata-se.

– Pois é Pedro. Era mesmo assim que me sentia, sem tirar nem por. E foi por isso, e muito mais que me senti acarinhado e amparado por alguem. Mas olhe que foi tão estranho para mim.

– Eu sei, foi dificil conseguirmos ser equipa e deixar-me entrar.

– Mas foi tão mais fácil por me ter deixado ir ao meu ritmo, sem exigência, sem me sentir que também aqui estava a falhar. Isso foi mesmo novidade para mim.

– E se olharmos agora para traz o que mudou? Será que foi você que mudou a sua identidade?

– Não, sou o Carlos, mas podemos dizer quase quitado. Sinto-me mais capaz, mais organizado, mais dono de mim próprio. A vida continua a ter problemas, esses fazem parte dela, mas as formas de olhar para os problemas e a capacidade de os resolver nem se compara. E nem imaginava porquê que vocês psicólogos queriam sempre falar no passado, quando o que me doía era o presente, mas percebi. Tudo aquilo que somos hoje é a consequência de tudo o que vivemos até hoje……

Todos temos a capacidade de mudar, de crescer, de vivermos no nosso potencial, que não igual em todos, que se manifesta de forma tão particular tendo em conta a nossa essência.

Mais uma vez vos digo, arrisquem, em ultima instância podem só perder uma hora da vossa vida, e ganhar o resto da mesma com satisfação

Como é que um psicólogo fala?

Tal como na maioria das profissões, também na psicologia e na psicoterapia existe uma forma de comunicar muito particular e especifica. Aqui temos de distinguir logo à partida vários públicos alvos. Quando vários colegas se reúnem, seja em formato de supervisão (em que psicólogos mais juniores procuram orientação nos casos com alguém mais experiente), intervisão (que consiste na reunião de vários colegas, com experiencial e conhecimentos técnicos e empíricos semelhantes, discutem casos, pois como já se dizia antigamente, duas cabeças pensam melhor que uma) a linguagem é mais técnica, pois assim é facilitado a compreensão do que está a ser partilhado, quer seja relativamente a diagnósticos, não sendo o rotulo o mais importante na definição da problemática dos clientes, mas permite desde logo uma visão que segue uma linha de especificação, tendo logo há partida, características comuns, e também permite a escolha de intervenções que já tenham sido estudadas e validades, para as diferentes patologias. Neste caso então as nomenclaturas mais complexas ao olhar das pessoas que não trabalham nesta área, faz com que a definição das coisas seja especifica, para que quando alguém refere algo como a cor amarelo limão, não seja amarelo por do sol, amarelo claro, etc. Também nos permite falar com diferentes profissões na área da saúde mental, possam ter um entendimento rápido e especifico sobre o que se pretende partilhar.

Por outro lado quando comunicamos com clientes, familiares, ou para o publico em geral, tudo muda de perspectiva. Com isto quero dizer que podem acontecer várias distorções de compreensão do que está a ser dito. É necessário perceber primeiro que pessoa temos à nossa frente, o seu nível de linguagem, a dimensão do seu vocabulário, o conhecimento que têm sobre esta área, que muitas vezes e devido à informação massiva que se encontra à distancia de um click, que em muitos casos contêm informações erradas, que acabam por confundir ainda mais o cliente. O nosso papel é ter uma linguagem clara, sendo que quando necessário é necessário parafrasear o que é dito, até haver uma certeza sobre a compreensão do assunto em foco, ter capacidade de associar conceitos emocionais às experiências vividas pelo cliente, haver uma explicação coerente sobre que caminho terapêutico irá ser seguido e porque, para que desde logo se criem objectivos terapêuticos e a definição do caminho para os atingir. A adaptação da nossa linguagem à pessoa que se senta ao nosso lado, envolve o cliente num ambiente de compreensão, de igualdade, de amparo. Assim esta parte torna-se essencial para o estabelecimento de uma relação terapêutica forte.

E ainda, quando comunicamos para um publico em geral, seja através da comunicação social (televisão, jornais, etc.), e redes sociais (facebook, blogs, etc.) esta tem de ser mais geral sobre assuntos específicos, pois logo à partida o tempo muitas vezes é bastante limitado, e não existe uma noção do publico a quem nos referimos, sendo que podemos por vezes ter em conta que certas alturas do dia o publico pode mais especifico em termos de idades, conhecimentos, etc, para que leve as pessoas a terem interesse em aprofundar os seus conhecimentos no que está a ser falado.

É verdade que nós psicólogos temos uma linguagem muito própria, mas também os futebolistas, os gestores e praticamente em todas as profissões. Assim no caso de duvidas sobre o assunto abordado, pergunte, indague, até ficar esclarecido, pois quanto mais conhecimento temos sobre os diferentes assuntos, mais capazes nos tornamos de prevenir, falando da área da saúde mental, identificar e procurar ajuda.