Serei uma pessoa normal?

João pergunta-se sobre este conceito abstrato. Sempre alguma dificuldade de olhar de uma forma, aos olhos dos outros, para si como uma pessoa boa, inteligente, merecedor do que recebe do mundo! Sempre desejou sentir-se uma pessoa dita normal sem viver numa mistura de tentativas e falhanços, de uma pressão que sente do mundo, sem ser capaz de lhes demonstrar essa corrente, como um rio que fica feroz na época do degelo. Como se consegue chegar a esse estado? Como podemos sentirmo-nos felizes com o que temos e somos? Para o João isto tão difícil de compreender, e para ele o que não era explicável era difícil de aceitar. Sentia sempre a sua mente a correr, que não lhe dava descanso que ate na almofada lhe roubava aquela fuga eficaz desta realidade sombria. Não conseguia dormir, dava voltas na almofada imerso no lodo em que vivia. Ele já não sabia nem acreditava que algo podia mudar, vivendo assim a morte era vista como o eterno silencio.

É pergunta que é difícil de responder! E um conceito tão abrangente, que é alterado quando cada variável muda. Tal como a origem da pessoa, das experiências previas, da forma como aprendeu a lidar com os diferentes contextos das nossas vida. Como em grande parte das doenças psicológicas tem como característica uma visão distorcida da realidade, como na depressão sentirem incapazes, na ansiedade sentirem-se em perigo, a propria pessoa com alguns sintomas e é importante ser avaliada por alguém que tenha as competência profissionais, pois a perda da critica e aceitação que pode estar a adoecer, tornam-se por vezes resistência, a procurarem ou aceitar ajuda. Por vezes, e principalmente nestes casos, é importante as familias independentemente da colaboração da pessoa preocupante, procurarem ajuda motivar a pessoa para aceitar ajuda, simplesmente ir a uma sessão. No momento em que essa pessoa entra por aquela porta, vê a configuração da sala e estranha. Por vezes a ideia da Psicologia e vista como algo médico, com salas frias, sem espaço, sem aconchego, igualdade, simplesmente diferente.

Com isto concluo por agora, pois é importante falar-se também de uma forma diferente desta ciência e arte (da palavra).

Até já

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Tanta gente deprimida que segue com a sua vida para a frente! E eu não consigo…

Maria já não sabe o que fazer. Tudo na sua vida parece cinzento. Tem uma família perfeita, um marido que faz tudo por ela, dois filhos que adoram a mãe, uma vida abastada, como ela nunca imaginou ter. Uma casa a seu gosto, que teve sempre a liberdade e a possibilidade de a decorar como quis, dois carros, uma casa na praia, uma casa no campo, um trabalho que antes adorava. Tudo na sua vida não justificava o seu sentir. O que se passava com ela? Desde há algum tempo que tudo parecia insípido, insuficiente, que nada lhe dava prazer, e tudo era feito com esforço. Um peso nos seus ombros, um aperto no peito que nunca lhe dava descanso. O tempo não ajudava. Quanto mais o tempo passava, mais a vida lhe parecia difícil. E ainda por cima, para ela, nada disto fazia sentido. Como tinha ela chegado a este ponto. Deixara de ser esposa, não conseguia ser mãe, nem se sentia pessoa. Arrastava-se da cama para o sofá, e do sofá para a cama. Abria o frigorífico e parecia que nada lhe apetecia, e com isso já perdera peso, e quando se olhava ao espelho, um dos seus maiores inimigos, parecia uma amostra do já tinha sido. E pensava todos os dias na ingratidão que era o seu ser: não tinha razão para assim se sentir. E isso ainda a deitava mais abaixo. Outrora já tinha sido feliz. Lembra-se distantemente desses momentos, onde a vida lhe sorria, onde ela era capaz. Sentimento agora desaparecido, a capacidade. E olhava à sua volta e ainda mais triste se sentia. Ouvia tantos que lhe diziam que também estavam deprimidos e seguiam com a sua vida. Que trabalhavam, enquanto ela estava de baixa há tanto tempo, que já medo sentia de voltar aquele lugar, que eram pais e mães, que eram pessoas, enquanto ela se sentia uma manta de retalhos, e que nunca mais sairia deste fosso de lodo que a prendia, e quanto mais ela batalhara no passado, mais enterrada ficava. Era tão difícil para ela admitir que precisava de ajuda. Isso seria a confirmação do fracasso que se sentia. O marido já insistira, mas ela sentia que sozinha não conseguiria voltar à sua vida. E mais uma ouvia “Eu também estou deprimida, mas sabes não me posso dar ao luxo de ficar em casa”, como se fosse um luxo ao capricho o seu sofrimento. E mais uma vez lhe diziam, amigos e estranhos “tens de te erguer de novo, faz um esforço.”, e mais uma vez ninguém percebia que ela tentava todos os dias, e que o que fazia, era o que conseguia. E quanto mais ouvia estas coisas pior se sentia. Olhava para os olhos tristes dos filhos, que sentiam que a mãe já quase não existia, e para ela era mais uma facada no peito que sentia. Seria então uma opção?

 

Considerando que existem sete mil milhões de pessoas no mundo, e que a Organização Mundial de Saúde refere que existe uma média de cento e vinte e um milhões de pessoas com um quadro que permite um diagnóstico de um quadro clínico de depressão, nas suas diversas manifestações, vemos então que existe uma prevalência de 1,7% da população que é portadora desta doença. Então porque ouvimos tantas pessoas que se auto-referem como deprimidas? Isto inicialmente deve-se ao desenvolvimento massivo a nível de países, e que é verificado que quanto mais o país é desenvolvido, com visões mais capitalistas, tem mais psiquiatras por metro quadrado, podemos então afirmar que existem factores extra biológicos que justificam esse mesmo quadro clínico. Ou seja, quanto mais temos acesso a diferentes objectos de desejo, variedade de produtos, e afins, maior se torna a nossa lista de necessidades, e a não concretização das mesmas aumentam exponencialmente o sentimento de insuficiência na nossa vida. Pegando no exemplo, inclusivamente nacional, e olhando para as pequenas comunidades do interior de Portugal, em que o acesso a recursos diversificados é limitado pelo isolamento dessas regiões, a lista de necessidade sendo ela mais reduzida, mais facilmente as pessoas sentem as seus desejos satisfeitos, e logo diminuem algumas variáveis que contribuem para quadros depressivos. Por outro lado, existem vários tipos de depressão, em que alguns tipos tornam-se essências à aceitação de perdas naturais da nossa vida, como por exemplo a morte de um pai ou mãe numa idade avançada, de forma a não se desenvolver um quadro de luto patológico, outras tem uma valência mais biológica, em que elas perduram mesmo mudando algumas condições externas à pessoa, tendo nestes casos que se recorrer à introdução de psico-farmacos. Em ambos os casos o acesso a psicoterapia é essencial no seu tratamento.

Então porque é que tanta gente se auto rotula como depressivas, e alem disso parecem que conseguem viver sem qualquer limitação evidente? Isto deve-se ao facto da banalização da palavra depressão. Os quadros clínicos de depressão, devem ser avaliados e diagnosticados por técnicos de saúde mental, pois muitas vezes se confundem sentimentos de tristeza, de burn-out profissional, alguns sintomas físicos, que podem ser semelhantes aos verificados nos casos de depressão clínica, que contribuem para este denominação incorrecta e uso excessivo deste termo. Quando olhamos para os critérios necessários para este diagnóstico, o primeiro e primordial, e a interferência de forma evidente destes mesmos sintomas na vida quotidiana da vida do paciente. Outros são os critérios que vos convido a pesquisarem, em que podemos afirmar que os mais conhecidos são sentimentos de tristeza profunda e melancolia mantidos durante um período alargado de tempo, uma incapacidade de olhar para si e para o futuro de forma justa e realista, pois parece que este quadro nos coloca um filtro cinzento à frente dos nossos olhos, e que faz com que tenhamos uma visão em túnel e que impossibilite uma plasticidade de conseguirmos dar significado diferente às diferentes áreas da vida da pessoa. Com a banalização desta palavra, contribui para o agravamento desta percepção  que esta doença têm em si. Comentários como “eu também estou deprimida e sigo com a minha vida” ou “tens de fazer um esforço” ou “tu podes dar-te ao luxo de estares deprimida” vêem corrobore a ideia negativa que os doentes sofrem de depressão tem de si. Como antes foi referido esta doença é verificada em quase duas pessoas em cem, e pelo que ouvimos parece ser uma doença mais prevalente do que é na realidade. Procure ajuda especializada se começar a ter os sintomas mais conhecidos da depressão, para correctamente ser avaliada, e ser tratada atempadamente, pois quanto mais tempo se vive com a doença, mais difícil se torna o sobreviver a ela!