Será normal saltitar entre esperança e desesperança? Como pode ser, antes de começar este caminho?

Aqui sentada, eu espero.

A esperança de Maria esbateu-se com o tempo. Esse seu cruel inimigo, que rema sempre contra si. Pois quando devia durar corre, e quando devia acelerar quase pára. Tudo para ela é ao contrário, e quanto mais se aproxima a altura da consulta, mais reticente fica. Como se não quisesse saber que podia ficar assim para sempre. Pois isso era possível, não ter arranjo. Pois se um computador por vezes avaria de vez, como seria com ela? Pondera muito, quase tanto, que o tempo foge, e, não sabe o que fazer, pois uma parte de si grita por ajuda, e outra parece nada querer fazer, continuar e assumir que nada mudará. E como isso é cortante. Ter de viver o resto da vida, porque simplesmente não pode morrer. Este poço em que ela se encontra parece sem fundo, pois ela está cada vez pior. E já nem morrer pode. Como é isso possível? Como ficou aprisionada por si própria. Maria é prisioneira do seu humor, ele controla tudo a
ela, tira-lhe tudo. Não consegue vencer esta ocupação não consentida de pensamentos. Estes tomaram conta de si, nunca se calando. Tudo na sua vida é censurado por esse tirano, o pensamento. Tudo nela é prova do que não é, pois devia ser tudo menos o que sente ser. “És miserável, não fazes nada de jeito, ninguém te ama, só cometes erros após erros.” E como era possível calar uma voz com razão? O problema estava aí mesmo, este detalhe tudo mudava para ela, porque eles tinham razão, e esta verdade absoluta cortava-lhe a esperança de um futuro melhor. Maria estava num triângulo das bermudas sem saída. Os outros eram sempre melhores, ela não tinha valor, e o futuro nada de bom lhe traria. Como viver assim então? “Como meu Deus? Como posso eu ter forças para continuar se não tenho nada para me agarrar?” Mais um problema incontornável para ela. Nada era recuperável para ela. O mal que tinha feito não teria perdão. E por ela não valia a pena. E também para quê? Para sozinha ficar? Se não recuperar o que perdeu nunca será feliz. E como isso lhe mostra uma verdade cruel: nunca será feliz. Nunca será uma pessoa normal. A amargura estava para ficar. Então para quê tentar? Para quê? Para quê fazer o psicólogo perder tempo consigo? Haveria de certeza outras pessoas que poderia realmente ajudar.
Todos nós a um certo momento das nossas vidas podemos ter partilhado este espaço onde Maria se encontra. Mas para ela tudo está perdido.
Deixem-me salientar que se numa fase inicial, o tratamento psicoterapeutico, é mais breve, com maiores probabilidades de sucesso, um desenvolvimento de tanto tempo, faz com que o tratamento seja mais prolongado, que possivelmente se tenha de recorrer a psicofarmacologia, é mais doloroso o próprio processo, e ao confrontar se com obstáculos, o primeiro pensamento e de desistir por sentir que não vale a pena.
Não se deixe chegar a este beco. Transforme beco sem sai da, numa alternativa de viver.
Cuide de Si!

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A dúvida limita a nossa acção.

Francisco passa o dia em sofrimento, sem conseguir parar a máquina que carrega entre os ombros. Dentro da sua mente é um rodopio de pensamentos, uns que fogem outros que ficam, e esses, que se colam ao cérebro como uma lapa se agarra a aquela pedra, e aguenta as correntes fortes das ondas, mantém-se ali, sem largar. E como isto era familiar para ele! Também ele tinha pensamentos que não paravam de lhe assombrar a mente, em que bastando apenas um segundo, as suas certezas absolutas, tornavam-se nas duvidas, nesse fogo, que parecia nunca ter fim, pois por mais que ele  se tentasse distrair, confirmar o que a duvida lhe trazia “fechei ou não o gás? fechei a porta do carro?”, perdendo por vezes tempo e esperança, e em todo esse tempo ele sabe. Claro que sabe, como podia não saber. Aquilo era de loucos. Não tinha explicação. “Tudo tem de ser explicável.” Era assim que ele se sentia seguro, e quando, sem causa, pois já tinha feito TAC, ressonâncias magnéticas, pet scan, a ciência e a biologia não sabia explicar. Mesmo que eles percebem as zonas do cérebro activam como se diz nos Estados Unidos da América, como no dia 4 de Julho, eles nada lhe diziam que como, porque, e como se resolve. Tamanha angustia, por saber o quão irracional isto seria, que como tinha ele chegado a este ponto? Como é que ele, engenheiro mecânico, que existe para arranjar, para manter, para gerar funcionalidade, para ele próprio era um iliterato. O que fazer, onde ir, isto tinha de ter forma de voltar ao normal.

Falemos então de doenças no espectro dos aspectos obsessivos-compulsivos. Tal como autismo e no seu espectro existem diferentes doenças, com diferentes níveis de incapacidade, esta linha, em que as obsessões e compulssões são centrais nas diferentes pessoa se manifesta de forma particular. Podemos definir de uma forma mais generalizada, para não transmitir uma mensagem demasiado distante e fria de quem possa ler esta minha opinião. Todos nós temos características obsessivas ou compulsivas, como por exemplo o facto de haver fumadores, que por engano, ficam sem tabaco, na eventualidade de lhe apetecer fumar um cigarro e não terem, veste de novo as calças, pegam no carro se for preciso, e vão onde for necessário para acalmarem a chama desta ligação obsessiva compulsiva com esta substancia. Depois temos por outro lado dois níveis de doença, com diferentes níveis de incapacidade, e quanto mais tarde houver um diagnostico e processo de intervenção em alguns casos passa pela parceria em a psicoterapia, psicofarmacologia e intervenção familiar. Tento, através das minhas palavras poder-vos passar uma possível alternativa, aos conceitos por vezes desactualizados, da validade e importância desta ciência artística.

Mais uma vos peço, que a experiência pode sempre ser melhor que a ideia

Porque temos medo de dizer quem somos

Porque temos medo de mostrar quem somos?
Vivendo nós em sociedade, em que todos temos características pessoais e fragilidades, a frontalidade e falta de filtro social é algo que nos traz diversas complicações. Assim sendo, vamos representando diferentes papéis sociais conforme o contexto em que estamos inseridos. É algo necessário e depende das nossas capacidades de adaptação.

Os problemas começam quando, depois de tanta representação, deixamos de saber efectivamente quem somos, ou quem queremos ser. Por outro lado, torna-se também difícil podermos expressar como estamos, pois por vezes o contexto não nos permite ou julga-nos por isso. Por exemplo, alguém que no local de trabalho é visto como o brincalhão e bem-disposto, num dia em que esteja mais calado ou mais irritado pode ser facilmente julgado, sem se ter em atenção que todos temos direito de estarmos de acordo com o nosso estado de espírito, desde que este não seja pernicioso para o ambiente que nos rodeia. Tal como uma pessoa que seja reservada, mesmo num contexto familiar, num dia em que se sinta mais extrovertida pode ser julgada e inibida pelos outros com comentários como “hoje estás descontrolada”, quando na realidade pode só ser um dia mais feliz. Quando se faz um comentário destes pode-se de forma evidente inibir as pessoas que nos rodeiam de evoluírem ou de serem quem sentem ser nessa altura.

Neste sentido, pode ser importante não fazermos juízos de valor sobre tudo o que se passa à nossa volta, bastando por vezes perguntar como a pessoa está.

E assim muitos de nós ficamos com medo de mostrar quem somos e como nos sentimos, pois desta forma também nos expomos a críticas e a julgamentos, e podemos sentir-nos sós e incompreendidos.

Por isso, não seja também impulsivo nos juízos que faz. Todos temos direito a dias em que nos sentimos de forma diferente.

Serei uma pessoa normal?

João pergunta-se sobre este conceito abstrato. Sempre alguma dificuldade de olhar de uma forma, aos olhos dos outros, para si como uma pessoa boa, inteligente, merecedor do que recebe do mundo! Sempre desejou sentir-se uma pessoa dita normal sem viver numa mistura de tentativas e falhanços, de uma pressão que sente do mundo, sem ser capaz de lhes demonstrar essa corrente, como um rio que fica feroz na época do degelo. Como se consegue chegar a esse estado? Como podemos sentirmo-nos felizes com o que temos e somos? Para o João isto tão difícil de compreender, e para ele o que não era explicável era difícil de aceitar. Sentia sempre a sua mente a correr, que não lhe dava descanso que ate na almofada lhe roubava aquela fuga eficaz desta realidade sombria. Não conseguia dormir, dava voltas na almofada imerso no lodo em que vivia. Ele já não sabia nem acreditava que algo podia mudar, vivendo assim a morte era vista como o eterno silencio.

É pergunta que é difícil de responder! E um conceito tão abrangente, que é alterado quando cada variável muda. Tal como a origem da pessoa, das experiências previas, da forma como aprendeu a lidar com os diferentes contextos das nossas vida. Como em grande parte das doenças psicológicas tem como característica uma visão distorcida da realidade, como na depressão sentirem incapazes, na ansiedade sentirem-se em perigo, a propria pessoa com alguns sintomas e é importante ser avaliada por alguém que tenha as competência profissionais, pois a perda da critica e aceitação que pode estar a adoecer, tornam-se por vezes resistência, a procurarem ou aceitar ajuda. Por vezes, e principalmente nestes casos, é importante as familias independentemente da colaboração da pessoa preocupante, procurarem ajuda motivar a pessoa para aceitar ajuda, simplesmente ir a uma sessão. No momento em que essa pessoa entra por aquela porta, vê a configuração da sala e estranha. Por vezes a ideia da Psicologia e vista como algo médico, com salas frias, sem espaço, sem aconchego, igualdade, simplesmente diferente.

Com isto concluo por agora, pois é importante falar-se também de uma forma diferente desta ciência e arte (da palavra).

Até já

O que pode significar ter-se uma doença de cariz psicológico/psiquiátrico?

Estas problemáticas são cada vez mais numerosas, com uma identificação dos casos cada vez mais precocemente, que faz com que essas mesmas patologias não tenham uma valência tão incapacitante na vida da pessoa e sistemas sociais que os rodeiam, tanto porque nos diferentes contextos que fazem parte da vida de todos nós, as pessoas estão mais atentas a sintomas que através das campanhas de sensibilização, do aumento da identificação de casos, isto não depreende que existem muito mais casos que antigamente, parece mais razoável afirmar que estando todos mais atentos, e tendo um conhecimento mais alargado, que a referenciação destas situações ocorram com mais frequência.

Onde podem surgir algumas complicações que atrasam o encaminhamento para quem de direito? Primeiro podemos verificar a generalização de conceitos de doença que são raros e exige um olhar clinico que se adquire através da especialização, e da manutenção constante sobre novas descobertas e caminhos alternativos para cada doença. Assim sendo, podemos muitas vezes verificar que em muitos casos, existe efetivamente a procura de ajuda dita especializada, que na maioria dos casos, no caso de ser uma criança, através do Pediatra, e em adulto através do medico de família. Quais são os riscos se não houver por parte dos médicos, um encaminhamento para a especialidade, assumindo a partir de que ponto, essas doenças ultrapassam a competência do mesmo, e que consequências podem ter estas situações?

Podemos afirmar que os médicos de clinica geral tem capacidade de avaliar e iniciar um tratamento nos primeiros 3 meses do desenvolvimento dos primeiros sintomas, sendo que se não houver uma diminuição do sofrimento que estas doenças trazem, ou até mesmo agravamento, existe a necessidade de reformular ou o diagnóstico ou a medicação, até porque a adequação da medicação, faz parte da confirmação diagnostico. Ou seja, se qualquer medicação está estudada para algumas patologias do foro psiquiátrico, e essa mesma medicação não tem os resultados esperados, podemos ter de alterar dentro da mesma família de medicação, e por último se mantivermos o quadro clinico, então é importante reformular o diagnóstico. Nesta fase torna-se essencial através dos clínicos, ou em ultimo caso através das pessoas que fazem parte da vida do doente, ou o próprio de procurar ajuda especializada. A nível da psicoterapia ainda pode ter outros efeitos que criem maiores dificuldades ao paciente. Passo a explicar. Sendo a psicoterapia um conceito de uma maior aceitação recente, sobre a importância e eficácia da mesma, a experiencias negativas neste contexto clinico, retira ao próprio doente a validade e importância de passar por este processo, até porque em Portugal vivia-se uma procura através da farmacologia a resolução dos problemas. Em alguns casos, o próprio processo pode não ser ajustado, tanto por o paciente não saber a finalidade e os benefícios da mesma, sendo essencial estabelecer desde logo objetivos terapêuticos. Se puder fazer uma escala ascendente sobre os diferentes níveis de intervenção podemos afirmar o seguinte:

1º Nível – Consulta de clinica geral – Identificação de critérios de patologia psicológica/psiquiátrica. Tendo como temporalidade definida.

2º Nível – Consulta de psicologia – Avaliação da problemática demonstrada, com o objetivo se a mesma se enquadra nas competências do terapeuta.

3º Nível – Havendo a necessidade de uma avaliação mais completa, a introdução de uma avaliação psiquiátrica, que não envolve obrigatoriamente a introdução desde logo de psicofarmacologia.

4º Nível – A combinação entre psiquiatria e psicoterapia, e se o caso assim o necessitar, a introdução de psicofarmacologia, havendo uma relação de proximidade entre os técnicos, para o tratamento ir no mesmo sentido.

5º Nível – A introdução da família ou redes sociais significativas para o paciente, para ter uma ideia mais completa das dificuldades apresentadas, e de que forma podem modelar o seu comportamento, para contribuir para o tratamento do mesmo.

Podíamos extrapolar para outras situações, pois a intervenção não pode ser rígida, havendo sempre espaço ou para um momento mais psico-pedagógico, momentos de urgências, momentos definidos como temática a abordar, etc.

Mas o que me parece mais relevante, e que considero importante na escolha deste tema é, que quanto mais informação as pessoas tiverem, melhores serão as decisões, podendo mesmo antecipar algumas destes níveis, e não ficarem tão dependentes de opiniões que por vezes são muito inacessíveis, como a marcação de consultas no centro de saúde da sua residência. O modelo que uma intervenção complementar entre a psicoterapia e a psiquiatria é o que apresenta mais taxas de sucesso, sendo que a medicação não tem como objetivo limitar a pessoa, adormece-la, torna-la menos capaz, ou resolver o problema por completo, até porque se as causas desses sintomas tem a ver com a construção de identidade da pessoa, e isso vai-se manifestar de forma recorrente, a medicação tem como função diminuir o sofrimento, para se tornar a vida mais tolerável, devolver algum grau de funcionalidade ao paciente, de forma que também na sala de psicoterapia haja a capacidade de trabalhar temáticas que estão na génese dos problemas atuais. Ou seja para criar a rede que ampara os trapezistas.

Assim sendo vos peço: ponham em causa os estereótipos sobre a utilidade destas duas especialidades, que possam ganhar consciência que a vida não tem de ser um sofrimento constante, e que podemos criar um caminho alternativo. Procure ajuda, perceba se aquele técnico que está sentado à sua frente lhe diz algo, que você consegue ligar-se a ele, e que dai pode advir um olhar diferente para a vida.

Quanto mais informado você estiver, menos é a probabilidade de se deixar arrastar uma situação que numa fase inicial pode ser facilmente tratada, mas que com o tempo, torna-se cada vez mais difícil.

Agarre esta oportunidade de ter uma vida melhor

Tanta gente deprimida que segue com a sua vida para a frente! E eu não consigo…

Maria já não sabe o que fazer. Tudo na sua vida parece cinzento. Tem uma família perfeita, um marido que faz tudo por ela, dois filhos que adoram a mãe, uma vida abastada, como ela nunca imaginou ter. Uma casa a seu gosto, que teve sempre a liberdade e a possibilidade de a decorar como quis, dois carros, uma casa na praia, uma casa no campo, um trabalho que antes adorava. Tudo na sua vida não justificava o seu sentir. O que se passava com ela? Desde há algum tempo que tudo parecia insípido, insuficiente, que nada lhe dava prazer, e tudo era feito com esforço. Um peso nos seus ombros, um aperto no peito que nunca lhe dava descanso. O tempo não ajudava. Quanto mais o tempo passava, mais a vida lhe parecia difícil. E ainda por cima, para ela, nada disto fazia sentido. Como tinha ela chegado a este ponto. Deixara de ser esposa, não conseguia ser mãe, nem se sentia pessoa. Arrastava-se da cama para o sofá, e do sofá para a cama. Abria o frigorífico e parecia que nada lhe apetecia, e com isso já perdera peso, e quando se olhava ao espelho, um dos seus maiores inimigos, parecia uma amostra do já tinha sido. E pensava todos os dias na ingratidão que era o seu ser: não tinha razão para assim se sentir. E isso ainda a deitava mais abaixo. Outrora já tinha sido feliz. Lembra-se distantemente desses momentos, onde a vida lhe sorria, onde ela era capaz. Sentimento agora desaparecido, a capacidade. E olhava à sua volta e ainda mais triste se sentia. Ouvia tantos que lhe diziam que também estavam deprimidos e seguiam com a sua vida. Que trabalhavam, enquanto ela estava de baixa há tanto tempo, que já medo sentia de voltar aquele lugar, que eram pais e mães, que eram pessoas, enquanto ela se sentia uma manta de retalhos, e que nunca mais sairia deste fosso de lodo que a prendia, e quanto mais ela batalhara no passado, mais enterrada ficava. Era tão difícil para ela admitir que precisava de ajuda. Isso seria a confirmação do fracasso que se sentia. O marido já insistira, mas ela sentia que sozinha não conseguiria voltar à sua vida. E mais uma ouvia “Eu também estou deprimida, mas sabes não me posso dar ao luxo de ficar em casa”, como se fosse um luxo ao capricho o seu sofrimento. E mais uma vez lhe diziam, amigos e estranhos “tens de te erguer de novo, faz um esforço.”, e mais uma vez ninguém percebia que ela tentava todos os dias, e que o que fazia, era o que conseguia. E quanto mais ouvia estas coisas pior se sentia. Olhava para os olhos tristes dos filhos, que sentiam que a mãe já quase não existia, e para ela era mais uma facada no peito que sentia. Seria então uma opção?

 

Considerando que existem sete mil milhões de pessoas no mundo, e que a Organização Mundial de Saúde refere que existe uma média de cento e vinte e um milhões de pessoas com um quadro que permite um diagnóstico de um quadro clínico de depressão, nas suas diversas manifestações, vemos então que existe uma prevalência de 1,7% da população que é portadora desta doença. Então porque ouvimos tantas pessoas que se auto-referem como deprimidas? Isto inicialmente deve-se ao desenvolvimento massivo a nível de países, e que é verificado que quanto mais o país é desenvolvido, com visões mais capitalistas, tem mais psiquiatras por metro quadrado, podemos então afirmar que existem factores extra biológicos que justificam esse mesmo quadro clínico. Ou seja, quanto mais temos acesso a diferentes objectos de desejo, variedade de produtos, e afins, maior se torna a nossa lista de necessidades, e a não concretização das mesmas aumentam exponencialmente o sentimento de insuficiência na nossa vida. Pegando no exemplo, inclusivamente nacional, e olhando para as pequenas comunidades do interior de Portugal, em que o acesso a recursos diversificados é limitado pelo isolamento dessas regiões, a lista de necessidade sendo ela mais reduzida, mais facilmente as pessoas sentem as seus desejos satisfeitos, e logo diminuem algumas variáveis que contribuem para quadros depressivos. Por outro lado, existem vários tipos de depressão, em que alguns tipos tornam-se essências à aceitação de perdas naturais da nossa vida, como por exemplo a morte de um pai ou mãe numa idade avançada, de forma a não se desenvolver um quadro de luto patológico, outras tem uma valência mais biológica, em que elas perduram mesmo mudando algumas condições externas à pessoa, tendo nestes casos que se recorrer à introdução de psico-farmacos. Em ambos os casos o acesso a psicoterapia é essencial no seu tratamento.

Então porque é que tanta gente se auto rotula como depressivas, e alem disso parecem que conseguem viver sem qualquer limitação evidente? Isto deve-se ao facto da banalização da palavra depressão. Os quadros clínicos de depressão, devem ser avaliados e diagnosticados por técnicos de saúde mental, pois muitas vezes se confundem sentimentos de tristeza, de burn-out profissional, alguns sintomas físicos, que podem ser semelhantes aos verificados nos casos de depressão clínica, que contribuem para este denominação incorrecta e uso excessivo deste termo. Quando olhamos para os critérios necessários para este diagnóstico, o primeiro e primordial, e a interferência de forma evidente destes mesmos sintomas na vida quotidiana da vida do paciente. Outros são os critérios que vos convido a pesquisarem, em que podemos afirmar que os mais conhecidos são sentimentos de tristeza profunda e melancolia mantidos durante um período alargado de tempo, uma incapacidade de olhar para si e para o futuro de forma justa e realista, pois parece que este quadro nos coloca um filtro cinzento à frente dos nossos olhos, e que faz com que tenhamos uma visão em túnel e que impossibilite uma plasticidade de conseguirmos dar significado diferente às diferentes áreas da vida da pessoa. Com a banalização desta palavra, contribui para o agravamento desta percepção  que esta doença têm em si. Comentários como “eu também estou deprimida e sigo com a minha vida” ou “tens de fazer um esforço” ou “tu podes dar-te ao luxo de estares deprimida” vêem corrobore a ideia negativa que os doentes sofrem de depressão tem de si. Como antes foi referido esta doença é verificada em quase duas pessoas em cem, e pelo que ouvimos parece ser uma doença mais prevalente do que é na realidade. Procure ajuda especializada se começar a ter os sintomas mais conhecidos da depressão, para correctamente ser avaliada, e ser tratada atempadamente, pois quanto mais tempo se vive com a doença, mais difícil se torna o sobreviver a ela!