Como seria um ultimo momento de psicoterapia

Carlos vai á sua última consulta com o psicólogo que o segue há 3 anos. Tanto já se falou, se trabalhou, se sentiu, sim, porque psicoterapia como sempre defendi não é uma conversa. Enquanto se desloca lembra-se de como foi quando ali entrou pela primeira vez: de baixa já há 18 meses, sem vontade de nada fazer, e mesmo quando tentava, nada lhe saia bem feito. E a esperança? Essa velha inimiga que parecia nunca mais lhe surgir? Tudo lhe parecia negro. Sentia que estava tambem a destruir de quem mais gostava, aquela mulher que sempre lá esteve para ele, em que no passado já tinham sido equipa, e como ele dela gostava, mas agora parecia que o amor que ela por ele sentia, lhe esvaia entre os dedos, e ela olhava para um homem derrotado pela sua vida, sem que ela pudesse dar algum sentido à forma como o marido se encontrava, pois problemas na vida todos nós as temos, e ele sempre tinha tido a capacidade de com eles lidar, melhor, ele sempre tinha sido alguém que não se rendia, que batalhava ate ter compreendido ou resolvido o que na sua realidade entrava, e agora era um sombra de si próprio, e ela que com ele sempre contara, agora já nem o reconhecia. Onde estaria o seu Carlos? E ele que sempre adorou aquela mulher, de ser o seu pilar, agora ela parecia tão mais forte, decidida do que ele. Melhor, todos pareciam mais e melhores do que Carlos.

Mas isso já estava tão distante. Nesse dia tudo estava igual na vida, mas a forma como ele a vivia é que tinha mudado. Os problemas com a sua empresa continuavam, os filhos continuavam com os seus problemas de jovens adultos, a sua esposa continuava ali, mas agora sorrindo quando olhava para ele. E como para ela tudo tinha mudado tambem. Tinha recuperado uma das suas estruturas que sempre lhe tinham sido essenciais para que sentisse que tinha uma boa vida. Ela nem precisa de muito. Para ela a familia é que contava mais. E nessa estrutura, ele era essencial ao seu lado. E tambem ela tinha ido a acompanhá-lo quando era preciso, até ela fez o seu caminho, num outro psicoterapeuta que lhe dera tambem formas diferentes de olhar e de lidar com a vida.

Mas falemos agora do Carlos.

Está na sala de espera, e quando vê a porta dele abrir, sentiu-se em casa. Aquele espaço, com quadros coloridos na parede, aquelas cadeiras identicas, em que ele tinha escolhido a sua, e aquele velho tapete com tantas cores, que dantes pareciam diferentes tons de cinzentos, agora reparava que era verde, amarelo, castanho. E lembra-se bem do dia em que esta percepção mudou. Carlos olha para o Pedro e sorri. Entra e senta-se na sua cadeira. E tudo começa. E agora tambem ali ele já sabia estar, pois no inicio era um conceito tão abstracto que todos nós nos sentiamos estranhos.

– Então Carlos, como estamos hoje?

– Alegre e triste!

– Quer-me explicar melhor?

– Sabe Pedro, foi através de si, que a minha vida mudou.

– Através de nós quer dizer.

– É. Como é quente e confortável poder dizer tal coisa.

– E como é para si termos hoje a ultima sessão, depois de tanto caminho?

– Às vezes parece que estou a viver um sonho, como se melhorar também significá-se perder algo!

– Percebo que temos passado muito tempo juntos, e que nesta caminhada muito foi dito e sentido. E que tenha algum receio, pois sei que para si ter medo é coisa que um homem não tem.

– Já estou um pouco diferente Pedro! Aqui aprendi que sentir tambem faz parte de viver. Mas sabe que no meu tempo, estas coisas não tinham valor. Melhor, nem existiam.

– O que acha que melhorou com este caminho?

– Em primeiro deixei de me sentir impotente com a vida, tal como se tivesse deixado de ser Homem.

– Compreendo. Estes nossos conceitos sobre o que é esperado para nós, e quando não o conseguimos concretizar põe em causa o nosso próprio preposito e valor.

– É, lembro-me de entrar aqui derrotado, sem qualquer noção que poderia ter uma vida diferente. Já nem dizia melhor, bastava diferente.

– Também me lembro de si. Um Homem que parecia uma sombra de alguém que já tinha sido diferente. Parecia transparente como se de ninguem se trata-se.

– Pois é Pedro. Era mesmo assim que me sentia, sem tirar nem por. E foi por isso, e muito mais que me senti acarinhado e amparado por alguem. Mas olhe que foi tão estranho para mim.

– Eu sei, foi dificil conseguirmos ser equipa e deixar-me entrar.

– Mas foi tão mais fácil por me ter deixado ir ao meu ritmo, sem exigência, sem me sentir que também aqui estava a falhar. Isso foi mesmo novidade para mim.

– E se olharmos agora para traz o que mudou? Será que foi você que mudou a sua identidade?

– Não, sou o Carlos, mas podemos dizer quase quitado. Sinto-me mais capaz, mais organizado, mais dono de mim próprio. A vida continua a ter problemas, esses fazem parte dela, mas as formas de olhar para os problemas e a capacidade de os resolver nem se compara. E nem imaginava porquê que vocês psicólogos queriam sempre falar no passado, quando o que me doía era o presente, mas percebi. Tudo aquilo que somos hoje é a consequência de tudo o que vivemos até hoje……

Todos temos a capacidade de mudar, de crescer, de vivermos no nosso potencial, que não igual em todos, que se manifesta de forma tão particular tendo em conta a nossa essência.

Mais uma vez vos digo, arrisquem, em ultima instância podem só perder uma hora da vossa vida, e ganhar o resto da mesma com satisfação

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Como é que um psicólogo fala?

Tal como na maioria das profissões, também na psicologia e na psicoterapia existe uma forma de comunicar muito particular e especifica. Aqui temos de distinguir logo à partida vários públicos alvos. Quando vários colegas se reúnem, seja em formato de supervisão (em que psicólogos mais juniores procuram orientação nos casos com alguém mais experiente), intervisão (que consiste na reunião de vários colegas, com experiencial e conhecimentos técnicos e empíricos semelhantes, discutem casos, pois como já se dizia antigamente, duas cabeças pensam melhor que uma) a linguagem é mais técnica, pois assim é facilitado a compreensão do que está a ser partilhado, quer seja relativamente a diagnósticos, não sendo o rotulo o mais importante na definição da problemática dos clientes, mas permite desde logo uma visão que segue uma linha de especificação, tendo logo há partida, características comuns, e também permite a escolha de intervenções que já tenham sido estudadas e validades, para as diferentes patologias. Neste caso então as nomenclaturas mais complexas ao olhar das pessoas que não trabalham nesta área, faz com que a definição das coisas seja especifica, para que quando alguém refere algo como a cor amarelo limão, não seja amarelo por do sol, amarelo claro, etc. Também nos permite falar com diferentes profissões na área da saúde mental, possam ter um entendimento rápido e especifico sobre o que se pretende partilhar.

Por outro lado quando comunicamos com clientes, familiares, ou para o publico em geral, tudo muda de perspectiva. Com isto quero dizer que podem acontecer várias distorções de compreensão do que está a ser dito. É necessário perceber primeiro que pessoa temos à nossa frente, o seu nível de linguagem, a dimensão do seu vocabulário, o conhecimento que têm sobre esta área, que muitas vezes e devido à informação massiva que se encontra à distancia de um click, que em muitos casos contêm informações erradas, que acabam por confundir ainda mais o cliente. O nosso papel é ter uma linguagem clara, sendo que quando necessário é necessário parafrasear o que é dito, até haver uma certeza sobre a compreensão do assunto em foco, ter capacidade de associar conceitos emocionais às experiências vividas pelo cliente, haver uma explicação coerente sobre que caminho terapêutico irá ser seguido e porque, para que desde logo se criem objectivos terapêuticos e a definição do caminho para os atingir. A adaptação da nossa linguagem à pessoa que se senta ao nosso lado, envolve o cliente num ambiente de compreensão, de igualdade, de amparo. Assim esta parte torna-se essencial para o estabelecimento de uma relação terapêutica forte.

E ainda, quando comunicamos para um publico em geral, seja através da comunicação social (televisão, jornais, etc.), e redes sociais (facebook, blogs, etc.) esta tem de ser mais geral sobre assuntos específicos, pois logo à partida o tempo muitas vezes é bastante limitado, e não existe uma noção do publico a quem nos referimos, sendo que podemos por vezes ter em conta que certas alturas do dia o publico pode mais especifico em termos de idades, conhecimentos, etc, para que leve as pessoas a terem interesse em aprofundar os seus conhecimentos no que está a ser falado.

É verdade que nós psicólogos temos uma linguagem muito própria, mas também os futebolistas, os gestores e praticamente em todas as profissões. Assim no caso de duvidas sobre o assunto abordado, pergunte, indague, até ficar esclarecido, pois quanto mais conhecimento temos sobre os diferentes assuntos, mais capazes nos tornamos de prevenir, falando da área da saúde mental, identificar e procurar ajuda.

Será normal saltitar entre esperança e desesperança? Como pode ser, antes de começar este caminho?

Aqui sentada, eu espero.

A esperança de Maria esbateu-se com o tempo. Esse seu cruel inimigo, que rema sempre contra si. Pois quando devia durar corre, e quando devia acelerar quase pára. Tudo para ela é ao contrário, e quanto mais se aproxima a altura da consulta, mais reticente fica. Como se não quisesse saber que podia ficar assim para sempre. Pois isso era possível, não ter arranjo. Pois se um computador por vezes avaria de vez, como seria com ela? Pondera muito, quase tanto, que o tempo foge, e, não sabe o que fazer, pois uma parte de si grita por ajuda, e outra parece nada querer fazer, continuar e assumir que nada mudará. E como isso é cortante. Ter de viver o resto da vida, porque simplesmente não pode morrer. Este poço em que ela se encontra parece sem fundo, pois ela está cada vez pior. E já nem morrer pode. Como é isso possível? Como ficou aprisionada por si própria. Maria é prisioneira do seu humor, ele controla tudo a
ela, tira-lhe tudo. Não consegue vencer esta ocupação não consentida de pensamentos. Estes tomaram conta de si, nunca se calando. Tudo na sua vida é censurado por esse tirano, o pensamento. Tudo nela é prova do que não é, pois devia ser tudo menos o que sente ser. “És miserável, não fazes nada de jeito, ninguém te ama, só cometes erros após erros.” E como era possível calar uma voz com razão? O problema estava aí mesmo, este detalhe tudo mudava para ela, porque eles tinham razão, e esta verdade absoluta cortava-lhe a esperança de um futuro melhor. Maria estava num triângulo das bermudas sem saída. Os outros eram sempre melhores, ela não tinha valor, e o futuro nada de bom lhe traria. Como viver assim então? “Como meu Deus? Como posso eu ter forças para continuar se não tenho nada para me agarrar?” Mais um problema incontornável para ela. Nada era recuperável para ela. O mal que tinha feito não teria perdão. E por ela não valia a pena. E também para quê? Para sozinha ficar? Se não recuperar o que perdeu nunca será feliz. E como isso lhe mostra uma verdade cruel: nunca será feliz. Nunca será uma pessoa normal. A amargura estava para ficar. Então para quê tentar? Para quê? Para quê fazer o psicólogo perder tempo consigo? Haveria de certeza outras pessoas que poderia realmente ajudar.
Todos nós a um certo momento das nossas vidas podemos ter partilhado este espaço onde Maria se encontra. Mas para ela tudo está perdido.
Deixem-me salientar que se numa fase inicial, o tratamento psicoterapeutico, é mais breve, com maiores probabilidades de sucesso, um desenvolvimento de tanto tempo, faz com que o tratamento seja mais prolongado, que possivelmente se tenha de recorrer a psicofarmacologia, é mais doloroso o próprio processo, e ao confrontar se com obstáculos, o primeiro pensamento e de desistir por sentir que não vale a pena.
Não se deixe chegar a este beco. Transforme beco sem sai da, numa alternativa de viver.
Cuide de Si!

A dúvida limita a nossa acção.

Francisco passa o dia em sofrimento, sem conseguir parar a máquina que carrega entre os ombros. Dentro da sua mente é um rodopio de pensamentos, uns que fogem outros que ficam, e esses, que se colam ao cérebro como uma lapa se agarra a aquela pedra, e aguenta as correntes fortes das ondas, mantém-se ali, sem largar. E como isto era familiar para ele! Também ele tinha pensamentos que não paravam de lhe assombrar a mente, em que bastando apenas um segundo, as suas certezas absolutas, tornavam-se nas duvidas, nesse fogo, que parecia nunca ter fim, pois por mais que ele  se tentasse distrair, confirmar o que a duvida lhe trazia “fechei ou não o gás? fechei a porta do carro?”, perdendo por vezes tempo e esperança, e em todo esse tempo ele sabe. Claro que sabe, como podia não saber. Aquilo era de loucos. Não tinha explicação. “Tudo tem de ser explicável.” Era assim que ele se sentia seguro, e quando, sem causa, pois já tinha feito TAC, ressonâncias magnéticas, pet scan, a ciência e a biologia não sabia explicar. Mesmo que eles percebem as zonas do cérebro activam como se diz nos Estados Unidos da América, como no dia 4 de Julho, eles nada lhe diziam que como, porque, e como se resolve. Tamanha angustia, por saber o quão irracional isto seria, que como tinha ele chegado a este ponto? Como é que ele, engenheiro mecânico, que existe para arranjar, para manter, para gerar funcionalidade, para ele próprio era um iliterato. O que fazer, onde ir, isto tinha de ter forma de voltar ao normal.

Falemos então de doenças no espectro dos aspectos obsessivos-compulsivos. Tal como autismo e no seu espectro existem diferentes doenças, com diferentes níveis de incapacidade, esta linha, em que as obsessões e compulssões são centrais nas diferentes pessoa se manifesta de forma particular. Podemos definir de uma forma mais generalizada, para não transmitir uma mensagem demasiado distante e fria de quem possa ler esta minha opinião. Todos nós temos características obsessivas ou compulsivas, como por exemplo o facto de haver fumadores, que por engano, ficam sem tabaco, na eventualidade de lhe apetecer fumar um cigarro e não terem, veste de novo as calças, pegam no carro se for preciso, e vão onde for necessário para acalmarem a chama desta ligação obsessiva compulsiva com esta substancia. Depois temos por outro lado dois níveis de doença, com diferentes níveis de incapacidade, e quanto mais tarde houver um diagnostico e processo de intervenção em alguns casos passa pela parceria em a psicoterapia, psicofarmacologia e intervenção familiar. Tento, através das minhas palavras poder-vos passar uma possível alternativa, aos conceitos por vezes desactualizados, da validade e importância desta ciência artística.

Mais uma vos peço, que a experiência pode sempre ser melhor que a ideia

Porque temos medo de dizer quem somos

Porque temos medo de mostrar quem somos?
Vivendo nós em sociedade, em que todos temos características pessoais e fragilidades, a frontalidade e falta de filtro social é algo que nos traz diversas complicações. Assim sendo, vamos representando diferentes papéis sociais conforme o contexto em que estamos inseridos. É algo necessário e depende das nossas capacidades de adaptação.

Os problemas começam quando, depois de tanta representação, deixamos de saber efectivamente quem somos, ou quem queremos ser. Por outro lado, torna-se também difícil podermos expressar como estamos, pois por vezes o contexto não nos permite ou julga-nos por isso. Por exemplo, alguém que no local de trabalho é visto como o brincalhão e bem-disposto, num dia em que esteja mais calado ou mais irritado pode ser facilmente julgado, sem se ter em atenção que todos temos direito de estarmos de acordo com o nosso estado de espírito, desde que este não seja pernicioso para o ambiente que nos rodeia. Tal como uma pessoa que seja reservada, mesmo num contexto familiar, num dia em que se sinta mais extrovertida pode ser julgada e inibida pelos outros com comentários como “hoje estás descontrolada”, quando na realidade pode só ser um dia mais feliz. Quando se faz um comentário destes pode-se de forma evidente inibir as pessoas que nos rodeiam de evoluírem ou de serem quem sentem ser nessa altura.

Neste sentido, pode ser importante não fazermos juízos de valor sobre tudo o que se passa à nossa volta, bastando por vezes perguntar como a pessoa está.

E assim muitos de nós ficamos com medo de mostrar quem somos e como nos sentimos, pois desta forma também nos expomos a críticas e a julgamentos, e podemos sentir-nos sós e incompreendidos.

Por isso, não seja também impulsivo nos juízos que faz. Todos temos direito a dias em que nos sentimos de forma diferente.

Serei uma pessoa normal?

João pergunta-se sobre este conceito abstrato. Sempre alguma dificuldade de olhar de uma forma, aos olhos dos outros, para si como uma pessoa boa, inteligente, merecedor do que recebe do mundo! Sempre desejou sentir-se uma pessoa dita normal sem viver numa mistura de tentativas e falhanços, de uma pressão que sente do mundo, sem ser capaz de lhes demonstrar essa corrente, como um rio que fica feroz na época do degelo. Como se consegue chegar a esse estado? Como podemos sentirmo-nos felizes com o que temos e somos? Para o João isto tão difícil de compreender, e para ele o que não era explicável era difícil de aceitar. Sentia sempre a sua mente a correr, que não lhe dava descanso que ate na almofada lhe roubava aquela fuga eficaz desta realidade sombria. Não conseguia dormir, dava voltas na almofada imerso no lodo em que vivia. Ele já não sabia nem acreditava que algo podia mudar, vivendo assim a morte era vista como o eterno silencio.

É pergunta que é difícil de responder! E um conceito tão abrangente, que é alterado quando cada variável muda. Tal como a origem da pessoa, das experiências previas, da forma como aprendeu a lidar com os diferentes contextos das nossas vida. Como em grande parte das doenças psicológicas tem como característica uma visão distorcida da realidade, como na depressão sentirem incapazes, na ansiedade sentirem-se em perigo, a propria pessoa com alguns sintomas e é importante ser avaliada por alguém que tenha as competência profissionais, pois a perda da critica e aceitação que pode estar a adoecer, tornam-se por vezes resistência, a procurarem ou aceitar ajuda. Por vezes, e principalmente nestes casos, é importante as familias independentemente da colaboração da pessoa preocupante, procurarem ajuda motivar a pessoa para aceitar ajuda, simplesmente ir a uma sessão. No momento em que essa pessoa entra por aquela porta, vê a configuração da sala e estranha. Por vezes a ideia da Psicologia e vista como algo médico, com salas frias, sem espaço, sem aconchego, igualdade, simplesmente diferente.

Com isto concluo por agora, pois é importante falar-se também de uma forma diferente desta ciência e arte (da palavra).

Até já

O que pode significar ter-se uma doença de cariz psicológico/psiquiátrico?

Estas problemáticas são cada vez mais numerosas, com uma identificação dos casos cada vez mais precocemente, que faz com que essas mesmas patologias não tenham uma valência tão incapacitante na vida da pessoa e sistemas sociais que os rodeiam, tanto porque nos diferentes contextos que fazem parte da vida de todos nós, as pessoas estão mais atentas a sintomas que através das campanhas de sensibilização, do aumento da identificação de casos, isto não depreende que existem muito mais casos que antigamente, parece mais razoável afirmar que estando todos mais atentos, e tendo um conhecimento mais alargado, que a referenciação destas situações ocorram com mais frequência.

Onde podem surgir algumas complicações que atrasam o encaminhamento para quem de direito? Primeiro podemos verificar a generalização de conceitos de doença que são raros e exige um olhar clinico que se adquire através da especialização, e da manutenção constante sobre novas descobertas e caminhos alternativos para cada doença. Assim sendo, podemos muitas vezes verificar que em muitos casos, existe efetivamente a procura de ajuda dita especializada, que na maioria dos casos, no caso de ser uma criança, através do Pediatra, e em adulto através do medico de família. Quais são os riscos se não houver por parte dos médicos, um encaminhamento para a especialidade, assumindo a partir de que ponto, essas doenças ultrapassam a competência do mesmo, e que consequências podem ter estas situações?

Podemos afirmar que os médicos de clinica geral tem capacidade de avaliar e iniciar um tratamento nos primeiros 3 meses do desenvolvimento dos primeiros sintomas, sendo que se não houver uma diminuição do sofrimento que estas doenças trazem, ou até mesmo agravamento, existe a necessidade de reformular ou o diagnóstico ou a medicação, até porque a adequação da medicação, faz parte da confirmação diagnostico. Ou seja, se qualquer medicação está estudada para algumas patologias do foro psiquiátrico, e essa mesma medicação não tem os resultados esperados, podemos ter de alterar dentro da mesma família de medicação, e por último se mantivermos o quadro clinico, então é importante reformular o diagnóstico. Nesta fase torna-se essencial através dos clínicos, ou em ultimo caso através das pessoas que fazem parte da vida do doente, ou o próprio de procurar ajuda especializada. A nível da psicoterapia ainda pode ter outros efeitos que criem maiores dificuldades ao paciente. Passo a explicar. Sendo a psicoterapia um conceito de uma maior aceitação recente, sobre a importância e eficácia da mesma, a experiencias negativas neste contexto clinico, retira ao próprio doente a validade e importância de passar por este processo, até porque em Portugal vivia-se uma procura através da farmacologia a resolução dos problemas. Em alguns casos, o próprio processo pode não ser ajustado, tanto por o paciente não saber a finalidade e os benefícios da mesma, sendo essencial estabelecer desde logo objetivos terapêuticos. Se puder fazer uma escala ascendente sobre os diferentes níveis de intervenção podemos afirmar o seguinte:

1º Nível – Consulta de clinica geral – Identificação de critérios de patologia psicológica/psiquiátrica. Tendo como temporalidade definida.

2º Nível – Consulta de psicologia – Avaliação da problemática demonstrada, com o objetivo se a mesma se enquadra nas competências do terapeuta.

3º Nível – Havendo a necessidade de uma avaliação mais completa, a introdução de uma avaliação psiquiátrica, que não envolve obrigatoriamente a introdução desde logo de psicofarmacologia.

4º Nível – A combinação entre psiquiatria e psicoterapia, e se o caso assim o necessitar, a introdução de psicofarmacologia, havendo uma relação de proximidade entre os técnicos, para o tratamento ir no mesmo sentido.

5º Nível – A introdução da família ou redes sociais significativas para o paciente, para ter uma ideia mais completa das dificuldades apresentadas, e de que forma podem modelar o seu comportamento, para contribuir para o tratamento do mesmo.

Podíamos extrapolar para outras situações, pois a intervenção não pode ser rígida, havendo sempre espaço ou para um momento mais psico-pedagógico, momentos de urgências, momentos definidos como temática a abordar, etc.

Mas o que me parece mais relevante, e que considero importante na escolha deste tema é, que quanto mais informação as pessoas tiverem, melhores serão as decisões, podendo mesmo antecipar algumas destes níveis, e não ficarem tão dependentes de opiniões que por vezes são muito inacessíveis, como a marcação de consultas no centro de saúde da sua residência. O modelo que uma intervenção complementar entre a psicoterapia e a psiquiatria é o que apresenta mais taxas de sucesso, sendo que a medicação não tem como objetivo limitar a pessoa, adormece-la, torna-la menos capaz, ou resolver o problema por completo, até porque se as causas desses sintomas tem a ver com a construção de identidade da pessoa, e isso vai-se manifestar de forma recorrente, a medicação tem como função diminuir o sofrimento, para se tornar a vida mais tolerável, devolver algum grau de funcionalidade ao paciente, de forma que também na sala de psicoterapia haja a capacidade de trabalhar temáticas que estão na génese dos problemas atuais. Ou seja para criar a rede que ampara os trapezistas.

Assim sendo vos peço: ponham em causa os estereótipos sobre a utilidade destas duas especialidades, que possam ganhar consciência que a vida não tem de ser um sofrimento constante, e que podemos criar um caminho alternativo. Procure ajuda, perceba se aquele técnico que está sentado à sua frente lhe diz algo, que você consegue ligar-se a ele, e que dai pode advir um olhar diferente para a vida.

Quanto mais informado você estiver, menos é a probabilidade de se deixar arrastar uma situação que numa fase inicial pode ser facilmente tratada, mas que com o tempo, torna-se cada vez mais difícil.

Agarre esta oportunidade de ter uma vida melhor